A unidade musical de Esteban Tavares

Make Fabico Weird Again #1

por Diego Zapata de Oliveira

 

O álbum “Saca la Muerte de Tu Vida”, composto por Esteban Tavares, funciona quase como um autorretrato da alma do autor em forma de som e poesia. Por meio de composições que expressam seus sentimentos mais íntimos e que são compostas por instrumentos, ritmos e ideias que fazem parte da música de diferentes culturas que influenciaram a vida do músico, ele consegue nos fazer emergir tanto poeticamente quanto sensorialmente nas complexidades do seu ser. Dessa forma, Tavares amarra todas os elementos expressivos de suas músicas em uma unidade, que é esse álbum, e que representa seu ser. Uma constante declaração de um homem que tenta comunicar seu interior de uma maneira que palavras sozinhas não conseguem.

Por mais íntimo que seja a obra de Esteban, o conteúdo que essa traz à tona não cai muito distante de várias lamentações até que comuns no MPB, se pensarmos como exemplo Legião Urbana. A temática do “homem contemporâneo deprimido” que sofre pelo sistema capitalista que o oprime e enquadrada suas relações de amor nessa vida já não é algo tão novo. A reivindicação ao sistema não é completamente explícita em todo o álbum, mas isso claramente está presente e aparece em alguns momentos com mais força, como na faixa  Carta aos desinteressados e outros mais sutis (Janeiro). 

Ainda assim, o principal norte do compositor é a desilusão amorosa. Todas as músicas são praticamente uma lamentação diferente de um amor que já se partiu. É quase como se toda a obra fosse uma constante tentativa do próprio Esteban de implorar para que as coisas se consertem, uma aclamação de alguém que não consegue aceitar que algo acabou e não segue em frente, mas parece tentar. Em alguns momentos o eu lírico parece mais confiante da possibilidade do conserto de tudo, e em outros parece completamente desolado.  

Há algumas exceções que trabalham outros sentimentos e emoções, como Me sinto humano, que fala de instintos mais intensos e, mesmo assim, ainda se encaixa nessa unidade estilística que reflete o âmago do ser de Esteban. A faixa Se não contém nenhuma letra e, talvez não coincidentemente, consegue ser uma das músicas mais alegres do álbum inteiro, perdendo talvez somente para Cigarros e Capitais. 

Combinando essas duas ideias, além de outras que giram em torno desse espectro, a obra propõe reflexões a respeito de problemas da vida contemporânea, como a efemeridade do amor, a opressão para se encaixar dentro de um sistema, solidão, e falta de propósito. É como se o eu-lírico de Esteban quisesse se livrar de todas as amarras invisíveis que predem o seu ser por conta de uma dor decorrida da desilusão amorosa. Uma alma em rebelião por conta, segundo o próprio autor, da tragédia anunciada que é o amor. 

Junto da prosa de suas músicas, a composição se amarra de forma muito natural, forte e ressignificativa. As melodias contêm influências da música gaúcha, argentina, uruguaia e do rock estadunidense. O primeiro elemento de expressão que merece destaque é a gaita de Tavares, instrumento extremamente intrínseco na música gaúcha e países vizinhos. Para quem conhece o instrumento mais familiarmente por essa convenção, ao escutar Saca la Muerte de Tu Vida, a impressão que fica é que sua função expressiva ganha um significado totalmente novo. Quem apresentou a gaita para Esteban foi a cultura gaúcha, mas a gaita que vemos não é a que foi apresentada para ele, mas sim aquela que foi criada dentro dele. Ela é quem rege o tom predominantemente melancólico que arrasta praticamente todo o álbum, como se fosse o violino do Titanic particular do autor. Isso quando também não funciona como uma mensageira do caos, um elemento que anuncia uma tragédia já reconhecida (Chacarera da saudade). Sem sobra de dúvidas é um dos instrumentos mais criativamente bem usados. 

Ao lado de sua gaita, as influências do rock estadunidense transformam as angustias de Esteban em uma declaração emocional potente. Quase todo o álbum é elevado a uma intensidade que funciona na medida certa, sempre dialogando com os outros elementos sonoros expressivos que o autor traz. Certas faixas vão a um tom similar ao rock em termos de composição (Me sinto humano) e outras buscam essa referência mais na maneira forte e alta que certas frases são expressadas. No geral, é essa inspiração que traz uma força necessária em meio a desolação para sentirmos o grito e a necessidade de que as coisas mudem, ou, pelo menos, se concertem. 

Olhando para suas inspirações na música uruguaia e argentina, Chacarera da saudade, Chacarera 2, Tango novo (Nada impede a onda de passar) e Martes são com certeza as faixas mais carregadas com essas duas culturas. Martes é simplesmente uma música com a letra toda em espanhol, um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Chacacera da saudade e Chacacera 2 são músicas bem parecidas com letras quase idênticas, é como se fossem uma a releitura da outra. A palavra “chacacera” é o nome de uma dança popular originária do noroeste da Argentina desde o século XIX.  Ambas são melancólicas, mas Chacacera da saudade se assume com um tom completamente melancólico e desolado no seu som, enquanto Chacacera 2 também preserva um pouco disso, mas se identifica muito mais com um tom latino que lembra mais as características da chacacera. Dessa forma, a segunda versão traz até um ar mais romântico ao invés de uma desolação.

Aproveitando a deixa da pequena análise das músicas com influencia latina, venho apontar as músicas que para mim mais se destacam, começando com Janeiro.

Janeiro 

A faixa começa calma e cresce em dois momentos que o eu-lírico se refere para, provavelmente, algum amante, pedindo que ajude ele a sair de suas angustias. Esses saltos na intensidade, que procedem a uma construção calma de lamentações, se tornam um grande e romântico pedido de ajuda. Melodias que, talvez em um cenário em que considerássemos essas falas como não musicais e ditas na vida real e por alguém real, seriam substituías por sons de choro bem menos belos e poéticos.

Martes

Única música em língua espanhola e provavelmente a mais otimista em termos de relacionamentos amorosos, pois, como já foi dito antes, é um dramático pedido para fugir de tudo e viver um amor. Por mais que todas as músicas saibam juntar organicamente essa simbiose musical de culturas que Esteban propõe, Martes é a faixa em que todos esses aspectos conseguem ter seu espaço e se expressarem ao extremo. O principal aspecto disso é o cover de guitarra ao final, após o termino da letra. 

 

Carta aos desinteressados 

Sendo essa a música inspiradora para todo esse texto surgir, sem dúvidas é a música mais interessante e reivindicadora do álbum. Aqui, Esteban abre mão de sua temática mais voltada para o amor e encara a sociedade, pedindo que essa o liberte. 

Mais uma vez, Tavares cria uma grande unidade com todos os elementos anteriormente citados e cria uma atmosfera de um mundo distópico, que se torna o maior trunfo da faixa. Ao escuta-la, sensação que é criada é como se ainda vivêssemos em um governo autoritário e essa música é um ato de resistência. Foi a música que mais se beneficiou de toda a ideia que compõe a unidade expressiva do álbum.

 

Chacacera da saudade e Chacacera 2 

Duas versões muito parecidas de uma letra, mas com uma diferença muito crucial: A postura do cantor perante a poesia. Enquanto que Chacacera da saudade, terceira na ordem das faixas do álbum, propõe um tom extremamente desolador e melancólico, estando mais em sintonia com todo o álbum, Chacacera 2, faixa que encerra o álbum, por mais que esse tom ainda existe na melodia, ele é ressignificado pelo canto imponente de Esteban. Agora, a música deixa aflorar suas composições mais latinas, fazendo até nuances de som mais abruptas e seduzentes, abraçando uma pitada do romantismo quente sul-americano. 

 

Saca la muerte de tu vida

Por fim, Esteban Tavares nos oferece um ingresso para uma viagem sensorial e emocional para dentro de ser para presencia-lo tentar achar a saída para tanta lamentação e melancolia. O próprio nome Saca la muerte de tu vida representa essa ideia de superar os problemas do passado e seguir em frente. Na sua ultima música dessa jornada, Chacacera 2, diferentemente da primeira versão Chacacera da saudade, ambas recém comentadas, Esteban apresenta uma postura mais determinado, mais confiante e disposto a enfrentar os demônios de sua alma. Entretanto, Tavares parece que conformar que nunca conseguirá se livrar deles e aceita isso de bom grado. Não é à toa que as palavras de encerramento do álbum são:

“eu não sei ficar só e não quero aprender”.

Referências

NASCIMENTO , Anderson . Resenha do Cd Saca La Muerte De Tu Vida. Galeria Musical, 2015. Disponível em: https://www.galeriamusical.com.br/resenhas.php?url=1019-esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida. Acesso em: 07 dez. 2024. ‌

 

ALOI, André . Saca la Muerte de Tu Vida. Rolling Stone Brasil, 2015. Disponível em: https://rollingstone.com.br/guia-cd/saca-la-muerte-de-tu-vida/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DALCIN, Jurandir . Intenso, “Saca La Muerte de Tu Vida” é o melhor álbum de Esteban Tavares. Portal Comenta, 2024. Disponível em: https://www.portalcomenta.com.br/2024/09/intenso-saca-la-muerte-de-tu-vida-e-o.html?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024.

 

DE OLIVEIRA, Dinho. Ex-baixista da Fresno atinge o ápice de sua carreira com novo trabalho. Previamente, 2015. Disponível em: https://previamente.com/2015/06/15/esteban-saca-la-muerte-de-tu-vida-critica/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 21 dez. 2024. 

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

 

Resenha do álbum Human After All

Make Fabico Weird Again #1

por Ernesto Miguel L. de Souza

Decidi fazer uma análise do álbum Human After All, terceiro álbum de estúdio do Daft Punk, lançado em 2005. Escolhi analisá-lo devido à sua recepção por parte da crítica na época de lançamento, que não deu opiniões muito positivas (na visão deles) pro álbum, com algumas críticas do tipo “é muito robótico”, algo que ganha contornos de ironia pelo fato dos compositores da obra sempre terem se apresentado em público com capacetes de robôs. 

O álbum na época foi considerado o “diferentão” dentro da discografia do Daft Punk, o que até aquele momento fazia até que um pouco de sentido, já que o álbum de fato tem uma sonoridade “menos complexa” que os anteriores, com samples mais simples, embora isso não necessariamente se aplique aos arranjos, porém em 2013 eles lançaram o álbum Random Access Memories (ou simplesmente RAM), que foi um sucesso não se de vendas como de crítica, que curiosamente não reproduziu o mesmo tipo de opinião negativa que foram emitidas com o Human After All, sendo que, na opinião desse que vos escreve, o RAM é que o álbum mais destoante da discografia da banda, que trás uma sonoridade mais acústica, não sendo tão baseado em samples como eram os álbuns anteriores, sendo mais um motivo do porque o decidi investigar mais o Human After All. 

Assim, farei uma análise musical do álbum (ou pelo menos tentarei, já que não tenho nenhuma experiência como crítico), tentando decifrar seus principais elementos de composição, compará-los com outros álbuns do Daft Punk e tentar de alguma forma ponderar se as críticas que eram feitas ao álbum tem sentido ou não.

 

Análise do álbum

Numa análise superficial, logo de cara o que se percebe é que as músicas são em sua maioria formadas por samples, isto é; trechos, acordes e sons de outras músicas, que são mesclados para formar composições diferentes das originais, algo que já é de se esperar do Daft Punk (pra quem conhece os álbuns anteriores), bem como de qualquer banda de house music em geral. 

O que faz com que esse álbum se difira um pouco em relação aos outros é que, como já dito na introdução acima, o Daft Punk optou por fazer composições mais simplificadas em termos da quantidade de samples utilizados, trazendo uma sonoridade mais “industrial” para as faixas, e assim trazendo um tom um pouco mais repetitivo para o álbum, mas não é como se as músicas da banda já não fossem repetitivas antes, principalmente quando revisitamos primeiro álbum deles, Homework, de 1997, que teve sua sonoridade muito pensada como “música de balada”, e isso tampouco impediu que ele tivesse sucesso na época de seu lançamento; faixas como Around the World, que é basicamente a frase título sendo repetida a música inteira com uma batida de fundo, mas é justamente na parte da batida em que vão sendo adicionados elementos novos conforme a música avança, que engajam o ouvinte, e nas músicas do Human After All o Daft Punk continua fazendo isso muito bem, principalmente em faixas como Robot Rock e Technologic.

Mas apesar das músicas serem simples em termos instrumentais e terem uma estrutura repetitiva, isso não impede que haja variedade entre as faixas do álbum, pois aqui temos desde músicas calmas, como a Make Love e Emotion, passando por faixas enérgicas e viciantes como as duas citadas acima, até algumas que beiram a cacofonia como a The Brainwasher (pelo menos para alguns), que ironicamente vem logo depois da calmaria da Make Love.

E uma coisa curiosa são as faixas On – Off e Television Rules The Nation, que eram pra ser uma música só, já que uma é quase que uma intro para a outra, tanto que muita gente comenta que nem percebeu que são duas músicas diferentes quando escutaram o álbum inteiro uma primeira vez, a banda revelou que as músicas só foram separadas porque a Gravadora que eles tinham na época queria que os álbuns tivessem pelo menos 10 músicas, mas esse deles só teria 9 sem esse corte que foi feito, inclusive vale notar que esse álbum é o mais curto do Daft Punk (pelo menos entre os álbuns de estúdio).

 

Análise das críticas ao álbum e comparações

Como dito na introdução, o que me motivou a escrever essa análise foi a descoberta que o álbum não foi bem recebido pela crítica especializada na época de seu lançamento, e eu que tenho esse álbum como o meu preferido do Daft Punk decidi fazer um contraponto, mas antes irei mostrar o que foram essas críticas que foram feitas na época, para que vocês possam ter a noção do tom que elas tinham:

A Pitchfork deu uma nota 4,9 para o álbum, e logo de cara já declara no subtítulo:

“Infelizmente fazendo jus ao título do álbum, o Daft Punk segue o requintado e alegre Discovery com um disco no qual eles parecem estar cumprindo a tarefa e, pela primeira vez na carreira, soando como cínicos.”

Link: https://pitchfork.com/reviews/albums/2137-human-after-all/

Com o resto da review basicamente falando o quanto as músicas dele são uma “versão de pobre” das músicas do Discovery, que é o álbum antecessor deste, e lamentando o fato de que o álbum foi produzido em poucas semanas e por isso não tem a mesma qualidade. 

Já a Rolling Stone, em uma review que até nem está mais disponível no site deles, mas (in)felizmente arquivada, deu duas estrelas e meia de cinco para o álbum, em uma análise que de início parece que será positiva, com o autor falando sobre como o objetivo da banda com esse álbum ser sobre “como a tecnologia transforma nós em robôs”, porém a após isso ele passa apenas a dizer que o álbum sacrificou a musicalidade e que as músicas “não elaboram”, terminando com a frase “(O) Daft Punk pode ter se tornado vítima de sua própria sátira animatrônica.”, fazendo uma clara provocação ao clipe de Technologic, que usava um animatrônico para “cantar” a música). 

Link da review: https://web.archive.org/web/20080316123813/http://www.rollingstone.com/reviews/album/7072263/human_after_all

Pelo The Guardian tivemos uma nota ainda menor, de só duas estrelas de cinco, onde o autor da review relembra o fato de que algumas músicas do álbum vazaram antes do lançamento na época e que os fãs tinham odiado, como se não fosse algo produzido pelo Daft Punk, e assim como outros, a review destaca o baixo tempo de produção da álbum como justificativa de sua suposta qualidade inferior, terminando com o “lacre”: “Se o Daft Punk tocasse isso na sua casa, você os expulsaria.”

Link da review: https://www.theguardian.com/music/2005/mar/11/popandrock.shopping3 

…

Enfim, já está claro que os pontos mais criticados pelos “profissionais” na época foram a repetitividade, simplicidade, “ser muito diferente” e “roboticidade” do álbum. 

Sobre a repetitividade, aqui eu sou obrigado a repetir o que eu escrevi na análise do álbum: o Daft Punk SEMPRE fez isso, o que não seria um problema você achar ruim, só que aí isso significa que você seria avesso à essa banda, o que não é o caso dos reviewers mencionados, que exaltam os álbuns anteriores do Daft Punk, que novamente, também tem sua dose de repetição.

Sobre o argumento da simplicidade, isso me parece muito o argumento do pessoal que acha que o Funk Brasileiro é ruim por “ser simples e não ter nada a agregar”, ou pra fazer uma analogia com outro ramo do entretenimento, de gamer que acha que gráfico de jogo é sinônimo de qualidade, desprezando jogos com gráficos “ultrapassados” ou direção artística mais minimalista que normalmente são feitos por estúdios independentes, e normalmente caindo num elitismo junto com isso, por causa do fato de que jogos graficamente realistas exigem alto poder de hardware, o que não é barato, e é claro que esse tipo de pessoa faz questão de esfregar na cara dos outros o quão melhor ele é só por ter um computador ou console superior, e o mesmo se aplica aqui com a crítica ao fato do álbum ter sido composto em pouco tempo, o que faz eu me perguntar se quem falou isso, ou qualquer outro músico, conseguiria fazer algo melhor no mesmo espaço de tempo…

Outra crítica foi o fato do álbum “ser diferente demais” dos outros do Daft Punk, o que de novo eu repito que não é tanto assim, AINDA MAIS se botarmos em perspectiva que esses mesmos sites deram excelentes notas e recomendações pro álbum de estúdio seguinte do Daft Punk: o Random Access Memories, que adivinha; É MAIS DIFERENTE AINDA, pois ele traz composições muito mais acústicas que as dos outros álbuns, até com músicas que não trazem vocais sintetizados como a Get Lucky. Fica a impressão de que essas pessoas sequer conhecem a discografia da dupla francesa.

E quanto à crítica do álbum ser “robótico demais”, po**a, pelo amor de deus cara, é uma banda onde literalmente os caras sempre se vestem de robôs em público, VOCÊ ESPERAVA O QUÊ?

Enfim, esse texto já está longo e provavelmente vai ficar confuso se eu continuar, porque não foi fácil ler algumas dessas críticas, deixo aqui meu agradecimento por ter chegado até aqui.

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Category Is… Voz e Ritmo: o chanter na cena ballroom de Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Lucas Rafael Morel Bordignon

Este texto aborda a cultura ballroom com foco no papel do chanter nas balls. A partir de uma entrevista com Jean Carlo, um chanter, será possível compreender a importância dessa figura na criação da energia e dinâmica das balls. Além disso, o estudo inclui uma análise da última ball do ano, a Jingle Ball, com temática natalina, proporcionando uma visão prática e detalhada do evento e da atuação do chanter no contexto local de Porto Alegre.

 

A Categoria é: Ballroom!

O presente trabalho não se propõe a fazer uma revisão histórica do que é a Ballroom, mas sim, discutir questões da cultura ballroom e dos papéis dentro dela. Ainda assim, é preciso compreender o contexto de onde veio a Ball.

Inicialmente, a cena ballroom era uma espécie de paródia do mundo clássico da alta-costura das marcas de moda que promoviam a gentrificação. Era uma cultura underground criada por e para pessoas LGBTQ negras e latinas vivendo em Nova Iorque no final dos anos 1980 e início dos anos 1990 (a ballroom desde então tornou-se internacional).

Criando um espaço de resistência, pertencimento e expressão artística. Nesses eventos, os participantes competem em categorias como runway – desfile e catwalk – vogue – a dança – e face – que refere-se a exibir um rosto impecável e expressivo, como se fosse um modelo de alta-costura. Cada categoria desafia diferentes formas de expressão corporal, estética e performance, promovendo a criatividade e a autoafirmação. Segundo nosso entrevistado Jean Carlo, quando a Ballroom chega no Brasil, é quando começa a existir novas categorias além das tradicionais, como “Passinho” e “Samba no pé”. 

 No Brasil, essa cultura tem ganhado espaço em diversas cidades, incluindo Porto Alegre, onde casas de ballroom como Leopardos, Harpia e Atrevida promovem balls que celebram a diversidade e a criatividade de suas comunidades. 

“O conceito de House (casa, em  português) dentro da ballroom significa  um   sistema   espelhado   no   parentesco,   estruturas   de   família   que ressignificam  o  cenário  familiar  biológico,  formando  relações  entre  sujeitos  com objetivo de  unificá-los,  ou  seja,  quando  um  participante ballroom adentra  em  uma House,  ele compete  em  nome  daquela  rede  específica  unificada  de  família. Essas Houses seguem    uma    funcionalidade    com    uma mentora/mentor   (estes   servindo   como representação de   Mãe/Pai)   e   seus   demais participantes.[1]” (ESTEVAM, ET AL, pg. 5)

 

As lendas e ícones (um título atribuído ao nome de um indivíduo para mostrar anos de trabalho árduo, impacto e troféus conquistados na ballroom) são concedidos a tal prestígio porque dedicaram anos lutando e resistindo contra um sistema heteronormativo, para que eles e outros como eles pudessem viver livremente como seus verdadeiros eus. Além disso, a ballroom é um espaço político, onde questões relacionadas a gênero, sexualidade e racialidade são ressignificadas. “O Ballroom é um ato político, que projeta uma realidade onde grupos que não têm acesso a determinados espaços e profissões possam mostrar sua capacidade e habilidade de viver todas as experiências que a cidade lhes nega” (Correia, 2022, p. 03).

A Ballroom, mais do que uma prática estética, é uma prática subversiva e emancipatória. Ao desafiar os estereótipos tradicionais de beleza e identidade, ela oferece uma plataforma para indivíduos que são marginalizados e excluídos por suas identidades de gênero e orientação sexual, permitindo que expressem sua autenticidade de forma criativa e poderosa.

 

Chanting

Na Ball, há três figuras que fazem uso do microfone: o Mestre de Cerimônias, o Chanter e o Commentator. O “MC” é aquele que faz os avisos, que apresenta a cultura para quem não conhece, que faz as introduções. O Chanter é pura musicalidade, que faz o “canto” para os performers. Já o Commentator é como um narrador para as categorias de “face” ou “best dressed”, onde o performer não precisa dançar, mas sim, servir algo. Idealmente, estes três deveriam ser pessoas diferentes, mas, Jean comentou que isso nem sempre é verdade, diversas vezes ele tem que fazer os três papéis. 

Jean Carlo, estudante de Jornalismo – fabicano – e Prince da Casa dos Leopardos, tem 24 anos e está inserido na cena de ballroom de Porto Alegre há 2 anos. Como Chanter, ele se tornou uma das principais fontes desse trabalho para entender essa figura tão essencial na cultura da ballroom, especialmente considerando a falta de estudos acadêmicos que abordem sua função. Sua experiência de vivência e sua perspectiva pessoal têm sido fundamentais para preencher essa lacuna, oferecendo um olhar mais profundo sobre o papel do Chanter da cena local.

O chanter precisa ter senso rítmico apurado e uma compreensão das dinâmicas de cada categoria para criar versos que dialoguem com a performance. Além disso, o chant frequentemente incorpora elementos da linguagem vernacular da comunidade, como gírias e expressões culturais. “Tem que ter muita musicalidade pra ser chanter”, diz Carlo. 

 

De Rihanna à Raça Negra

Quando perguntado sobre o uso do inglês nos chants, Jean Carlo comentou sobre a sua rotina de estudar os áudios das balls no SoundCloud, uma plataforma que oferece gravações de categorias inteiras de ballrooms. Para Jean, essa prática não é apenas uma forma de aprendizado, mas uma maneira de absorver as nuances da linguagem própria da cena. A imersão no idioma é essencial para entender o vocabulário único da ballroom, que é transmitido principalmente em inglês, mas que vai além da mera tradução, conectando os participantes através de um código comum.

JEAN: Eu ouço muito, é algo que estudo bastante. Eu uso o SoundCloud para isso, porque eles colocam muitos áudios de ball. Assim, consigo ouvir categorias inteiras lá. E o mais interessante é que, ao ouvir esses áudios nos meus fones, consigo visualizar o que está acontecendo. Isso é muito ‘babado’, porque a ballroom tem um linguajar muito próprio. Às vezes, quando tem pessoas novas na ball, eu falo: ‘The next category is… femme queen performance! When the beat starts, you start, let’s go!’ E aí começo: ‘femme queen performance, tens, tens across the board! Anybody else? Anybody else?’ Essas pessoas não vão entender o que estou falando, mas para mim isso é muito nítido. Eu falei a próxima categoria, é ‘femme queen performance’, eu sei o que significa. ‘Ten across the board’, ‘sim’ da mesa toda. ‘Serve your cunt, serve your pussy’, ‘feminine-a cunt’. Esses linguajares são naturalizados para a gente, que entende. Então consigo visualizar, apenas ouvindo o áudio de uma categoria. E todos os áudios são em inglês, então a gente acaba pegando essas expressões. Eu gosto muito de trazer diferenciais para as balls. Quando trago referências musicais, a galera vem junto, e isso eleva o clima da ballroom.

Esse processo de internalização dos termos, como “ten across the board” ou “serve your pussy”, faz com que ele tenha um domínio completo do vocabulário, que, embora seja em inglês, é apropriado dentro da cultura ballroom. Quem não entende agora, vai passar a entender com o tempo, à medida que participar de mais balls e se familiarizar com o linguajar e as práticas que o cercam. Assim, a linguagem se torna uma parte essencial da vivência e do aprendizado dentro desse universo, criando uma sensação de pertencimento e compreensão para os envolvidos na cena. E destacou a importância de trazer o jeitinho brasileiro e referências brasileiras para os chants. 

JEAN: Tipo, eu falei: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental, Kiara, você é sensacional.’ A referência disso é a música ‘Raça Negra’: ‘Tira a calça jeans, bota o fio dental… […] Eu acho que é uma forma da gente abrasileirar, também.

Por fim, ele destacou como a ballroom, embora internacional, não deixa de se conectar com outras expressões culturais dissidentes do Brasil. 

JEAN: A Ballrom é aquela coisa de roda, todo mundo dançando, cantando, energia e celebração. E isso não foge muito de uma roda de capoeira, por exemplo. Não foge muito de um samba, de um baile funk. […] Então quando ela chega aqui, ela se mescla com todas as coisas que a gente tem aqui. Então eu acho que é fundamental a gente também abrasileirar e dar a nossa identidade.

JEAN: Eu quase sempre faço chants em português, ultimamente eu tenho colocado umas refs mais em inglês, como tipo Rihanna, pegar umas músicas tipo Bitch Better Have My Money. Então fazer chants com essas mais populares, sabe?

O que torna a ballroom única, no contexto brasileiro, é sua capacidade de se integrar com outras formas de expressão cultural, criando uma versão abrasileirada dessa prática, que respeita as raízes locais ao mesmo tempo em que abraça a globalização da cena.

A Arte de Servir

O “serving” na ballroom é o ato de entregar algo com total autenticidade e confiança, seja através da dança, do vestuário ou do comportamento. Esse conceito é central na cena ballroom, pois não se trata apenas de exibir uma performance, mas de apresentar um “eu” genuíno e empoderado, algo que é profundamente valorizado dentro desse espaço. Para muitos participantes, especialmente aqueles que fora da ballroom estão marginalizados ou invisibilizados, o “serving” é uma forma de reivindicar sua presença e afirmar sua identidade de maneira plena. 

Na ballroom, o “serving” se torna um meio de resistência e autossuficiência, pois permite que o performer, ao demonstrar sua verdade, desafie as normas de gênero e beleza que a sociedade impõe. Assim, esse ato de “servir” vai além da performance, funcionando como uma poderosa afirmação de ser e de existir de forma autêntica, independente das limitações impostas pelo mundo exterior. 

In Butch Queens Up in Pumps, Marlon Bailey descreve a ballroom como um espaço social criado pelos seus membros. Este espaço, que engloba uma ampla gama de indivíduos diversos em gênero e sexualidade, proporciona um senso de validação e segurança. Os únicos aspectos definidos da ballroom são as categorias, que permitem uma ampla inclusão. Estas variam em temas como Realness, Face e as conhecidas categorias de dança como old way, new way e vogue femme.

O vogue femme é uma dança que mistura exagero e graça, influenciada por estilos como ballet, jazz, dança moderna e, especialmente, pela corporalidade das travestis. O chant de Jean no Jingle Balls, com as frases “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” e “serve pussy to me”, se conecta diretamente com o conceito de vogue femme, uma das formas mais fluidas e poderosas de expressão dentro da ballroom. 

O vogue femme é, por si só, uma manifestação da fluidez de gênero, onde o performer traz a “essência feminina” para sua dança, independentemente de sua identidade de gênero. A expressão “You don’t look like a woman, but you feel like a woman” é uma afirmação de que a feminilidade é uma performance, algo que pode ser vivido e expresso por qualquer corpo, sem a necessidade de se conformar aos padrões biológicos ou sociais de gênero. Essa frase também faz um comentário sobre como a ballroom, e o vogue femme em particular, desconstrói as normas sobre o que significa ser mulher ou mulherizada, permitindo que qualquer pessoa, independentemente de sua identidade de gênero, possa acessar e expressar essa feminilidade de forma autêntica.

Já a expressão “serve pussy to me” dentro desse contexto funciona como uma afirmação de poder e domínio, uma espécie de desafio e interação com os competidores. Em muitos contextos de vogue femme, termos como “pussy” e outros relacionados à sexualidade são usados para enfatizar a performance, a confiança e a presença no palco, estabelecendo uma troca simbólica de energia entre o dançarino e o público. A frase tem o efeito de intensificar o momento de performance, quase como um comando ou afirmação de que o performer está oferecendo sua “essência feminina” de forma plena e sem restrições.

 

Jingle Ball’s rock! 

Este não foi meu primeiro ball, mas definitivamente foi um dos mais divertidos, principalmente pela temática envolvida. A energia do evento foi contagiante, e o clima fez toda a diferença na experiência. O ball mais impactante que já fui, sem dúvida, foi o da visibilidade trans que aconteceu no começo deste ano, em janeiro. Aquele foi realmente especial. A emoção de estar ali, vendo tantas pessoas trans se sentindo vistas e celebradas, foi algo que ficará comigo para sempre. Por outro lado, também já fui em uma ball que foi uma decepção. Apesar de ter conseguido um ótimo lugar para enxergar as apresentações, o espaço era totalmente inadequado – sujo, e muito desconfortável. A energia do evento ficou comprometida pela falta de cuidado com o ambiente, e acabei saindo mais cedo porque não consegui suportar a situação por mais tempo. Essas experiências me mostraram como o ambiente, a organização e a energia do lugar podem transformar a vivência de uma ball.

A Jingle Ball, organizada pela Casa Atrevida, foi o último evento de 2024, realizado no Workroom Bar em Porto Alegre. O Workroom Bar tem ótima estrutura, então a ball ocorreu de forma quase impecável. Com temática natalina, a ball começou por volta das 17h30 e terminou às 21h30. O ingresso custou 36 Reais  meu maior gasto nessa noite. As cadeiras em um ball são distribuídas de forma que criam uma estrutura semelhante a uma passarela, centralizando as performances. No meio, fica uma área livre, onde os participantes desfilam ou dançam, como em um desfile de moda de alta-costura. À esquerda e à direita dessa passarela, estão as fileiras de cadeiras, que acomodam o público. Os jurados ficam em uma posição privilegiada, observando de perto as apresentações. A disposição das cadeiras ao redor da pista é pensada para garantir que todos possam ver as performances de maneira clara, ao mesmo tempo em que o espaço central, livre, destaca a principal atração: as competições, que imitam a grandiosidade dos desfiles de moda, com foco nas expressões corporais, visuais e de estilo.

A equipe foi divulgada no Instagram, são escolhidos para ser jurados pessoas que tem bastante tempo na cena ou são reconhecidas pelos seus trabalhos e reconhecimentos. O mais interessante é ver que, além de julgar, os jurados dão dicas, principalmente para os iniciantes. Os jurados da Jingle Ball foram Luís Enrique, Prince Fênix Negra, a Manuela Mulan da House of Hua Mulan (Chapter Brazil[2]), e a Mother Ally de Atrevida. A Manuela Mulan teve uma fala sobre o femme vogue, lembrando os participantes de quais eram os cinco elementos antes que eles fossem competir, para dar uma chance de melhoria nas performances. Tiveram dois MC’s da casa de Atrevida: Luna de Atrevida e Haute de Atrevida. E o Prince Jean Carlo Leopardo como chanter, e o DJ Prince Tsunmi Cabal. 

Primeiramente momento foi o rollcall, onde as casas presentes são chamadas para performar, destacando os membros que compõem a cena. É uma forma de celebrar os participantes. Nessa hora muitas vezes o público grita chants “da casa”. Por exemplo, o chant da casa Leopardo: “Ih, ala, Leopardo vai te pegar”.

Nesse ball, as categorias incluíram Face, Posing, Baby Runway, Baby Vogue, Lip Sync, Beginners Performance, Runway, Best Dressed, Vogue Performance e Mother vs. Mother. Na Mother vs Mother, as “figuras maternas” das casas podiam competir com as outras, o equivalente a um duelo de titãs para os nerds – e a vencedora dessa categoria foi a Ávine, da casa Leopardos. 

A melhor de todas, na minha opinião, foi o Lipsync. É uma das categorias mais conhecidas e adoradas, e com esse tema natalino, com músicas de Natal, só melhorou. Teve lipsync de “Então é Natal” da cantora Simone, e uma batalha com “All I want for Christmas is You”, da Mariah Carey. Os jurados ficaram indecisos então a batalha se repetiu com “Santa Tell Me”, da Ariana Grande. 

Um momento marcante foi o confronto interno da Casa Atrevida, onde membros competiram entre si nas categorias Runway e Vogue Performance. Isso acontece poucas vezes, pois quando dois membros da mesma casa sobram – no contexto de competição e mata-mata –  a casa leva o prêmio, então, foi definitivamente um momento a lembrar: pessoas que se vêem como família em uma pequena competição saudável.

Pela energia e entrega, esse ball merece 10 de todos os jurados (ten across the board).

 

TEN ACROSS THE BOARD

Competir na ballroom é sobre a capacidade e determinação de um indivíduo em ser irrestritamente ele mesmo, usando moda, movimento corporal e performance. O ball tem uma energia única que é realmente contagiante. Desde o momento em que você entra, é como se a atmosfera pulsasse com a vibração de cada movimento, cada passo e cada expressão. A intensidade dos participantes, a paixão nas performances e a interação entre o público e os competidores criam uma dinâmica que te envolve completamente. Sempre que saio de um ball, me sinto inspirado e com uma vontade imensa de ser parte daquilo de maneira mais ativa. A dança, especialmente o voguing, me fascina de uma forma que me faz querer aprender cada vez mais, não apenas pela técnica, mas pela forma autêntica com que os dançarinos se expressam. É impossível não sentir o desejo de melhorar, de entrar mais profundamente nesse universo e aprender a dançar como eles, de forma cheia de emoção e fluidez.

Cada detalhe, desde a escolha das roupas até os movimentos mais sutis, é uma declaração de identidade, e isso é o que torna o ambiente tão envolvente. Não é só sobre a competição em si, mas sobre a experiência compartilhada, onde cada participante e espectador se sente parte de algo maior. A energia é tão forte que, mesmo para quem está apenas assistindo, é quase impossível não ser contagiado. A forma como as pessoas dançam e se movem no espaço, sem medo de mostrar quem realmente são, faz você querer entrar na pista e deixar sua própria marca. O vogue, com sua fluidez e exagero, é especialmente encantador, pois vai além da técnica – é uma linguagem corporal que comunica poder, liberdade e autenticidade. Esse desejo de aprender e de se conectar ainda mais com esse universo sempre cresce a cada ball que participo, como se cada evento fosse uma oportunidade de me aprofundar mais e de vivenciar a ballroom de maneira mais intensa.

Pela energia contagiante, esse mero espectador dá ten across the board!

Notas:

[1] Filhas, Filhes, Filhos, além de Imperatriz, Imperador, Princesa e Príncipe.

[2] Chapter: refere-se a uma subdivisão de uma casa específica dentro da cena. Cada capítulo tem sua própria identidade, membros e uma maneira única de se expressar. Os capítulos podem ser de outros estados ou outros países.

REFERÊNCIAS:

  ESTEVAM, A. L. G.; GERALDES, E. Vogue, logo, existo: A comunicação política-corporificada da Ballroom. Anagrama, v. 15, n. 1, p. 1–13, 28 jun. 2021.

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Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

A celebração dos Jogos Pan-Americanos de Surdos 2024: vivendo a cena musical da festa LiVibe, em Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Ellen Caroline de Lima

 

Es asombroso ver y sentir primera vez eso musico con sordo. 

Posso tirar uma foto disso para inserir no meu texto?, perguntei, após perceber que a síntese do que significava essa noite para ele era, também, minha percepção sobre a festa. 

Claro, respondeu balançando positivamente a cabeça, virando o celular para que eu o fotografasse.

Quando cheguei na esquina do local onde acontecia a festa LiVibe, na sede da Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul (SSRS) [1], já era possível ouvir a música que vinha de dentro do ambiente. Parece óbvio dizer, mas o volume era alto, muito alto — a ponto de parecer que eu estava na festa antes mesmo de estar nela. A batida era o que se sobressaía: tum tum tum tum. O volume alto foi ressaltado no momento que desci do Uber, pois o som da música fazia meu coração vibrar.

Eram 22h50. A festa havia começado às 22h do dia 15 de novembro, feriado. Como fora divulgado anteriormente, a festa LiVibe tinha o propósito de celebrar o encerramento dos 6º Jogos Pan-americanos de Surdos, sediado em Canoas entre 10 e 17 de novembro. Embora o evento tivesse os surdos como público-alvo, a participação de ouvintes também era permitida — e incentivada, no caso de ouvintes fluentes em Libras, como era o caso de parte dos voluntários dos Jogos.

Faltando dez minutos para às 23h, havia uma fila do lado de fora, esperando sua vez de entrar. Eram cerca de dez ou quinze pessoas, com perfis consideravelmente distintos entre si: jovens, pessoas de meia idade, mulheres, homens. O que os unia não era a surdez, como depois entendi, mas a comunicação nas línguas de sinais, e a experiência de celebrarem o encerramento dos Jogos Pan-americanos de Surdos a partir da música.

Ainda na fila, a maioria das pessoas conversava entre si, sinalizando. Um homem gentilmente tocou em meu ombro, chamando minha atenção para um carro que estava vindo em nossa direção, saindo do estacionamento para retornar à rua. Ali, imaginei que observar o que estava ao meu redor seria, provavelmente, o único recurso que eu teria à minha disposição para investigar a cena, já que meu conhecimento de libras era limitado e insuficiente para conversar com os participantes da festa.

Após o término da primeira música, marcada por batidas compassadas, outra tomou o lugar. Flowers, da Miley Cyrus, era reproduzida em uma versão remixada. 

O DJ tocar uma música com letra foi uma surpresa para mim. Das muitas suposições que tinha antes de chegar na festa LiVibe, ouvir somente músicas sem letra era uma delas, afinal, não fazia sentido que os surdos cantassem. Quando um homem da fila fez o sinal de “batida do coração” [2] para se referir à sensação decorrente das músicas, pensei que meu raciocínio não fazia sentido, pois, um contato prévio com a letra, além da percepção do ritmo, seria suficiente para um surdo reconhecer que a totalidade de Flowers é composta de letra e ritmo. 

Depois de Flowers, ouvi, ainda no lado externo da SSRS, Unholy, do Sam Smith, e VERMELHO, da Gloria Groove. Aparentemente, o DJ que tocava gostava de pop, com um repertório que mesclava músicas nacionais e internacionais. Estava curiosa para ver como essas músicas eram recebidas no espaço interno da festa.

Conforme minha vez de entrar se aproximava, vi que os seguranças eram ouvintes, pois falavam e gesticulavam para que os participantes aguardassem a autorização para ingressar no local. Esperei e, ao passar pelo portão, fui encaminhada para a bilheteria do lado direito, que dispunha de duas atendentes. 

Tendo comprado o ingresso previamente, apresentei-o em meu celular, com um documento de identificação — seguindo o exemplo dos que estavam na minha frente. A atendente soletrou, em libras, meu nome, e eu confirmei. Então, colocou uma pulseira no meu pulso e perguntou se eu bebia. Afirmei com a cabeça, e ela me entregou um “vale chope”. Por fim, me desejou uma boa festa.

Do lado oposto à bilheteria, estava a entrada propriamente dita da festa. Nesta altura, parece redundante dizer que a música soava alta, mas dizê-lo reforça a novidade de percepção que eu tinha a cada aproximação do local exato de onde a música saía. 

Entrei às 23h07, logo depois que um novo DJ começou a tocar. Todas as batidas vibravam no meu coração. 

O espaço onde a festa acontecia era bem amplo. Era um salão. À esquerda, com luzes brancas, estava o local de retirada de bebidas, com um banheiro em cada lado, e a cozinha aos fundos; à direita, do outro lado do salão e com luzes coloridas, encontrava-se o palco dos DJs, com um telão atrás que transmitia vídeos de quem estava tocando ou imagens relacionadas ao universo musical. Ao centro, uma das portas do salão conduzia para um espaço aberto, ao ar livre, com mesas e cadeiras espalhadas pelo gramado. À direita dessa porta, encontrava-se o caixa exclusivo para a compra e a retirada de chopes.

DJ Hugo tocando na festa LiVibe, com telão reproduzindo um menino de fones

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Me dirigi ao caixa do chope, e descobri que poderia escolher entre pilsen e IPA. Consegui sinalizar o tipo que queria, e entender quando uma das atendentes perguntou se eu tinha certeza da escolha, uma vez que IPA é forte. Assegurei que sim e, em seguida, me sentei com o copo num sofá à esquerda desse caixa. 

Inicialmente, me propus a observar a festa por aproximadamente uma hora, a fim de ter material suficiente para descrever e analisar a cena. As pessoas foram chegando gradativamente, até que, no momento que contei, tinham em torno de cinquenta. Eram, em geral, pessoas mais velhas que eu, que aparentavam ter entre 30 e 60 anos.

As luzes eram similares às de outras festas de casas noturnas, mas o ambiente não era tão escuro. Isso poderia ser justificado pelo fato de a comunidade surda precisar enxergar seu interlocutor numa interação face a face, ou pelo próprio objetivo da festa, de integrar a comunidade participante dos Jogos Pan-americanos, que se encerraria em dois dias. Consequentemente, poucos dançavam, e a maioria dialogava uns com os outros.

Algumas pessoas que passavam por mim me cumprimentavam e, aproximadamente meia hora depois que cheguei, um homem, aparentando ser mais novo que eu, se aproximou para conversar comigo. Sinalizei que era ouvinte e ele, parecendo surpreso, repetiu o sinal, para que eu confirmasse. Vi que ele se afastou, se reuniu com outras pessoas e, em seguida, retornou com um celular.

A aba do Google Tradutor estava aberta, e a ferramenta mostrava as línguas Espanhol-Português. Nos apresentamos e começamos a conversar usando o tradutor de seu celular como base. Algumas expressões e palavras em espanhol eu conhecia, o que agilizava a comunicação, mas, de qualquer forma, digitar desacelerava o ritmo que a música eletrônica tocada pregava. 

Álvaro [3] perguntou se eu tinha ido à festa acompanhada, e expliquei-lhe o que estava fazendo lá. Soube que ele era um dos atletas de futebol da Seleção Mexicana de surdos, e que tinha ido à festa com seus amigos, também atletas do time. Durante a conversa, Álvaro me contou sobre sua vida no México, sua vinda ao Brasil, e as semelhanças e diferenças culturais que notava entre os dois lugares. Também me falou sobre sua surdez, que foi gradativa, e não de nascença — metade de sua família é surda, e a outra metade, ouvinte.

Em especial, Álvaro me disse que era a primeira vez que ia numa festa de surdos em que as músicas tocadas eram diferentes; segundo ele, sempre se reproduzia uma mesma música nas festas de surdos mexicanas. Ele parecia estar muito empolgado com o ambiente, pois olhava para todos os lados e sorria com o que via. Num determinado momento, declarou: Es asombroso ver y sentir primera vez eso musico con sordo.

Fala de Álvaro sobre a festa LiVibe

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Ali, ele se referia à diversidade das músicas e, principalmente, aos DJs surdos que tocavam no evento. Dos quatro integrantes da lineup, três eram surdos: DJ Lenny (@lennyvibe), DJ Phill (@djphill10) e DJ Kuli (@musicbykuli); os dois primeiros, brasileiros e gaúchos; o último, holandês. 

Um tempo depois, em meio a outros goles de chope, fomos para a área externa, onde a música, embora mais baixa, ainda era ouvida por mim. Álvaro me questionou sobre as músicas que gostava de ouvir. Mostrei-lhe a aba de curtidas da minha playlist do Spotify. Sem pensar, devolvi a pergunta. Ele me contou que antigamente gostava de ouvir rap — e citou artistas como 2Pac e Eminem. No meio disso, me contou um pouco sobre as guerras de narcotráfico ocorridas em regiões próximas onde ele mora, e sobre ter perdido amigos para esse cenário.

Conversamos sobre outros assuntos e aprendi alguns sinais da língua mexicana de sinais (LSM). Fui batizada com o sinal para meu nome, depois de ter tido que não tinha um. Percebi, às 2h55 que já tinha tocado Anitta, Onda Onda e Toma Toma Vapo Vapo. Perto desse horário, nos separamos para ir ao banheiro, e, quando retornei, não vi Álvaro.

Me direcionei para o sofá no qual estava antes e, em alguns minutos, Álvaro apareceu dizendo que foi verificar como os amigos estavam — pois um deles estava bebendo demais. Então, me chamou para a pista, a fim de que pudesse aproveitar a música enquanto dançava.

Inicialmente, fiquei um tanto quanto resistente, pois embora já estivesse alcoolizada, não estava preparada para dançar. Contudo, Álvaro me conduziu até a pista, e logo me convenci de que poderia ficar lá por um tempo. Obviamente, esse era o momento da minha vida em que eu tinha ouvido uma música no maior volume possível. Era quase como se meus ouvidos estivessem colados em uma caixa de som. Ali, não era somente mais o coração que ressoava com as batidas da música, mas meus ouvidos: parecia que tinham cordas vibrando no meu ouvindo junto das batidas da música.

Estar na pista de dança me deu outra perspectiva da festa. Antes, o que eu percebia eram pessoas conversando; agora, no meio da “bagunça”, via aqueles que dançavam dando tudo de si. Uma mulher, em frente ao palco, fazia quadradinho durante uma música eletrônica; outra, jogava o cabelo para os lados, ao estilo Joelma; Álvaro pegava em minhas mãos e se movimentava em círculo, como se estivéssemos dançando uma cantiga infantil. Outros, que não dançavam e nem conversavam, estavam na parte central do salão, jogando beer pong.

Consegui conversar com os amigos de Álvaro, que também eram pacientes para procurar entender o que eu queria dizer — e para esperar que eu compreendesse o que eles sinalizavam. Outras pessoas se juntaram a nós e, ao sinalizarem para mim, disse que era ouvinte. Um homem me perguntou de qual cidade era, pois não me conhecia — já que a comunidade surda tem laços sólidos —, e afirmei ser de Porto Alegre. Junto a isso, encontrei outros dois homens:  Simon, que era ouvinte, também de Porto Alegre, e Nino, que era surdo oralizado de São Paulo. 

Após saber que eu era ouvinte, Nino me falou em português que foi para Porto Alegre porque era um dos organizadores da festa, e me contou sobre as festas de surdos que são realizadas pela Deaf Feel. Até então, imaginava que eram eventos isolados, mas descobri que existe uma organização específica para realizar as festas.

Também na pista, prestei mais atenção nas músicas. Apesar de anterior ter notado as que tinham letra, a maior parte das músicas tocadas na festa, pelos quatro DJs, eram instrumentais, eletrônicas e, portanto, muito marcadas pelo compasso, como se nota em um vídeo gravado[4].

Nesse vídeo, para além da música, é possível notar a performance de alguns participantes, que subiram no palco para dançar. 

Quanto aos DJs, há um fato que chamou a atenção: ao contrário dos outros DJs, que mantinham os headphones no ouvido ou apoiados no pescoço, Lenny colocava com uma das mãos seus headphones no peito, balançando freneticamente a cabeça e movendo-se de um lado para outro. Isso me fez pensar novamente na forma como a música é percebida pelos surdos.

Por volta das 4h30, disse para Álvaro que iria descansar um pouco, e ele se ofereceu para ir comigo. Comentei que não precisava, afinal, ele deveria aproveitar ao máximo a festa. Contudo, ele disse que conversar também era uma maneira de fazer isso, e fomos para a área externa.

Conversamos um pouco e…

Às 4h50, fomos interrompidos por um dos seguranças, que apareceu na porta comunicando que a festa tinha acabado. Havia amanhecido. Todas as pessoas que ainda estavam lá saíram da SSRS e, por volta das 5h, não restava mais ninguém dentro do local. Em frente à SSRS, pessoas conversavam; outras se despediam.

Fim da festa LiVibe, com os participantes do lado externo da SSRS

Autora: Ellen Caroline de Lima

 

Álvaro pediu que eu fosse embora antes, pois era mulher e seria mais seguro se me visse entrando no Uber. Me despedi dele e de seus amigos, e fui embora.

Antes que a música tomasse forma, observar uma festa de surdos era uma oportunidade de investigar como se dava a interação dos participantes com os sons, e como isso seria percebido por mim, uma ouvinte. Contudo, os sessenta minutos previstos para a observação tornaram-se quase quatrocentos de conversas, descobertas, álcool e música. Com observação, claro. Às vezes. 

Ouvir, embora importante, já não era o sentido mais usado. Eu podia entender a música pela visão e, mais ainda, pelo tato. Sentir as vibrações no coração e nos ouvidos, depois se espalhando pelo corpo, mostrou que a música pode ser, simultaneamente, uma experiência coletiva e individual.

notas:

[1] A SSRS está localizada na Avenida Dr. Salvador França, 1800, no bairro Jardim Botânico em Porto Alegre – RS.

[2] Cf. https://www.facebook.com/Daniel.aprender/videos/596269562172914/?mibextid=rS40aB7S9Ucbxw6v. Acesso em 21/12/2024.

[3] Com o intuito de manter preservada a identidade das pessoas com as quais conversei, todos os nomes deste texto, com exceção dos DJs, são fictícios.

[4] Disponível em: https://drive.google.com/file/d/1tNaQ5S-gDczyn_fEf9PeRl15K7MWiItt/view?usp=sharing. Autora: Ellen Caroline de Lima.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Baile da Syon: Uma experiência musical e audiovisual em Porto Alegre

Make Fabico Weird Again #1

por Brenda Trindade e Julia Caye

 

Syon Trio toca em espaço Multiverso Cais Embarcadero, em Porto Alegre.
Fonte: Post on Instagram

Eram seis horas da tarde de um sábado comum em Porto Alegre, e nós entrávamos no Multiverso Cais Embarcadero, localizado perto da Orla do Guaíba, um local conhecido por suas festas diurnas, chamadas de “sunset”, que buscam proporcionar como maior atração o pôr do sol. A atmosfera era única, muito diferente do que era costume ser presenciado naquele local, parecia um planetário ou algo do tipo. Era uma esfera escura, em que a única iluminação saía do chão, e havia projeções por todas as paredes, com bolas de discoteca e dizeres como “Baile da Syon”, “Syon”, entre outros. Definitivamente não pareciam ser apenas seis horas da tarde. Muito pelo contrário, parecia que estávamos em uma balada normal, e já era de madrugada – exclusivamente por causa da atmosfera.

Segundo a produção do trio, a proposta da festa era de nos proporcionar uma experiência audiovisual, missão cumprida logo que adentramos ao espaço. Junto com os dizeres projetados nas paredes, as luzes alternavam entre amarelo, vermelho, verde e azul, quase como em uma dança seguindo o ritmo da música. A música, atração principal da festa, foi iniciada com os DJ’s Léo Bueno e Zé, que misturaram remixes da própria Syon Trio, como uma espécie de preparação para o show a seguir, e grandes hits do funk e trap nacional.

O público no local era composto majoritariamente por estudantes universitários, entre 19 e 25 anos, de classe média alta. Lá eles formavam uma grande cena, entre pessoas que se juntam frequentemente, mas que naquela tarde estavam unidos para viver uma experiência visual diferente de outras festas em Porto Alegre, em conjunto com músicas que faziam já parte do seu cotidiano: músicas eletrônicas. Apesar de ser uma espécie de inauguração do local, era perceptível que os donos do empreendimento do Embarcadero estavam tentando tornar o espaço uma verdadeira cena, ou melhor, buscando atingir “aquele momento especial quando um florescimento criativo parece formar todo um novo centro social” (Byrne, 2012). No entanto, nos pareceu que os criadores do evento buscaram implementar esse momento forçadamente, para a camada elitizada da população, o que não acreditamos que vá funcionar, pois, comparado com o movimento acompanhado por Byrne, que se tornou seu foco de estudo, que acontecia de forma natural, e por isso se propagava, já que unia o público a artistas ainda pouco conhecidos, o Baile da Syon nos pareceu como uma “jogada de marketing”, forçando um pouco o movimento.

De qualquer forma, apesar de acreditarmos que o espaço não vá se tornar uma cena por não seguir as regras descritas por David Byrne, o evento foi muito bem aproveitado por todos os presentes com quem conversamos. Isadora Schramm, estudante de publicidade da UFRGS, contou que nunca tinha ido a um show de eletrônica, apenas conhecia o Syon Trio por suas músicas mais populares, que começaram a viralizar nas redes sociais em 2022, mas que estava no show exclusivamente para vê-los:

“Eu nunca gostei muito de música eletrônica, mas minhas amigas me chamaram para vir então pensei ‘por quê não né?’. Eu imaginei que seria completamente diferente, e que iria me sentir de fora. Mas, pra minha surpresa, a maioria das músicas que eles tocaram eu conhecia, e o pessoal agitou muito também. Eu sabia mais ou menos quem eles [Syon Trio] eram, mas assistir eles tocando ao vivo foi uma experiência completamente diferente. A energia do público e a performance deles me surpreenderam muito. Com certeza fiquei com vontade de ver eles de novo.”

Já a Camille Fossati, estudante de biomedicina da UFCSPA, nos contou que já estava acostumada a rolês com atrações do gênero eletrônica e que o “Baile da Syon” revolucionou esse tipo de festa:

“Quando vamos nessas festas, somos acostumadas com ambientes normais, de festas mesmo, com luzes e tudo mais. Vamos nessas festas só por causa das atrações, mas a Syon nos chamou atenção pela proposta completa, um lugar legal com música boa.”

 

Syon Trio é composta por três gaúchos.
Fonte: Post on Instagram

QUEM É SYON TRIO

A maioria dos jovens do Rio Grande do Sul já ouviram falar da Syon Trio. Naturais de Pelotas, cidade há 260 quilômetros de Porto Alegre, Henrique Moré, Gabriel Castilhos e Liruan Corteletti são três DJs que buscam unir a música eletrônica com os ritmos mais populares do Brasil – o funk e o trap.

A primeira vez que nós – duas estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no início dos nossos 20 anos – ouvimos falar sobre eles foi no primeiro semestre da universidade, quando começamos a frequentar a vida noturna da cidade e, consequentemente, a cena musical que a acompanha.

Entretanto, a Syon Trio é um pequeno mistério que buscamos desvendar – e esclarecer – ao longo deste texto. Primeiramente, apesar de ser composto por três pessoas, eles fazem parte de algo que atua quase como uma instituição, e que pode ser definido como uma espécie de banda, ou a figura de apenas um artista. Isso porque, apesar de colecionarem quase trinta mil seguidores no Instagram como um conjunto, individualmente apenas um deles utiliza a rede social, e mesmo assim não se expõe muito. Além disso, os três se apresentam para o público sempre como um trio, seja nos shows ou em entrevistas. Também é incrivelmente difícil de encontrar qualquer informação pessoal de qualquer um deles, ou de descobrir como era a vida deles antes de se tornarem “A Syon Trio”.

Ou seja, por mais que seja um dos grupos musicais em maior ascensão entre a camada jovem da população brasileira, eles se mantêm a uma certa distância do público. É como se, ao entrarem na persona da Syon Trio, eles deixassem de ser Henrique, Gabriel e Liruan, e se tornassem um só. Isso pode parecer um pouco óbvio, ou normal, mas vai totalmente contra o movimento que se desencadeou depois que a 30PRAUM, um dos maiores grupos de trap do Brasil atualmente, foi criado. Esse conjunto é formado por Matuê, Wiu e Teto, três jovens de Fortaleza que atuam de forma independente, mas que constantemente se unem para compor músicas juntos, darem entrevistas e participarem dos shows uns dos outros. Ou seja, apesar de também participarem de um trio, eles são independentes entre si, criando as suas próprias carreiras musicais sem depender dos outros.

Na contemporaneidade, especialmente em termos de grupos brasileiros e de estilos musicais populares, como o trap e o funk, isso é o que há de mais comum: artistas que, apesar de performar e criar diversas músicas juntos, possuem suas próprias identidades e histórias. Ao analisarmos a Syon Trio, percebemos que eles não vão de encontro com isso. Muito pelo contrário, parece que suas identidades se perdem ao incorporarem o grupo. Isso pode ser por muitos motivos, mas acreditamos que os principais sejam que eles não atraem o público em cima de suas imagens pessoais – no sentido de que se víssemos um deles na rua não saberíamos exatamente quem é – e que eles buscam atuar como uma espécie moderna de banda, trazendo um novo significado para esse conceito na cena musical moderna.

 

O SHOW DA SYON

O show da Syon Trio, o momento mais esperado da noite por nós e um pouco mais de 400 pessoas presentes na festa, foi um verdadeiro espetáculo audiovisual. O trio caprichou na entrada, com um grande jogo de luzes e efeitos especiais. Os gaúchos adentraram a festa enchendo o ambiente com som e alegria. O público a nossa volta vibrava, ansiosos para o show a seguir.

Com grandes hits, como “Gimme Gimme / Baile do Cinga” do próprio trio, o lugar foi invadido por uma euforia contagiante. Desde Justin Bieber até Bonde do Tigrão, os dj’s conseguiram montar sets que traziam um misto de nostalgia e felicidade no público, dupla essencial para uma boa festa. As viradas, de um som para o outro, eram feitas com perfeição, quase não deixando a plateia descansar entre uma música e outra.
Nos arriscamos a dizer que foi um dos melhores shows de eletrônica que já comparecemos. Diferente de grandes sucessos do gênero, como Alok e Vintage Culture, a Syon Trio traz consigo um ar jovial, uma semelhança tão grande com o público que cria uma conexão pouco vista nesse tipo de show.
Outra coisa que nos chamou atenção, e não menos importante, foi o compromisso do trio em resgatar a cultura brasileira, característica às vezes um pouco esquecida entre DJ’s do gênero, que tentam ao máximo se aproximarem da forma de tocar dos norte-americanos. A Syon Trio traz para as suas músicas o estilo do jovem brasileiro da última década, aposta em estilos familiares aos festeiros da região sul e sudeste do país, os tornando requisitados nas casas de festas dessas duas regiões brasileiras.
Mas é claro, a performance do trio não fica pra trás dos grandes DJ’s da música eletrônica mundial. Nomes como Martin Garrix e David Guetta, conhecidos por seus shows ao vivo cativantes, que agitam multidões pelo mundo, são referência quando falamos desse tipo de assunto. A Syon, ainda iniciante e com infinitamente menos recursos que esses artistas, tem potencial em expandir seu público e até mesmo revolucionar o cenário brasileiro com a experiência completa que o trio proporciona aos seus fãs.

 

A PERFORMANCE

A performance sempre foi muito associada a shows de música pop, e os artistas da geração Z – especialmente as mulheres – estão reforçando e até elevando o patamar. Nomes como Chappell Roan, Sabrina Carpenter e Charli XCX estão entre os mais pesquisados do Twitter e do Tiktok especialmente por performances feitas em suas turnês. Thiago Soares (2015, p. 22) defende que a relação entre a mídia ultrapassa a simples interpretação e envolve aspectos de percepção e sensibilidade, nos levando a uma nova era, que experimenta não apenas nos sons, mas também nos aspectos visuais (como coreografias, elementos do palco, vídeos que passam nos telões, uso de luzes) e na experiência inteira de presenciar o artista.

Apesar de essa cultura ser comum e até estar se popularizando ainda mais na esfera da música pop, o evento da Syon Trio mostrou como outros gêneros estão adotando essa estratégia de tornar o show uma “experiência” para o espectador, e remover a tênue linha entre música e entretenimento. O Baile da Syon, com o uso de luzes, distribuição de brindes (copos e óculos coloridos) e imagens projetadas fez uso do audiovisual para capturar ouvintes novos e convidar as pessoas a ir em seus próximos shows – o que já podemos adiantar que funcionou.

Claro que, apesar de a Syon Trio ter inovado em Porto Alegre com a sua performance, o Alok foi o primeiro artista a tornar esse elemento o principal dos seus shows no Brasil. O artista, autor dos hits “Hear Me Now” e “Never Let Me Go”, ficou conhecido em 2020 pelo uso de luzes fortes e dinâmicas em seus shows. Há quatro anos, ele usava apenas luzes que se alongavam até quase o final da platéia que piscavam e se mexiam, mas ele vem inovando cada vez mais com esse elemento visual, que se tornou quase uma marca registrada. Em seu show no Planeta Atlântida, em 2024, sua equipe usou drones iluminados, de forma com que pareciam apenas pontos de luz, para fazer formas, como corações e estrelas, escrever “Bah! Tchê!”, entre outros.

Sabemos que o Alok é um artista nacional com anos de carreira, e já passamos a esperar inovações em suas performances. Entretanto, participar de um evento como o Baile da Syon, em que os dj’s, natos de Pelotas, com poucos anos de carreira, também fizeram um uso incrível de elementos audiovisuais para cativar o público foi transformador para nós. É interessante também ver como os ritmos e características de gêneros estão se mesclando na modernidade. Soares descreveu há quase dez anos elementos usados quase que exclusivamente para o pop, e que hoje estão presentes não apenas na performance de artistas de eletrônica nacionais, mas também de rap e trap. Além dessas características, é comum um artista tocar mais de um gênero em seu show. Como descrevemos anteriormente, a Syon Trio misturou perfeitamente músicas da eletrônica (com batidas constantes e nenhuma parte cantada), hits pop dos anos 2000 e melodias nacionais, especialmente em torno do rap, trap e funk.

 

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

tocando música e fazendo arte no meio do rolê

Make Fabico Weird Again #1

por Gabriel Ortega

“Acho que o Bruninho pode ser definido quase como um vereadorzinho. Ele cumprimenta todo mundo e diz o nome da pessoa, pergunta como tá, o que tá fazendo e ainda sobre a família dela. Não sei se eu já conheci outra pessoa assim, tão carismática, sei lá… Teve até uma vez que eu tava malzão voltando da aula, encontrei ele e parecia que meu dia tinha melhorado depois disso (risos) ”

relato de alguém que tava nesse rolê

Sou amigo do Bruno desde os quatorze anos. Não me lembro qual foi o momento em que a nossa amizade se consolidou, mas sempre me pareceu muito forte, mesmo com a distância e o silêncio. Nosso contato é basicamente o Instagram: vemos o que cada um tá fazendo da vida e foi assim que eu descobri que ele tinha feito um curso de DJ de um coletivo, que ele tava trabalhando como DJ em festas de diretórios acadêmicos da UFRGS, em festas grandes de Porto Alegre, como a TTT e a Turmalina, e em rolês na cidade baixa com pessoas conhecendo ele a partir do trabalho dele e de seu vulgo: DJ Bruninho Mec. É sempre muito engraçado se deparar com alguma divulgação de festa e ver ele lá – alguém que eu conheço desde adolescente, que já me deu vários conselhos amorosos.

Pedi pra acompanhar um set dele e fazer uma entrevista. Seria a primeira vez, desde a pandemia, que a gente ia conseguir parar pra conversar, mas seria pra um trabalho da faculdade. Conseguimos marcar pra ser na última festa do ano do coletivo youngnewrichs, a ynr boil.

Eu não conhecia o endereço, mas o post dizia que era na José do Patrocínio, 824.  É quase colado no Opinião, mas é um lugar bem escondido e isolado entre os bares e a casa de show; quase não tem nada que te chama atenção e te convida pra entrar. No “W Haus Pub”, a entrada é toda de madeira, tem um piano vertical do lado de uma mesa de drinks/bar com uma parede de fundo cheia de vodkas e whiskys caros, algumas mesas bem simples e um outro espaço que fica mais perto da rua, com uma janela imensa.

Quando cheguei tava tendo uma celebração de fim de ano de uma empresa e um amigo secreto. Não quero que pareça que eu tô julgando essas pessoas, mas elas não pareciam o tipo de público de uma festa boiler, que ia tocar músicas de rap, funk e drill. Essas festas são em lugares fechados, com um dj no meio e a maior quantidade de gente possível se curtindo e suando. O lugar também não parecia com os outros ambientes de boiler que eu vi na internet, mas não ajudava que as pessoas na festa da firma estavam cantando as mais conhecidas do sertanejo, todo mundo extremamente bem-vestido e com drinks coloridos. 

Meu trabalho de apuração poderia ter sido meio fraco: talvez, aquela confraternização do fim de ano de alguma empresa tinha alguma ligação com a ynr boil. A minha ideia de um público médio desse tipo de festa era de jovens fritos vestindo roupas que misturavam algo dos anos noventa com o conceitos de y2k, mas, talvez, eu só não soubesse que o público do sertanejo também estava engajado com as boiler rooms[1].

 

Eu me senti meio intruso naquela festa de firma. As pessoas estavam num momento muito vulnerável de felicidade, compartilhando as memórias do ano enquanto bebiam e eu tentava achar um lugar para esperar sem chamar atenção. Acabei esperando na sala que tinha a janelona pra José do Patrocínio e agi como uma criança que foi em uma festa dos pais porque eles não conseguiram alguém pra cuidar dela: sentei na poltrona mais afastada e fiquei mexendo no meu celular. 

Começaram a juntar em uma foto em grupo. A sala que eu estava era muito esteticamente agradável e espaçosa. tentei sair de lá pra que o rolê fosse eternizado ali, um lugar mais arrumado que a parte que eles ocupavam, que as mesas com os copos meio vazios de bebidas extremamente doces para mascarar o álcool e as embalagens dos presentes todas amassadas, enrugadas e espalhadas pelo chão, estragando a ambiência do lugar e a foto (sem contar o perigo dos que estavam mais bêbados, que eles poderiam derrubar alguma coisa ao tentar posar pra foto). Eu consegui sair da sala bonita, mas ninguém deu bola. Comprei uma coca-cola no bar e voltei pra lá.

   

Eu já tinha conferido umas mil vezes se eu tava no endereço certo. mesmo que eu soubesse que o post do evento dizia que ia ser na José do Patrocínio, número 824, eu considerei que eu só não sabia que eles tinham mudado de lugar. Já tava quase saindo e mandando mensagem pro Bruno dizendo que eu tive alguma emergência e que não ia colar no rolê.

Felizmente, eu parei na janela e vi um carro prata parado. Dele, tava saindo o Bruno. ele tava bem estiloso, tinha um pente no cabelo, tava usando um jorts preto (uma bermuda mais larga que passa do joelho que voltou a ser moda e eu nunca consegui usar uma sem parecer que não superei a morte do Chorão), uma camisa branca, gravata preta e um casaco meio bege. Não me lembrava de alguma vez que eu me senti tão aliviado de ver ele.

 

Sobre trabalhar, beber e ir na CB

 

Gabriel:  Como tu vê essa função de estar trabalhando no meio de um rolê?

DJ Bruninho Mec: No início, era uma brisa para mim, porque eu me permitia demais, tá ligado? Eu tocava num bar e, na hora do acordo, eu falei que fazia só por umas caipirinhas, mas o dono me falou que tinha que ter um preço. 

Falei meu preço que eu achava que era um valor justo pra quem tava começando, mas eu não tinha noção nenhuma. Pedi trezentos pila pra ele, ele riu e disse “Bah, não! Nem os DJs que já tocam aqui cobram isso”. 

Daí eu fiquei todo com medo. “Não, não, não… diz aí o preço de vocês e tals”. Acabou que ficou por 50 pila e bebida liberada, mas eu tava vivendo o sonho. Tava tocando música, fazendo arte e ainda tava num rolê que eu gosto, com pessoas que eu gosto… não tinha como eu não me permitir.

Às vezes, eu tava tocando e me ligava que eu tava muito louco, que tinha que dar uma segurada e beber uma aguinha, um refrizinho… Daí eu comecei a pensar que eu ainda posso curtir o rolê, mas eu tenho que ter responsabilidade porque eu ainda tô trabalhando. Comecei a beber menos. Comecei a chegar menos no brilho, sem ir muito pilhado. 

Eu conseguia chegar sem esse brilho e era tão gostoso quanto, porque daí eu pensava que eu ia fazer a minha mágica lá. Não é como se eu não fizesse assim antes, mas é que atrapalha. Se tu for trabalhar chapado no banco, se tu for dar uma aula bêbado, isso vai te atrapalhar.

DJ Bruninho Mec fazendo seu set no W Haus Pub, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 

Gabriel: Mas tu acaba comparando o que tu faz com esses trabalhos?

DJ Brunin Mec: Não, definitivamente não. Lá no Nando[1] eram seis horas tocando. Acabava que era bem maçante e não era totalmente ruim, eu só precisava ter o controle de saber quando eu podia me permitir. No final, eu não ia mais precisar ficar focando tanto porque, mesmo sendo um trampo num rolê, eu tô criando uma vibe, um clima. Eu tenho um propósito ali. Não tô só colocando músicas. Eu tô fazendo uma construção de uma sonoridade que eu quero que as pessoas ouçam.

Tipo, se eu colocar uma música muito misógina e escrota, algumas pessoas vão ficar desconfortáveis, mas se eu botar alguma coisa que o pessoal gosta de ouvir, vai criar um clima. Quando eu não chego muito pilhado, eu consigo construir isso de uma forma melhor. Consigo pensar além do clima e trabalhar com uma intenção maior com algo que eu quero fazer.

Às vezes, era tudo muito automático, e, quando eu tô mais sóbrio, eu consigo pensar melhor no filtro que eu quero colocar, no loop que eu vou fazer… É muito mais mágico!

Mas, eu também gosto de chegar meio alteradinho. Quando eu vou tocar no meio do rolê, eu gosto de acompanhar o set dos outros, ir lá e tomar uma cevinha, porque isso me faz entrar no clima. Eu tava falando ontem com um DJ, sobre como é foda entrar pra tocar, pegar a essência do último DJ (a vibe que ele tava construindo, o tipo de música), continuar o que ele tava fazendo e puxar pro que eu quero fazer. Quando eu tô curtindo, no rolê, isso fica muito mais fácil porque eu tô ali com a vibe do cara.

Gabriel: Parece que tu tem um “processo analítico” dos outros DJs, de ver o que eles tão cozinhando lá. Mas isso é algo de agora que tu é DJ ou já era algo que tu prestava atenção quando tu só fazia parte do público?

DJ Bruninho Mec: Antes eu tava só no rolê, mas eu acho que eu sempre analisei porque eu sempre gostei de o que é ser DJ. Quando começaram a aparecer DJs com mais personalidades, que faziam coisas mais diferentes, me brilhava muito.

A primeira vez que eu fui num set que mexeu muito comigo foi numa turmalina, na rua. As músicas que eu me identifiquei foi do deekaps, uma dupla de pessoas negras que fazem um som muito foda. Quando eu vi eles, eu entendi que é isso que eu quero ouvir mais, mas nem pensava em fazer ainda. Comecei a ir nos rolês e ver se faziam algo parecido com eles e querendo entender pra onde que o DJ ia me levar, tá ligado?


Pra mim, DJ é isso: é entrar numa conexão com a pista, falar assim “quero que vocês ouçam isso”, ver como eles respondem a isso… Podem ficar mais paradinhos, mas tão gostando? Porque tem as músicas ambientes, pra te fazer dançar…

Gabriel: Como se o set não precisasse estar no alto o tempo todo…

DJ Bruninho Mec: Definitivamente não, mas isso é algo que eu aprendi mais ainda com o mu540, porque, às vezes, ele tá num bom muito alto, com muitos estímulos e, às vezes, ele vai entrando numa vibe mais de boa, só pra mudar a dinâmica. 

Acho que não precisa ter a continuidade de algo lá em cima o tempo todo… às vezes, faz sentido ficar o tempo todo assim, mas não é uma regra.  Tem muito disso em ser DJj: não se apegar a regras. Quando tu faz o teu set bem, é muito mais mágico do que tu ficar pensando se tu tem que começar devagarinho, chegar num ápice. Eu acho muito mais legal tu começar devagarzinho e, do nada, já descaralhar…

Gabriel: Tipo, brincar com uma “estrutura”?

DJ Bruninho Mec: Literal! Brincar com a estrutura. Eu falo pro pessoal ao meu redor que a minha vida é sobre brincar, sobre experimentar com as coisas. Não me prender a certos julgamentos, mas me autocriticando e querendo evoluir, sei lá…

…

O set do Bruninho era o último da noite e ele tinha me avisado que, provavelmente, ia começar perto das duas da manhã e que, mesmo com o set montado, não sabia quanto tempo ia durar, mas que tudo ia acabar perto das quatro. A festa teve alguns problemas de organização, desde DJ cancelando em cima da hora até uma chuva que, de acordo com uma das pessoas que tava organizando o evento, “despilhou a gurizada a vir”.

As pessoas foram chegando pro rolê e eu conhecia algumas. Uma, em específico, parecia que tinha visto um fantasma, quando me viu. Me perguntou o que eu tava fazendo lá e, quando eu respondi que tava entrevistando o Bruninho pra um trabalho da faculdade, foi engraçado que a resposta imediata foi um “faz sentido…”, como se não fosse natural que o motivo de eu estar numa boiler fosse pra fazer algo relacionado a faculdade. “Mas que bom te ver aqui! Não sabia que tu conhecia o Bruninho”.

O plano era o seguinte: entrevistar o Bruno e acompanhar um set dele. Eu tava preparado pra que a conversa não fosse muito organizada, que tivesse interrupções de amigues dele, que o barulho poderia atrapalhar alguma coisa, mas que, por conta dessas intervenções, eu teria algum tipo de informação a mais. Eu sei que o Bruno é muito querido e que teríamos que parar pra ele falar com o pessoal que tava chegando, também.

Acabou que sentamos nós dois e outros dois DJs que tavam lá.

Sobre o set, mesa controladora e material digital

Gabriel: Como tu se relaciona com os teus materiais físicos e digitais na hora de tocar? Tu vê eles como um instrumento? Como uma extensão de ti, sei lá se isso faz sentido…

DJ Bruninho Mec: Quando eu falei sobre brincar com as estruturas, é exatamente isso: olhar pra minha controladora e… é tipo desenhar, quando tu olha pra uma folha em branco e pensa nas inúmeras possibilidades que pode botar ali. 

Quando eu olho pra mesa, é tipo isso. Eu vejo a música rodando e penso o que eu posso fazer. A minha (mesa controladora) é mesmo um brinquedo comparado com outras muito maiores, que tem muito mais coisas que pode fazer. 


Daí eu vejo e tento pensar no que eu, com a minha vivência, com a forma que eu gosto de tocar – porque todo DJ vai usar ele de formas diferentes -, com tudo que eu acho que seria daora de botar lá, de efeitos e tals… O que que eu posso fazer com tudo isso, tá ligado? Isso tudo vendo a folha em branco, ainda. Acho que é assim que eu vejo a minha mesa.

Gabriel: Antes da gente conversar, eu vi que tu tava falando com alguém sobre a forma que tu guarda as músicas e que tinha algum problema com a tua forma… Qual que é esse teto?

DJ Bruninho Mec: Isso tá sendo um problema agora porque eu me liguei que eu tenho muitas pastas…

Martins[3]: E tu não organiza aquela porra! Posso falar na entrevista, né? Ele não organiza as músicas dele. É um caos. As pastas dele não fazem sentido.

DJ Bruninho Mec: Pô, elas fazem sentido pra mim…

Lara[4]: Vou fazer um contraponto! Acho que, às vezes, se tu tenta entrar na mente do Bruninho Mec, tu não entende porque ele divide as pastas daquele jeito. Se tu tocar com o pendrive dele, tu tem que fazer um esforço.

Gabriel: Tá, então existe o teu pendrive?

DJ Bruninho Mec: Não, mas eu tenho um HD externo… Mas eu vou comprar um pendrive daqui a pouco.

Martins: Tem que comprar o pendrive, viado, mó barato o negócio.

DJ Bruninho Mec: Sim, eu tenho que comprar o negócio urgentemente. O cara tem que lembrar que ele tem que investir nele, tá ligado?

Gabriel: Como funciona esse aprimoramento pra um DJ?

DJ Bruninho Mec: Comprar um fone, um Pendrive, uma controladora… Acho que uma coisa que um DJ sempre almeja é evoluir o seu equipamento. O fone com a melhor acústica, a controladora mais foda e que faça mais sentido pra ele. 

Tem umas mesas que são umas máquinas, tá ligado? Que tu pode levar só elas e o Pendrive. Elas são mega gigantes e tem um computadorzinho dentro… 

Ahhhh agora sim chegou a gurizada boa…

(além do pessoal que tava sentado com a gente numa área aberta que servia como fumódromo, as pessoas iam direto pra lá pra encontrar o Bruninho Mec)

Gabriel: Como que funciona o teu relacionamento com as músicas que tu vai colocar, que tu queria colocar, mas acha que não funciona,…

DJ Bruninho Mec: Acho que é algo que tá junto com aquela pergunta se eu comecei a analisar os DJs desde cedo. Quando eu tava no rolê e comecei a entender o que eu gostaria que o DJ me entregasse com essa experiência, eu também comecei a pensar no público e ver a reação das pessoas, porque eu também era público.

Pra mim, seleção de música, baixar, pesquisar e tals é sempre em volta de se eu gosto dela, se as pessoas também gostam ou se é só eu mesmo. Tem muita música que eu baixo porque eu sei que, em algum momento, eu vou me sentir confortável em colocar, mas tem muitas outras que eu baixo pensando que vai criar um troço gostoso pra quem ouvir.

Gabriel: Tu sabe quanto tu tem no teu HD?

DJ Bruninho Mec: Ba, viado, nem sei… Eu tirei as músicas do meu PC e ele tem 100 GB. Depois que eu tirei, ele ficou com uns 46 GB… Acho que uns 30 GB de música… Ba, não sei na real, acho que é 30 mesmo. Não sei se fez sentido essa matemática. 

Tem muita coisa repetida e é por isso que eu tenho preguiça de arrumar elas. Mas voltando pra falar delas em si, depende muito tanto do meu gosto quanto do público. Eu sou uma pessoa que me adapto muito a essa relação, também.

Gabriel: Mas tu vê o que o pessoal curte fora do rolê?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de ver música que as pessoas colocam nos stories, tá ligado? Eu salvo muito elas, porque eu penso que, se essa pessoa que curte esse tipo de rolê tá escutando isso, outras pessoas também devem.

Eu pego a música dos stories, vejo ela no Spotify, coloco a rádio dela e daí eu vou pegando músicas relacionadas. Eu gosto que as pessoas ouçam o que elas gostam de ouvir normalmente.

Gabriel: Quando tu tá escutando uma música, tu já pensa em como tu vai trabalhar com ela/nela?

DJ Bruninho Mec: Eu gosto muito de tocar a “Machuquei, Machuquei a Xt da Paty” e eu penso assim, tá: eu quero botar essa música em cima de outra ou eu quero que ela comece só ela, tá ligado? 

Se eu quero que comece só ela, eu penso se eu quero brincar com uns efeitos nela ou eu quero brincar com uma batida, com uma voz nela. O que eu quero trazer pra ela, nesse momento? O que vai ser mais daora nesse rolê?


Porque pode ser uma batidinha mais lenta pra encaixar com o clima do rolê, ou algo mais rápido, ou pode ser uma voz pra daí já ir pra outra música… Vai muito do que eu tô sentindo pra esse momento, tá ligado?

Gabriel: Eu piro muito nas transições entre as músicas. Tu vê algo de especial nelas?

DJ Bruninho Mec: Pra caralho! É arte. É um dos ambientes mais criativos e, é graças a exercer essa função de DJ, que eu consegui entender que eu posso ser mais livre nas outras coisas que eu faço. Na dança, eu tinha muitas amarras, e depois que eu comecei a tocar e ver que eu consigo trabalhar de diversas formas com arte, eu entendi as várias possibilidades que eu podia fazer em outras áreas. 

Acabei me sentindo muito mais livre dançando, desenhando, ensinando, pintando, fazendo arte. No quesito DJ, a minha criatividade vai conforme as minhas músicas. Eu tenho tantas músicas guardadas acho que pra ficar pensando nas possibilidades que eu posso fazer.

Gabriel: Tem alguma combinação mais estranha que tu fez?

DJ Bruninho Mec: Eu sou o cara das combinações estranhas, tá ligado? Hoje eu fiz uma de “Picada Fatal” com “Pyramids”, do Frank Ocean… E ficou horrível. Eu fiz isso muito na várzea, só tava pensando o que ia acontecer se eu colocasse aquilo ali.
“Pyramids” é em 108 bpm e a outra era 130. Daí eu tive que abaixar muito da do Livinho e a voz dele ficou tri estranha e arrastada.

Gabriel: Mas tu tentou aumentar o bpm de “Pyramids”?

DJ Bruninho Mec: Ba! Não fiz…. Sim, podia funcionar afu com a batidinha do funk… Tu vai remixar umas músicas pra mim, tá?

Gabriel: Me chama que eu aceito, hein…

…

O DJ Martins começou a tocar era meia noite. Eu tava conversando com o bruninho ainda, mas ele convidou pra ver o set e foi chamando o resto do pessoal que tava no fumódromo pra ir pra pista.

Eu cheguei numa hora que tava tocando “o fortuna” de Carl Orff. isso me pegou muito de surpresa. eu tinha falado com o bruninho de junções estranhas, mas não achava que os sets funcionam juntando desde música clássica até drill. Fiquei mais afastado do pessoal que estava no meio do salão e tentei prestar atenção mais no trabalho do DJ.

Tem memes que zoam as caretas que os DJs fazem quando eles tão remixando na hora e é sempre algo que parece só uma caricatura mesmo, mas parecia muito que ele tava extremamente focado na controladora como um cirurgião que presta atenção ao cortar algum tecido do paciente. Nessa hora, a pista tinha muitas pessoas, mas nenhuma estava dançando. Todos conversando entre si, usando o celular, tirando fotos. Até que uma batida de boom bap surge na música tomando todo o volume e ficando cada vez mais distorcida e rápida, se transformando no ritmo de um funk e a letra iniciando mais baixo. As pessoas começam a dançar na batida e cantar a música enquanto o DJ olhava pro ao redor buscando aprovação e se sentindo tão aliviado como nunca.

Eu, infelizmente, não me lembro qual era. Eu não me lembro de quase nada que tocou, mas não no sentido de não ter sido marcante, mas porque eu só não sou familiar a elas mesmo. Não acho que é meu lugar de validar o set do cara ou não, mas eu não me lembrava a última vez que eu tinha visto tantas pessoas num espaço tão pequeno sintonizados e em transe com a música.

Eu gosto muito de Talking Heads e eu admiro muito o vocalista da banda, o David Byrne. As primeiras coisas que eu vi dele foram com ele mais velho e já grisalho, quando ele estava falando sobre a sua performance no palco e citou o fato que é autista e que tinha recebido o diagnóstico recentemente. Ele falava que suas danças mais “truncadas”, repetitivas e robóticas são a forma que ele tem de se comunicar com o mundo e que ele não tem vergonha delas.

Eu sinto a mesma coisa. Também sou neurodivergente, nunca consegui dançar muito e vi nas suas performances alguém se expressando de uma forma muito sincera. Desde então, as poucas vezes que eu me permiti dançar (ou até só me movendo mesmo), eu notei um pouco de uma beleza.

Nessa festa, eu via as pessoas se movimentando e dançando com uma naturalidade e vontade de vida que me lembraram muito esse momento que eu me deparei com as danças do Byrne. Eu não me senti a vontade de dançar lá, mas noto como o trabalho do performer (no caso, o DJ) influencia os movimentos do público, também, quando ele seleciona e trabalha em cima de músicas que são significativas pras pessoas que estão lá. Mesmo que eu quisesse prestar mais atenção no trabalho do DJ, as pessoas dançando e se curtindo chamava muita mais atenção e talvez pudesse ser considerada como um “produto” do trabalho dele.

Sobre a cena e a comunidade

Gabriel: Eu não sou muito ligado no “mundo” DJ. Queria fazer perguntas que dessem conta do que seria essa “comunidade” de pessoas que tocam em Porto Alegre. Mas acho que a pergunta mais tosca e geral pode funcionar: existe e como é a cena de DJ’s?

DJ Bruninho Mec: Eu acho que a cena de DJs existe sim, definitivamente. Como qualquer outra cena, né? A partir do momento que várias pessoas exercem a mesma função e fomentando uma cultura, de maneiras diferentes, mas do mesmo lugar, acho que existe uma cena. Definitivamente existe uma cena de DJs por conta disso.

Não sei muito dizer como ela é. Acho que ela tem as suas panelinhas, pré-definições pra estar dentro, pra subir… Mas, ao mesmo tempo, eu vejo que ela não é tão presa assim, pelo menos, aqui no Sul, a essas coisas.


Acho que ainda dá muito pra crescer, fazer os seus rolês e tocar nos lugares sem se envolver com panelinhas. Tem muitas pessoas diferentes na cena de DJs e, aqui no Sul, existem muitas pessoas que vão te acolher – eu tô falando da minha experiência, não sei pro resto direito. 


Muitas pessoas me acolheram, queriam ouvir o que eu tinha pra mostrar e trocaram comigo. Acho isso muito importante pra qualquer pessoa que seja nova e pras pessoas que são mais velhas se sentirem confortáveis nessa comunidade, nesse trabalho e nessa arte. Acaba que fomentar isso da melhor maneira é o mais importante pra mim.

Gabriel: Como seria?

DJ Bruninho Mec: Colando nos rolês que tu consegue ir, falando o que tu acha dos sets, elogiando e trocando. Acho que os melhores momentos que eu tive nessa comunidade foram os momentos que eu pude sentar com outros DJs e conversar sobre o que é ser DJ. Não só no sentido de trabalho, mas de expressão, pesquisa, formas de tocar… tudo que permeia o ser DJ.

…

Todo mundo tava cansado e parecia que poderiam dormir a qualquer momento. Eu também tava, mas ainda queria ver qual era a mágica do Bruninho. As conversas entre as entrevistas já não estavam fluindo muito e mais pessoas iam embora de lá.
Quando ele foi chamado pra tocar, já tinha passado das duas horas. Eu tinha encontrado um grupo de pessoas e todos fomos ver ele montar a mesa e esperar o set dele. Ele conectou os cabos, pediu pra um funcionário um kit e deu play na primeira música.

Pensava em como ele ia brincar com o público e, dessa vez, foi de uma forma bem mais formal, sem muitas quebras de expectativa. Enquanto ele tocava, o DJ que arrumava suas coisas tentava guardar seu notebook, mas não conseguia se ajustar com o público dançando e indo pra perto do Bruninho.

Público no set do Bruninho, dezembro de 2024

autor: Gabriel Ortega

 Algo que me chamou muita atenção foi quantos dos seus amigos que tinham participado (in)voluntariamente da entrevista não estavam só na pista, mas estavam perto do Bruninho dançando com ele, como se ele não fosse o DJ, mas só alguém que tava curtindo.

A cada transição de música, o Bruninho dava umas risadas e ficava prestando atenção nas pessoas. No meio do set, ele esbarrou em alguma coisa e acabou aumentando o grave da caixa de som. Foram tentar ajudar e ele falou “deixa assim, arruma daqui a pouco”. O “problema” técnico acabou sendo envolvido pelo Bruninho que aumentou ainda mais os seus graves enquanto o pessoal dançava.

Com o fim da música, ele finalmente arrumou o problema e seguiu como se não tivesse o “abalado”. Mais pessoas iam saindo e algumas voltavam pra sala pra dar tchau pro Bruninho e ele pedia pra responderem ele no Instagram.

Em um certo momento, o Bruninho colocou a música “TV Off”, do álbum mais novo do Kendrick Lamar. Não fazia duas semanas do lançamento do disco e essa música, em específico, tinha virado um hit com uma brincadeira do Kendrick que ele grita prolongadamente o nome do produtor dela: MUSTAAAAAAAAAAAARD.

No primeiro segundo dessa música, alguém grita “eu te amo Bruninho”. Mais pessoas se juntavam em volta dele e, quando o momento da brincadeira chegou, todos gritaram junto da música enquanto o Bruninho já criava a transição pra próxima música.

Toda essa curtição já tava era muito maior que qualquer uma que eu tinha visto lá. Eu não conseguia não estar envolvido com todo mundo dançando e curtindo a mágica do Bruninho. Mesmo que o set estivesse acabando, todo mundo que tava lá ainda estava muito animado, como se não fossem as mesmas pessoas que estavam quase dormindo poucos minutos antes. A energia não diminuiu e o fim do set foi coroado por salva de palmas pro coletivo que organizou a festa, pros DJs e pros trabalhadores do local. Um amigo do Bruninho cumprimentava os funcionários e, no fim, gritou “PELO FIM DA ESCALA 6X1”.

Porto Alegre não tem mais tanta relevância nacional pra chamar atenção pra uma comunidade de rock e gêneros adjacentes, mas acredito que toda essa comunidade de DJs e de música eletrônica como um todo tem todo o potencial pra remontar aqui um novo polo cultural. Eu dei tchau pro Bruninho e pensava nessas questões que eu não consegui perguntar, sobre o que ele espera do futuro pra ele e pra cena. Acabei não perguntando nada sobre os locais que DJs tocam e só falei de quão aleatório aquele lugar era pra uma boiler room. “É, mas acho que deu. Pelo menos, o kit era bom”.

notas:

[1] Ninguém lá sabia que ia ter uma festa boiler logo depois que eles saíssem. Eu demorei pra entender que aquele lugar funciona com aluguel pra eventos. O pessoal do sertanejo ainda não descobriu as boiler rooms, mas aguardo esse dia chegar.

[2] Bar que ele começou tocando.

[3] DJ e amigo do Bruninho que tocou antes dele na festa.

[4] DJ e amiga do  Bruninho.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Make Fabico Weird Again #1

SUMÁRIO

Introdução
Larissa Lima

Editorial
Make Fabico Weird Again: um manifesto
Marcelo Bergamin Conter

In memoriam: Dimas Gabriel Ely Coutinho 
Augusto de Souza Both, Caio Paiva de Mattos e Diego Zapata de Oliveira

PARTE 1 – ROLÊS E ENTREVISTAS

Jogando como música: Uma análise sobre a experiência de torcer na Geral do Grêmio
Augusto de Souza Both, Caio Paiva de Mattos e Dimas Gabriel Ely Coutinho

Identidade ritmada: de festa a baile
Larissa Lima

Tocando música e fazendo arte no meio do rolê
Gabriel Ortega

Baile da Syon: Uma experiência musical e audiovisual em Porto Alegre
Brenda Trindade e Julia Caye

A celebração dos jogos Pan-Americanos de Surdos 2024: vivendo a cena musical da festa LiVibe, em Porto Alegre
Ellen Caroline de Lima

Category Is… Voz e Ritmo: o chanter na cena ballroom de Porto Alegre
Lucas Rafael Morel Bordignon

A Última Noite de Batalha do Raça
Amanda Juliano Casartelli

O silêncio que existe entre corpos e música
Pietro Scopel

As ruas são do povo: vida noturna e resistências pelas ruas de Porto Alegre
Ana Luiza Barbosa

Guia de sobrevivência aos trilhos
Rafaela Peretto

PARTE 2 – RESENHAS E ANÁLISES

“O terror vai tá de volta”: como Boladin 211 colocou o funk gaúcho em evidência
Kaian Borba de Lima

Samba às Avessas: Até quem não gosta vai se embalar
Izadora Hypólito Alves

A unidade musical de Esteban Tavares
Diego Zapata de Oliveira

“Falso Brilhante” e os ecos de Elis na atualidade – Uma crítica musical
Júlia Cristofoli Campos

Notas de resistências – As Múltiplas Faces da Música Durante e Após a Ditadura Militar Brasileira
Milena Resch de Oliveira

“Até bem pouco tempo atrás / Poderíamos mudar o mundo”: Uma análise do álbum As Quatro Estações – Legião Urbana
Julia Hoppe

O pop punk e a representação feminina: Hayley Williams entre barreiras e transformações
Maria Isabelle de Souza Camargo

Resenha do álbum Human After All
Ernesto Miguel Luzardo de Souza

Uma análise do álbum “Blonde” de Frank Ocean e como a obra se tornou uma referência na música contemporânea
Gabriel Vieira da Silva

COMISSÃO ORGANIZADORA

Marcelo Bergamin Conter – Coordenador geral
Gezebel Bender Brito – Imagem de capa
Larissa Lima – Edição
Maria Isabelle de Souza Camargo – Edição
Pietro Scopel – Edição

Textos produzidos como atividade final da disciplina Seminário de Cultura e Comunicação 2024/2, Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil, janeiro de 2025. Professor: Marcelo Bergamin Conter

“O terror vai tá de volta”: como Boladin 211 colocou o funk gaúcho em evidência

Make Fabico Weird Again #1

por Kaian Borba de Lima

Boladin 211 é um cantor gaúcho de funk que vem conquistando ampla notoriedade no gênero, ultrapassando a marca de 5 milhões de ouvintes mensais no Spotify (dezembro de 2024). Acumulando mais de 300 milhões de reproduções na plataforma, é considerado o expoente do funk gaúcho e o cantor mais bem sucedido da história do estado dentro do gênero. É muito raro que artistas do Rio Grande do Sul atinjam tamanho sucesso na cena do funk, fazendo com que Boladin seja um verdadeiro “ponto fora da curva”.

Desta maneira, este artigo propõe-se em realizar uma análise linear de sua discografia na plataforma, considerando os lançamentos realizados entre dezembro de 2021 e dezembro de 2024. O objetivo é compreender como Boladin alcançou sucesso nacional e questionar o que dificulta a ascensão de cantores do mesmo gênero no Rio Grande do Sul. Além disso, também busca explorar o impacto de Boladin 211 na cena atual do funk. Para tais fins, foram utilizados como base teórica os textos “O ancestral: entre o singular e o universal” (FERREIRA-SANTOS, 2012), “Aspiro ao grande labirinto” (OITICICA, 1986), “Territórios resistentes: arte, som e sociedade” (PROTO, 2020) e “Rupturas instáveis: entrar e sair da música pop” (SILVEIRA, 2013).

Com base na análise realizada, foi percebido que o sucesso de Boladin 211 está diretamente atrelado à identificação dos ouvintes gaúchos, em um primeiro momento, e logo depois, à originalidade do cantor em meio a tantos MC’S do gênero. Além disso, também constatou-se que o sucesso e o impacto de Boladin estão diretamente vinculados à repopularização do funk 130BPM no país, processo esse que passa diretamente pelas mãos do cantor porto-alegrense.

Quem é Boladin 211?

Nascido como Bernardo Soares da Rosa, Boladin é natural da Restinga Velha, periferia da zona sul de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. É justamente de sua origem geográfica que vem o “211” no vulgo do cantor, em referência à linha de ônibus 211 que conecta a Restinga ao centro da cidade. A Restinga é um dos bairros mais humildes da cidade, sendo assim Boladin veio de uma realidade muito difícil, rodeado pela pobreza e pela criminalidade. Devido ao seu sucesso extremamente recente, não existem muitas informações disponíveis sobre sua infância e sobre seus primeiros passos dentro da música. Um dos poucos registros que se tem sobre Boladin é uma entrevista com o artista no canal do YouTube da Sobre Funk. Boladin relata que tinha o costume de cantar funk quando criança, mas que era de certa forma ridicularizado e desencorajado por pessoas próximas. Assim, voltou a cantar apenas no final de sua adolescência, em busca de construir, através da música, um futuro melhor para sua família.

A discografia de Boladin 211

O primeiro registro do cantor sob o nome artístico de “Boladin 211” é de 30 de dezembro de 2021, com o lançamento de sua primeira música, “Estratégia Bem Sucedida” nas plataformas de streaming. Mas, apesar de sua primeira faixa ter sido lançada no penúltimo dia de 2021, pode-se dizer que a carreira de Boladin começou efetivamente em 2022. O primeiro lançamento de Boladin em 2022, viria a público no dia7 de abril, com o lançamento de “Privadin na Laje”, em parceria com DJ Cayoo, produtor musical de Belo Horizonte. Essa conexão com o “funk de BH” seria extremamente importante para a ascensão de Boladin no futuro.

Vale ressaltar que, além de seus lançamentos nas plataformas tradicionais de streaming, Boladin também postava na época algumas composições no YouTube. O primeiro registro do cantor na plataforma é de 3 de outubro de 2022, com uma faixa intitulada “Boladin211 homenagem ao meu rlk vai na paz terror”. Na canção, Boladin retrata seus sentimentos quanto ao falecimento de um amigo próximo em um tiroteio. Aqui, já podemos perceber os primeiros indícios do que viria a ser sua identidade musical: o tom de voz levemente “anasalado”, o instrumental de funk 130BPM (majoritariamente percussivo) e os efeitos sonoros de tiros ao fundo da música.

O primeiro videoclipe do artista seria lançado no dia 11 de novembro de 2022, com o single “Eu vim da 211”. Nesta música, Boladin canta sobre suas origens humildes no bairro da Restinga e sobre como a música mudou sua perspectiva e o impediu de sucumbir à tentação do mundo do crime:

“Eu vim da 211, onde vários ‘menorzin’ que se perdeu no crime
Onde vários pensou que eu ia ser traficante
Deus segue iluminando e hoje eu sigo firme”

Seu próximo lançamento seria “G3zão” em parceria com MC Murillinho (também natural de Porto Alegre) e DJ Neeh, produtor que viria a assinar os maiores hits do artista. Na canção, lançada em 25 de novembro de 2022, os artistas ostentam armas e dinheiro, temáticas que viriam a ser exploradas em grande parte da discografia de Boladin.

Em 16 de dezembro, Boladin participou de “Safadinha 2”, música de MC Thony e DJ Neeh, ambos também naturais de Porto Alegre. Essa música é a continuação de “Safadinha” de MC Thony, MC Neguin WS e DJ Neeh e marca a primeira participação de Boladin em uma música de outro artista. As colaborações de Boladin com outros artistas do funk, seriam peça fundamental para que sua carreira decolasse no futuro. Para fechar 2022, o cantor ainda lançaria “Eu Puxei o Trem” (com DJ Loirin) e “Colônia de Férias”. A primeira, com a sua estética clássica: instrumental de funk 130BPM, com timbres de atabaque e efeitos sonoros de armas e tiros. Já a segunda, é uma das únicas músicas em que Boladin se aventura a cantar em um instrumental de funk rasteiro[1], juntamente com “Eu Vim da 211” (2022) e “Ninguém Deu Nada pra Nós” (2024).

O ano de 2023 seria o ano em que Boladin 211 firmaria seu primeiro pé na cena do funk brasileiro e começaria a dar os primeiros indícios de que havia chegado para ficar. O cantor passaria de 9 milhões de streams em 6 músicas lançadas no Spotify em 2022, para 26 milhões em 9 faixas lançadas no ano de 2023. Isso representa um crescimento impressionante de cerca de 200% no número de reproduções.

Entre os nove lançamentos de Boladin em 2023, os maiores destaques foram “Palinha da de 30”, “Lança da Barbie” e “Vamo Sambar Lindona”, a primeira com 6 milhões de streams no Spotify e as demais com 4 milhões cada. As três músicas contam com produção de DJ Neeh, sendo a última com produção adicional de DJ Yago. A última música lançada por Boladin em 2023 seria “51 é o DDD dos cria”, na qual o cantor faz referência à sua cidade natal, Porto Alegre. As referências à cultura da capital gaúcha seriam um fator crucial na ascensão de Boladin, e isso se revelaria em seu primeiro lançamento no ano seguinte.

Em 2024, Boladin 211 abriu o ano com o lançamento de “Traje do Colorado”. Lançada em 26 de janeiro, a música atualmente conta com mais de 11 milhões de reproduções no Spotify, se tornando um dos maiores hits da carreira de Boladin e consolidando Boladin como o artista de funk mais popular do estado. A produção da faixa não poderia ter ficado a cargo de outra pessoa: foi assinada por DJ Neeh, seu colaborador de longa data. O instrumental é de funk 130BPM, com timbres de atabaque e efeitos sonoros de armas, como já havia se tornado característico de suas músicas. Na canção, assim como em grande parte de sua discografia, Boladin esbanja luxúria, cantando sobre armas, dinheiro e mulheres. A linha que dá título à faixa faz alusão ao Sport Club Internacional, equipe de futebol de Porto Alegre, da qual Boladin é um torcedor assíduo. Em um país e, sobretudo, em um estado, onde a identificação com o futebol é muito forte, é evidente que essa referência foi muito importante para a popularização da música, que foi carinhosamente abraçada pelos torcedores colorados:

“Traje do colorado, 211 embaixo do vulgo
E ‘nóis’ dá continuidade, as ‘piranha’ tão feliz
O DJ Neeh te convidou pro barraquin’
O Boladin te convidou pro barraquin’”

Além disso, “Traje do Colorado” marca a primeira vez em que Boladin utilizou a expressão “terror”[2]em uma de suas músicas, algo que viria a se tornar marca registrada do cantor:

“Ela gamou no jeitão dos ‘terror’
Quando viu a G3 ela se impressionou
Comércio pesado, é PT pra caralho
Ela joga o cabelo quando vê o Boladin passando”

Em fevereiro, Boladin lança “Amigo Leal”, faixa que acabou não obtendo o mesmo sucesso da anterior e tampouco das duas seguintes: “Faz 10K e Dorme” e “Mesmo Embalo”. Estas duas músicas marcam as primeiras colaborações de Boladin com MC Rick, cantor de funk de Belo Horizonte. Acumulando 15 milhões de plays na primeira e 13 milhões de plays na segunda, ambas foram muito bem recebidas pelo público e fizeram com que o Brasil todo voltasse seus olhares para Boladin. Em abril, o artista lançaria “Plano de Hoje”, mas o melhor estava guardado para o mês de maio.

No dia 10 do mês em questão, Boladin volta a colaborar com MC Rick lançando “O Terror Vai Tá de Volta”, emplacando outro hit que superava a marca de 10 milhões de reproduções. Entretanto, o ponto alto do ano de 2024 e de toda a carreira de Boladin, envolve novamente o funk mineiro e seria revelado ao público no dia 24 de maio: “Sorriso no Rosto”, faixa do álbum “Menino Maluquinho” de MC Leozin, com participação de Boladin 211 e MC Rick. O hit alcançou a 21ª posição de música mais ouvida no país (Billboard Brasil) e atualmente conta com 57 milhões de reproduções no Spotify, sendo a mais bem sucedida de Boladin até aquele momento. O refrão da música é cantado pelo artista porto-alegrense e fez com que o mesmo “furasse a bolha” e ganhasse destaque no Brasil todo:

“Eu solto pela boca, ela passa e me olha
Eu com a Glock de roupa, cumprindo meu posto
Eu vi sorriso no rosto
Eu vi sorriso no rosto”

Ainda na onda do sucesso de “Sorriso no Rosto”, Boladin faria participação em outra música que o faria elevar ainda mais o patamar de sua carreira. “Sempre na Simplicidade” foi lançada em 17 de julho de 2024 e junta os artistas MC LUUKY, MC Ryan SP, Boladin 211 e MC Vine7, em uma produção de DJ Victor. A canção se consolidou como o maior hit de toda a carreira de Boladin, com mais de 63 milhões de playsno Spotify e foi responsável por abrir diversas portas para o cantor. O trecho que contém o verso de Boladin viralizou nas redes sociais e gerou mais repercussão do que o próprio refrão da música, cantado por MC LUUKY. Na passagem, Boladin foge das temáticas tradicionais de suas músicas e despeja versos mais profundos e introspectivos, que falam da superação do cantor:

“Abre ala,  nóis tá chegando, ‘tamo tocando os cavalo
No extremo da humildade, eu aprendi com os mais brabo
Que na guerra eles deram seu sangue, lutando pelo nosso quadrado
Essa vida é uma roda gigante e eu vi vários que despencaram”

O enorme sucesso de “Sorriso no Rosto” e “Sempre na Simplicidade”, renderia visibilidade para Boladin não só por parte do público, mas também de outros artistas da cena do funk. Ainda em 2024, além de seus lançamentos solo, Boladin também participaria de diversos projetos de artistas do funk brasileiro, em especial de Belo Horizonte e de São Paulo. Entre os principais sucessos, estão: “Deixa o Cavalo Correr” (Oldilla, Gabb MC, MC LUUKY, MC Tato, MC Bruno MS, TrapLaudo e Boladin 211 – atualmente com 29 milhões de streams) e “Só Menina Linda” (MC LUUKY, MC Bruno MS, Boladin 211, MC Negão Original, MC GH do 7, MC Daniel, DJ Japa NK, DJ Japa NK, MC Ryan SP – atualmente com 19 milhões destreams). A menção honrosa fica para a participação de Boladin em “Hoje Não Vou Dormir na Mansão”, faixa do álbum “Bad Boys” dos cantores MC IG e MC Ryan SP, dois dos artistas mais bem-sucedidos do Brasil na cena do funk.

Levando em consideração músicas solo e participações, Boladin 211 realizou 26 lançamentos no ano de 2024, que totalizaram cerca de 266 milhões de reproduções, apenas no Spotify. Isso representa um crescimento total de mais de 900% no número de reproduções em relação a 2023. É inegável que Boladin se tornou um ícone do funk, gerando um grande impacto na cena e moldando uma nova sonoridade. Boladin é referência para MC’s de todo o Brasil, em especial do sul do país, uma região onde existem poucas oportunidades e poucos artistas do gênero realmente despontam.

O impacto de Boladin 211 na cena do funk

Pode-se dizer que o funk já passou por diversas fases, com diversas sonoridades diferentes. Desde o funk com instrumentais de miami bass[3] dos anos 2000 e os hits massivos do Furacão 2000, passando pelos anos 2010 e a fase do funk ostentação com MC Daleste, até chegarmos nos anos 2020, em que existem incontáveis sonoridades de funk distribuídas pelo país. Destacam-se subgêneros como o mandela[4], o funk de BH (citado anteriormente quando falado sobre as colaborações de Boladin com MC Rick) e também o rave funk[5], popularizado pelo produtor musical paulista DJ GBR.

Entretanto, poucas sonoridades do funk fizeram tanto barulho como a onda recente do funk rasteiro. Essa inclusive, também fortemente popularizada por DJ GBR, com o projeto “Let’s Go”. A música de funk mais tocada de 2023 foi “Let’s Go 4”, que conta com mais de 320 milhões de reproduções no Spotify e que, assim como as outras edições do projeto, reúne diversos MC’s em uma música de mais de 10 minutos que é cantada, é claro, em um instrumental de funk rasteiro. Além disso, a música de funk mais tocada no ano anterior também havia sido um funk rasteiro. “Casei Com a Putaria”, colaboração de MC Paiva ZS e MC Ryan SP, foi lançada em 1 de julho de 2022 e conta com mais de 280 milhões de plays no Spotify.

Fato é que, nesta década, o funk rasteiro tem dominado completamente a cena, fazendo com que o tradicional funk 130BPM tenha, de certa forma, “caído no esquecimento”. A explicação mais plausível para isso é que o público talvez estivesse cansado de ouvir músicas sempre no mesmo tempo e estivesse buscando algo diferente. Mas, assim como o funk rasteiro rapidamente tomou o lugar do funk 130BPM, ele também teve seu lugar tomado novamente em uma velocidade impressionante. E isso está diretamente relacionado ao sucesso de Boladin 211.

Como percebido através da análise de sua discografia, a grande maioria das músicas de Boladin é justamente de funk 130BPM. Sua sonoridade é marcada, principalmente, por timbragem de atabaque, algo que esteve presente desde os primórdios do funk e que representou o seu apogeu. O maior hit da história do funk, por exemplo, é “Bum Bum Tam Tam”, de MC Fioti (2015), que é cantada em um instrumental de funk 130BPM com atabaque. A relação do ouvinte com os instrumentos de tambor, como é o caso do atabaque, é explicada por Marcos Ferreira-Santos em sua obra “O ancestral: entre o singular e o universal”:

Na dança, sobretudo, podemos perceber como estas relações profundas se dão de maneira concreta: o tambor é o arquétipo do “tum-tum” ancestral do coração, diz Milton Nascimento. Neste ritmo ancestral, ternário, cardíaco, se juntam outros instrumentos orgânicos (instrumentos acústicos feitos com materiais naturais: madeira, couro, bambus, etc) e a percussão mais antiga: o bater das palmas das mãos e o bater dos pés no chão. O diálogo é do corpo com os outros corpos com quem dançamos, e destes corpos todos, com o corpo da terra-mãe (FERREIRA-SANTOS, 2012, p. 7).

Outro ponto importante nesse aspecto, é destacado por Camila Proto em sua obra “Territórios Resistentes: arte, som e sociedade.”. A autora aborda a anonimidade e a tematização do comum transindividual na música como forma de gerar identificação com o ouvinte, com base em conceitos de Hélio Oiticica:

Para Oiticica, a anonimidade seria então essa condição “universal” de um comum apropriado, desse imaginário que compõe a vista da sociedade, em um resgate específico do popular que atravesse a compartimentação cultural hegemônica. Qual maior anonimidade senão que a repetição rítmica do grave explorada pelo funk que aciona o mais íntimo das memórias coletivas? (PROTO, 2020, p. 117)

Após o sucesso dos primeiros hits solo de Boladin e de suas colaborações “Sorriso no Rosto” e “Sempre na Simplicidade”, percebe-se uma enorme repopularização do funk 130BPM. Entre as músicas de funk mais tocadas de 2024, grande parte são de funk 130BPM, enquanto o funk rasteiro pouco figurou entre as mais tocadas neste ano, o que vai totalmente na contramão dos anos anteriores. “THE BOX MEDLEY FUNK 2” (THE BOX, MC Brinquedo, MC Cebezinho, MC Tuto, MC Laranjinha, DJ Oreia) foi o funk mais tocado do ano, com 190 milhões de streams no Spotify. A música mais tocada do Brasil no momento (dezembro de 2024), de acordo com a Billboard Brasil, é “Barbie” de MC Tuto e DJ Glenner, que acumula mais de 100 milhões de streams. Ambas são funks 130BPM.

É importante ressaltar que Boladin 211 não foi o único responsável pela volta da popularidade do funk 130BPM, mas é inegável que o cantor porto-alegrense teve um papel fundamental nessa história. O funk 130BPM é causa e consequência na carreira de Boladin: foi responsável pela ascensão do cantor e também gerou um enorme impacto no funk e ajudou a moldar a cena atual do gênero.

Os desafios dos MC’s gaúchos de funk e o “diferencial” de Boladin 211 

Apesar do sucesso geracional de Boladin 211, é importante levar em consideração que “nem tudo foram flores” na vida do cantor. Assim como a grande maioria dos grandes MC’s de funk, Boladin vem de uma realidade muito difícil, tendo crescido na Restinga, uma das zonas mais pobres e com maior índice de criminalidade de Porto Alegre. É o bairro com maior indíce de homicídios dolosos da cidade e está entre os dez bairros com maior índice de tráfico de drogas, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul (SSP/RS). Esse foi o primeiro e, muito provavelmente, o maior desafio da carreira de Boladin: crescer em um ambiente tenso e perigoso e, mesmo assim, ter a disciplina para, através da música, buscar uma realidade melhor para si e para os que o rodeiam.

Além disso, ter nascido fora do eixo RJ-SP dificulta em níveis estratosféricos a ascensão de artistas de qualquer gênero, e com o funk isso é ainda mais intenso. Historicamente, a cena do funk sempre se concentrou no centro do país tendo, mais recentemente, crescido consideravelmente em outras regiões do país, em especial em Minas Gerais. Assim, sempre foi muito complicado para que artistas de outros estados se consolidassem na cena do funk, justamente por ainda não existir uma cena bem desenvolvida nesses lugares e nem mesmo estrutura para que isso aconteça. Somado a isso, também existe o fato de que o Rio Grande do Sul é um estado historicamente muito conservador e elitista e isso pode ser observado através de sua cena musical. Gêneros urbanos, como o funk e o rap, ainda são muito pouco aceitos na região e isso faz com que seja muito difícil que cantores gaúchos desses estilos musicais estabeleçam carreiras de sucesso. Antes de Boladin 211, um dos únicos cantores de funk a, de fato, atingir sucesso nacional, havia sido MC Meno K. Em dezembro de 2020, o artista lançou a canção “Camisa do Grêmio” (produzida por DJ Neeh, assim como grande parte dos hits de Boladin), que se popularizou muito ao redor do país e atingiu 21 milhões de plays no Spotify. Apesar dos desafios da pandemia, Meno K conseguiu emplacar diversas músicas de sucesso desde então e se consolidou como um artista de sucesso nacional na cena do funk. Além de Meno K, outros cantores gaúchos que obtiveram algum destaque na cena do funk foram MC Felipinho e MC Tchescko, o último sendo responsável pelo hit de funk ostentação “É Bem Assim Que A Gente Tá”, que atingiu sucesso nacional no ano de 2013. Estes três artistas, inclusive, são citados como referências por Boladin em sua entrevista no canal do YouTube da Sobre Funk.

Assim, é importante ressaltar que MC Meno K, MC Tchescko e MC Felipinho abriram caminho e foram extremamente importantes para que Boladin 211 pudesse ascender na cena do funk. Mas o sucesso atingido por estes artistas, não foi tão grande e tão repentino quanto o de Boladin, gerando um questionamento de qual seria então o “diferencial” que fez Boladin se tornar tão bem-sucedido em um período tão curto de tempo. Existem muitas respostas para este questionamento mas, a grande maioria delas, gira em torno de uma única coisa: identidade. Boladin 211 é, sem dúvidas, um cantor com muita identidade e muita personalidade e isso provavelmente é seu principal diferencial em relação a outros cantores gaúchos do gênero. É muito comum perceber artistas da região utilizando vocabulário, expressões, gírias e moldes estéticos do funk carioca ou paulista. MC Meno K, por exemplo, antes de lançar “Camisa do Grêmio”, já havia lançado uma música intitulada “Camisa do Flamengo”, canção que, além de ter uma temática que gira ao redor do clube de futebol carioca, é cantada em um instrumental de funk 150BPM (típico do funk carioca) e conta com um sotaque ligeiramente similar ao sotaque carioca por parte de Meno K. De certa forma, não se pode dizer que os artistas em questão estão equivocados em realizar tais práticas, visto que, como relatado por Fabrício Silveira em sua obra “Rupturas instáveis: Entrar e sair da música pop”, um dos principais fatores para a popularização de uma música, seria o seu potencial de “globalização”:

A “cultura pop” é  global ou quer globalizar-se, urgentemente. Nem suas imagens, nem seus produtos se encerram com facilidade em geografias rígidas, não se prendem aos Estados-Nação modernamente constituídos, mas instauram comunidades, gostos e repertórios (potencialmente) transnacionais.

Entretanto, Boladin vai na exata contramão desse conceito, produzindo uma sonoridade extremamente individual e com vocabulário e temáticas, em sua maior parte, propriamente característicos do Rio Grande do Sul. O cantor não está preocupado em se adequar a uma cena pré-existente e amplamente dominada por artistas do centro do país, mas sim em criar sua própria cena e refletir sua própria visão de mundo em suas músicas. A centralização das produções culturais como um todo no eixo RJ-SP, ainda é algo muito predominante nos dias atuais e, artistas como Boladin, são extremamente importantes para a valorização e visibilidade da cultura dos extremos do país.

Considerações finais

 Através desta pesquisa, foi possível imergir e analisar a fundo a trajetória de Boladin 211, observando detalhadamente os pontos altos de sua carreira e os fatores que o levaram a se tornar o cantor mais bem sucedido da história do funk gaúcho. O sucesso de Boladin é uma revolução histórica e um enfrentamento à invisibilização de artistas de fora do centro do país. Exala a identidade e o orgulho cultural gaúcho, em especial dos movimentos periféricos do estado. O Rio Grande do Sul possui inúmeros artistas de muito talento, mas que não recebem a devida atenção.

Apesar de tantas conquistas e tanto sucesso, Boladin ainda tem apenas 20 anos, sendo apenas 3 deles como cantor. Pode-se dizer que Bernardo Soares da Rosa ainda tem “muito chão pela frente” e muito para alcançar. Nos resta apenas aguardar para ver o que o futuro reserva para a carreira de Boladin 211. Que Boladin continue a prosperar e a evidenciar cada vez mais o funk do Rio Grande do Sul, abrindo portas para que outros artistas da região também possam mudar sua realidade através da música. E independente do que aconteça, nunca nos esqueçamos: o terror sempre “vai tá de volta”.

Referências bibliográficas

FERREIRA-SANTOS, M. O ancestral: entre o singular e o universal. In: AMARAL, M. Culturas Juvenis. São Paulo: no prelo, 2012.

OITICICA, H. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

PROTO, C. Territórios Resistentes: arte, som e sociedade. In: José Cláudio S. Castanheira; Dulce Mazer; Pedro Silva Marra; Marcelo Bergamin Conter; Cássio de Borba Lucas; Mario Arruda. (Org.). Poderes do Som: Políticas, escutas e identidades. 1ed. Florianópolis: Insular Livros, 2020.

SILVEIRA, F. Rupturas instáveis: entrar e sair da música pop. Porto Alegre: Libretos, 2013.

[1] Subgênero do funk que consiste em instrumentais mais lentos, entre 80BPM E 100BPM, provocando uma sonoridade próxima do samba e do axé.

[2] Gíria originada na periferia da zona sul de Porto Alegre e usada como sinônimo de “moleque” ou “rapaz”. Similar à expressão “guri”, amplamente utilizada no Rio Grande do Sul.

[3] Subgênero de hip-hop desenvolvido em Miami, que consistia em instrumentais produzidos em sintetizadores de bateria, as “drum machines”.

[4] Subgênero paulista de funk, que consiste em temáticas mais pesadas e instrumentais mais agressivos, geralmente com timbragem de berimbau.

[5] Subgênero que mistura elementos de funk e techno.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

“Falso Brilhante” e os ecos de Elis na atualidade – Uma crítica musical

Make Fabico Weird Again #1

por Júlia Cristofoli Campos

“É você que ama o passado e que não vê que o novo sempre vem”. Essa acusação feroz está presente na música “Como Nossos Pais”, criada originalmente pelo cearense Belchior. A canção, no entanto, popularizou-se através da voz visceral de Elis Regina, cuja interpretação adota um tom agressivo, opositivo, dominante.

Não surpreende que esta seja a música mais famosa da Pimentinha – apelido dado à cantora pela mídia, em referência à sua personalidade impulsiva. Enquanto Belchior traz um ritmo melancólico, nostálgico e triste à música, Elis está furiosa, inconformada.

“Como Nossos Pais” é a canção de abertura no álbum de maior sucesso de Elis, “Falso Brilhante” (1976), cuja origem deriva do espetáculo de mesmo nome, apresentado pela intérprete entre 1975 e 1977. O disco é feito inteiramente por canções compostas por outros artistas, como era padrão para Regina, e tornou-se o maior sucesso comercial da sua carreira.

A Pimentinha sempre brilhou na interpretação de músicas, o que a fez se destacar no país –inclusive ao vencer o Festival de Música Popular Brasileira na extinta TV Excelsior em 1965. Na ocasião, Elis cantou a faixa “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinícius de Moraes. Além de ter ganho o principal prêmio da competição, ela também levou para casa o Berimbau de Ouro de melhor intérprete.

Elis Regina cantando “Arrastão” no Festival de Música Popular Brasileira em 1965. Fonte: https://gauchazh.clicrbs.com.br/cultura-e-lazer/noticia/2015/04/ha-50-anos-arrastao-consagrava-elis-regina-e-abria-a-era-de-ouro-dos-festivais-musicais-no-brasil-4732598.html

Foi assim que começou a sua fama, que chegaria ao auge com o lançamento de “Falso Brilhante”, exatamente dez anos depois. Segundo a própria cantora em entrevista para a TV Globo em 1975, o álbum surge porque “a melhor coisa a se fazer neste exato momento era ‘denunciar’, aspas, a situação do artista brasileiro; a situação do falso brilhante”. Assim sendo, “Falso Brilhante” tornou-se um protesto contra a censura e o regime militar, ainda ativo na época.

Portanto, a escolha de iniciar um álbum de tema tão potente com uma interpretação tempestuosa não poderia ser mais coerente. Do início ao fim, a letra de “Como Nossos Pais” é uma crítica dura ao regime militar, que havia sido iniciado em 1964 – no exato dia, inclusive, em que Elis saiu de Porto Alegre, sua cidade natal, e chegou ao Rio de Janeiro – e que permanecia em atividade até então no lançamento da canção.

Quando a gaúcha canta “minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”, ela se refere à geração anterior, cujos políticos instauraram a ditadura que, mesmo com o protesto dos mais jovens, não só permanecia, mas também se fortalecia. A música desafia a conformidade e a acomodação dos mais velhos.

Dizer que “qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa” é uma clara memória às vítimas da ditadura, cujas vidas ceifadas não pareceram ter valor algum ao regime. A própria Pimentinha sofreu com o desaparecimento de muitos amigos durante o período, não apenas devido à ditadura brasileira, mas também à ditadura de outros países. Dentre eles, há o pianista Tenório Júnior, citado por ela em uma entrevista pela Folha de São Paulo em 1979. Tenório havia desaparecido em meio ao golpe militar na Argentina e sua morte só foi confirmada pelo governo em 1997. Durante a entrevista, ela se mostra inconformada com o sumiço do amigo:

“O Tenório, até dois anos atrás, estava vivo numa prisão em La Plata. É a informação mais recente que eu tenho, que eu passei pro pessoal, porque quem me deu essa informação foi um compositor de lá, que foi visitar alguém detido por algum motivo, em La Plata, e viu o Tenório.”

Essa era a realidade de muitos na época: pessoas sumiam e nunca mais voltavam, ou eram presas e retornavam, depois de torturas ou ameaças. Essa triste prática, inclusive, é abordada no filme “Ainda Estou Aqui”, que retrata o desaparecimento do político de oposição Rubens Paiva, cuja tortura e morte foram confirmadas oficialmente apenas quarenta e três anos depois, no ano de 2014, em um Brasil já redemocratizado. O filme, por si só, comprova como as músicas de Elis continuam atuais. Afinal, mesmo após quase quarenta anos do fim da ditadura, a nossa democracia ainda está ameaçada. O atentado contra a democracia no dia 8 de janeiro de 2023 mostra isso. As recentes investigações contra o ex-presidente Jair Bolsonaro que, junto a outras 36 pessoas, teriam confabulado para efetuar um golpe de estado no nosso país, são um exemplo ainda mais atual.

Não é de surpreender que, após advertir o ouvinte sobre o valor da vida em um tom de voz inicialmente ameno e caloroso – como uma mãe que aconselha o filho –, Regina adquire um tom agressivo, se exalta, alertando a quem escuta sobre a violência da época:

Por isso, cuidado, meu bem
Há perigo na esquina
Eles venceram
E o sinal está fechado pra nós
Que somos jovens

Mas é claro que tudo tem um preço. Em um regime totalitário, onde os direitos constitucionais são revogados ou simplesmente ignorados, é preciso lutar – física e verbalmente, assim como a faixa diz, “para abraçar seu irmão e beijar sua menina na rua, é que se fez o seu braço, o seu lábio e a sua voz”.

O ritmo e a voz dela aumentam progressivamente até o último segundo da canção. Há algo no instrumental que traz uma sensação de incômodo. A bateria e o baixo, na versão da cantora, são ótimos aliados para impactar ainda mais o ouvinte que, ao ouvir a versão melancólica de Belchior, se choca contra a rispidez de Regina.

A música seguinte, também de autoria do cantor cearense, recebe um tom diferente; desta vez, dançante. Assim começa “Velha Roupa Colorida”, uma obra que anuncia alegremente o presságio de um novo tempo – quase que ao contrário de “Como Nossos Pais”.

Você não sente, não vê
Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo
Que uma nova mudança, em breve, vai acontecer
Que o que a algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo
E precisamos todos rejuvenescer

Nostálgica, Elis relembra os “bons velhos tempos” de aventura, juventude e rock n’roll, e defende que esta época – provavelmente pré-ditadura –  deveria voltar, uma vez que “no presente, a mente, o corpo é diferente / e o passado é uma roupa que não nos serve mais”. O violão, base característica das canções da intérprete, começa entusiasmado, à la samba-canção. Já a utilização de metais (trombone e trompete) e a bateria sutil se assemelham a uma bossa nova.

Seguindo o ritmo contagiante, a terceira faixa do disco, “Los Hermanos”, composta pelo argentino Atahualpa Yupanqui em espanhol, retrata como o companheirismo dos amigos – ou, como diz a música, irmãos – pode nos trazer esperança e conforto nos dias difíceis. Nos conectamos e nos reconhecemos neles continuamente durante a vida – uma jornada na qual seguimos sozinhos… ou nem tanto. Porque aqueles que não vivem mais no mundo, mas continuam a viver em nós, estarão sempre conosco.

Y en nosotros nuestros muertos
Pa que nadie quede atrás
Yo tengo tantos hermanos
Que no los puedo contar
Y una hermana muy hermosa
Que se llama libertad

Para alguns, Atahualpa se referenciava às ditaduras que aconteciam no continente latino-americano na época. Assim sendo, a música era uma tentativa de referenciar os tempos sombrios vividos por muitos latinos, reforçando a necessidade de união. Faz sentido que a gaúcha tenha escolhido essa canção como parte do álbum; percebemos a sua preocupação com os seus, como no caso de Tenório e de tantos outros, que ela enxergava no coletivo uma força para vencer o totalitarismo.

Vemos isso inclusive em um acontecimento de 1976, mesmo ano em que o álbum foi lançado. Com seu filho João Marcelo de seis anos nos braços, Elis chega furiosa a uma prisão, exigindo que os soldados libertassem uma mulher grávida, sob a ameaça de chamar a imprensa. A mulher encarcerada não era ninguém menos que Rita Lee, que conta ter sido acusada de porte e uso de maconha.

Todavia, Rita havia parado de fumar após descobrir a gravidez de Beto, seu primeiro filho. De acordo com a cantora, os 300 gramas de maconha encontrados na sua casa pela Divisão de Entorpecentes haviam sido plantados pelos policiais. Em uma entrevista à Ronnie Von, Lee revela:

“Naquela época dos festivais da Record, Mutantes e Tropicalismo, Elis passava pela gente virando a cara. Ela fez parte daquela passeata contra o uso da guitarra elétrica na música brasileira. A última pessoa que eu esperava que fosse me visitar na cadeia era a Elis.”

Surpreendentemente, embora nunca tenham sido próximas antes, a primeira reação da musa da MPB foi abraçar a colega de profissão e perguntar se estava sendo bem tratada. Após isso, Regina entregou dinheiro a um dos oficiais, pediu que este comprasse comida para Rita e ainda exigiu o troco. Logo surgiu uma das amizades mais icônicas e inesperadas da música brasileira, na qual Lee compôs “Doce Pimenta” em homenagem à amiga.

É evidente que a gaúcha, ao escolher “Los Hermanos” para entrar no álbum, estava se referindo a esse mesmo tipo de lealdade entre os oprimidos pelo regime militar. Ela parecia acreditar, pelo menos em momentos como este, nesse companheirismo como uma estratégia de esperança e sobrevivência.

Continuando uma saga metafórica de autorreflexão iniciada em “Los Hermanos”, a canção ‘Um Por Todos’, escrita por João Bosco e Aldir Blanc, reflete sobre a alegoria do herói e os malefícios da fama. Ele é a essência encarnada do falso brilhante. Nascendo do ‘ventre chão da terra mãe’, o herói é “celebrado e pranteado”, forçado a carregar o peso das expectativas e das esperanças de muitos. A expressão ‘um por todos e todos por um’ reforça a ideia de que o herói é apenas um, mas também é visto como um símbolo coletivo. É bem possível que Regina assim se enxergasse.

Bem-sucedido, o herói foi recompensado com medalhas, bandeirinhas, rifas e a fanfarra. No entanto, o contraste entre “meio velório, meio farra” sugere que a fama é acompanhada por uma sombra de tristeza e perda. Embora aclamado por muitas pessoas de diferentes realidades, como escolares e lavadeiras, essa admiração é rasa. Mas o eu-lírico sabe dos sacrifícios e das batalhas silenciosas. Ele o conhece de verdade, desde o berço.

Por fim, a música faz uma confissão resignada às circunstâncias do herói. Desta forma, sem ver qualquer saída para mudar o que acontece, a narradora “lava as mãos” – em referência a Pôncio Pilatos – e segue em frente. Provavelmente, Regina pensava nas expectativas carregadas pela sua própria imagem. Afinal, figuras femininas subversivas não eram aprovadas na época. Ainda não são. De qualquer forma, ela pode ter se sentido vencida pelo preço da fama em determinadas ocasiões.

Uma delas foi a ameaça que sofreu por parte dos militares. Em 1969, enquanto viajava em turnê pela Europa, a cantora disse à uma revista holandesa que o Brasil era governado por gorilas. Depois desse episódio, ela passou a ser perseguida pelos oficiais ao voltar para o Brasil, tendo inclusive tido que prestar depoimento ao Centro de Relações Públicas do Exército em 1971, quando negou ter qualquer vínculo político-ideológico e disse não ter recebido nenhuma pergunta sobre o Brasil.

Consequentemente, a Pimentinha cantou algumas vezes em eventos militares, temendo pelo bem-estar de seu filho. As Olimpíadas do Exército de 1972, na qual ela foi forçada a cantar o Hino Nacional no Ginásio do Grêmio em Porto Alegre, e a sua apresentação na Olimpíada da Semana do Exército no mesmo ano a fizeram receber uma onda de ódio por parte do público por muitos anos. Esse ódio não vinha apenas do público, como também de outros cantores, atores e até mesmo cartunistas, como Henfil, que a enterrou no “Cemitério dos Mortos Vivos do Cabôco Mamadô”, do O Pasquim. Desta maneira, tal qual o herói de sua música, Elis Regina viveu a glória e a injúria.

Cutucando aqueles que realmente mereciam, “Jardins de Infância” talvez seja uma das canções mais irônicas do disco. A faixa, também composta por Aldir Blanc e João Bosco, é um recado para aqueles que pisam em ovos e esquecem dos monstros que vivem à sua volta, e até mesmo para aqueles que apoiam a ditadura, ignorando a violência e a censura.

Quando ela canta “e você se esqueceu; e você se escondeu” e mais tarde troca por “e você se esqueceu; e você não quis ver”, ela protesta contra a covardia daqueles que fechavam os olhos para os horrores do regime. Infelizmente, temos registros dessa negação até hoje. Muitos que, por sorte, não sofreram nas mãos do regime militar, relembram este tempo violento como uma saudosa lembrança. Outros, que nem chegaram a experienciá-lo, inventaram uma memória nostálgica de um tempo onde tudo era bom, seguro, nos seus conformes. São exatamente esses “conformes” que devem ser questionados, e Elis já fazia isso há 48 anos atrás.

Aí chega “O cavaleiro e os moinhos”, uma música de persistência e resistência; mais uma faixa composta pela dupla Blanc e Bosco. Não se teme mais os obstáculos ou os inimigos, pois se está preparado para enfrentar o que vier. Essa letra combina muito com a fase de Elis Regina pós-rejeição pública. Nos dias atuais, talvez a cantora teria sido cancelada, e essa seria a sua resposta contra o cancelamento. Ela nunca teve medo de não agradar. O que a magoou muito, no entanto, em 1972, foi ter sido odiada por algo que não fez por vontade própria, por performar crenças nas quais ela mesma não acreditava.

Acreditar na existência dourada do sol
Mesmo que em plena boca
Nos bata o açoite contínuo da noite
Arrebentar a corrente que envolve o amanhã
Despertar as espadas
Varrer as esfinges das encruzilhadas
Todo esse tempo foi igual a dormir no navio
Sem fazer movimento
Mas tecendo o fio da água e do vento

“Todo esse tempo foi igual a dormir no navio, sem fazer movimento, mas tecendo o fio da água e do vento”. Essa talvez seja a frase que resuma como Elis se sentiu ao aguentar tudo calada, apenas aguardando o tempo certo para mostrar a sua versão da história e tentar recuperar sua imagem.

Eu, baderneiro, me tornei cavaleiro,
Malandramente, pelos caminhos
Meu companheiro tá armado até os dentes
Já não há mais moinhos como os de antigamente

Ao contrário do que muitos acreditam, “Falso Brilhante” não é “apenas” um álbum de protesto à ditadura. A obra também acaba sendo autobiográfica, como percebemos nas letras musicais e nas experiências vivenciadas pela intérprete. Desta forma, enquanto quase metade das faixas adquirem um tom de rebeldia contra o sistema da época, também temos vislumbres da vulnerabilidade e sensibilidade de Elis nas canções restantes.

“Fascinação”, valsa francesa criada por Fermo Dante Marchetti e por Maurice de Féraudy, por exemplo, é uma declaração de amor idílica. A letra, traduzida para o português por meio de Armando Louzada em 1943, confessa sonhos intensos e uma paixão ardente à pessoa amada, idealizada quase como de maneira divina. A canção na voz de Elis tornou-se tão aclamada que virou até mesmo trilha sonorada novela “O Casarão” em 1976.

Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil, um castelo ergui
E no teu olhar, tonto de emoção
Com sofreguidão, mil venturas previ

O piano leva ainda mais emoção à ode, que fala ter sonhado “os sonhos mais lindos” e ter construído um castelo para viver uma vida perfeita ao lado do seu amor. É citada, também, a quimera: uma criatura mitológica que representa perigo e destruição. Ao mesmo tempo, a palavra também significa ilusão. A ilusão de um amor perfeito. Um sonho lindo de se sonhar, mas muitas vezes destrutivo.

Elis Regina no espetáculo de “Falso Brilhante” em 1976. Fonte: https://efemeridesdoefemello.com/2016/05/21/falso-brilhante-de-elis-regina-chega-a-100a-apresentacao/

Similarmente, também temos uma confissão vulnerável em “Tatuagem”. A faixa explora temas de paixão, ânsia por proximidade e saudade. Escrita por Chico Buarque e Ruy Guerra, a metáfora da tatuagem expressa não apenas o desejo de estar sempre junto à pessoa amada, mas também a vontade de ser tão marcante na vida de alguém que não pode ser apagado ou esquecido.

E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

No entanto, o amor nesta música é mais realista do que na anterior. Aqui, ele é dual: ao mesmo tempo que profundo e verdadeiro, ele é cansativo, conflituoso, difícil. A melodia, feita em grande parte pelo piano, é simples, mas profunda, tal qual a conexão vivenciada pelo eu-lírico e seu amado.

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo te alucina
Salta e te ilumina quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, farta, murcha, morta de cansaço

Similarmente, “Gracias a la vida”, obra intimista da chilena Violeta Parra, também cita o amor. Além disso, porém, como o próprio título diz, Elis agradece a tudo que compõe a vida, desde as belezas naturais até a capacidade de pensar, opinar e apreciar:

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me dio el corazón, que agita su marco
Cuando miro el fruto del cerebro humano
Cuando miro el bueno tan lejos del malo
Cuando miro el fondo de tus ojos claros

Contudo, a última estrofe chama a atenção. Nela, a intérprete declara que o canto dos outros forma o seu canto. Ou seja, que a sua existência e a sua personalidade são um resultado direto do externo, reforçando cada vez mais a crença da artista dessa unidade entre todos. O violão e baixo trazem sutileza e, ao mesmo tempo, enchem a melodia de nuances.

Gracias a la vida, que me ha dado tanto
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto
Así yo distingo dicha de quebranto
Los dos materiales que forman mi canto
Y el canto de ustedes que es el mismo canto
Y el canto de todos que es mi propio canto

“Quero”, escrita por Thomas Roth, fala da vontade de fugir da cidade grande suja, poluída e barulhenta para voltar para o ar límpido e puro do interior. A primeira metade da música é lenta, relaxante, com a voz de Elis suave e um pouco crescente. Essas características nos transportam a um local pacato e distante, como a obra mesmo menciona:

Quero ver o sol atrás do muro
Quero um refúgio que seja seguro
Uma nuvem branca sem pó, nem fumaça
Quero um mundo feito sem porta ou vidraça
Quero uma estrada que leve à verdade
Quero a floresta em lugar da cidade
Uma estrela pura de ar respirável
Quero um lago limpo de água potável

A flauta de fundo e o eventual chocalho, bem como o cantarolar de Elis Regina que ecoa no fundo (tu-ru-ru-ru-ru) aumentam o ritmo conforme a segunda metade da canção se desenvolve. O que era um mundo possível torna-se um sonho inviável, mas belo:

Quero voar de mãos dadas com você
Ganhar o espaço em bolhas de sabão
Escorregar pelas cachoeiras
Pintar o mundo de arco-íris
Quero rodar nas asas do girassol
Fazer cristais com gotas de orvalho
Cobrir de flores campos de aço
Beijar de leve a face da lua

A voz da Pimentinha continua a ressoar (la-la-la-la-iá) e se afasta aos poucos, interrompendo o sonho como alguém que desperta. Mas alguém como Elis nunca parava de sonhar, nem quando estava acordada.

Autêntica, sincera e talentosa, Elis Regina faleceu precocemente aos 36 anos, mas a sua curta vida foi suficiente para produzir dezoito álbuns de estúdio, seis álbuns ao vivo e inúmeros compactos. O maior deles, “Falso Brilhante”, vendeu cerca de 182 mil cópias no Brasil até 23 de março de 1980, de acordo com o Jornal do Brasil. Segundo a revista Rolling Stones Brasil, o disco está entre os 100 maiores álbuns da música brasileira.

Além de contribuir com o crescimento e enriquecimento da música popular brasileira, Elis também deixou um legado para as mulheres de sua época e, é claro, contemporâneas. Ser uma mulher tão opinativa e assertiva como ela foi entre os anos sessenta e oitenta é o maior legado que ela poderia deixar. É um eco que ressoa mesmo quarenta e dois anos após sua morte.

Por fim, “Falso Brilhante” continua sendo um disco atual mesmo em um cenário (ainda que em constante ameaça) democrático. Interpretado por uma voz potente, muitos o desvalorizam nos dias atuais por não ter sido composto inteiramente pela sua intérprete. No entanto, em um mundo onde homens como Elvis Presley e Frank Sinatra também não compunham suas próprias canções, questionar o talento de uma mulher por fazer o mesmo chega a ser irônico. Apesar disso, nós esperamos que, no que diz respeito ao machismo enfrentado por Elis ainda nos dias de hoje e àquele saudosismo com os tempos totalitários, “uma nova mudança em breve vai acontecer”.

Texto realizado como atividade final para a disciplina Seminário de Cultura e Comunicação, Ministrada pelo Prof. Marcelo Bergamin Conter. Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.

Introdução (Make Fabico Weird Again #1)

Por Larissa Lima

A edição #1 da Make Fabico Weird Again nasce de um experimento coletivo dentro da eletiva Seminário de Cultura e Comunicação. As cadeiras em círculo já diziam muito. Ninguém se escondia no fundo, ninguém passava batido. Um formato incomum para a maioria das matérias, onde a conversa fluía de um jeito diferente. Era impossível ficar só ouvindo – a aula dependia de nós, das nossas vozes, dos nossos olhares, das nossas provocações.

Nosso professor, Marcelo Bergamin Conter, trouxe leituras que nos fizeram mergulhar na música de um jeito que a gente nem imaginava. Discutimos tudo: produção, consumo, técnica, análise de álbuns, cenas musicais, cultura, gênero… Por mais que tivesse um texto específico, a aula-conversa sempre nos surpreendia.

O fio que costurou tudo foi a música. Mas não só como som – como cultura, como expressão, como cena, como disputa. Do estúdio pra rua, do pop ao rap, da técnica ao grito de torcida. E nada disso se separa. Tudo se conecta de alguma forma. Falamos sobre a cena musical em espaços públicos, sobre como Porto Alegre tem sido silenciada por políticas que enfraquecem a cultura de rua pela atual gestão M3lo. Foi um semestre para perceber a música como reflexo social, mas também como possibilidade de construção.

Enquanto uns foram pra rua sentir o pulso da cidade, outros mergulharam em pesquisas. DJs, produtores, MCs, fãs. Todo mundo ali na aula ou aqui na #MFWA fala de música porque sente a música. A cada aula, a cada debate, ficava claro que isso aqui não podia acabar na última página daquele semestre. E é assim que nasce a Make Fabico Weird Again.

Essa fanzine é um culto à música, um registro do semestre 2024/2, indiretamente agindo como um mobilizador cultural pós enchente, mas também um movimento. Porque a música não existe sem encontro, sem troca, sem som. A #MFWA é um espaço físico e digital para reunir, compartilhar, ampliar. Porque música é isso. E porque o silenciamento, por mais que se tente, nunca é capaz de abafar a potência sônica das linhas de fuga.

Mas às vezes, ele impõe seu desconforto. O silêncio que Dimas deixou não se mede. O pulsar da sua presença também não. Essa primeira edição é nossa, mas também é dele. Que siga ecoando.

Publicada na edição #1 da revista digital Make Fabico Weird Again.
Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico), UFRGS, dezembro de 2024.