As máscaras estão caindo ao redor do Brasil, mas será que já está na hora?

Bruno Lopes Breda – Estudante de Medicina da UFRGS

Carlos Eugênio Silva – Professor do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS 

Ao redor do país, diversas regiões já tornaram o uso de máscaras opcional em locais abertos: entre as principais metrópoles, podemos criar uma lista em que constarão Belo Horizonte, Florianópolis, Teresina, São Luís… A cidade de Porto Alegre, inclusive, tomou uma decisão de maior ousadia ao desobrigar uso de máscaras tanto em locais abertos quanto fechados, assim como outras capitais – Rio de Janeiro, São Paulo, Natal e Rio Branco. O debate sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras, talvez, divida com o próprio coronavírus o protagonismo da pandemia, mas será que as máscaras, símbolo dos últimos 2 anos, já podem ser flexibilizadas?

A variante ômicron, somada às festividades de ano novo, fez com que os números da pandemia apresentassem intensa piora, com aumento expressivo tanto em casos – os quais atingiram recordes históricos nas primeiras semanas de janeiro de 2022 – quanto em internações e mortes: o Brasil voltou a somar mais de 1.000 mortos em um dia após muito tempo. Nesse cenário, decisões sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras que vinham sendo debatidas desde o último trimestre de 2021 acabaram por ser adiadas.

Com a decisão dessas prefeituras pela desobrigação do uso de máscaras em ambientes fechados, nos resta esperar pelas repercussões epidemiológicas nos próximos dias. É difícil estabelecer um cenário futuro com grande grau de certeza: a vacinação está trazendo resultados maravilhosos nos números de COVID-19, evidenciados por quedas tanto em mortalidade quanto em número de infecções, mas também será a primeira vez em que cidades inteiras voltarão a patamares pré-pandemia de cuidados contra a COVID-19.

Existem pistas tanto positivas quanto negativas para imaginarmos o cenário a partir de agora: no Brasil, apesar de a mobilidade ter sido altíssima durante o carnaval e de os cuidados individuais terem diminuído expressivamente, não estamos vendo grande aumento do número de casos. Entretanto, o SARS-CoV-2 já frustrou nossas expectativas diversas vezes nesses 2 anos de pandemia, e o risco de novas variantes segue existindo, ainda mais se considerarmos que existem regiões no Brasil que ainda não atingiram sequer os 70% de vacinados que eram preconizados antes da ômicron, a exemplo do Acre, Roraima e Rondônia.

Pensando de uma forma global, as liberações podem ter sido contraditórias. Na China a média móvel em 15 de março último foi seis vezes maior que na semana anterior e na Coréia do Sul, na mesma semana, os óbitos foram os maiores já registrados. Na Europa, países da União Européia e Reino Unido tiveram aumentos de infecção de até 83%*. Também não anima o fato de termos um continente inteiro onde a vacinação ainda não atingiu percentuais adequados de imunização – a África poderá ser berço de novas variantes se não receber ajuda da comunidade internacional para acelerar seus números de vacinação.

De qualquer maneira, obrigatórias ou não, as máscaras ainda são a medida mais barata de proteção contra a COVID-19, e o uso é importantíssimo em situações de alto risco. Nesse momento de incertezas, em que nos falta uma orientação clara das autoridades, vale o uso das informações que as pesquisas e a ciência forneceram nesses anos a nosso favor: sempre que a situação é de maior risco para o contágio, use máscara!

Nós, do Microbiologando, seguiremos nos protegendo da melhor maneira possível!
* Folha de São Paulo

Você sabia que a febre turbina a resposta imune do organismo contra as infecções? Os alunos da Medicina da UFRGS explicam.

Prof. Dr. Tiago Degani Veit (ICBS-UFRGS)

Não gostamos quando temos febre. Quase sempre significa que estamos doentes. Ter febre está associado a sintomas desagradáveis, como letargia e uma necessidade quase incontrolável de ir para baixo do cobertor. Na busca pelo alívio dos sintomas, costumamos recorrer logo aos antitérmicos (Ex. aspirina, paracetamol), que estão em praticamente todas as gavetas de remédios dos domicílios brasileiros. Entretanto, a febre é um efeito direto da resposta imunológica a infecções ou outros tipos de agressões ao organismo, um sinal de que o corpo está respondendo a algum estímulo potencialmente nocivo. O aumento da temperatura corporal é um processo altamente conservado ao longo da evolução: em animais que não são capazes de regular  a temperatura interna (ex. répteis e anfíbios), observa-se neles um comportamento de procura por sol/calor quando eles estão doentes, o que acaba tendo o mesmo efeito prático. Para ser assim conservado, é justo inferir que esse mecanismo tenha alguma utilidade para o organismo.

Desde o Ensino Médio, minha noção dos efeitos benéficos associados à febre estava limitada ao conceito de “diminuição da atividade/divisão dos microrganismos”, o que os tornaria mais “lentos”, possibilitanto assim que o sistema imunológico os eliminasse mais facilmente. Por décadas, essa explicação me serviu, e imagino que ela seja compartilhada por muitas pessoas que já pararam alguma vez para pensar sobre esse fenômeno biológico. Entretanto, a necessidade preparar aulas para ensinar alunos sobre a resposta imune acabou me obrigando a atualizar essa noção.

Muito mais do que ser um efeito da resposta inflamatória a uma infecção e do que ter um efeito claro na velocidade de replicação de muitos microrganismos, a febre exerce efeitos muito relevantes em diversos componentes da nossa resposta imunológica. É sobre essa miríade de efeitos que pretendo falar hoje, aproveitando o produto do trabalho que passei para os alunos do terceiro semestre do curso de Medicina da UFRGS, dentro da disciplina de Imunologia. O vídeo abaixo, elaborado pelos alunos *, apresenta uma revisão bibliográfica sobre os diversos efeitos do aumento da temperatura corporal no sistema imunológico.

Dado que os mecanismos descritos no vídeo podem ser de difícil compreensão para o leitor leigo, citarei abaixo, em linguagem mais simples, os principais efeitos elencados no artigo:

  • A febre induz a saída de um tipo de célula branca chamada neutrófilo do seu local de produção, a medula óssea, direcionando a sua migração para o local da infecção. Os neutrófilos são a principal célula imune envolvida no combate às infecções nos seus estágios iniciais.
  • A febre também aumenta a atividade de uma célula muito importante no combate precoce a infecções virais, a célula NK (do inglês Natural Killer, ou “matadora natural”).
  • O aumento da temperatura para a faixa febril também aumenta a sensibilidade de duas importantes células sentinelas envolvidas na detecção da presença de patógenos: os macrófagos e as células dendríticas. Essa última célula é um elemento importantíssimo para a ativação do braço da imunidade que responde de maneira específica às infecções e que é responsável pela nossa memória imunológica, a imunidade adaptativa. Quando a célula dendrítica é ativada pela presença de infecção, ela sai do tecido infeccionado e migra até o gânglio linfático mais próximo onde ela ativa a célula-chave da resposta adaptativa, a célula T.
  • As células T, quando expostas a temperaturas febris, também são mais facilmente ativáveis na ocorrência de uma infecção.
  • A febre também tem um efeito benéfico de facilitar a entrada e a concentração de células T nos gânglios linfáticos, onde elas são normalmente ativadas. Isso aumenta a possibilidade de as poucas células T capazes de reconhecer o agente patogênico serem rapidamente ativadas contra a infecção. Esse efeito que o calor tem na migração das células T do sangue para dentro de um determinado tecido está sendo explorado hoje como terapia adjuvante no combate ao câncer.

Em suma, o aumento da temperatura corporal turbina a ativação e a função de várias células do sistema imunológico no combate a infecções. Talvez o uso cada vez mais popularizado de antibióticos nos tempos de hoje tenha colocado em segundo plano a importância desse fenômeno natural de defesa do organismo. Para aqueles que reclamam dos seus efeitos desagradáveis, cabe lembrar que, até 1946, não dispúnhamos de antibióticos, o que deixava todo o trabalho de combate à infecção para o próprio organismo, que precisava lançar mão de todos os meios possíveis para acelerar a resposta imune contra patógenos perigosos da época, como a varíola (hoje erradicada), o sarampo, difteria e a poliomielite, doenças para as quais hoje existem vacinas. Falando em vacinas, convém cabe mencionar que alguns estudos clínicos observaram que o uso de antipiréticos logo após a vacinação foi associado a respostas de anticorpos mais baixas para algumas vacinas aplicadas na infância. Considerando tudo o que foi apresentado nesse post, dá para ter uma ideia dos porquês. Por isso, fica a recomendação: use os antipiréticos com parcimônia, e de preferência sob orientação médica, e evite dar aquele paracetamol para o seu filho logo após a vacinação para evitar o efeito colateral; o sistema imunológico dele vai ficar bastante agradecido.

* O vídeo foi produzido pelos alunos Eduarda Schneider, Leonardo Backes, Leonardo Krause, Letícia de Souza, Maria Kaminski, Renato Ferraz e Samuel Toledo.

Referência: Evans, S., Repasky, E. & Fisher, D. Fever and the thermal regulation of immunity: the immune system feels the heat. Nat Rev Immunol 15, 335–349 (2015). https://doi.org/10.1038/nri3843

Petiscos que sobraram do Natal 2021: quando ter vermes só ajuda os vírus

Dr. Carlos E. Silva – DEMIP/UFRGS

Como os helmintos influenciam a patogênese das infecções virais sexualmente transmissíveis já foi verificado, mas não era totalmente compreendido. Os pesquisadores Layland e Horsnell demonstraram que uma infecção aguda pelo nematódeo intestinal de camundongo, Nippostrongylus brasiliensis, induziu uma resposta imune adaptativa tipo 2 no trato genital feminino (FGT) de camundongos. Essa condição levou à ulceração epitelial aumentada da vagina, favorecendo a infecção subsequente por Herpes Vírus Simplex (HSV)-2. Este mecanismo foi independente da ativação através de um receptor de resposta adaptativa, não sendo favorecido por IgE. O acúmulo de eosinófilos em camundongos infectados com N. brasiliensis, superou mecanismos inibitórios induzidos previamente. Estes achados demonstram como os circuitos inflamatórios são complexos e envolvem situações que podem ser difíceis de prever. Desta maneira, uma manifestação viral local grave, pode estar, na verdade, recebendo a contribuição indireta de uma simples infecção intestinal por helmintos. Esse é mais um bom motivo para que as verminoses intestinais (Doenças Negligenciadas) sejam continuamente pesquisadas e descartadas, mesmo em caso de atendimentos médicos especializados.
Chetty et al., 2021, Cell Host & Microbe 29, 579–593. April 14, 2021
https://doi.org/10.1016/j.chom.2021.02.004

Diretor geral da OMS prevê fim da pandemia de COVID-19 em 2022 durante coletiva

Bruno Breda – estudante de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Apesar de notícias assustadoras, como o surgimento da variante Ômicron, o recrudescimento de casos na Europa e a potencial diminuição parcial da eficácia de algumas vacinas com a nova variante, temos muito a comemorar nesse final de ano. Tedros Adhanom Ghebreyesus, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, fez previsões otimistas durante uma coletiva em Genebra, na Suíça. Citando a necessidade de vacinarmos pelo menos 70% da população mundial até a metade do próximo ano, o cientista afirmou que a OMS está empenhada ao máximo para terminar com a pandemia em 2022.

É verdade que temos uma nova variante à espreita, sim. Ela assusta! Mas também, recentemente, atingimos a marca de 8 bilhões de doses aplicadas no mundo todo, e, trazendo a discussão para terras nacionais, já nos aproximamos dos 70% de brasileiros vacinados com 2 doses e, quando falamos de pelo menos uma dose, as figuras já beiram os 78%! Além disso, a aprovação recente da vacinação de crianças possibilitará que alcancemos uma proporção maior ainda da população devidamente protegida, e, então, poderemos respirar – literalmente – um pouco mais calmos.

Nós, do blog Microbiologando, desejamos a todos os leitores um feliz período de festas, e agradecemos com muito carinho a todos os leitores que nos acompanham nessa trajetória tão longa que tem sido a pandemia de COVID-19. O ano de 2022 tem tudo para ser muito mais agradável que os últimos dois anos, no que tange à saúde pública, mas, enquanto as previsões otimistas não se confirmam, vamos seguir com o mantra: vacinação, uso de máscaras e distanciamento físico!

Dinamarca suspende todas as restrições remanescentes ao coronavírus e cientistas especulam sobre a as próximas fases da COVID-19.

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem/UFRGS  

Prof. Tiago Degani Veit – Professor DEMIP/UFRGS 

Muito nos perguntamos quando o Brasil irá abandonar as restrições contra o COVID-19. Todos estamos ansiosos para que isso aconteça, e a notícia boa é que a “volta da vida normal” já é realidade em alguns países. O jornal da revista Science publicou uma reportagem sobre a fase de transição em que a pandemia se encontra na Dinamarca, um país que não vivencia mais de 10 mortes por dia desde fevereiro deste ano, e onde todas as restrições remanescentes ao coronavírus foram suspensas no início de setembro (veja o artigo na íntegra aqui). O país europeu vacinou totalmente mais de 88% das pessoas com mais de 18 anos (no Brasil, esse número está pouco acima dos 60%) e 97% dos maiores de 60 anos de idade, e encontra-se na transição de pandemia para endemia, que é quando o vírus ainda está presente, mas agora enfrenta uma população que é praticamente imune a ele. No entanto, o país não está completamente fora de perigo, já que ainda há crianças e adolescentes que não foram vacinados, além das pessoas que não tiveram uma produção total de imunidade induzida pela vacina.  

A comunidade científica está acompanhando de perto a situação na Dinamarca. Quatro projeções já foram publicadas pela Statens Serum Institute (SSI), agência governamental de saúde pública e pesquisa, as quais dão uma ideia do que pode acontecer a partir de agora no país. O melhor cenário presume que o país alcançará 90% de cobertura vacinal nas pessoas maiores de 12 anos e as atividades sociais, que ainda estão abaixo do que eram antes da pandemia, não aumentarão muito. Nesse caso, não é esperado aumento de casos e hospitalizações. No pior cenário, a adesão a vacina não aumentaria e haveria um aumento de 10% nas atividades sociais, podendo ter como consequência uma onda de casos e hospitalizações tão graves quanto as que ocorreram em dezembro de 2020. A se confirmar esse segundo cenário, o governo dinamarquês provavelmente voltaria com algumas restrições. Digno de nota, nenhuma das projeções considerou a diminuição da imunidade na população e nem o surgimento de novas variantes de SARS-Cov-2.  

Embora outros países estejam ensaiando essa reabertura, a realidade é que poucos países estão com cobertura vacinal suficiente para tentar essa transição, especialmente entre a população idosa. Israel, apesar de ter uma cobertura vacinal um pouco menor da sua população idosa (90%) e que reabriu tudo em junho, está atualmente lutando contra uma nova onda de casos. O caso da Inglaterra, que reabriu totalmente em 19 de julho, com apenas metade da população vacinada, viu o número de casos disparar em agosto e agora conta com mais de 100 mortes diárias (o  Brasil, com suas mais de 300 mortes diárias, está muito longe de poder cogitar tal passo).  

Enquanto isso, cientistas estão tentando descobrir como se desenrolará a fase endêmica da COVID-19. David Fisman, epidemiologista da Universidade de Toronto, diz: “Eu conheço muitas pessoas inteligentes que estão projetando coisas muito diferentes”. Provavelmente o estágio endêmico não será como a endemia de sarampo que, apesar de ser altamente infeccioso, deixa as pessoas imunes à infecção pelo resto da vida, resultando em uma doença com uma onda de infecção a cada poucos anos. Uma perspectiva possível é a de que o SARS-CoV-2 siga a trajetória dos outros quatro coronavírus endêmicos, em que a proteção contra infecções leves se desgasta com o tempo, mas a proteção contra doença grave, não. Nesse sentido, é esperado que ocorra uma primeira infecção na infância, seguida por infecções leves recorrentes mais tarde na vida. A perspectiva é diferente se a imunidade contra COVID-19 grave também diminuir. Se esse for o caso, paradoxalmente, seria melhor que o vírus continuasse infectando as pessoas com frequência, reforçando a sua imunidade. e não seriamos vulneráveis ao vírus novamente. Esse argumento foi defendido por Antia e Elizabeth Halloran, da Universidade de Washington, em um artigo recente na Immunity. Cabe ressaltar que tal argumento é defensável em um contexto de endemia, em que a maioria da população está imunizada contra o agente patogênico, e nunca no contexto de uma pandemia, em que a maioria das pessoas teve que desenvolver sua imunidade praticamente do zero, com quase 5 milhões de mortos até o momento. 

Enfim, há apenas especulações sobre como será o mundo com COVID-19 endêmico. Os cientistas levam em consideração a endemia de outros vírus para fazer essas previsões, como por exemplo o vírus da gripe. A certeza, por hora, é a de que ao menos no caso do Brasil ainda estamos no estágio de pandemia, com centenas de mortes por dia, e de que as medidas até agora adotadas, como melhor ventilação de ambientes, adesão à vacinação além de testar, rastrear e isolar pessoas infectadas, continuam na ordem do dia (ou, ao menos, deveriam estar). Tentar apressar o processo de reabertura, com lotação total de espaços públicos e abolição das máscaras invariavelmente nos levarão a novos picos de casos e mortes. O que já não está bom (ao que parece, já não nos causa espanto 300 mortes por dia) pode voltar a ficar muito pior. 

Referência: Kupferschmidt, Kai. “Pandemic enters transition phase-but to what?.” Science (New York, N.Y.) vol. 374,6564 (2021): 135-136. doi:10.1126/science.acx9290 

Transposons podem ressuscitar Lamarck

Jean-Baptiste Lamarck tem grande importância para a biologia por ter sido um dos primeiros a propor uma teoria estruturada sobre a diversidade dos seres vivos. Suas ideias envolveram a transmissão de informações através das gerações por meios não genéticos, ou herança epigenética transgeracional (TEI), posteriormente chamada de Lamarckismo. Entretanto, esta condição evolutiva foi considerada impossível por August Weismann (1892), que, através de experimentos, provou que somente as células germinativas eram capazes de transmitir os caracteres de aptidão do indivíduo para as próximas gerações, legando a sobrevivência de uma espécie ou sua modificação. Com o tempo, foram surgindo evidências observacionais e científicas que as mudanças em uma espécie pudessem ser transmitidas não somente por células germinativas. Um exemplo é a herança das respostas ao estresse, que ajuda os animais a sobreviverem em ambientes hostis.

Trabalhos recentes sugerem que o RNA do sistema nervoso central de moluscos marinhos do gênero Aplysia treinados, pode induzir uma forma de memória de longo prazo não associativa e transmissível de modo horizontal para indivíduos não treinados. Contudo, até o momento, ainda não havia sido provado que estas memórias pudessem ser transmitidas entre gerações (verticalmente), quebrando assim a “barreira” proposta por Weismann.

Em um experimento recente, elegantemente elaborado, Moore e colaboradores (2021) mostraram que pode ocorrer transmissão de caracteres adquiridos em Caenorhabditis elegans, um verme muito pequeno da família Rhabditidae. Para tanto um grupo de vermes foi treinado a evitar linhagens patogênicas da bactéria Pseudomonas aeruginosa (PA14). Esse tipo de “comportamento de resistência” parecia estar relacionado com pequenos segmentos de RNA bacteriano que, de alguma forma, alteravam as funções neurais de C. elegans e induziam ao comportamento de rejeição das bactérias. Este comportamento pode ser transferido horizontalmente para vermes não treinados a partir da mistura, em cultivo, de extratos de vermes treinados, ou do próprio meio onde estes vermes foram criados. Esse “comportamento de resistência” era específico e não foi verificado quando C. elegans foi cultivado frente as bactérias entomopatogênicas Pseudomonas fluorescens e Serratia marcecens.

Em seguida foi possível provar que o “comportamento de resistência” dos vermes treinados poderia ser transmitido horizontal ou verticalmente para outras quatro gerações de animais não treinados através de partículas semelhantes a vírus (VLPs) codificados por Cer1, um retrotransposon.

Além do seu papel na transferência de memória horizontal, Cer1 foi necessário para a transferência de herança epigenética transgeracional do “comportamento de resistência” através de pequenos segmentos de RNA, devido a comprovação experimental da capacidade desse retrotransposon de transmitir informações para os neurônios do verme.

A expressão de Cer1 em linhagens selvagens de C. elegans está correlacionada com sua capacidade de realizar esses comportamentos de defesa, um papel benéfico para Cer1, que contrasta com seus efeitos deletérios (Dennis et al., 2012). Assim, a função Cer1 pode fornecer para C. elegans proteção de longa duração contra patógenos no ambiente natural do verme.

Estes resultados sugerem que o Cer1 realiza a sinalização dinâmica da linhagem germinativa para a somática (neurônio), representando a cooptação da função retrotransposon para melhorar a sobrevivência C. elegans e de sua progênie em ambientes patogênicos, o que sugere fortemente a existência de TEI e a possível quebra da “barreia de Weismann”. Cer1 parece não só fornecer proteção imediata de C. elegans contra diversas espécies patogênicas de Pseudomonas em seu ambiente, mas também confere benefícios duradouros para outras gerações, ao comunicar um sinal de resistência adaptativo de rejeição que foi aprendido, para seus descendentes (transmissão vertical). Além disso, a capacidade de fornecer memórias de rejeição contra patógenos se estende para indivíduos da mesma espécie cultivados conjuntamente (transmissão  horizontal), permitindo maior sobrevivência para seus parentes.

Moore et alli. 2021, The role of the Cer1 transposon in horizontal transfer of transgenerational memory. Cell 184, 4697–4712.
https://doi.org/10.1016/j.cell.2021.07.022

OMS aprova primeira vacina para malária

Bruno Lopes Breda – Estudante de Medicina, UFRGS.

                Boas notícias não param de surgir, e não apenas com relação à pandemia de COVID-19! No dia 6 de outubro, a Organização Mundial da Saúde decidiu aprovar para uso a primeira vacina para malária do mundo. A doença, causada pelo protozoário Plasmodium falciparum, é uma das mais antigas que se tem conhecimento, e atinge principalmente as populações residentes em países da África.

                São dois marcos a serem comemorados: o primeiro, biológico; o segundo, social. O marco biológico reside no fato de que essa é a primeira vacina feita para uma doença causada por um parasito. Até o último dia 6, não existia nenhuma vacina aprovada no mundo que fosse direcionada a uma doença causada por agentes que não sejam vírus, como é o caso da COVID, ou bactérias, como o exemplo da tuberculose. Já o marco social está no fato de a malária ser uma doença que atinge principalmente países em desenvolvimento, os quais costumam sofrer muito mais com doenças infecciosas. Essa vacina salvará milhões de vidas, e a grande maioria dessas vidas não se encontra nos países de maior poder econômico!

                Para os mais afeiçoados a números, vamos falar um pouco sobre a eficácia da vacina, tema tão abordado no último ano e meio devido à empreitada mundial que tivemos para o desenvolvimento de vacinas para a COVID-19. A vacina para malária obteve nos testes clínicos uma eficácia de 50% contra o desenvolvimento da malária severa no primeiro ano após a aplicação, o que significa que, caso um indivíduo vacinado entre em contato com o agente da doença, ele reduz pela metade a chance de contrair malária. Ilustrando a discussão com um tema mais conhecido para o leitor, essa vacina tem eficácia similar à CoronaVac, produzida no Brasil pelo Butantan, e todos podemos ver quantas vidas uma eficácia de 50% salva com o passar do tempo.

                Após tanto tempo em meio à penumbra da incerteza de uma pandemia, começamos a ver não apenas uma, mas diversas “luzes no fim do túnel”, tanto para a COVID-19 quanto para outras doenças que assolam a humanidade. Graças à ciência, caminhamos cada vez mais para o desenvolvimento de imunizantes que sejam eficazes nas mais diversas doenças. Que possamos, cada vez mais, comemorar!

Estudo explica como a imunidade induzida pelas vacinas contra COVID-19 pode ajudar a reduzir a transmissão do SARS-CoV-2

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem/UFRGS 

Prof. Tiago Degani Veit – Professor DEMIP/UFRGS

Diversas pesquisas baseadas em ensaios clínicos randomizados já mostraram a capacidade que as vacinas contra COVID-19 possuem em reduzir drasticamente a doença sintomática. Em contrapartida, dados a respeito dos efeitos que essas vacinas possuem em limitar a transmissão de SARS-CoV-2 entre indivíduos ainda são escassos. Há alguns dias atrás, foi publicado no periódico The Lancet um estudo que discute os dados disponíveis a respeito da capacidade dos imunizantes contra COVID-19 em reduzir a transmissibilidade do coronavírus. O estudo sugere que há quatro estágios relevantes pelas quais a imunidade induzida pela vacina pode reduzir a transmissão: 1) infecção, 2) replicação viral, 3) limite para disseminação de hospedeiro para hospedeiro, e 4) grau de sintomatologia. Nesse post, vamos mostrar algumas das evidências disponíveis sobre a interferência das vacinas contra a COVID-19 na transmissão do vírus segundo os estudos populacionais que foram publicados após a introdução dessas vacinas na população em geral. 

1) Quanto ao efeito da vacinação contra SARS-CoV-2 na prevenção da infecção pelo SARS-Cov-2, o principal fator a ser considerado é a capacidade dos imunizantes de promover a presença de anticorpos neutralizantes na mucosa respiratória, a principal porta de entrada do vírus (anticorpos neutralizantes são os anticorpos que impedem a ligação do vírus com o receptor de entrada celular). Estudos realizados com grupos de pacientes imunizados com as vacinas da Pfizer e da Moderna indicaram a presença de anticorpos neutralizantes contra SARS-CoV-2 na saliva desses indivíduos, indicando esse indício de imunidade já nas mucosas. Já no caso de indivíduos imunizados com a vacina de Oxford/AstraZeneca, a quantidade de anticorpos neutralizantes encontrados na mucosa foi menor. 

2) Em relação a replicação viral em indivíduos infectados, a literatura recente confirma que a imunidade induzida pelas vacinas aplicadas anteriormente à infecção limita a replicação do SARS-CoV-2. Isso ocorre devido a capacidade dos imunizantes em reduzir a carga viral de SARS-CoV-2 na região orofaríngea e nasofaríngea dos indivíduos infectados, limitando a replicação viral na mucosa. A vacina da Pfizer possui a capacidade de reduzir a carga viral em indivíduos infectados pelo menos 12 dias após receber a primeira dose da vacina. A vacina de Oxford/AstraZeneca também se mostrou eficiente em reduzir a carga viral orofaríngea e nasofaríngea em pacientes infectados com SARS-CoV-2, a qual é menor quando em comparação com os indivíduos não vacinados. 

3) A disseminação viral de hospedeiro para hospedeiro está relacionada diretamente a carga viral do indivíduo infectado. Existem amplas evidências na literatura a partir de estudos com primatas não humanos de que as vacinas contra COVID-19 reduzem a carga viral nas vias respiratórias superiores e inferiores. Além disso, um estudo recente observou que os indivíduos vacinados que apresentam uma infecção pós-vacinal são menos infecciosos do que os indivíduos não vacinados. Além de apresentarem uma carga viral mais baixa, as partículas emitidas por esses indivíduos podem inclusive ser menos infecciosas pelo fato de as partículas virais estarem revestidas de anticorpos. O que dificultaria a sua entrada nas células. 

4) Quanto ao grau de sintomatologia de pacientes previamente vacinados contra a COVID-19, é bem documentado que todas as vacinas contra COVID-19 possuem alta capacidade em prevenir a infecção sintomática. A diminuição de sintomas como tosse e espirro são essenciais para limitar a transmissão viral, já que as partículas virais infecciosas são propagadas, principalmente, dessa forma. 

Em resumo, as vacinas contra SARS-CoV-2 disponíveis atualmente, apesar de terem sido produzidas em tempo recorde, são capazes de interferir de forma positiva tanto na possibilidade de infecção quanto na replicação viral e na carga viral transmitida de pessoa para pessoa. Os imunizantes que atualmente estão sendo utilizados não foram otimizados para gerar imunidade de mucosa, mas ainda assim alguns deles são capazes de gerar essa imunidade local tão importante no início do processo infeccioso. Já vislumbrando um futuro próximo, as vacinas contra SARS-CoV-2 da próxima geração prometem ser ainda mais eficientes, já que estão sendo projetadas para serem administradas na cavidade nasal e/ou oral, ou seja, na mesma via de entrada do vírus.  

Apesar de os imunizantes estarem sendo cada vez mais aperfeiçoados contra a COVID-19, é importante salientar que a adesão às campanhas de vacinação é apenas um dos passos importantes para garantir uma proteção completa contra a doença. Ainda é necessário manter o distanciamento social, utilizar máscara e seguir com a higiene constante das mãos, a fim de reduzir o risco da infecção. Portanto, confiemos nas vacinas e sigamos nos cuidando. 

FONTE: MOSTAGHIMI, Darius et al. Prevention of host-to-host transmission by SARS-CoV-2 vaccines. The Lancet Infectious Diseases, 2021. doi: https://doi.org/10.1016/S1473-3099(21)00472-2 

Pesquisadores ingleses acompanharam semanalmente trabalhadores de um hospital em Londres e avaliaram a resposta imune à COVID-19.

Bruno Lopes Breda

Professor Carlos Eugênio Silva

Sabemos que a imunidade contra doenças infecciosas acontece por diversas vias: os anticorpos, que ganharam especial destaque na mídia desde o início da pandemia, a imunidade celular, que acontece pelas células que atuam como “vigilantes” no sangue, e, também, por citocinas, que auxiliam na comunicação entre as células do nosso corpo. A fim de saber um pouco mais sobre a correlação entre imunidade celular e anticorpos na COVID-19, um grupo de pesquisadores desenvolveu um estudo muito interessante em um hospital situado em Londres.

Iniciado em março de 2020, no início do lockdown que foi instaurado no Reino Unido, o estudo acompanhou um grupo de 731 trabalhadores da saúde de um hospital em Londres, os quais realizavam, semanalmente, testes de swab nasofaríngeo, PCR e coleta de sangue para análise sorológica. À medida em que o tempo foi passando, 21,5% desses trabalhadores teve diagnóstico confirmado de COVID-19, sendo todos os casos considerados leves ou assintomáticos. Para analisar as respostas celulares e de anticorpos nesse grupo, os pesquisadores selecionaram 76 integrantes que tiveram o diagnóstico laboratorial de infecção por SARS-CoV-2 e os compararam com outros 60 integrantes do grupo que, ao longo do estudo, não se infectaram com a doença, todos pareados adequadamente por sexo, idade e etnia, a fim de comparar como estava a resposta de células T – responsáveis pela imunidade celular – e a produção de anticorpos nos dois grupos após 16 – 18 semanas do início do lockdown inglês.

Análise da Resposta de Células T

Para avaliar a resposta das células T ao vírus, foram realizados testes laboratoriais de IFNgama-ELISpot de 3 formas complementares: proteína inteira, epítopo de peptídeo mapeado e pool de peptídeos sobrepostos. Dessa maneira, os pesquisadores conseguiram avaliar adequadamente se houve resposta de células T CD4 e T CD8 contra proteínas do vírus que desempenham papel importante na infecção às nossas células.

Na análise cumulativa da resposta de células T, viu-se que 89% dos pacientes que foram infectados com o vírus apresentam resposta detectável. A análise isolada de cada uma das regiões das proteínas apresenta uma frequência relativamente baixa, entretanto as frequências acumuladas são semelhantes a resposta de células T contra Influenza, Epstein-Barr e Citomegalovirus. Além disso, os pesquisadores perceberam que a resposta às proteínas spike e nucleocapsídeo – duas proteínas muito estudadas no vírus da COVID-19 – foi significativamente mais frequente em pacientes que tiveram infecção confirmada por laboratório.

Dos pacientes infectados com o vírus, 85% apresentaram resposta à proteína do nucleocapsídeo, enquanto apenas 29% dos pacientes não infectados demonstraram essa resposta. Já na análise da resposta à proteína spike, 49% dos infectados responderam, enquanto apenas 22% dos não infectados respondeu.

Anticorpos Neutralizantes

Entre pacientes que tiveram infecção confirmada pelo vírus da COVID 19, 97% apresentava anticorpos IgG contra a proteína spike ou IgM/IgG contra a proteína do nucleocapsídeo. A observação dos anticorpos reconheceu que 89% dos infectados apresentavam anticorpos neutralizantes – ou seja, que conseguem impedir a funcionalidade do vírus dentro do nosso corpo – contra o pseudovírus da COVID-19. O título desses anticorpos, ou seja, a “concentração” em que eles estavam presentes no plasma variou bastante, mas 66% das amostras de sangue dos pacientes tinham um IC50 (a quantidade mínima de anticorpos que neutraliza 50% das partículas virais com que entra em contato) com título superior a 200.

Quando comparadas as infecções com a clínica dos pacientes, ou seja, como foram os sintomas que eles tiveram, os pesquisadores perceberam que pacientes que eram assintomáticos ou que não tinham os sintomas clássicos da COVID-19 apresentaram níveis mais baixos de anticorpos IgG (figura 2E) contra a proteína S do vírus, embora os níveis de anticorpos neutralizantes entre os grupos tenham apresentado similaridade ao longo do período estudado (figura 2F).

Conclusões

No estudo analisado, podemos perceber que o grupo de pacientes infectados com o vírus apresentou níveis variados de resposta celular às proteínas do vírus da COVID-19, entretanto, apenas duas amostras não apresentaram resposta alguma ao vírus. No que concerne aos anticorpos, 89% dos pacientes infectados apresentavam anticorpos neutralizantes contra a COVID-19 16-18 semanas após serem infectados (uma surpresa para nós, uma vez que uma hipótese muito discutida no meio científico é a de que os anticorpos caem rapidamente após a infecção). Outra surpresa é que os níveis desses anticorpos neutralizantes foram relativamente altos entre as amostras analisadas. Isso abre espaço para, por exemplo, investigar o real potencial de reinfecção do novo coronavírus na espécie humana ou a forma como o vírus pode evadir da resposta imune induzida pelas vacinas aplicadas atualmente.

Com relação ao risco de agravamento da doença e das formas graves, sabemos hoje que a idade e as comorbidades são fatores de risco importantes para que a doença seja mais severa e precise de internação hospitalar. Apesar de nenhum membro do grupo estudado ter necessitado de internação quando foi infectado com a doença, percebeu-se que, nas mulheres avaliadas, quanto mais idoso o indivíduo estudado, maiores eram os níveis de anticorpos no sangue. Já para as células T, foi observado que a resposta celular aumenta com nos homens junto com a idade.

Trabalhos com células T indicam que mesmo pessoas assintomáticas e contatos domiciliares desenvolvem respostas de células T de baixa frequência. Estes achados se relacionam com os resultados encontrados nos profissionais da saúde amostrados sem infecção confirmada laboratorialmente. O trabalho demonstrou que os indivíduos infectados podem apresentar uma resposta T altamente heterogênea no reconhecimento de epítopos de ´diferentes proteínas estruturais e não estruturais de SARS-CoV-2.

Esse estudo serve como um bom ponto de partida para análises mais aprofundadas sobre a resposta imune ao vírus da COVID-19, e fala a favor da ideia de que a resposta à infecção pela COVID-19 não é mediada apenas por anticorpos ou células de defesa, mas sim uma trama complexa em que todos os fatores do sistema imunológico atuam de forma conjunta. O estudo mostra como devemos realizar mais estudos longitudinais para entender a resposta contra o SARs COV 2 e se sua disseminação e futura endemicidade pode gerar comportamento semelhante àqueles encontrados para outros Coronavírus sazonais do homem. Apesar de tudo o estudo foi medido em profissionais da saúde, o que nos coloca novamente na posição de considerarmos o quanto o uso de máscaras, higiene e a prática do distanciamento social também pode ter contribuído com a própria resposta imune para o não aparecimento de casos graves.

O verme dos ovos de ouro

Dr. Carlos Eugênio Silva – DEMIP – UFRGS

As infecções virais causaram mais de 3 milhões de mortes em todo o mundo em 2017, e, provavelmente, aumentarão em mais de 1 milhão a mortalidade geral em 2020, devido à pandemia COVID-19. Surtos virais globais, incluindo COVID-19, HIV e Influenza ilustram a necessidade crítica de entender como e por que um mesmo vírus pode causar doença leve em alguns hospedeiros, mas desencadear doenças graves e morte em outros.
As infecções por helmintos (vermes) afetam mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo e infectam desproporcionalmente as populações pobres do mundo, matando anualmente mais de 1 milhão de pessoas. Evidências científicas crescentes sugerem que as infecções por vermes, particularmente os esquistossomos, afetam a suscetibilidade do hospedeiro a diferentes vírus e aumentam a gravidade das doenças virais devido ao impacto que causam no sistema imunológico do hospedeiro.
Especificamente no caso da esquistossomose o homem desenvolve uma resposta imune dinâmica à infecção por este verme. A resposta que predomina no início da infecção apresenta um forte componente celular (Th1) e algum componente envolvendo a produção de anticorpos (Th2), atuando na destruição do parasito no fígado e mucosa intestinal. Em seguida, a resposta Th2 passa a ser mais relevante. Finalmente, na doença crônica, ocorre a dominância de um componente regulatório da resta imune (T reg), com alguma contribuição Th2. A diminuição concomitante de citocinas Th1 durante esta fase crônica fundamenta a hipótese de que o hospedeiro infectado com esquistossomo pode apresentar a resposta antiviral comprometida pela redução da atividade citotóxica e imunidade Th1.
Bullington e colaboradores recentemente (2021) examinaram esses argumentos, através de uma revisão sistemática da literatura a respeito dos efeitos da infecção por esquistossomos concomitante com infecções virais em relação a: resposta antiviral do hospedeiro, prevalência e incidência da infecção viral, virulência e na vacinação antiviral. O trabalho envolveu a revisão de 4.731 títulos relacionados, dos quais 103 estudos preencheram completamente os critérios a serem analisados.
A revisão apresentada demonstrou consistentemente que a infecção pelo esquistossomo prejudica resposta imune do hospedeiro a algumas vacinas antivirais, distorce a imunidade antiviral e impacta, possivelmente tanto positiva quanto negativamente na virulência das infecções virais dependendo do vírus e o local da patologia.
Assim, a mudança do perfil da atividade imune durante a fase crônica da doença, com o aumento do controle da resposta inflamatória e celular (T reg) parece favorecer a susceptibilidade ao Herpesvírus do Sarcoma de Kaposi e do HIV, favorecer a virulência dos vírus das Hepatites B e C e favorecer a infecção feminina ao HIV. Entretanto, quando os estudos envolveram a tratamento dos indivíduos estudos com Praziquantel, principal medicação utilizada no tratamento da esquistossomose, a atividade antiviral aumentou significativamente.
É interessante notar que o padrão de imunidade induzido na coinfecção pelo esquistossoma reduz a inflamação pulmonar na infecção pelo vírus da Influenza, a inflamação associada com a paralisia na infecção com HTLV-1 e a redução da carga viral na infecção crônica pelo HIV. Como era esperado, nos estudos comparativos com infecções virais simples a resposta predominante era a Th1.
Entre os impactos sanitários mais importantes reforçados pela revisão é o comprometimento da resposta vacinal contra os vírus da Hepatite B e do sarampo, devido a forte regulação as respostas imunes celular e humoral.
Este padrão de atividade de defesa verificado nesta coinfecção e comum na esquistossomose é em grande parte decorrente da presença passiva e errática de ovos do verme que são retidos nos tecidos provocando forte resposta Th1. Uma resposta tão intensa poderia matar o hospedeiro, forçando o esquistossoma a criar um arsenal especial de moléculas que possam regular fortemente a atividade inflamatória.
Muito embora essas evidências pudessem tornar o Schistosoma o “verme dos ovos de ouro”, estamos muito longe de entender as relações evolutivas as quais o homem ou seus parasitos compartilham benefícios que possam incluir outros parceiros, como bactérias e os próprios vírus. É importante salientar que mitigar as situações de risco de infecção envolvem um custo-benefício muito maior, mas o trabalho abre muitas perspectivas desde estudos em nível molecular e na saúde única.

Referência: Bullington BW, Klemperer K, Mages K, Chalem A, Mazigo HD, Changalucha J, et al. (2021). Effects of schistosomes on host anti-viral immune response and the acquisition, virulence, and prevention of viral infections: A systematic review.
PLoS Pathog 17(5): e1009555. https://doi.org/10.1371/journal.ppat.1009555