Teste positivo para o SARS-CoV-2 mais de 60 dias após o aparecimento dos sintomas??? Leiam essa descrição de caso.

Uma mulher de 50 anos de idade com febre de 38,6ºC deu entrada em um hospital em Taiwan. Ela não tinha nenhum outro sintoma e era proveniente de Wuhan, China. Por conta disso, foi transferida para uma unidade de isolamento de suspeitos de COVID-19.

Suábes de garganta e amostras de escarro foram positivas para o SARS-CoV-2 por RT-PCR (teste padrão para detecção do vírus). Os testes foram repetidos quase todos os dias durante a sua internação. Amostras de fezes e de gargarejo com solução salina também foram positivas para o vírus. Além dos testes moleculares, o vírus também foi cultivado em laboratório.

Uma queda na carga viral (número de partículas virais) foi observada após uma semana de internação, porém o vírus continuou a ser detectado por RT-PCR até 63 dias após o aparecimento dos sintomas. Apesar do vírus não conseguir mais ser cultivado em laboratório após o 18º dia, a detecção do RNA viral por RT-PCR significa que ainda podem existir partículas virais viáveis passíveis de serem disseminadas.

Os anticorpos contra o SARS-CoV-2 foram detectados a partir do 10º dia.

Os autores comentam que o período de contágio da COVID-19 deve durar, pelo menos, mais uma semana após a cura clínica e que a disseminação prolongada do vírus também já foi encontrada em indivíduos assintomáticos.

FONTE: Prolonged Virus Shedding Even after Seroconversion in a Patient with COVID-19, Wang-Da Liu, Sui-Yuan Chang, Jann-Tay Wang, Ming-Jui Tsai, Chien-Ching Hung, Chia-Lin Hsu, Shan-Chwen Chang. Journal of Infection (2020), doi https://doi.org/10.1016/j.jinf.2020.03.063

COVID-19 e dengue juntas??? Isso é possível?

Em carta ao editor da revista Travel Medicine and Infectious Disease, pesquisadores brasileiros alertam sobre o perigo para o sistema de saúde brasileiro da combinação de duas doenças infecciosas: a COVID-19 e a dengue.

Os pesquisadores alertam que o Brasil está passando por uma epidemia de dengue ao mesmo tempo em que os números de infectados pela COVID-19 têm aumentado. Os casos de dengue cresceram até na região Sul do país, com registro de óbitos.

É sabido que há um aumento no número de casos de dengue nos meses de abril e maio devido à chuva e altas temperaturas. Além disso, estima-se que o pico da COVID-19 no Brasil seja no final de abril ou início de maio, quando as doenças respiratórias são mais comuns. Isso significa que as duas doenças podem ocorrer ao mesmo tempo no nosso país.

É difícil distinguir a dengue da COVID-19 porque elas têm sinais clínicos semelhantes. Alguns casos diagnosticados inicialmente como dengue depois foram confirmados como COVID-19. Além disso, não sabemos nada sobre co-infecção com os dois vírus.

A co-ocorrência da dengue com a COVID-19 pode causar uma pressão muito grande no já frágil sistema de saúde brasileiro.

QUE TAL FAZERMOS A NOSSA PARTE PARA EVITAR ISSO? VAMOS ELIMINAR OS FOCOS DO MOSQUITO DA DENGUE E FICAR EM CASA PARA EVITAR A COVID-19.

FONTE: COVID-19 and dengue fever: A dangerous combination for the health system in Brazil. Lorenz C, Azevedo TS, Chiaravalloti-Neto F. Travel Med Infect Dis. 2020 Apr 9:101659. doi: 10.1016/j.tmaid.2020.101659.

Quer saber mais coisas que os cientistas estão descobrindo com as sequências do novo coronavírus?

Muito pouco é conhecido sobre o novo coronavírus causador da COVID-19, incluindo sua biologia, origem ou tratamento.

Autores brasileiros, italianos e americanos avaliaram as sequências do genoma (material genético) de todos os isolados de SARS-CoV-2 sequenciados até o momento em que o artigo foi escrito. Com essas sequências, eles fizeram análises filogenéticas (métodos moleculares que objetivam avaliar a história evolutiva dos organismos) e puderam traçar o caminho de disseminação mundial do vírus.

Apesar do pouco tempo desde o início da pandemia, os isolados analisados exibiram um grau substancial de heterogeneidade genética (15%). Isso não é necessariamente surpreendente. O SARS-CoV-2 é um vírus de RNA e esse tipo de vírus evolui muito rapidamente pelo acúmulo de mutações.

A origem da pandemia foi corroborada como sendo a cidade de Wuhan, na China. A disseminação do vírus para outros países teria ocorrido inicialmente de Wuhan para a Tailândia e os primeiros casos reportados nos EUA seriam ligados a Guandong, China.  

O uso de análises filogenéticas pode auxiliar na compreensão da história da pandemia de COVID-19.

FONTE: The global spread of 2019-nCoV: a molecular evolutionary analysis. Benvenuto D, Giovanetti M, Salemi M, Prosperi M, De Flora C, Junior Alcantara LC, Angeletti S, Ciccozzi M. Pathog Glob Health. 2020 Mar;114(2):64-67. doi: 10.1080/20477724.2020.1725339.

Cuidados com a alimentação em tempos de pandemia.

Muitos brasileiros estão em quarentena em suas casas devido à pandemia de COVID-19. A rotina de todos nós mudou bastante em vários sentidos, sendo que muitos estão consumindo alimentos preparados em casa. Por conta disso, devemos tomar um cuidado redobrado nesses tempos de coronavírus.

Os cuidados devem iniciar com as compras no supermercado. Estes estabelecimentos têm tomado medidas de higiene de forma a minimizar os riscos de contaminação, além de estarem proporcionando horários separados para idosos fazerem compras, já que este é um dos grupos de risco para a doença. Mas tentem não guardar as sacolas plásticas do supermercado para outros usos em casa. Essas sacolas podem ser veículos de transmissão do vírus. Uma boa hora para introduzirmos o hábito do uso de sacolas retornáveis, não é?

Já é sabido que o vírus pode permanecer viável (capaz de causar infecção) em superfícies como papel, plástico, etc. Portanto, as embalagens de alimentos devem ser higienizadas com água e sabão, álcool 70% ou solução de água sanitária antes de serem guardadas.

A maioria das intoxicações alimentares acontece no ambiente doméstico, portanto todo cuidado é pouco. Não queremos ficar a salvo do SARS-CoV-2 e ter uma intoxicação alimentar, não é mesmo? Os alimentos devem ser cozidos adequadamente e alimentos consumidos crus devem ser higienizados com uma solução de água sanitária e, posteriormente, lavados com água limpa.

Atenção: usar o telefone celular enquanto cozinha é uma prática pouco aconselhável, já que seu uso durante as refeições aumenta o risco de contaminação por microrganismos que possam estar na sua superfície.

BOA HORA PARA MUDANÇA DE HÁBITOS, NÃO É?

FONTE: Food (in)security in Brazil in the context of the SARS-CoV-2 pandemic. Oliveira TC, Abranches MV, Lana RM. Cad Saude Publica. 2020 Apr 6; 36(4):e00055220. doi: 10.1590/0102-311X00055220. eCollection 2020

O uso desnecessário de luvas cirúrgicas representa um risco para contaminação cruzada?

Veja essa contribuição da Dra. Sandra Mendes, da EPAGRI-SC.

Sabemos que vivemos tempos sem precedentes com o evento da pandemia do COVID-19. Estamos sendo bombardeados com informações para nos capacitar, evitar o contágio e consequentemente não adoecer. Desta enxurrada de informações, temos as recomendações para uso de álcool (70%), álcool na forma de gel e lavar as mãos com sabão por pelo menos 20 segundos (procedimento correto para higienização das mãos).  Ultimamente, tem sido orientado o uso correto de máscara de pano pela população.

 Já viu o SARS-CoV-2? O que não é visto, não é lembrado.

Nossa capacidade visual não nos permite, a olho nu, visualizar o coronavírus. Observar estruturas microscópicas com auxílio de equipamentos chamados microscópios é fascinante e permite que alguns de nós tenham a oportunidade de ver o vírus e estudá-lo.  Com isso, temos uma vantagem que é a percepção de imaginar quais as possibilidades de contaminação em nosso dia a dia. Infelizmente, a maioria da população não tem esta percepção de que o vírus pode estar presente em diferentes tipos de superfícies e suspensões.

O uso de luvas pode evitar ou reduzir o espalhamento do SARS-CoV-2?

SIZUN et al. (2020) sugeriram que superfícies e suspensões podem ser consideradas como possíveis fontes de contaminação que podem levar a infecções hospitalares por coronavirus em humanos (HCoV) e devem ser desinfetadas adequadamente.

Entre as superfícies estudadas, destacamos a luva cirúrgica de látex que foi testada com duas linhagens de HCoV (229E e OC43). Nas condições utilizadas nos experimentos, a persistência do vírus foi até 6 horas.

Segundo informativo da ANVISA/OMS, as luvas são recomendadas para os profissionais de saúde e somente no momento do procedimento por dois motivos importantes: i) evitar que os vírus presentes nas mãos transitoriamente sejam transferidos para o paciente e de um paciente para outro e, ii) reduzir o risco dos próprios profissionais de saúde adquirirem infecções dos pacientes.

O uso de luvas em situações não recomendadas representa um desperdício de recursos sem que, necessariamente, leve à redução de transmissão cruzada do vírus e pode resultar em perda da oportunidade para higienização das mãos.  O uso de luvas não substitui a necessidade de higienização das mãos com preparação alcoólica ou água e sabonete.

CUIDADO COM A FALSA SENSAÇÃO DE SEGURANÇA AO USAR LUVAS DE LÁTEX. É PREFERÍVEL NÃO USAR AS LUVAS E HIGIENIZAR AS MÃOS FREQUENTEMENTE.

VEJA AS DIRETRIZES DA OMS PARA O USO ADEQUADO DE LUVAS CIRÚRGICAS.

FONTE: Survival of human coronaviruses 229E and OC43 in suspension and after drying on surfaces: a possible source of hospital-acquired infections. Sizun J, Yu MW, Talbot PJ. J Hosp Infect 2000;46:55e60.

Afinal, como a COVID-19 mata?

A incerteza sobre se é o vírus ou é a resposta do sistema imunológico (sistema existente em nosso organismo para combate às infecções) que causa o óbito dos pacientes tem dificultado a escolha da melhor forma de tratamento para casos de doença severa. Os dados clínicos sugerem que o sistema imunológico tem um papel nos óbitos.

Enquanto os hospitais no mundo todo ficam superlotados de pacientes da COVID-19, os médicos estão tentando descobrir o melhor tratamento, tendo como fontes artigos que estão sendo publicados sem revisão pelos pares (os artigos normalmente são duramente avaliados antes de serem aceitos para publicação, mas isso não vem ocorrendo com essa pandemia). Alguns médicos estão tratando os pacientes com coquetéis de terapias não comprovadas cientificamente, em um ato desesperado para salvar vidas.

Inibidores do sistema imunológico têm sido testados clinicamente, porém isso preocupa porque, se houver uma infecção viral ativa, ela não será combatida.

Existe esperança de que se consiga uma terapia combinada, com uso de inibidores que não suprimem completamente o sistema imunológico em combinação com drogas antivirais que irão agir diretamente sobre o vírus.

O artigo finaliza dizendo que a única coisa responsável a ser feita é a realização de testes clínicos padronizados, de forma a saber se a terapia utilizada é realmente eficiente.

AINDA NÃO HÁ CONSENSO NA COMUNIDADE CIENTÍFICA SOBRE A FORMA COMO A COVID-19 CAUSA A MORTE. VAMOS TER UM POUCO DE PACIÊNCIA E AGUARDAR OS ESTUDOS QUE JÁ ESTÃO EM ANDAMENTO. SÓ ASSIM TEREMOS SEGURANÇA NA FORMA DE TRATAMENTO A SER ADOTADA. TENTATIVAS DESESPERADAS SÓ TÊM SENTIDO NOS CASOS MAIS GRAVES DA DOENÇA PARA TENTAR EVITAR O ÓBITO DO PACIENTE.

FONTE: How does COVID-19 kill? Uncertainty is hampering doctors’ ability to choose treatments. Heidi Ledford. https://www.nature.com/articles/d41586-020-01056-7

Será que existe correlação entre a COVID-19 e o clima?

A COVID-19, causada pelo coronavírus SARS-CoV-2, começou em áreas de temperatura baixa na China. Outros países em que o surto surgiu seguem o mesmo padrão (latitude e temperaturas semelhantes). Porém, a doença também se espalhou para países com temperatura mais elevada, como Índia, Tailândia e países do Oriente Médio, provavelmente devido às viagens internacionais.

A dinâmica de transmissão do vírus depende de vários fatores, como densidade populacional, higiene, falta de ventilação, etc. Outro fator que pode influenciar é a utilização de ar condicionado, que tende a manter uma temperatura ambiental mais baixa, podendo ter um papel na disseminação do vírus em ambientes fechados.

A sazonalidade e a dinâmica da COVID-19 ainda não são conhecidas. Os autores alertam que maiores estudos são necessários para identificar as condições ambientais que favorecem a disseminação do vírus.

A QUESTÃO PARECE SER BEM COMPLEXA. COM CERTEZA ISSO IRÁ SER ESTUDADO DETALHADAMENTE PELOS CIENTISTAS.

FONTE: COVID-19: A Relationship to Climate and Environmental Conditions? George Kroumpouzos, Mrinal Gupta, Mohammad Jafferany, Torello Lotti, Roxanna Sadoughifar, Mohamad Goldust. Dermatol Ther. 2020 Apr 10:e13399. doi: 10.1111/dth.13399.

Será que países tropicais, como o Brasil, devem temer picos elevados de casos de COVID-19?

O editorial da revista PLOS NEGLECTED TROPICAL DISEASES de 10 de abril de 2020 chama atenção para esse problema.

Os informes da Organização Mundial da Saúde mostram o rápido avanço da COVID-19 na Europa e Estados Unidos. Atualmente, nações de menor renda, entre elas o Brasil, estão começando a apresentar um aumento no número de casos, mas os números ainda são pequenos. Apesar dessas nações serem altamente populosas, ainda representam apenas 1% dos casos confirmados no mundo.

Quase certamente essa situação vai se alterar nas próximas semanas ou meses. Pode-se imaginar que a natureza sazonal dos vírus respiratórios se estenda ao SARS-CoV-2. O pico da infecção nos países do hemisfério norte está sendo agora (inverno / primavera de lá), mas existe uma alta probabilidade que ele irá avançar para os países tropicais do hemisfério sul ao longo do ano.

Se o SARS-CoV-2 se tornar um vírus respiratório importante nos países tropicais mais pobres, poderá haver níveis de morbidade (conjunto de pessoas doentes) e mortalidade globais sem precedente.

VAMOS TOMAR OS CUIDADOS NECESSÁRIOS PARA QUE ISSO NÃO ACONTEÇA. SIGAM AS INSTRUÇÕES DAS AUTORIDADES DE SAÚDE.

FONTE: Will COVID-19 become the next neglected tropical disease? Hotez PJ, Bottazzi ME, Singh SK, Brindley PJ, Kamhawi S (2020) PLoS Negl Trop Dis 14(4): e0008271. https://doi.org/10.1371/journal.pntd.0008271

O que o genoma (material genético) do SARS-CoV-2 pode nos dizer?

Apesar da taxa de letalidade do SARS-CoV-2 (vírus responsável pela COVID-19) ser menor do que a dos dois coronavírus relacionados a ele que causaram epidemias recentemente (o da SARS em 2002/2003 e o da MERS, que surgiu em 2015 e é responsável por um surto atual na Península Arábica), o SARS-CoV-2 é mais infeccioso e pode ser transmitido por indivíduos assintomáticos ou pré-sintomáticos.

À medida que a epidemia de COVID-19 progride, o genoma dos vírus circulantes tem sido sequenciado. Como esperado, os genomas das primeiras amostras chinesas revelaram-se muito similares, mas atualmente já são detectados grupos de vírus contendo variações genéticas entre eles.

Essa variação genética irá nos ajudar a ver a disseminação do vírus pelo planeta e avaliar de onde os casos foram importados, auxiliando os estudos de epidemiologia (ciência que estuda a evolução das doenças). Porém, à medida que a epidemia crescer, será impossível traçar cadeias diretas de transmissão entre as pessoas devido à alta capacidade de disseminação do vírus.

ESSAS INFORMAÇÕES VÃO SER MUITO IMPORTANTES PARA O ESTABELECIMENTO DAS POLÍTICAS PÚBLICAS DE SAÚDE RELACIONADAS À COVID-19.

FONTE: A Genomic Perspective on the Origin and Emergence of SARS-CoV-2. Zhang Y-Z and Holmes E C. Cell (2020), https://doi.org/10.1016/j.cell.2020.03.035