Significado e duração da imunidade na COVID-19: parte 2

Continuamos a transcrição de trechos da reportagem publicada em 19/10/2020 na Science News. Veja a íntegra da reportagem aqui.

Alguns dados sugerem que o sistema imunológico pode não ter uma grande memória para infecções por coronavírus. Um estudo descobriu que durante uma infecção por COVID-19, o órgão que produz células B de memória – células de vida longa que irão produzir anticorpos rapidamente se uma pessoa for reexposta a um patógeno – não ativa adequadamente os tipos de células capazes de se tornar células B de memória. Sem essa memória imunológica, os anticorpos para o SARS-CoV-2 podem não durar muito.

O que sabemos sobre as células T? Estudos demonstraram que os pacientes com COVID-19 normalmente desenvolvem uma resposta imune envolvendo células T. Mesmo os pacientes recuperados sem uma resposta detectável de anticorpos têm células T no sangue. Mas o papel das células T na infecção e na memória imunológica permanece obscuro. Estudos demonstraram que as células T de memória podem persistir em pacientes infectados com o coronavírus responsável pelo surto de SARS de 2003–2004 por até 11 anos após a recuperação. Como esse vírus não circula mais, no entanto, é impossível dizer se essas células T podem ser protetoras.

Algumas pessoas podem já ter células T que podem reconhecer pedaços do novo coronavírus. Essas células imunológicas podem ser remanescentes de exposições anteriores a coronavírus que causam o resfriado comum. Essas células T com reatividade cruzada podem ajudar a reduzir a duração ou gravidade da doença COVID-19. Por outro lado, essas células T podem piorar a doença, talvez por superestimular o sistema imunológico e causar uma condição chamada tempestade de citocinas, que está por trás de alguns casos graves de COVID-19.

Você pode pegar o coronavírus duas vezes? Já foi documentado um pequeno número de casos em que as pessoas foram infectadas com o coronavírus duas vezes. Mas ainda não está claro se as reinfecções são comuns. Com apenas um punhado de casos até agora, não podemos realmente dizer que as reinfecções estão nos dizendo muito neste momento, seja sobre imunidade ou se as vacinas fornecerão proteção a longo prazo ou precisarão se tornar parte de nossa rotina anual, como vacinas contra a gripe.

Esperam-se algumas reinfecções; a memória imunológica de algumas pessoas pode não ser potente o suficiente para prevenir totalmente a infecção, embora possa evitar que adoeçam. É difícil provar que alguém foi infectado novamente, porque os pesquisadores precisam mostrar de forma conclusiva que dois vírus diferentes causaram cada infecção. Isso requer testes genéticos. Além do mais, os especialistas não estão necessariamente à procura de tais casos, especialmente em pessoas que não apresentam sintomas.

O que tudo isso significa para a imunidade do rebanho? Sem saber quanto tempo dura a imunidade após uma infecção e o quanto isso varia de pessoa para pessoa, é impossível saber se acabar com a pandemia por meio da imunidade coletiva é possível. O que está claro, dizem os especialistas, é que tentar alcançar a imunidade coletiva sem uma vacina levará a mais doenças e mortes. Promover o conceito de ‘imunidade coletiva’ como uma resposta à pandemia COVID-19 é inapropriado, irresponsável e mal informado. Até agora, a imunidade coletiva ainda está longe. Adotar a abordagem de imunidade de rebanho por meio de infecção natural levará a centenas de milhares de mortes desnecessárias.

FONTE: We still don’t know what COVID-19 immunity means or how long it lasts. Erin Garcia de Jesus. Science News. 19 de outubro de 2020.

Significado e duração da imunidade na COVID-19: parte 1

Transcrevemos abaixo trechos da reportagem publicada em 19/10/2020 na Science News. Veja a íntegra da reportagem aqui.

Surgem relatos de pessoas que contraíram a doença pela segunda vez. Embora a reinfecção ainda pareça ser rara, não está claro até que ponto a imunidade pode realmente proteger uma pessoa. A imunidade também está no noticiário porque um debate está fervendo entre os cientistas sobre a imunidade do rebanho, ponto em que um número suficiente de pessoas está imune a um patógeno para retardar sua disseminação. Embora a imunidade coletiva possa colocar o fim da pandemia à vista, os especialistas estimam que cerca de 40 a 60% da população precisaria estar infectada para alcançá-la.

Um grupo de pesquisadores está pressionando para que os governos alcancem a imunidade coletiva sem uma vacina, permitindo que a COVID-19 se espalhe entre aqueles de baixo risco, protegendo as populações vulneráveis. Essa abordagem, no entanto, coloca toda a população em risco de doença significativa e morte, segundo argumenta outro grupo de cientistas. Como o SARS-CoV-2 é um novo vírus, os cientistas não podem dizer por quanto tempo uma pessoa ficará protegida depois de se recuperar de uma infecção. Se a imunidade diminui rapidamente, isso prepara o cenário para surtos recorrentes, a menos que haja uma vacina.

O que realmente significa “imunidade”? Para os cientistas, imunidade significa resistência a uma doença adquirida por meio da exposição do sistema imunológico a ela, seja por infecção ou por vacinação. Mas imunidade nem sempre significa proteção completa contra o vírus.

Como o corpo constrói imunidade? O sistema imunológico tem duas maneiras de fornecer proteção duradoura: células T, que lembram o patógeno e desencadeiam uma resposta rápida, e células B, que produzem anticorpos – proteínas que o corpo fabrica para combater um patógeno específico. Idealmente, muito depois de a pessoa se recuperar de uma infecção, esses anticorpos permanecem no sangue. Então, se a pessoa for exposta ao mesmo patógeno novamente no futuro, esses anticorpos reconhecerão a ameaça e trabalharão para evitar que outra infecção apareça. As chamadas “células T de memória” também permanecem. Idealmente, elas fazem jus ao seu nome, reconhecem um patógeno encontrado anteriormente e ajudam a coordenar o sistema imunológico ou matam células infectadas. 

Se uma pessoa tem anticorpos, ela está imune? Para algumas doenças, como o sarampo, os anticorpos podem durar toda a vida. Mas para SARS-CoV-2, o júri ainda não decidiu. Não se sabe quanto tempo os anticorpos duram no sangue, ou – mais importante – se sua presença é um sinal de imunidade. Só porque uma pessoa tem anticorpos, não significa que sejam eficazes no combate ao vírus.

Anticorpos neutralizantes são aqueles que detêm o vírus em seu caminho, impedindo-o de infectar uma célula hospedeira e se replicar. Esses anticorpos normalmente reconhecem a proteína spike do vírus, que o ajuda a entrar nas células hospedeiras. Até agora, esses tipos de anticorpos têm sido o foco de estudos que buscam entender se uma pessoa pode ser imune. No entanto, ainda não se sabe qual quantidade de anticorpos neutralizantes é suficiente para proteção. E mesmo que sejam protetores, não está claro por quanto tempo essas proteínas imunológicas duram. Estudos de pacientes com COVID-19 recuperados demonstraram que os anticorpos para o coronavírus podem diminuir após uma infecção por SARS-CoV-2, mas, no geral, seus níveis permanecem relativamente estáveis por um período de três a seis meses.

NÃO PERCAM A CONTINUAÇÃO NO POST DE AMANHÃ.

FONTE: We still don’t know what COVID-19 immunity means or how long it lasts. Erin Garcia de Jesus. Science News. 19 de outubro de 2020.

Fernando de Noronha: como uma ilha controlou a transmissão comunitária da COVID-19.

Ilhas têm sido uma fascinação para os epidemiologistas. A transmissão pode ser mais facilmente controlada e, portanto, a dinâmica da transmissão e o efeito das intervenções podem ser mais efetivamente explorados. As medidas tomadas pela administração de Fernando de Noronha interromperam com sucesso a transmissão da COVID-19 na ilha cerca de três meses após os primeiros casos detectados. Isso aconteceu mesmo com a escalada da pandemia no continente.

As autoridades da ilha empregaram várias medidas de saúde pública que não foram usadas em nenhum outro lugar do Brasil: 1) rastreamento e testagem de contatos de todos os indivíduos positivos identificados na ilha; 2) para viajantes, foi requisitada testagem por RT-PCR em sete dias antes da viagem para a ilha; 3) testagem por RT-PCR ao chegarem na ilha e quarentena até liberação (se negativo) ou por 14 dias (se positivo); 4) uso de fita no pulso para identificar positivos que só poderia ser removida pelo sistema de monitoramento de saúde da ilha; 5) restrições a viagens dentro da ilha para residentes, com o uso de um aplicativo de celular para solicitação de autorização para saída de casa, de forma similar ao que foi feito na China. As medidas adotadas em Fernando de Noronha são um bom exemplo de uma política de distanciamento social mais restritiva logo no início da pandemia.

Apesar das medidas listadas acima, a transmissão foi relativamente alta, provavelmente devido a uma combinação de três fatores: a) apesar do uso de máscaras fora de casa ter sido alto, o uso dentro das residências não foi, especialmente para amigos ou familiares não residentes na casa; b) transporte de alimentos e outros produtos por via aérea ou marítima para a ilha (as cargas e a tripulação não estavam sempre sujeitos a protocolos); e c) a ilha requer pessoal especializado e tem presença militar, formando uma população flutuante que se move constantemente entre a ilha e o continente.

Parte do sucesso de Fernando de Noronha em controlar a COVID-19 pode ser atribuída ao isolamento provido por sua geografia, mas os autores acreditam que as medidas tomadas pelas autoridades locais foram essenciais para o controle da transmissão comunitária. Fernando de Noronha é um exemplo de sucesso no controle da doença no nordeste do Brasil.

FONTE: Fernando de Noronha: how an island controlled the community transmission of COVID-19 in Brazil. Mozart Júlio Tabosa Sales et al. medRxiv preprint doi: https://doi.org/10.1101/2020.10.22.20216010.

Você já imaginou que genes associados a fatores de risco para a COVID-19 podem ter vindo dos Neandertais?

Um artigo publicado na revista Nature aborda esse tema. São conhecidos vários fatores de risco para a COVID-19, porém nenhum deles explica plenamente por que umas pessoas têm sintomas leves ou são assintomáticas, enquanto outras pessoas ficam seriamente doentes. A resposta pode ser genética.

Um estudo identificou duas regiões no genoma associadas com a COVID-19 severa: uma no cromossoma 3, contendo seis genes, e a outra no cromossoma 9, associada ao tipo sanguíneo ABO. Recentemente, um novo estudo só confirmou a região do cromossoma 3 como significativa para o risco de COVID-19 severa.

No artigo da Nature, os pesquisadores avaliaram se os fatores de risco presentes no cromossoma 3 eram provenientes de fluxo gênico a partir dos Neandertais, uma hipótese levantada por causa das características genômicas dessa região. Vários estudos já identificaram fluxo gênico a partir dos Neandertais para essa região do cromossoma. Foi encontrado que todos os haplótipos (combinação de alelos gênicos adjacentes em um cromossoma) de risco associados à COVID-19 severa formavam um clado (grupo monofilético, contendo um ancestral em comum) com genomas de Neandertais.

Os haplótipos Neandertais estão praticamente ausentes na África, ocorrem no Sul da Ásia com frequência de 30%, na Europa com 8% e na América com 4%. Portanto, o haplótipo Neandertal pode ser um contribuinte substancial para o risco de COVID-19 severa em algumas populações.

Atualmente não se sabe qual característica na região genômica derivada dos Neandertais confere risco para a COVID-19 severa e quais seus efeitos específicos para o SARS-CoV-2.  Uma vez que essa característica seja elucidada, é possível especular sobre a suscetibilidade dos Neandertais a patógenos relevantes. De qualquer forma, em relação à presente pandemia, fica claro que o fluxo gênico a partir dos Neandertais teve trágicas consequências.

FONTE: The major genetic risk factor for severe COVID-19 is inherited from Neanderthals. Zeberg, H., Pääbo, S. Nature (2020). https://doi.org/10.1038/s41586-020-2818-3.

Distanciamento físico, máscaras faciais e proteção ocular na proteção contra a COVID-19.

Para conter a infecção generalizada e reduzir a morbidade e mortalidade entre os profissionais de saúde e outras pessoas em contato com pessoas potencialmente infectadas, órgãos governamentais e instituições emitiram conselhos conflitantes sobre o distanciamento físico ou social. O uso de máscaras faciais com ou sem proteção ocular para obter proteção adicional é debatido na grande mídia e pelas autoridades de saúde pública, em particular o uso de máscaras faciais para a população em geral. Apesar das máscaras faciais serem usadas por décadas em ambientes hospitalares para prevenção de infecções, seu uso durante a COVID-19 enfrenta desafios em meio à escassez de equipamentos de proteção individual (EPIs).

Quaisquer recomendações sobre distanciamento social ou físico e o uso de máscaras faciais devem ser baseadas nas melhores evidências disponíveis. As evidências foram revisadas para outras infecções virais respiratórias, principalmente influenza sazonal, mas nenhuma revisão abrangente está disponível com informações sobre SARS-CoV-2 ou betacoronavírus relacionados que causaram epidemias, como a Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) ou a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS). Portanto, pesquisadores revisaram a literatura sobre o efeito da distância física, máscaras faciais e proteção ocular na transmissão de SARS-CoV-2, SARS-CoV e MERS-CoV. O objetivo da revisão foi determinar a distância física associada ao risco reduzido de adquirir infecção ao cuidar de um indivíduo infectado com SARS-CoV-2, SARS-CoV ou MERS-CoV.

Foram identificados 172 estudos de 16 países em seis continentes. Os resultados fornecem a melhor evidência disponível de que as políticas atuais de pelo menos 1 m de distância física entre as pessoas estão associadas a uma grande redução na infecção e distâncias de 2 m podem ser mais eficazes. Os dados também sugerem que o uso de máscaras protege as pessoas (profissionais de saúde e o público em geral) contra a infecção por esses coronavírus e que a proteção para os olhos pode conferir benefícios adicionais. No entanto, nenhuma dessas intervenções proporcionou proteção completa contra infecção.

USAR MÁSCARAS, PROTETORES OCULARES, PRATICAR O DISTANCIAMENTO FÍSICO DAS DEMAIS PESSOAS E LAVAR AS MÃOS FREQUENTEMENTE AINDA SÃO AS MELHORES ARMAS QUE TEMOS À NOSSA DISPOSIÇÃO.

FONTE: Physical distancing, face masks, and eye protection to prevent person-to-person transmission of SARS-CoV-2 and COVID-19: a systematic review and meta-analysis. Derek K Chu, Elie A Akl, Stephanie Duda, Karla Solo, Sally Yaacoub, Holger J Schünemann, on behalf of the COVID-19 Systematic Urgent Review Group Effort (SURGE). Lancet 2020; 395: 1973–87. DOI: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(20)31142-9.

O uso não controlado de ivermectina na América Latina está dificultando o teste da eficácia da droga antiparasitária contra o novo coronavírus.

Transcrevemos abaixo trechos de um artigo publicado na sessão de notícias da revista Nature em 20 de outubro de 2020. Veja o artigo original aqui.

Enquanto grande parte do mundo espera por uma vacina eficaz para conter a pandemia COVID-19, alguns países na América Latina estão recorrendo a um tratamento não comprovado. Não há evidências suficientes de que a ivermectina seja segura ou eficaz como terapia para o coronavírus. Portanto, os pesquisadores estão alertando contra o uso fora dos ensaios clínicos. Mesmo assim, as pessoas na região se apressaram em tomá-la, tornando difícil para os pesquisadores testá-la adequadamente.

A ivermectina, um medicamento de venda livre barato, tem sido usada há décadas para tratar animais e pessoas infestadas com vermes parasitas – e nos últimos meses, sua popularidade como preventivo contra COVID-19 aumentou em vários países da América Latina. As evidências de que a ivermectina protege as pessoas do COVID-19 são escassas. Alguns estudos iniciais em células e humanos sugeriram que a droga tem propriedades antivirais, mas desde então, os testes clínicos na América Latina têm lutado para recrutar participantes porque muitos já estão tomando o medicamento e não podem participar do estudo.

A ivermectina chamou a atenção em abril, quando os cientistas estavam usando todas as drogas já aprovadas que podiam contra o coronavírus. Pesquisadores na Austrália notaram que altas doses de ivermectina poderiam impedir o vírus de se replicar nas células. Pouco depois, foi publicado um preprint (artigo ainda não avaliado para publicação em revista científica, processo conhecido como avaliação pelos pares) sugerindo que a droga poderia reduzir as mortes relacionadas ao coronavírus. Esse preprint foi posteriormente removido por alguns de seus autores porque o estudo não estava pronto para revisão por pares. O preprint incluiu uma análise de registros eletrônicos de saúde pela empresa Surgisphere, que forneceu conjuntos de dados sobre COVID-19 não confiáveis, ​​que alertaram os cientistas no final de maio. Em junho, dois outros estudos importantes do COVID-19 que continham dados fornecidos por esta empresa foram retirados das revistas nas quais haviam sido publicados.

O problema é quando políticas públicas não baseadas em evidências são feitas, como tem ocorrido com a ivermectina. A implementação dessas políticas teve início em 8 de maio, quando o Ministério da Saúde do Peru recomendou o uso de ivermectina no tratamento de casos leves e graves de COVID-19. Dias depois, o governo da Bolívia acrescentou o medicamento às suas diretrizes para o tratamento de infecções por coronavírus. A cidade de Natal, Brasil, também o promoveu como preventivo – deve ser tomado por profissionais de saúde e pessoas com maior risco de adoecimento grave pelo vírus, por causa de “seu perfil farmacológico seguro, experiência clínica de uso contra outras doenças, custo e conveniência da dosagem”. Peru e Bolívia foram mais transparentes sobre o quão escassas são as evidências para o uso de ivermectina contra COVID-19: é um produto que não tem validação científica no tratamento do coronavírus.

A situação preocupa os pesquisadores que estão tentando fazer testes clínicos. Não só a popularidade do medicamento está dificultando o recrutamento de pessoas que ainda não o tenham tomado – o que é necessário para mostrar a eficácia do medicamento – mas também os médicos não documentam possíveis efeitos colaterais ao prescrever o medicamento, o que significa que dados valiosos sobre sua segurança estão sendo perdidos.

A automedicação está aumentando porque as pessoas podem facilmente comprar ivermectina em drogarias. Em junho, foi publicado um relatório sugerindo que, devido à forma como se liga às proteínas do plasma sanguíneo, o medicamento precisaria ser administrado em altas concentrações para atingir um efeito antiviral em humanos. Essas doses muito altas acarretariam um risco de efeitos adversos que seriam inaceitáveis. Embora a maioria das pessoas tolere bem a ivermectina, ela tem sido associada a tremores, convulsões, letargia e desorientação. Uma análise de 2018 encontrou casos de danos cerebrais e coma em pessoas com uma mutação genética que permite que a ivermectina passe da corrente sanguínea para o cérebro.

Isso não significa que os pesquisadores desistiram de coletar as evidências necessárias. Ainda assim, os pesquisadores podem nunca ter dados suficientes para justificar o uso da ivermectina se sua administração generalizada continuar na América Latina. A popularidade do medicamento “praticamente cancela” a possibilidade de realização de ensaios clínicos de fase III, que exigem milhares de participantes – alguns dos quais fariam parte de um grupo de controle e, portanto, não poderiam receber o medicamento – para estabelecer sua segurança e eficácia. À medida que o uso não controlado de ivermectina cresce mais difícil será coletar as evidências que as agências reguladoras precisam sobre o real papel desse medicamento contra a COVID-19.

FONTE: Latin America’s embrace of an unproven COVID treatment is hindering drug trials. Emiliano Rodríguez Mega. Nature 586, 481-482 (2020). doi: https://doi.org/10.1038/d41586-020-02958-2

Análise da curva epidemiológica em profissionais de saúde de um hospital no Rio de Janeiro.

Pesquisadores do Rio de Janeiro publicaram um artigo na plataforma de preprints medRixv (ainda não avaliado para publicação oficial em uma revista científica) com a intenção de descrever a curva epidêmica de contaminação de funcionários do Instituto Nacional de Cardiologia durante a pandemia de COVID-19.

Os testes dos funcionários focaram na identificação precoce dos indivíduos infectados, redução da contaminação cruzada para outros funcionários, pacientes e familiares, redução do absenteísmo e planejamento da substituição dos funcionários doentes. Funcionários com quaisquer sintomas respiratórios, diarreia, febre, anosmia ou mialgia foram testados por RT-PCR do terceiro ao décimo dia da doença. Funcionários positivos ou com sintomas foram removidos do trabalho por 14 dias.

Um total de 613 testes foram feitos em 548 funcionários entre 23 de março e 04 de junho de 2020. Foram obtidos 280 testes positivos (quase 46% de positividade), representando 12% dos funcionários do hospital. Um total de 3,7% dos testes foram inconclusivos e tiveram que ser repetidos. Devido à limitada disponibilidade de testes no início da pandemia, foi necessário restringir os testes apenas para funcionários sintomáticos.

O hospital representa um microcosmo da cidade do Rio de Janeiro, com funcionários apresentando perfis de risco variados, habitando regiões diferentes na cidade e pertencendo a grupos socioeconômicos diferentes. O comportamento da epidemia dentro do hospital pode espelhar o que estava ocorrendo na cidade. A curva epidêmica mostrou uma redução clara no número de indivíduos sintomáticos positivos após a primeira semana de maio, demonstrando uma redução na infecção dos funcionários. Apesar da disponibilidade de equipamentos de proteção individual, da rápida identificação dos funcionários doentes e do treinamento provido pelo hospital, a taxa de positividade observada até junho era considerada alta.

O Brasil apresentou altas taxas de contaminação e mortalidade entre profissionais de saúde, especialmente enfermeiros. É também importante notar que os profissionais trabalham em vários hospitais públicos e privados, atuando como vetores de transmissão do vírus entre as unidades. Os casos de infecção entre profissionais de saúde no Instituto Nacional de Cardiologia precederam a hospitalização do primeiro paciente com COVID-19 nesse hospital, refletindo uma provável contaminação a partir de outra unidade de saúde ou da comunidade.

FONTE: Epidemic Curve of Contamination in a Hospital That Served as Sentinel of the Spread of the SARS-Cov-2 Epidemic in the City of Rio de Janeiro. Marisa Santos, Tereza Cristina Felippe Guimarães, Helena Cramer, Fabiana Mucillo, Izabella Pereira da Silva Bezerra, Raiana Andrade Quintanilha Barbosa, Tais Hanae Kasai Brunswick, Adriana Bastos Carvalho, Glauber Monteiro Dias, Aurora Issa, Adriana Bastos Carvalho, Antonio Carlos Campos de Carvalho. medRxiv preprint doi: https://doi.org/10.1101/2020.10.19.20215079.t

Medicamentos antivirais reposicionados para COVID-19 – resultados provisórios do ensaio WHO SOLIDARITY.

Um fórum de pesquisa COVID-19 da OMS em fevereiro de 2020 recomendou a avaliação de tratamentos em grandes ensaios clínicos randomizados e especialistas da OMS identificaram quatro medicamentos antivirais que poderiam ser reposicionados para a COVID-19: Remdesivir, Hidroxicloroquina, Lopinavir e Interferon-β1a.

Em março de 2020, a OMS deu início a um grande ensaio clínico randomizado, de rótulo aberto, simples, multipaíses, entre pacientes internados em hospitais, sobre os efeitos desses quatro medicamentos na mortalidade hospitalar (Ensaio Solidariedade). O teste foi adaptativo: drogas pouco promissoras foram abandonadas e outras adicionadas. Por exemplo, a hidroxicloroquina e o lopinavir foram eventualmente descartados, mas outros, como os anticorpos monoclonais, estão sendo adicionados.

De 22 de março a 4 de outubro de 2020, 11.330 pacientes foram internados em 405 hospitais em 30 países. Destes, 11.266 participaram das análises. O objetivo principal era ajudar a determinar se qualquer um dos quatro antivirais poderia afetar, pelo menos moderadamente, a mortalidade intra-hospitalar e se os efeitos diferiam entre a doença moderada e grave.

Para cada um desses quatro antivirais não específicos reposicionados, vários milhares de pacientes foram randomizados em vários ensaios. Os achados gerais pouco promissores dos regimes testados são suficientes para refutar as esperanças iniciais, baseados em estudos menores ou não randomizados, de que qualquer um desses medicamentos irá reduzir substancialmente a mortalidade de pacientes internados, o início da ventilação ou a duração da hospitalização.

FONTE: Repurposed antiviral drugs for COVID-19–interim WHO SOLIDARITY trial results. WHO Solidarity trial consortium. medRxiv preprint doi: https://doi.org/10.1101/2020.10.15.20209817

Os suplementos podem realmente ajudar a combater o COVID-19?

Transcrevemos abaixo artigo escrito pela jornalista Laura Beil e publicado na ScienceNews em 16 de outubro. Confira o original aqui.

Os consumidores há muito recorrem às vitaminas e ervas para tentar se proteger das doenças. Com esta pandemia não é diferente. Mas se os suplementos de venda livre podem realmente prevenir, ou mesmo tratar, COVID-19, não está claro. Como a doença é tão nova, os pesquisadores não tiveram muito tempo para o tipo de experimentos grandes que fornecem as melhores respostas. Em vez disso, os cientistas confiaram principalmente em novas abordagens de dados antigos. Alguns estudos analisaram os resultados de pacientes que tomam certos suplementos rotineiramente – e encontraram algumas dicas promissoras. Mas até agora há poucos dados sobre os tipos de experimentos cientificamente rigorosos que dão aos médicos confiança ao recomendar suplementos.

Aqui está o que sabemos hoje sobre três suplementos que estão recebendo muita atenção em torno do COVID-19.

Vitamina D: Chamada de “vitamina do sol” porque o corpo a forma naturalmente na presença de luz ultravioleta, a vitamina D é um dos suplementos mais estudados. Certos alimentos, incluindo peixes e produtos lácteos fortificados, também são ricos em vitaminas. A vitamina D é um bloco de construção hormonal que ajuda a fortalecer o sistema imunológico. Em 2017, foi publicada uma meta-análise que sugeria que um suplemento diário de vitamina D pode ajudar a prevenir infecções respiratórias, especialmente em pessoas com deficiência dessa vitamina. Mas uma palavra-chave aqui é deficiente. Esse risco é maior durante invernos escuros em latitudes altas e entre pessoas com mais cor de pele (a melanina, um pigmento que é mais abundante em peles mais escuras, inibe a produção de vitamina D). Se você tem vitamina D suficiente em seu corpo, as evidências não mostram que dar a você mais fará uma diferença real. E ingerir muito pode criar problemas de saúde, estressando certos órgãos internos e levando a um aumento perigosamente alto de cálcio no sangue. Poucos estudos examinaram diretamente se a vitamina D faz diferença no COVID. Há evidências apenas o suficiente para recomendar vitamina D para ajudar na prevenção de COVID-19 em pessoas com deficiência.

Zinco: Mineral encontrado nas células de todo o corpo, é encontrado naturalmente em certas carnes, feijões e ostras. Desempenha várias funções de suporte no sistema imunológico, razão pela qual as pastilhas de zinco sempre vendem muito na temporada de gripes e resfriados. O zinco também ajuda na divisão e no crescimento celular. Estudos sobre o uso de zinco para resfriados – que são frequentemente causados ​​por coronavírus – sugerem que o uso de um suplemento logo após o início dos sintomas pode fazer com que eles desapareçam mais rapidamente. Porém, um ensaio clínico publicado em janeiro na revista BMJ Open não encontrou nenhum valor para pastilhas de zinco no tratamento de resfriados. Alguns pesquisadores teorizaram que as inconsistências nos dados para resfriados podem ser explicadas por quantidades variáveis ​​de zinco liberadas em diferentes pastilhas.

O mineral é promissor o suficiente para ser adicionado a alguns estudos iniciais de hidroxicloroquina, um medicamento testado no início da pandemia. (Desde então, os estudos mostraram que a hidroxicloroquina não pode prevenir ou tratar COVID-19). As evidências atuais sugerem grandes benefícios da suplementação de zinco com base na observação de infecções semelhantes, incluindo SARS, outra doença causada por um coronavírus. Estudos sugerem que dar zinco reduz o risco de morte por infecção por pneumonia e o zinco pode ajudar a impedir que o vírus entre no corpo e a retardar a replicação do vírus quando isso acontece. Dado o que já se sabe, o zinco pode diminuir a duração da infecção, mas não a gravidade dos sintomas, principalmente entre pessoas com deficiência. Cerca de uma dúzia de estudos estão agora examinando o zinco para o tratamento de COVID, geralmente com outros medicamentos ou suplementos.

Vitamina C:  Também chamada de ácido L-ascórbico, a vitamina C tem uma longa lista de funções no corpo. É encontrada naturalmente em frutas e vegetais, especialmente cítricos, pimentão e tomate. É um antioxidante potente importante para um sistema imunológico saudável e para prevenir a inflamação. Os dados sobre a vitamina C costumam ser contraditórios. Entre outros sinais encorajadores, estudos em humanos encontraram uma incidência menor de pneumonia entre pessoas que tomam vitamina C, “sugerindo que a vitamina C pode prevenir a suscetibilidade a infecções do trato respiratório inferior sob certas condições”. Porém, uma revisão de 29 estudos da Cochrane de 2013 não apoiava a ideia de que os suplementos de vitamina C poderiam ajudar na população em geral. Cerca de uma dúzia de estudos estão em andamento ou planejados para examinar se a vitamina C adicionada ao tratamento do coronavírus ajuda nos sintomas ou na sobrevivência.

Embora os suplementos sejam geralmente seguros, nada é isento de riscos. A melhor maneira de evitar a infecção ainda é seguir o conselho de epidemiologistas e especialistas em saúde pública: “Lave as mãos, use máscara e fique a dois metros de distância das demais pessoas”.

FONTE: Can supplements really help fight COVID-19? Here’s what we know and don’t know. By Laura Beil. ScienceNews. OCTOBER 16, 2020.

O que a Medicina Veterinária pode nos dizer sobre os coronavírus?

Os vírus da família Coronaviridae são onipresentes na natureza devido à sua existência em um amplo espectro de espécies de mamíferos e aves. Em 1937, o vírus da bronquite infecciosa aviária (IBV) foi isolado pela primeira vez de um surto em galinhas. Desde então, coronavírus (CoVs) relacionados foram descobertos com subsequentes isolamentos virais em roedores, animais domésticos e humanos. O primeiro CoV humano foi isolado na década de 1960 de secreções nasais de pacientes que sofriam de resfriado comum. Estima-se que dois CoVs humanos (HCoVs) estejam envolvidos em cerca de 30% dos resfriados comuns.

Acreditava-se que a infecção com HCoVs era leve até o surto da Síndrome Respiratória Aguda Grave (causada pelo SARS-CoV). O surto de SARS-CoV, em 2003, foi um dos mais devastadores da história atual, infectando mais de 8.000 pessoas e tendo uma letalidade bruta de aproximadamente 10%. Uma década depois, outra infecção zoonótica surgiu na região do Oriente Médio, a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (causada pelo MERS-CoV), que causou um transbordamento em 2012 e resultou em uma epidemia persistente na Península Arábica e disseminação esporádica para o resto do mundo. A infecção por MERS-CoV em humanos causa pneumonia grave fatal, com mortalidade de 35% dos casos. O novo HCoV de 2019 (2019-nCoV), que foi posteriormente renomeado SARS-CoV-2, é um CoV humano recém-surgido que resultou em uma pandemia global e contínua, ceifou mais de 710.110 vidas e infectou mais de 18.895.712 pessoas até 5 de agosto de 2020.

CoVs causam doenças graves em diferentes animais, como cães, gatos, porcos, galinhas, vacas, camelos e humanos. Esforços esmagadores têm sido investidos na obtenção de vacinas eficazes que resolvam o dilema global da pandemia de CoV. No entanto, as tentativas de licenciar vacinas eficazes contra o CoV para infecções respiratórias em humanos ainda não tiveram sucesso. Por outro lado, a infecção por CoV em diferentes espécies de animais domésticos, como gatos, cães, porcos, gado e aves, é tratada rotineiramente por vacinação. Por exemplo, as vacinas IBV foram as primeiras vacinas licenciadas para prevenir a infecção respiratória superior por CoV em galinhas. Considerando a experiência de longo prazo adquirida com CoVs animais, a medicina veterinária poderia participar com contribuições importantes para decifrar a origem do SARS-CoV2 e para conduzir pesquisas futuras em medicina humana para o desenvolvimento de vacinas imunogênicas e seguras e drogas antivirais eficazes. Os sucessos e fracassos encontrados com a profilaxia e o tratamento de CoVs animais podem ser úteis para tratar questões relacionadas ao SARS-CoV-2.

FONTE: The Coronaviruses of Animals and Birds: Their Zoonosis, Vaccines, and Models for SARS-CoV and SARS-CoV2. Ahmed M. Alluwaimi, Ibrahim H. Alshubaith, Ahmed M. Al-Ali and Salah Abohelaika. Front. Vet. Sci., 24 September 2020. https://doi.org/10.3389/fvets.2020.582287