Naegleria fowleri: ameba comedora de cérebros isolada de bovinos no Rio Grande do Sul

Denise Leal dos Santos (Doutoranda PPGMAA)

Amebas de Vida livre (AVL) são protozoários amplamente distribuídos na natureza e já foram isolados de diversos ambientes, como água da torneira, lagos e rios, piscinas, aparelhos de ar condicionado, lentes de contato e estojos de armazenamento, poeira entre outros. Muitos desses microrganismos são oportunistas e podem causar doenças em humanos e animais. Destacamos aqui Acanthamoeba spp. causadora de ceratite em usuários de lentes de contato e de Meningoencefalite amebiana granulomatosa afetando o cérebro de pacientes imunocomprometidos e Naegleria fowleri a temida ameba conhecida como “comedora de cérebros”, causando a Meningoencefalite amebiana primária (MAP) que pode atingir indivíduos saudáveis (seres humanos e animais como os bovinos).

N. fowleri possui dois estágios de vida: o trofozoíto (forma livre) e o cisto (forma de resistência). Além disso, essa espécie pode emitir flagelos principalmente quando está à procura de alimento. O contato com essa ameba se dá geralmente na água, quando em mergulhos, o protozoário invade as fossas nasais de suas vítimas que são na maioria das vezes jovens que acabam revolvendo sedimento do fundo de rios e lagos e trazendo à tona o parasito, que invade o cérebro causando a infecção. Outra maneira de contaminação é o uso de Net Poti ou Lota, usado para a limpeza das fossas nasais e através de rituais de ablução (lavagem de mãos, pés e cabeça e aspiração de água pelas narinas) que acontecem entre muçulmanos. Até o momento no mundo inteiro, apenas 5 pessoas sobreviveram a MAP.

Somente nos EUA, o Centers for Disease Control and Prevention (CDC) contabilizou 151 casos de MAP num período de 1962 a 2020. No Brasil existem poucos relatos de MAP entre humanos que datam da década de 1970. Aqui no Rio Grande do Sul dois relatos de caso ocorridos entre 2017 e 2019 em bovinos chamam a atenção, pois ocorreram na mesma região, a cidade de Glorinha, RS (Henker et al, 2019; 2021). A identificação post-mortem, realizada através de técnicas imunohistoquímicas e molecular, foi confirmada de que se tratava de N. fowleri. Esses animais podem ter sido acometidos quando bebiam água em locais próximos a lavouras de arroz ou de poças que se formaram pela ação das chuvas. Ao beber água, os bovinos acabam mergulhando as narinas e isso pode ter contribuído para a contaminação.

Como A MAP é uma doença cujos sintomas são muito semelhantes aos de uma meningite bacteriana ou viral (dor de cabeça, rigidez da nuca, vômitos, febre alta), acredita-se que muitos casos possam ser subdiagnosticados. O curso dessa infecção é muito rápido e letal. Após instalar-se, em cerca de 7 dias o indivíduo pode vir a óbito. Portanto, mais estudos são necessários quanto ao conhecimento e isolamento desse protozoário no ambiente e na prospecção de drogas mais eficazes no combate à MAP.

CDC: https://www.cdc.gov/parasites/naegleria/graphs.html

Henker LC, Cruz RASD, Silva FSD, Driemeier D, Sonne L, Uzal FA, Pavarini SP. Meningoencephalitis due to Naegleria fowleri in cattle in southern Brazil. Rev Bras Parasitol Vet. 2019,6;28(3):514-517. doi: 10.1590/S1984-29612019021.

Henker LC, Lorenzett MP, Dos Santos DL, Virginio VG, Driemeier D, Rott MB, Pavarini SP. Naegleria fowleri-associated meningoencephalitis in a cow in Southern Brazil-first molecular detection of N. fowleri in Brazil. Parasitol Res. 2021, 120(8):2873-2879. doi: 10.1007/s00436-021-07209-5.