00Make Fabico Weird Again #1
por Ana Luiza Barbosa
Era uma hora da manhã de uma madrugada de domingo e eu e duas amigas estávamos em um dos muitos bares de esquina que tomam conta das ruas da Cidade Baixa, o bairro “boêmio” de Porto Alegre. Um DJ vestido de Papai Noel transformava a atmosfera do que poderia ser apenas mais um estabelecimento em uma aglomeração que extravasava os limites da calçada e adentrava as Ruas Lopo Gonçalves e José do Patrocínio. Entre a boa música e a cerveja gelada, estabelecia-se o começo de um dos muitos caminhos a serem traçados em um fim de semana quente de dezembro.
Já de pijama, eu assistia a uma comédia romântica sentada no sofá no momento em que recebi a notificação mais esperada quando se está sozinha em casa em um sábado à noite: “Vamos fazer algo?!”. Uma hora e algumas pesquisas depois, o Uber nos levava ao apÊzito Bar, que costumava ficar na Lima e Silva, recomendação de alguém em um vídeo do TikTok. Ao chegar lá, deparamo-nos com portas fechadas e poucas pessoas nos arredores. A solução mais óbvia era caminhar até encontrar o movimento.
Durante a noite e para três imigrantes do interior, as ruas da Cidade Baixa parecem se reconfigurar a cada passo, como se estivéssemos em um labirinto sem saída, que não leva a lugar nenhum, mas também leva a todo lugar. Passamos por um, dois, três bares. Nenhum deles era o que procurávamos. Quando não era o público, era o preço, a música, o ambiente. Algo estava errado. Até que uma esquina e um bar desconhecidos se destacaram em meio a tantos outros. O agrupamento de pessoas animadas e o bom som que se propagava no Street da CB se sobressaiu.
Ao nos aproximarmos, foi possível analisar melhor o que acontecia lá. Um bar com a parte interna pequena e algumas mesas na calçada chamava a atenção pelo seu DJ um tanto quanto incomum. No interior do Street, o Papai Noel comandava a controladora e estava prestes a fazer um dos melhores sets que já ouvimos, ganhando facilmente de inúmeras das baladas que cobram entrada para tocar uma conjuntura de músicas que mais parece uma playlist pronta do Spotify.
Em pouco tempo, já estávamos sentadas em cadeiras verdes de plástico e, mesmo sem mesa graças à superlotação do pequeno trecho do passeio disponível, ali ficamos. A primeira cerveja foi mais um dos fatores que confirmou a presença e permanência daquela quantidade de pessoas. Cada gole da Brahma gelada, acompanhado pelo som do funk que contagiava, justificavam aquele ambiente tão característico dos rolês de rua. Ao nosso redor, o que tomava conta era a fumaça de cigarro, as rodas de jovens em torno de uma vodka barata, energético e gelo e o clima de fim de ano – ou, talvez, de apenas mais um dia bem aproveitado.
Os detalhes sobre aquele espaço diziam muito sobre quem o frequenta e por quê. Boa música, bebida acessível, localização central e funcionamento até mais tarde são alguns dos fatores que tornam um movimento de rua bem-sucedido, ou melhor, que levam ao seu surgimento. A aglomeração em torno do Street é uma das inúmeras que se formam na CB e em toda a Porto Alegre. Por cerca de uma e meia da madrugada, decidimos migrar para outra delas.
Uma quadra à frente, observava-se mais uma rua lotada. Caminhar pelos dois lados da Joaquim Nabuco era uma tarefa difícil na madrugada daquele domingo em que a aglomeração na rua era maior que nas casas noturnas e nos bares. Sem cadeiras e sem espaço, tomamos lugar em frente ao Bosque que, embora com estrutura semelhante à do bar anterior, deixava a desejar na música – e também na bebida, já que estavam sem cerveja às duas horas da madrugada. No bar ao lado, somente long neck. Em busca de um litrão, atravessamos até o boteco da esquina onde, finalmente, pudemos saciar a sede de uma noite abafada.
Entre um lugar e outro, perambulamos pela movimentação, conversando, bebendo e curtindo a música. Nesse processo, pude perceber as peculiaridades que estão presentes nos rolês de rua e que fazem parte de sua estrutura. Jovens procurando um lugar para curtir a noite sem hora para acabar, livres para levar sua bebida barata, sua caixa de som com música estourando, sua carteira de cigarro, ou seja, lá o que for. Para quem frequenta esse tipo de evento, o mais importante, além da presença de um grande número de pessoas, é se divertir gastando pouco. Uma cidade repleta de universitários com recursos limitados precisa de um escape que não envolva drinks de mais de quarenta reais, ingressos caros e revista na porta. E esse escape acaba por ser a rua.
Confrontando bares e residências ao seu redor com sua presença e seus barulhos, a crescente multidão em frente ao Janela marcava a resistência daqueles que não se rendem às imposições do capitalismo. Entre os tantos bares que fazem da Cidade Baixa ela mesma, muitos cobram entrada e muitos mais tem preços elevados que barram a entrada de grande parcela da população, ainda que de forma velada. Então, resta à classe baixa duas opções: ou aceitar a exclusão e não frequentar esses lugares, permanecendo à margem, ou tomar conta dos espaços que lhes pertencem independentemente do dinheiro que carregam consigo.
Estar na rua, nesse contexto, é ser visto e ser lembrado. Cada movimento que se forma nos ambientes públicos é uma forma de retomada dos direitos renegados aos invisibilizados pelo sistema. É o aviso de que, mesmo que a propriedade privada os impeça de acessar certos lugares, não pode lhes tirar de outros que são de todos. O rolê de rua é uma luta contra as desigualdades e contra o tolhimento do direito ao lazer. Estar nas ruas de Porto Alegre às três da manhã tomando kit de Ninoff é uma forma de resistência.
Por volta das quatro, tomamos rumo ao que seria o fim da noite. Como em todos os bons rolês, o afterenvolveu comida gordurosa e de qualidade questionável. Do Bosque, caminhamos pelas ruas escuras – mas movimentadas – da Cidade Baixa em busca do lanche mais aclamado das madrugadas porto-alegrenses: um xis do Cavanhas. Rememorando os caminhos que a aventura tomou, encerramos a experiência de barriga cheia e com histórias para contar.
Embora concentrados no bairro noturno de Porto Alegre, os rolês de rua se configuram em outros lugares espalhados pela cidade. Entre eles, alguns se destacam pelas semelhanças ou por seus aspectos diferenciados, apesar de se formarem a partir dos mesmos princípios.
Na esquina entre as Ruas Mariante e Liberdade, no bairro Rio Branco, há um movimento que merece uma menção honrosa. Em torno do Pito Bar, centenas de jovens se reúnem em mais uma das possibilidades que a noite porto-alegrense fornece. O Pito na Rua enche os bares, a calçada e a rua em um rolê que não se restringe aos fins de semana. De terça a sábado, o funcionamento do Pito é um atrativo para a reunião de centenas de pessoas naquele trecho, embora o próprio bar não seja o elemento central desse tumulto. Com um horário reduzido, o movimento que circunda o Pito começa quando ele está fechando as portas e se estende até altas horas da madrugada.
Com aglomerações que, inclusive, dificultam a passagem dos carros, os dois lados da Rua Mariante são lotados por jovens todas as semanas por uma conjuntura de fatores. Cercado por botecos e bares com bebidas baratas que funcionam até tarde da noite, quem vai ao Pito tem a certeza de algumas coisas: terá onde comprar álcool, opções de lanche para a larica e uma rua movimentada. Mukifo, Sheik e Xis da Bruxa são alguns dos estabelecimentos que contribuem para a permanência desse rolê e que são muito frequentados nas noites de Pito.
A ocupação dessas ruas por pessoas que trazem consigo seu som também fomenta a cultura, uma vez que os bares nos arredores trazem a música como um diferencial em relação aos demais, contratando DJs e músicos locais. O Pito em si conta com uma programação que traz artistas quase todas as noites, em uma medida eficaz para atrair público ao mesmo tempo em que torna o acesso à música mais democrático.
Mais uma vez, a rua se converte na casa daqueles que buscam se aventurar por Porto Alegre à procura de uma noite agitada.
O Pito é mais um dos tantos locais que reafirmam presenças socialmente apagadas, dando espaço para a visibilidade das comunidades e dos grupos que ali frequentam. Assim, como afirma Camila Proto, “O som e a apropriação apresentam-se, desta forma, como meio e tática para produção de territórios mutáveis e participativos, através da arte e da emergência cultural popular.” (PROTO, 2020). Nesse contexto, os rolês de rua ultrapassam o lazer e o entretenimento e se convertem em um instrumento social para exibir existências e presenças em lugares que são públicos. Através desses movimentos, é possível gerar o pertencimento do povo onde ele deveria pertencer sempre. A apropriação desses locais é sobre resistir e lutar pelos direitos que são de todos – ou deveriam ser. As ruas são do povo e o povo é das ruas, porque nelas constroi seus afetos, sua cultura e suas vivências.
Referência
PROTO, C. . Territórios Resistentes: arte, som e sociedade. In: José Cláudio S. Castanheira; Dulce Mazer; Pedro Silva Marra; Marcelo Bergamin Conter; Cássio de Borba Lucas; Mario Arruda. (Org.). Poderes do Som: Políticas, escutas e identidades. 1ed.Florianópolis: Insular Livros, 2020, v. 1, p. 121.
Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

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