EA na Imprensa

01/04/2005

O Cupido Itamar

O caso de amor entre o brasileiro e o carro 1.0 teve um cupido: Itamar Franco. Em janeiro de 1993, o então presidente autorizou seu ministro da Indústria e Comércio, José Eduardo Andrade Vieira, a negociar um pacto entre trabalhadores, governo federal e indústria automobilística para manter empregos e aumentar vendas. A solução foi incentivar a produção dos carros populares, uma expressão nova na época, na tentativa de aumentar o acesso da população ao automóvel zero quilômetro.

O preço médio dos veículos deveria estar entre US$ 7 mil. Assim, as montadoras se comprometeram a não fazer demissões por dois anos e, em contrapartida, ganharam isenção de IPI para produzir carros de mil cilindradas. Os trabalhadores comprometeram-se a suspender qualquer tipo de greve.

A alíquota foi a níveis simbólicos – 0,1% – por lei, o governo não poderia aboli-la. Em março, as vendas de veículos 1.0 saltaram, passando de 15,6% do mercado em 2002 para 40% ao final de dois anos de pacto. Ao mesmo tempo, Itamar negociou com a Volkswagen a volta da fabricação do Fusca, interrompida em 1987.

– Foram dois episódios (o pacto e a volta do Fusca) sem muita ligação. O Itamar tratava o assunto com a Volks diretamente pelo gabinete da Presidência – diz Vieira.

Em quatro anos, o Fusca vendeu 47.684 unidades, número considerado modesto pela Volkswagen. Mesmo com motor 1.6, o modelo ganhou desconto no imposto.

O sucesso do carro barato e de baixa cilindragem é um fenômeno típico brasileiro. Ele chegou ao Brasil nos anos 50 com o Fusca (que vendeu 3.037.185 unidades entre 1959 e 1996) e se consolidou no início dos anos 90 com a Fiat, que lançou o Uno 1.05 em 1984. Em 1990, o governo Fernando Collor de Mello reduziu alíquotas do IPI para o carro entre 800 e mil cilindradas. A Fiat criou a versão 1.0 do Uno, o Mille, apenas 60 dias após a decisão.

De 1990 até a assinatura do acordo entre montadoras e governo, o Uno passou de 4,3% do total das vendas para 15,6%, alcançando a liderança do mercado em 1991 por quatro meses consecutivos.

– O carro brasileiro continua sendo um dos mais baratos do mundo. Mas, hoje, o pequeno carro de baixa cilindrada também é popular na Europa – explica o professor Paulo Zawislak.

Fonte:
Zero Hora
19/03/05
editoria: Economia – página 18