Doutoranda PPGA/EA/UFRGS lança livro de Contos

19/04/2006

Catálogo de impossibilidades

Monique Revillion, doutorando do PPGA/EA/UFRGS, autografa hoje seu livro de estréia, “Teresa, que Esperava as Uvas”

Uma prosa que busca a sensação mais do que a descrição, personagens no limite do desespero, mas ainda sedentos de uma certa delicadeza para a qual parece não haver lugar. A gaúcha de São Leopoldo Monique Revillion, 45 anos, estréia em livro com os contos Teresa, que Esperava as Uvas (Geração Editorial, 160 páginas, R$ 28), com lançamento hoje, às 19h30min, na Palavraria.

Já saiu de moda sem ter dado nenhum resultado prático a velha discussão que tenta enquadrar determinado tipo de literatura como “escrita feminina” – numa época em que Patrícia Melo escreve romances com tantos crimes e ação quanto os de Marçal Aquino, a discussão parece realmente não ter mais razão de ser. Há, contudo, um determinado número de escritoras que, mais do que a um “estilo” feminino, a cada novo livro filiam-se a uma certa temática do gênero, como Lívia García-Roza ou Cíntia Moscovich, por exemplo, autoras que conferem um tom épico à matéria íntima e que transformam em proeza heróica o ato da descoberta interior. É a esse grupo que vem se unir Monique.

Com apresentação de Luis Fernando Verissimo, Teresa… enfeixa 36 contos, histórias de efeito concentrado, não ultrapassando cinco, seis páginas as mais extensas. Dessa brevidade e de uma unidade temática que, sutil, atravessa todas as histórias, resulta uma unidade incomum em livros de estréia. Da matéria-prima cotidiana, a autora busca uma prosa de associações inusitadas e de sensações imprecisas para escavar pequenos relatos de tristeza, fracasso e desespero, como num melancólico catálogo de promessas abortadas.

Textos detalham transformações íntimas dos personagens

São decepções que valem uma vida. O pai abandonado pela esposa que cria a filha com sacrifício para partilhar de uma felicidade que não vem, em À Janela. O casal cujo amor juvenil se perde irremediavelmente após uma separação de 20 anos, em Coleção. A menina que não consegue lidar sem crueldade com uma perda, em Epitáfio. As solidões que por pouco não se encontram e se correspondem em Sortimento. O vigia que recebe de um morador da rua um presente que se revelará efêmero e frustrante, no belo e desconcertante Presente.

Na maioria dos contos de Teresa, que Esperava as Uvas, a trama é pretexto, às vezes um original ponto de partida do qual Monique Revillion desenrola uma meada de sensações e epifanias tristes, porque sem utilidade para aqueles que as recebem. É assim na história do policial militar deixado vigiando o local de uma chacina, em Soldado Ezequiel, ou na da garota cujo amadurecimento triste se dá nas sinaleiras em que pede trocados, em Uma História de M. O tom geral do volume é o de uma atmosfera delicada e sensória – criada pela descrição minuciosa das transformações íntimas dos personagens -, perturbada, quando não aviltada, por uma conclusão que progride pelo caminho errado, por uma cena externa que lembra a inconstância do destino humano, por uma impressão cruel que se instala e se recusa a ir embora. O tempo, a solidão, a indiferença e a incomunicabilidade quase agressiva com o outro são os artífices de cada uma das quedas engendradas por Monique Revillion para suas criaturas, a maioria ansiosa por fugir de suas vidas um minuto sequer, um desejo nascido para ser negado.

Talvez o que perturbe mais ao fim das 160 páginas da obra é a sensação de impossibilidade que emana do conjunto, uma certa inutilidade das boas ações e dos afetos que vitima todos os viventes das histórias de Monique Revillion. Um bom exemplo é a Teresa do conto que dá título ao livro, viúva que deseja fugir das lembranças do marido na comunidade em que vive, mas que se vê retida, obrigada a esperar a vindima em saldo de uma dívida com o bolicheiro do lugar. Um trato que se revelará amargo.

CARLOS ANDRÉ MOREIRA
Zero Hora
Segundo Caderno
Data: 28 de março de 2006