Prof. Edi no Jornal da UFRGS

29/04/2005

Confira abaixo a matéria sobre a professora Edi Madalena Fracasso que foi veiculada na edição de março de 2005 do jornal da Universidade.
A reportagem foi publicada na página 12 e apresenta um perfil da professora.

Edi Madalena Fracasso, uma história de sucesso

ADEMAR VARGAS DE FREITAS
Jornalista

A vida da professora Edi Madalena Fracasso é feita de determinação, confiança, esforço, disciplina e bom-humor, coisas que atraem simpatias, abrem portas e facilitam a boa sorte. Foi com essas armas que a normalista com sotaque de colona saiu de Caxias do Sul, aos 17 anos, iniciando uma carreira que a levou a se tornar a primeira brasileira a doutorar-se em Harvard. Atualmente, ela lidera o Núcleo de Gestão de Inovação Tecnológica (Nitec) da Escola de Administração da UFRGS, onde recentemente foi eleita coordenadora da Comissão de Pesquisa.
Desde 1972, a professora Edi Madalena Fracasso leciona métodos de pesquisa no mestrado e no doutorado da Escola de Administração. Ela é representante da Associação dos Antigos Alunos e já foi representante docente. Na graduação, vinha lecionando uma disciplina de elaboração de projetos de trabalho de conclusão de curso, mas parou para se dedicar a duas turmas de uma nova disciplina – Empreendedorismo e Inovação – que por sua indicação foi recém incluída no currículo do curso de Administração.
Ela coordena também o Curso de Doutorado Interinstitucional de Administração, resultante de um convênio com a Universidade de Caxias do Sul. Além disso, trabalha com pesquisa e tem orientandos. É muito trabalho? Não, é puro prazer.

INFÂNCIA E PRAZER
Edi nasceu no dia 8 de abril de 1936, em Otávio Rocha, um distrito de Flores da Cunha na zona colonial italiana, região coberta de parreirais cultivados por famílias cujos filhos, ainda hoje, só têm duas opções de vida: substituir os pais ou ir para a cidade. Assim, a estrutura da terra permanece a mesma, e a localidade não cresce muito.
Quando ela nasceu, Otávio Rocha só tinha uma rua. E continua assim até hoje. É um lugar agradável com o qual Edi não tem grandes ligações: saiu de lá bebê para morar em Caxias do Sul.
O pai, Eleutério Fracasso, com o segundo ano primário incompleto, foi comerciante, caminhoneiro, dono de armazém, de posto de gasolina, de pensão e de restaurante. A mãe, Edmea De Marchi Fracasso, com o quarto ano primário, acompanhava o marido, atuando em seus empreendimentos, que raramente davam certo, e cuidava da casa e dos sete filhos.
Edmea insistia em que todos os filhos estudassem “pelo menos até o Ginásio”. Mas todos foram além: Eloá formou-se em Direito, Luis Carlos completou Ensino Médio, Eunice formou-se em Educação Física, Eni também tirou Direito, Elói formou-se médico e Elenice administradora.
Aos onze anos Edi começou a ajudar o pai no balcão do bar e restaurante, servindo trago aos fregueses ou trabalhando com a mãe na cozinha. Quando terminou o Ginásio, o pai achou que estava na hora de ela fazer um curso de datilografia e conseguir emprego num escritório.
Até a década de 50, em Caxias, só havia Clássico e Científico em colégios masculinos. Para as gurias que terminavam o Ginásio e tinham condições de continuar estudando, só restava o Curso Normal. Então, ela propôs ao pai: “Continuo te ajudando, mas quero fazer o Normal”.
O colégio ficava perto, e o pai montou um ponto para vender sonhos, pastéis e outras comidas às estudantes. No recreio, Edi ficava tomando conta. Valeu a pena, a festa de conclusão do Normal foi linda. “Meu pai se esforçou, me deu um vestido muito bonito. Eu era a primeira pessoa da família que ia tão longe dentro da escola.” Os primos até brincavam com ela: “Mas, tu já não terminou todos os livros?”.
Claro, mas ela queria mais, queria fazer faculdade, queria ser como algumas de suas professoras, que eram de Porto Alegre e davam aula em Caxias. A família tinha receio de deixar que “uma menina com 17 anos” fosse para a Capital. Hoje, lhe parece que a maior distância que percorreu na vida foram os 150 quilômetros que separam Caxias de Porto Alegre.

CARREIRA METEÓRICA
Edi chegou a Porto Alegre, em 1953, disposta a fazer vestibular para Pedagogia, único curso que poderia tirar tendo feito o Normal. Enfrentou provas escritas e orais, um pouco encabulada com seu sotaque. Mas passou e ficou morando num quartinho de sótão na casa da tia Vanda e do tio Hermógenes, irmão do pai, na Avenida Ceará.
O roupeiro era um cabo de vassoura, onde ela pendurava os cabides com as poucas peças de roupa que tinha trazido. O sobretudo preto, que ganhara de um primo em segundo grau, tornou-se seu casacão. Só precisou trocar de lado os botões e as casas.
O primeiro ano foi brabo: tinha que pagar a hospedagem na casa da tia. Começou o Curso de Pedagogia na UFRGS e a fazer concursos públicos. “Estudei como louca. De vez em quando minha tia estranhava ao me ver acordada às cinco e meia da manhã. ‘Ué, levantou cedo pra estudar?’. Que nada, eu nem tinha ido dormir ainda.” Como era “menor”, não podia tirar o título de eleitor, e sem esse documento não podia concorrer a professora estadual. Contentou-se em trabalhar como professora substituta no Colégio Navegantes.
No segundo semestre, recebeu oferta melhor: trabalhar num escritório de engenharia na Rua da Praia, fazendo o serviço de rua, uma office-girl. Aceitou, e ainda conseguiu outra ocupação: ajudar um primo, Aurevil De Marchi, na contabilidade de um escritório de venda de terrenos. E não parou por aí. As aulas na Pedagogia iam das 16h às 20h. Pois ela saía da aula e ainda ia fazer serão no escritório. Com tanto esforço, as coisas começavam a melhorar, e ela pôde comprar um casacão novo.
Em seguida, Edi fez concurso para estatístico do Departamento Estadual de Estatística (depois incorporado à Fundação de Economia e Estatística, que ajudou a criar em 1973 e da qual viria a ser a primeira diretora técnica). Foi nomeada em maio de 1954 e aí, sim, as coisas melhoraram mesmo. Como estatística, passou a ganhar mais do que ganharia como professora. Já não estava tão interessada em voltar para Caxias e ser professora lá, como era o seu sonho inicial.
Depois, a tia se mudou para a Rua São Carlos, no Bairro Floresta, e ela conseguiu um quartinho melhor, que passou a dividir com uma amiga de Caxias. Por essa época começou a mandar algum dinheiro para casa e a economizar para, no fim do ano, dar um presente para a mãe: um conjunto de copos de cristal.

Abrindo caminhos, de concurso em concurso
Em 1958, depois de concluir o Curso de Pedagogia, Edi ganhou uma bolsa para estudar na Escola Nacional de Ciências Estatísticas no Rio de Janeiro, onde passou quase um ano. Na volta, enfrentou outro concurso e foi nomeada para trabalhar como assessora administrativa na Secretaria Estadual de Educação (SEC).
Por essa época, começou a namorar um estudante de Medicina. Tinham intenção de casar, mas só depois que ele se formasse. Como isso ainda ia demorar, ela fez outro vestibular, em 1961, e voltou a estudar na UFRGS, no curso de Ciências Sociais.
Aí ficou sabendo de um curso de especialização em Administração Pública, dado por um grupo de professores do Ponto IV, vindos dos Estados Unidos pelo acordo MEC-USAID. Seguiu o curso e fez uma boa monografia. Isso e a amizade com um professor americano alto e gordo, conhecido entre os alunos como “jóquei de elefante”, lhe abriram novos caminhos.
“Um dia, o professor Gaylord Obern me disse que estavam selecionando pessoas para fazer mestrado nos Estados Unidos e que achava que eu deveria me inscrever, era só dar uma acelerada no Inglês. Me inscrevi no curso intensivo do Instituto Cultural e fiz o Toefel da época. Passei raspando, mas passei.” Em agosto de 1963, Edi estava viajando para a Califórnia.

ALIANÇA PARA O PROGRESSO
Na época, John Kennedy era o presidente dos EUA e havia a Aliança para o Progresso, segundo a qual os países em desenvolvimento precisavam de uma mãozinha para administrar seus recursos naturais. Se houvesse cursos que ensinassem a administrar, o progresso poderia ser acelerado.
Então, o Ponto IV (depois USAID) oferecia formação em Administração Pública na University of Southern California (USC) e em Administração de Empresas na Michigan State University.
“Dentre os onze alunos da UFRGS selecionados para a USC, eu e mais dois, Adão Raupp e Roberto Fachin, viajamos juntos para a Califórnia. Roberto estava recém casado com a Rosa Maria. No futuro, seriam pais de Maria Paula Fachin e sogros do Rudnei Dias da Cunha, professores do Instituto de Matemática.” O grupo chegou a Miami (na costa leste) com destino a Los Angeles (na costa oeste), trocou as passagens de avião por passagens de ônibus e atravessou os Estados Unidos.
Além de estudar muito, Edi conheceu bastante os Estados Unidos, em viagens proporcionadas pela USAID. Com os seus colegas de universidade, ficou um tempo em San Francisco para conhecer o sistema prisional de Oakland, esteve no Vale do Tennessee, visitou a barragem Hoover, próximo a Las Vegas, esteve em Washington e Nova York.
Voltou cheia de entusiasmo e idéias, mas teve de adaptá-las rapidamente à realidade do interior do Brasil. Era 1965, e o Instituto de Administração tinha feito um convênio com a Sudesul para oferecer aulas de administração a prefeitos da fronteira sudoeste, do Mato Grosso ao Rio Grande do Sul.
Sua primeira atividade foi em Aquidauana (MS). Foi de avião até Campo Grande, de trem até Aquidauana e de charrete até o Hotel Palace, que tinha janelas com pedaços de madeira no lugar dos vidros, camas patente, colchões sujos e marcas de mosquito esmagados nas paredes. Mas o banheiro coletivo, no fundo do corredor, tinha água quente: bastava juntar os dois fios soltos acima do chuveiro.

Doutorado? Só se for em Harvard!
No final da década de 60, Edi participou de um projeto de pesquisa para a Fundação Ford sobre Aspectos Políticos e Administrativos do Rio Grande do Sul. Esse projeto oferecia duas bolsas de doutorado, uma na área de Política e outra na área de Administração, mas os colegas da Administração não se interessaram: “É contigo, Edi”. E Edi respondia: “Só se for em Harvard!”. Eles davam risada, achavam muito engraçada a pretensão dela.
Não demorou três meses, apareceu em Porto Alegre um professor da Universidade de Harvard, Russell Davis, que estava fazendo um projeto para a Secretaria de Educação. Edi trabalhou com ele durante um tempo, porque nessa época se dividia entre a SEC e a UFRGS. Como já dominava bem o inglês e conhecia o sistema educacional do Rio Grande do Sul, ficou como assessora e intérprete dele. “Um dia, perguntei a ele se eu tinha alguma chance de estudar em Harvard. Ele me deu uma carta de recomendação, eu fiz a application e fui admitida.”
Em 1970 ela estava em Massachussets, fazendo o doutorado na Universidade de Harvard, com uma bolsa da Fundação Ford. “No Brasil, fui a primeira mulher a fazer o doutorado em Harvard, agora já tem outras, mas no Rio Grande do Sul ainda sou a única.” Ter estudado em Harvard lhe abriu outras portas. Em 1971/1972, o regime militar criou o Projeto Saci, que visava a construir uma rede de telecomunicação para o Brasil e pretendia lançar um satélite com fins educacionais. Isso foi visto por outros países sul-americanos como uma ameaça a sua identidade cultural. Eles também queriam lançar um satélite. O projeto para a implantação de um sistema regional de tele-educação para esses países levou-a a ser convidada a fazer uma consultoria para a Unesco.
Edi passou um ano viajando pela América do Sul. O projeto não seguiu adiante, mas para ela a experiência foi muito boa. “Passei a falar espanhol sem sotaque brasileiro e entendi como o Brasil é visto pelos países limítrofes: um país imperialista.”

ALUNOS E BOLSISTAS
“Em janeiro, terminei o mandato de vice-coordenadora do PPPGA, que ajudei a criar em 1972 e do qual fui coordenadora em dois mandatos. O coordenador do mandato que acabou, professor Paulo Zawislak, foi meu bolsista recém-doutor e é filho de uma ex-aluna minha. O professor Luiz Felipe Nascimento, que assumiu o posto, também foi meu aluno e bolsista recém-doutor. E a nova vice-coordenadora, professora Lilia Maria Vargas, foi minha aluna. Antes do professor Zawislak, a coordenadora foi a professora Valmiria Piccinini, que também foi minha bolsista recém-doutora.”

EM CONSTRUÇÃO
“Embora passe bastante tempo na Escola de Administração, minha vida não é só aqui dentro. Não tive filhos, mas tenho 14 sobrinhos com os quais me relaciono muito bem. Minha mãe tem 92 anos e mora comigo, tenho que cuidar dela. Fui afortunada por ter construído a vida de tal forma que me sinto uma pessoa quase realizada. Só estarei realizada mesmo quando morrer, porque estou sempre em construção.”

ROCK E PAGODE
“ Adoro cinema e teatro. Adoro dançar. Em todas as festas da escola, quem começa o baile sou eu. Danço muito e danço de tudo: samba, rock, pagode, valsa, junto ou separada. Também adoro viajar. Conheço quase todos os países das Américas, alguns da Europa e da África. Mas nunca tive um mês inteiro de férias.Viajo quase sempre para congressos, visitas técnicas, programas de intercâmbio, e tiro uns dias para ver outra cidade.”

NOIVA TRANQÜILA
“Fui noiva diversas vezes. Primeiro, com um estudante de Medicina. Quando eu quis acabar o noivado, ele ficou tão doido que resolvi adiar até viajar para os EUA. Nem assim ele sossegou: envolvia os meus amigos, dizia que ia se matar, fez um drama. Mas o noivado acabou, e ele não se matou. Nos EUA fui noiva de um mexicano, Ernesto, e de um japonês, Yotaro. Depois, namorei um americano, Bill, num clima de romantismo. Muitas vezes, quando eu viajava, ele ia ao meu encontro. Namoramos em diversos lugares da Europa e da América do Sul. Nossa música era ‘Strangers in the Night’. Foi lindo, mas acabou, porque o namoro interferia no meu doutorado. De volta ao Brasil, estive noiva outra vez. Nunca me casei, mas foi ótimo ter namorado tanto.”

ATRÁS DO SONHO
“Conselhos aos alunos? Não te acomodes, vai atrás do teu sonho. Nenhuma instituição está fora de alcance se tiveres inteligência e empenho. Tem menos concorrentes por vaga no MIT ou em Harvard do que na UFRGS. Há que tentar, e procurar fazer cursos em mais de uma instituição. Apesar de toda a minha paixão pela UFRGS, me considero afortunada por ter feito a graduação aqui, o mestrado numa escola e o doutorado noutra.”

XÔ, APOSENTADORIA
“Gosto de mudança. Por isso coordeno o Núcleo de Gestão da Inovação Tecnológica, uma área nova, que não tinha no programa. Gosto de coisas novas e acho que é isso que alimenta a minha vida, que me deixa ativa e sem nenhuma vontade de me aposentar. Eu não gostaria de ser empurrada para fora da Universidade. Gostaria de eu mesma decidir sair. Mesmo que possa ficar como professor colaborador, não será a mesma coisa, não estarei no exercício pleno da minha função. Espero que a lei seja mudada ampliando para 75 anos a idade da compulsória.”