A Revolução do mRNA: Cinco Anos que Transformaram a Medicina Brasileira

Redigido por Mariana Rosa e Vinícius Pellini Souza, Graduandos em Biotecnologia, UFRGS.

Revisado por Dra. Adriana Simon Coitinho, Professora Associada do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS.

Em 2026, comemoraremos um marco significativo para a ciência brasileira: cinco anos desde que as primeiras doses de vacinas baseadas na tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) começaram a ser administradas em larga escala no país. O que em 2021 era visto como uma medida emergencial para a pandemia de COVID-19, atualmente se firmou como uma das mais significativas revoluções da medicina contemporânea. A introdução dessa tecnologia no Sistema Único de Saúde (SUS) não só salvou milhões de vidas, como também inaugurou uma nova era de tratamentos personalizados e respostas ágeis a doenças que antes nos preocupavam.

Para compreender o funcionamento dessa vacina, pense que nossas células são pequenas fábricas que produzem proteínas de acordo com manuais de instruções. As vacinas convencionais costumam introduzir um vírus enfraquecido ou fragmentos dele no organismo. Por outro lado, a vacina de mRNA não inclui o vírus. Ao invés disso, ela fornece um “manual de instruções” temporário (o mRNA) resguardado por uma pequena camada de gordura. Este manual instrui nossas células a produzirem apenas uma parte inofensiva do vírus — no caso da COVID-19, a conhecida proteína “Spike”. Logo que a proteína é produzida, o sistema imunológico a identifica como um agente invasor e gera defesas robustas, mesmo sem termos sido expostos ao vírus real.

Apesar de ter se tornado famosa em 2021, essa descoberta não foi feita da noite para o dia. A criação das vacinas de mRNA é resultado de décadas de dedicação, conduzida principalmente pelos pesquisadores Katalin Karikó e Drew Weissman, os quais foram agraciados com o Prêmio Nobel de Medicina por essa conquista. Por muitos anos, o principal obstáculo era que o corpo eliminava o mRNA antes que ele tivesse a chance de transmitir a mensagem. A grande mudança ocorreu quando eles aprenderam a alterar quimicamente a molécula para que ela não fosse detectada pelo radar inicial do sistema imunológico, o que permitiu que as instruções fossem lidas com segurança.

A velocidade com que essas vacinas foram disponibilizadas no mercado em 2021 levantou questionamentos na época; no entanto, hoje entendemos que essa celeridade é atribuída à tecnologia utilizada. Ao contrário das vacinas tradicionais, que precisam do cultivo de vírus em ovos de galinha ou grandes tanques biológicos (um processo demorado e complexo), o mRNA é gerado sinteticamente em laboratório. Isso implica que, assim que o código genético de um novo vírus é identificado, os cientistas podem “inserir” a nova fórmula da vacina em poucos dias. É como atualizar o software de um computador sem a necessidade de substituir os componentes físicos (o hardware).

Hoje em dia as utilizações do mRNA extrapolaram o coronavírus. A ciência já emprega essa mesma base para criar vacinas mais eficientes contra a gripe sazonal, ajustando-as rapidamente às cepas que circulam anualmente no Brasil. Ademais, estamos no começo da era das “vacinas terapêuticas” para o câncer. Pesquisas avançadas já empregam o mRNA para treinar o sistema imunológico dos pacientes a reconhecer e eliminar tipos específicos de câncer, como o melanoma, atuando quase como um tratamento personalizado para cada indivíduo.

Ao refletir sobre os últimos cinco anos, fica claro que a Imunologia avançou décadas em apenas cinco anos. O êxito do mRNA no Brasil destacou a relevância de investir em ciência básica e confiar na tecnologia. O que teve início como uma resposta a uma crise global transformou-se na nossa ferramenta mais adaptável para o futuro, oferecendo promessas de soluções para doenças complexas, como HIV e malária, e assegurando que, diante da próxima ameaça, estaremos mais preparados do que nunca.

Fontes utilizadas:

Com novas parcerias, Instituto Butantan vai produzir remédios para câncer, esclerose múltipla, e vacinas de VSR e mRNA. Disponível em: <https://butantan.gov.br/noticias/com-novas-parcerias-instituto-butantan-vai-produzir-remedios-para-cancer-esclerose-multipla-e-vacinas-de-vsr-e-mrna->. Acesso em: 07 maio. 2026.

Como a pandemia impulsionou a revolução do mRNA na ciência. Disponível em:<https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/01/17/cinco-anos-depois-da-1a-dose-de-v acina-contra-a-covid-19-no-brasil-como-a-pandemia-impulsionou-a-revolucao-do-mr na-na-ciencia.ghtml>. Acesso em: 07 maio. 2026.

MERCK SHARP &AMP; DOHME LLC. A Phase 2, Randomized, Double-Blind, Placebo- and Active-Comparator-Controlled Clinical Study of V940(mRNA-4157) Plus Pembrolizumab Versus Placebo Plus Pembrolizumabin Participants With First-Line Advanced Melanoma (INTerpath-012). [S.l.]: clinicaltrials.gov, 8 abr. 2026. Disponível em: <https://clinicaltrials.gov/study/NCT06961006>. Acesso em: 07 maio. 2026.

Nobel Prize in Physiology or Medicine 2023. Disponível em: <https://www.nobelprize.org/prizes/medicine/2023/press-release/>. Acesso em: 07 maio. 2026.

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