Estudo indica que festas de aniversário são eventos potencialmente importantes no espalhamento das infecções por COVID-19

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem – UFRGS 

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS  

Como já exaustivamente debatido neste blog, o isolamento social é uma forma importante de impedir a disseminação da COVID-19 e, em contrapartida, os encontros sociais informais são um modo potencialmente importante de transmissão do SARS-CoV-2. Entretanto, os estudos sobre o papel desses encontros na transmissão do vírus geralmente se defrontam com limitações metodológicas. Pesquisadores americanos resolveram explorar um tipo muito específico desses eventos informais – os aniversários – como uma forma indireta de tentar quantificar empiricamente o papel potencial de pequenos encontros sociais na disseminação da COVID-19. Os pesquisadores partiram da hipótese de que domicílios com um ou mais aniversariantes poderiam estar associados a uma maior ocorrência de casos de COVID em relação a domicílios sem aniversariantes, e que isso estaria associado às reuniões que ocorrem por ocasião desses eventos. Para obter os resultados do estudo, os pesquisadores analisaram os dados de 2,9 milhões de domicílios nos EUA.  O período analisado foi entre 1 de janeiro e 8 de novembro de 2020, e os dados foram coletados com uma empresa de seguros de saúde americana. As seguintes informações foram levadas em consideração para realizar o estudo: o tipo de aniversário (por exemplo, aniversário de criança, de adulto ou de alguma data especial, como aniversário de 50 anos), a taxa de transmissão em nível dos condados (condado é um pequeno território dentro de um estado americano) no sábado de cada semana, questões políticas no condado e políticas estaduais de isolamento no local. 

Utilizando os dados da seguradora, com informações sobre aniversários e diagnósticos de COVID-19, os autores identificaram que a ocorrência de um aniversário em um domicílio estava associada a taxas de diagnóstico de COVID-19 significativamente maiores nesses mesmos domicílios nas 2 semanas seguintes aos aniversários, sugerindo que ocorreram encontros sociais para comemorar o aniversário e que esses encontros promovem sim o espalhamento da COVID-19. Entre os domicílios analisados nos condados com a maior prevalência de COVID, aqueles com aniversário tiveram um aumento de 8,6 diagnósticos a cada 10.000 indivíduos nas duas semanas seguintes ao aniversário em comparação com domicílios sem aniversário. Essa diferença entre domicílios com e sem aniversário era tanto maior quanto maior a prevalência de COVID nos condados. Outro dado importante observado foi que o aumento no número de casos após aniversário era maior após o aniversário de uma criança, do que após o aniversário de um adulto, o que pode sugerir uma maior probabilidade da ocorrência encontros informais por ocasião de aniversários das crianças e/ou um maior número de participantes, um relaxamento no comportamento de distanciamento e uso de mascaras ou uma combinação desses fatores. É importante ressaltar que não se entrou dentro de nenhuma residência neste estudo, apenas observou-se uma relação de causa e efeito entre essa data comemorativa e a ocorrência de casos nas semanas que se seguiam ao aniversário, portanto o que se vê é uma evidência indireta de que aniversários promovem condições para a transmissão do vírus e que mais de um fator pode estar envolvido, mas todos os fatores estão potencialmente relacionados à aglomeração social por ocasião destas datas. 

A taxa de infecção de COVID-19 em famílias com aniversários em condados que estavam sob a normativa de isolamento social ativo (lockdown, restrições de circulação, etc.) não foi menor do que em condados sem essas normativas, sugerindo que a adesão a essas políticas para esses eventos específicos pode ser baixa. Também é possível que os pedidos de isolamento social tenham se concentrado em locais formais de reunião, como restaurantes, lojas, academias e outros locais. No entanto, é importante enfatizar que os resultados desse estudo sugerem que as intervenções políticas destinadas a limitar a transmissão de doenças também devem focalizar nas reuniões informais, como as comemorações de aniversário.  

Sabemos que as festas de aniversário são culturalmente e emocionalmente importantes, tanto nos EUA quanto aqui no Brasil, mas todos os dados expostos por esse estudo indicam que elas ainda devem ser evitadas, a fim de conter a disseminação e o alto número de vítimas da COVID-19. Ressaltamos também que as novas variantes em circulação, como a variante Delta, que assunto da postagem anterior do blog (veja aqui), são ainda mais danosas e altamente transmissíveis do que as que estavam em circulação quando esse estudo foi realizado, o que reforça o nosso apelo pelo adiamento destas comemorações até que nos encontremos em uma situação epidemiológica mais segura. 

A variante delta é potencialmente a maior ameaça relacionada à COVID19 até o momento, afirma epidemiologista americano

Bruno Lopes Breda – Acadêmico de Medicina – UFRGS

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS

               Com o desenvolvimento da pandemia, é de se esperar que surjam novas variantes da COVID-19, uma vez que o vírus está constantemente somando mutações, as quais trazem preocupação. No dia 24 de junho, o epidemiologista Eric Feigl-Ding, o qual tem sido uma das referências no combate à COVID-19 nos Estados Unidos, compilou em seu twitter uma série de acontecimentos, especialmente na Austrália, que levam os pesquisadores a crer que a variante delta se dissemina com uma velocidade assustadora. Traduzimos, a seguir, os tuítes que falam sobre o assunto. Todos podem ser acessados na íntegra em https://twitter.com/DrEricDing/status/1408078811644768258?s=1005 .

1 – “5-10 segundos” é o tempo necessário para transmitir a variante delta, alerta um agente de saúde de Queensland – AUS. Não é mais preciso 15 minutos para transmitir a COVID-19. Pode ocorrer em um momento fugaz, de segundos. Aconteceu, inclusive, três vezes em um shopping center. https://t.co/M63Nk8b956?amp=1

2 – Especialistas dizem que a variante delta aparenta ser mais transmissível em todas as faixas etárias, incluindo crianças. Ela é transmitida tão facilmente que uma pessoa em Sidney infectou um estranho simplesmente passando por ele na rua.

https://www.abc.net.au/news/2021-06-23/delta-covid-variant-effect-on-children-kids/100234076

3 – O chefe de saúde de New South Whales descreveu o incidente de Bondi Junction como um encontro “assustadoramente fugaz”.

“Eles estão claramente de frente um para o outro, mas é literalmente alguém se movendo um em frente ao outro por um momento, perto, mas momentaneamente”, disse o Dr. Chant.

4 – O Dr. Chant suspeita que duas outras pessoas tenham sido infectadas da mesma maneira.

“Não fomos capazes de olhar exatamente para o mesmo ponto de cruzamento, mas sabemos que eles estavam a 20 metros [um do outro], registrando-se em locais diferentes ao mesmo tempo ou naquela área, então suspeitamos que eles se cruzaram”

5 – “A velocidade e facilidade com que a variante Delta se espalha levou os estados e territórios a agir rapidamente para isolar os viajantes das áreas afetadas. A diretora de saúde de Queensland, Jeannette Young, alertou que estamos vendo “contato muito fugaz” em alguns casos.

6 – “Se você se lembra, no início desta pandemia, falei que cerca de 15 minutos de contato próximo era uma preocupação”, disse ela.

“Agora, parece que são cinco a 10 segundos.

Isso é uma preocupação.

O risco é muito maior agora do que há apenas um ano.”

7 – Esta infecção de exposição “fugaz” foi amplamente discutida na Austrália recentemente. E estudada em detalhes. Há tanto imagens de câmeras de segurança quanto testes genômicos para combinar a variante com precisão para determinar uma combinação entre as duas pessoas.

8 – E sim, houve várias pessoas infectadas como esta exposição passageira em Sydney.

9 – “Eles acabaram de se cruzar na loja de departamentos”… “nenhum contato”, de acordo com as imagens de segurança do CCTV.

10 – Agora estou confiante o suficiente para dizer que a variante delta é agora a maior ameaça de COVID19 até hoje em 2021 (grifo dos tradutores). É de longe a variante mais rápida conhecida até agora. Os dados compilados de 64 países pela OMS não mentem. A variante B16172 é um perigo claro e presente para o mundo. Ajamos rápido.

11 – As pessoas precisam perceber o quão transportado pelo ar esse coronavírus é. Está literalmente no ar que você respira.

https://www.theguardian.com/australia-news/2021/jun/24/its-in-the-air-you-breathe-what-you-need-to-know-about-sydneys-delta-covid-variant

12 – A OMS declarou a variante Delta uma “variante preocupante” de alto risco em maio. Mesmo assim, o CDC não agiu para declarar a Delta um VOC (variant of concern = variante preocupante) mais de um mês depois, em 15 de junho! Sabíamos que era perigoso, mas perdemos muitas oportunidades de agir rápido.

13 – A variante delta é uma ameaça tripla por ser mais transmissível, mais grave e com menor proteção por meio de vacinas, especialmente as de 1 dose. Veja a thread. Assista aos vídeos … 3 partes:

14 – A variante delta está absolutamente disparando em países do mundo todo. Mas mesmo em países altamente vacinados como Estados Unidos, Reino Unido e Israel. Nos EUA, aumentou para 20-30% de todos os casos em apenas uma semana. Está varrendo o mundo – qualquer pessoa que não tenha vacinado duas vezes é extremamente vulnerável.

15 – A variante delta está se espalhando pelo mundo. A vacinação é a chave – mas apenas com  2 doses completas.

Temos uma janela de exatamente 1 mês para a maioria dos países responder rapidamente e vacinar 2x antes que seja tarde demais.

Com duas mortes já confirmadas no Brasil, a variante Delta está entre nós. Trate-a com o respeito que ela merece: evite aglomerações, use máscara, evite ambientes fechados. Vacinado(a) ou não.

É possível que a infecção por parasitos seja protetora para a severidade da COVID-19?

Bruno Lopes Breda – Acadêmico de Medicina – UFRGS

Revisão: Carlos Eugênio Silva (Professor do ICBS – UFRGS

O estudo a ser abordado é um preprint e pode ser acessado na íntegra em https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.02.02.21250995v1

Sim, a afirmação do título pode soar estranha, mas não foi um erro de digitação. Pesquisadores da Etiópia e da Holanda, em um estudo conjunto, decidiram avaliar se existe correlação entre parasitoses comuns e a severidade da COVID-19. É importante que ressaltemos: embora nos pareça algo incomum, estima-se que 2 bilhões de pessoas do mundo estejam, nesse momento, portando algum parasito. Especialmente em países de menor nível socioeconômico, como os países africanos e, sim, o nosso Brasil, onde as dificuldades de obter saneamento básico para a população criam um ambiente propício para a disseminação desses organismos. Para o leitor que não sabe o que são parasitos, vou exemplificar alguns: a tão conhecida “lombriga”, a teníase (solitária), o “amarelão”, as amebas e a toxoplasmose são todos membros desse grupo denominado “parasitos”, e é eles que iremos avaliar.

Os pesquisadores utilizaram um banco de dados (do estudo Profile-CoV) para selecionar participantes que tivessem passado por uma triagem em busca de infecções com parasitos.  Para entrar no estudo, os pacientes precisavam ter sido infectados com a COVID-19, com confirmação por RT-PCR e, na admissão do hospital, terem passado por uma triagem para parasitoses, com análise de amostras de fezes em busca de ovos e parasitos.

  O desfecho principal do estudo foi obter uma comparação entre a proporção de pacientes que desenvolveram COVID-19 grave nos pacientes que tinham parasitose confirmada e nos pacientes que não tinham parasitose. Por meio de modelos matemáticos, os pesquisadores compararam os grupos em busca desses dados, e os resultados foram, no mínimo interessantes. Dos 515 pacientes selecionados para o estudo, 267 (ou 51,8%) tinham co-infecção com um ou mais parasitos. Os parasitos mais comuns entre o grupo co-infectado foram protozoários, como giárdia e entameba, e helmintos, como a tênia anã, o esquistossomo e áscaris (“lombriga”). Quando comparados os grupos, os pacientes que não tinham infecção por parasitos apresentaram mais febre, dores de cabeça, falta de ar e sangue no escarro. Além disso, percebeu-se que pacientes com COVID-19 mais grave tinham menos co-infecção, e os desfechos entre pacientes sem co-infecção tendiam a ser piores que os do grupo co-infectado.

Como conclusão, o estudo postula que , no grupo estudado, a co-infecção com parasitos (helmintos e protozoários) foi associada com menor probabilidade de desenvolver COVID-19 grave. Isso pode parecer estranho, mas já existem estudos em diversas áreas que, cada vez mais, parecem mostrar que a infecção por parasitos diminui as chances de desenvolvermos outras doenças, como por exemplo diabetes, algumas doenças auto-imunes e doenças metabólicas. Os pesquisadores, inclusive, destacam no estudo que a proporção de pacientes com comorbidades no grupo que estava co-infectado era significativamente menor do que no grupo sem co-infecção.

Mas como uma verminose, como a causada pela lombriga, preveniria o desenvolvimento da COVID-19 para formas mais graves? Bem, sabemos hoje que a progressão da COVID para formas de maior gravidade está associada com uma hiperativação do sistema imune. Em outras palavras, nossas células de defesa não conseguem medir adequadamente a força com que combatem a doença, e acabam por gerar danos ao nosso próprio corpo nesse processo. Alguns parasitos, por outro lado, provocam infecções que têm como característica justamente a modulação da resposta imune. Faz sentido, não? Afinal, como um verme conseguiria sobreviver dentro do nosso intestino se não tivesse boas formas de escapar das nossas células de defesa? Infecções por parasitos tendem a estimular a formação das nossas células Treg, que são, em uma analogia, aquelas que controlam a hiperatividade das outras subpopulações de linfócitos T, associados aos danos que descrevemos acima.

Claro, é importante que reconheçamos algumas limitações desse estudo, que impedem que afirmemos categoricamente que, sim, a infecção com parasitos impede com certeza a evolução da COVID-19 para formas mais graves. Primeiro, e mais importante, ele é um estudo com uma população reduzida, de pouco mais de 500 pacientes. Além disso, ele é um estudo retrospectivo, ou seja, os pesquisadores apenas obtiveram dois recortes dos pacientes: o estado deles quando chegaram ao hospital e o estado deles quando saíram do hospital. Embora tenham-se tomado diversas medidas metodológicas para diminuir ao máximo as chances de erro, é sempre mais confiável que tiremos as informações de estudos prospectivos, em que os pesquisadores acompanham os pacientes ao longo do tempo.

Esse estudo nos fornece algumas informações interessantes sobre o potencial papel das infecções mistas, como a dos parasitos, na evolução da COVID-19. Também sugere outros atratores importantes como a própria microbiota intestinal, uma vez que o estudo considera um estado imunoregulatório complexo que antecede a infecção pelo Sars Cov-2 e nos remete  ao seu potencial co-evolutivo sobre o homem num contexto de saúde única. Em se tratando de COVID-19, todo conhecimento é bem-vindo. Entretanto, não entendamos isso como um convite para sairmos nos infectando com lombrigas, tênias e afins, por favor!

Uso de genotipagem para detecção de variantes do SARS-CoV-2.

Dr. Patricia Valente – professora do DEMIP/ICBS, UFRGS.

Acabamos de publicar uma postagem sobre o aumento de casos da variante delta no Reino Unido (ver postagem aqui). A utilização de uma nova metodologia para detecção das variantes, mais rápida que o sequenciamento do genoma completo do vírus (metodologia padrão para este fim), foi essencial para que o Reino Unido conseguisse monitorar o surgimento e disseminação da variante de origem indiana em seu território.

A nova metodologia adotada é a genotipagem, cujo protocolo já é bem estabelecido para outros vírus, como o HIV, que causa a AIDS. O problema é que para cada vírus há a necessidade de estabelecer um protocolo de genotipagem apropriado, o que só é conseguido após a criação de um banco de dados contendo inúmeras sequências completas das variantes do vírus.

Afinal, qual é a diferença entre sequenciamento de genoma completo e genotipagem?

O genoma é o material genético completo do vírus. Desde que a primeira sequência do genoma do SARS-CoV-2 foi lançada em janeiro de 2020, dezenas de milhares de sequências do genoma completo foram compartilhadas online em bancos de dados públicos, podendo ser utilizadas para comparação entre as diferentes variantes. Como é fácil imaginar, o sequenciamento do material genético completo do vírus é caro e pouco ágil, não permitindo que todas as amostras virais sejam analisadas.

Genotipagem é uma metodologia na qual são sequenciadas apenas algumas partes do genoma viral, barateando o processo e tornando-o ágil. Com a comparação das sequências de genoma completo nos bancos de dados públicos, é possível avaliar quais partes do genoma viral são mais importantes para a diferenciação das variantes, elaborando um protocolo de genotipagem apropriado para um determinado vírus.

O Consórcio Britânico para estudo de COVID-19 (The COVID-19 Genomics UK Consortium) publicou o artigo utilizado como fonte para esta postagem (ver o artigo original aqui), divulgando o protocolo de genotipagem por SNP (polimorfismos de nucleotídeo simples ou “single nucleotide polimorphism”, em inglês) para o SARS-CoV-2. Foram selecionadas posições polimórficas no genoma viral, isto é, posições com nucleotídeos que variavam entre as variantes. Essas posições polimórficas foram analisadas com a finalidade de escolher algumas apropriadas para diferenciar as variantes. Essas posições apropriadas no genoma foram denominadas marcadores de SNP e o protocolo de genotipagem foi estabelecido com base nelas. A concordância entre os protocolos de sequenciamento de genoma completo e de genotipagem de SNP na detecção das variantes do SARS-CoV-2 foi avaliada para validar a nova metodologia.

Veja o vídeo abaixo explicando a metodologia da genotipagem.

Segundo os autores, a genotipagem foi capaz de detectar amostras virais mistas, interpretadas como possível evidência de infecção por dois genótipos virais. A genotipagem é altamente escalável e não requer equipamento personalizado, o que a torna adequada como um método de triagem adicional em instalações de teste de diagnóstico. Não é, entretanto, uma substituta para o sequenciamento de genoma completo. Em vez disso, as duas abordagens são complementares e os painéis de genotipagem precisarão ser cruzados com os alinhamentos de sequência de genoma completo em intervalos regulares para garantir que novas mutações sejam incluídas na análise de genotipagem.

FONTE: Detecting SARS-CoV-2 variants with SNP genotyping. Helen Harper, Amanda Burridge, Mark Winfield, Adam Finn, Andrew Davidson, David Matthews, Stephanie Hutchings, Barry Vipond, Nisha Jain, The COVID-19 Genomics UK (COG-UK) Consortium, Keith Edwards, Gary Barker. PLoS ONE 16 (2): e0243185. 24 de fevereiro de 2021. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0243185.

Variante Delta já domina 96% dos novos casos de COVID-19 no Reino Unido – e como isso afeta o Brasil?

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem – UFRGS  

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS 

A variante Delta, também conhecida como B.1.617.2, identificada pela primeira vez na Índia, está sendo associada ao aumento expressivo de casos de COVID-19 no Reino Unido, é o que afirma a reportagem de 11 de junho do jornal inglês The Guardian (veja reportagem na íntegra aqui). Acredita-se que essa variante se espalhe mais facilmente do que a variante Alfa, B.1.1.7, além de ser um pouco mais resistente às vacinas disponíveis, principalmente no caso daqueles que receberam apenas a primeira dose. Também é importante ressaltar que essa variante pode estar associada a um maior risco de hospitalização. Recentemente, a agência governamental inglesa Public Health England (PHE) afirmou a variante Delta é responsável por quase 96% dos novos casos de COVID-19 no Reino Unido. O relatório divulgado pela PHE informa que os novos casos de infecção estão dobrando a cada 4,5 e 11,5 dias em algumas regiões da Inglaterra, e que o risco de transmissão domiciliar é de cerca de 60% maior do que a da variante Alfa. Os novos casos confirmados no Reino Unido passaram de 29.892 para 42.323. 

O aumento brusco na detecção do número de casos associados a variante Delta se deve também ao uso de uma nova técnica para determinar a presença da variante na amostra dos casos positivos de COVID-19, conhecida como genotipagem, onde apenas seções-chave do genoma são examinadas, que apresenta resultados em 48 horas, um tempo muito menor do que exigia o sequenciamento completo, a técnica usada até recentemente. Usando a genotipagem, os dados mais recentes indicaram que 96% dos casos de COVID-19 na Inglaterra envolvem a variante Delta. 

De acordo com o relatório divulgado, desde o início de fevereiro a 7 de junho, 33.206 casos associados a variante Delta foram identificados na Inglaterra. Desses, 19.573 foram em indivíduos não vacinados, 1.785 em indivíduos totalmente vacinados e 7.559 casos identificados naqueles que receberam uma dose da vacina. Além disso, 383 pessoas infectadas com a variante foram internadas em hospitais nesse período, sendo que 42 desses haviam recebido as duas doses da vacina, 86 haviam recebido apenas a primeira dose e 251 não receberam nenhuma dose. Em relação ao número de óbitos, 42 mortes foram registradas em 28 dias, sendo que 23 dessas pessoas não estavam vacinadas, 12 estavam 100% vacinadas e 7 haviam recebido apenas a primeira dose. Os dados divulgados pelo Office for National Statistics (ONS), baseados em coletas de RT-PCR coletados em domicílios selecionados aleatoriamente, também mostram que os níveis de infecção de COVID-19 estão aumentando na no Reino Unido e isso pode se dever ao fato de que, naquele país, as pessoas estão ficando menos preocupadas em manter distanciamento social. A proporção de adultos que mantêm distanciamento com pessoas fora de casa caiu para 68% no período de 2 a 6 de junho em comparação com 74% na semana anterior.  

Mas você pode estar se perguntando: o que o Reino Unido tem a ver conosco? Bem, muita coisa, considerando que o que acontece em outros países do mundo em termos de variantes não demora muito tempo para chegar aqui no Brasil, e o que tem acontecido é que, basicamente, as variantes mais contagiosas acabam por dominar o cenário pandêmico. Com as condições atuais de circulação viral no nosso país, essa variante logo estará entre nós. Com um índice de transmissibilidade (chamado R0 ou R-zero, que estima para quantas pessoas em média a doença é transmitida a partir de um infectado) estimado entre 5 e 8, já nos afastamos muito da transmissibilidade do vírus original do início da pandemia, cujo R0 está estimado entre 2,4 e 3,0. Ela é muito mais transmissível e tem afetado muitos vacinados, mesmo depois de duas doses. É por isso que apenas a vacinação ou apenas o distanciamento são insuficientes, neste momento, para controlar a progressão da pandemia. É primordial manter ambas para controlar a curva de casos e mortes. Caso falhemos nisso, amarguraremos novas e piores ondas de infecção. 

Pesquisadores analisaram a transmissão de COVID-19 em um restaurante chinês de uma forma inusitada: olhando pelas câmeras

Bruno Lopes Breda (Acadêmico do curso de Medicina – UFRGS)

Revisão: Tiago Degani Veit (Professor do ICBS-UFRGS)

À medida que a pandemia de COVID-19 foi se espalhando pelo mundo, algumas rotas de transmissão do vírus foram propostas, destacando-se a transmissão à distância pelo ar, por contato próximo a outras pessoas, por fômites (superfícies infectadas) e transmissão fecal-oral. Hoje, sabemos que a principal rota de transmissão de COVID-19 é o ar que respiramos – daí a importância das máscaras, especialmente em ambientes fechados. Entretanto, em todos esses estudos que avaliam e avaliaram a transmissão aérea do vírus em restaurantes e ambientes pouco ventilados, é sempre difícil descartar o papel dos fômites (objetos inanimados que podem levar e espalhar a doença e agentes infecciosos) e dos contatos próximos, devido à falta de dados relevantes, de modo que o domínio da transmissão aérea, especialmente a de longo alcance, pode sofrer contestações. Com o intuito de resolver essa limitação metodológica, pesquisadores chineses decidiram colocar a hipótese relativa às outras possíveis fontes de contágio à prova analisando as câmeras de um restaurante em Guangzhou a partir do qual ocorreu um surto de COVID-19 nesta cidade.

Em janeiro de 2020, alguns turistas de Wuhan (cidade onde hoje se acredita terem surgido os primeiros casos de COVID) almoçaram em um restaurante na cidade de Guangzhou sem saber que um deles estava infectado com a COVID-19. Alguns dias depois, 10 casos de COVID-19 foram confirmados entre as 96 pessoas que visitaram o restaurante no mesmo dia (Figura 1). Um grupo de pesquisadores chineses do CDC da província de Guandong e de várias universidades chinesas obtive imagens das câmeras de segurança do restaurante e analisaram, segundo por segundo, os contatos que cada cliente e cada funcionário tiveram com as superfícies do ambiente e entre si. O estudo foi publicado na revista Journal of Infection em 29 de maio de 2021 e pode ser acessado na íntegra aqui (https://www.journalofinfection.com/article/S0163-4453(21)00273-5/fulltext). Vale ressaltar que, das formas de transmissão citadas no início do texto, a transmissão à distância pelo ar já havia sido estudada para esse mesmo restaurante em outros estudos. Então, os pesquisadores decidiram focar sua análise apenas nos fômites e contatos de curta distância.

               As superfícies foram divididas em sete grupos: mucosas, mãos, corpo, objetos pessoais, objetos pessoais fornecidos pelo restaurante, objetos para uso dos clientes de uma mesma mesa e objetos de uso comum no restaurante. Foram analisados, ao todo, 380.694 segundos das câmeras de segurança, dentre os quais se obtiveram 380.229 segundos de contatos, com 292.621 segundos de ações de toque com a mão esquerda e 317.823 segundos de ações de toque com a mão direita.

Os tipos de contato também foram subdivididos, definindo-se que o “contato com uma superfície” era todo aquele em que a mão se mantinha em contato por pelo menos um segundo, e que “contato” era qualquer interação humana face-a-face, sendo esta subdividida entre “contato próximo”, o qual ocorre a menos de 2 metros de distância, e “contato a distância”, em que o espaço entre os indivíduos ultrapassa os mesmos 2 metros. A partir daí, os pesquisadores registraram mais de 40 mil toques de mãos entre os clientes e os funcionários do restaurante e conseguiram traçar uma rota para cada um dos indivíduos no restaurante. Descobriu-se que cada cliente tocou em objetos de outras pessoas em média 3 vezes, enquanto os funcionários tiveram uma média de 16 objetos tocados. Quase metade dos toques ocorreram em objetos de uso público nas mesas. Nas superfícies mucosas, ocorreram 7,5% dos toques de clientes e 1,3% de funcionários. É importante ressaltar que nenhum cliente tocou em mucosas, corpo ou objetos pessoais de clientes que estavam em outras mesas; entretanto, as superfícies de itens pertencentes a membros da mesma mesa foram compartilhadas.


Figura 1. Esboço mostrando a disposição das mesas do restaurante e o fluxo de ar do ar-condicionado no local do surto de COVID-19 em Guangzhou, China, 2020. O círculo vermelho preenchido com amarelo indica o assento do paciente-caso zero. Círculos vermelhos indicam assentos dos futuros pacientes-casos (Retirada de Lu J, Gu J, Li K, Xu C, Su W, Lai Z, et al. COVID-19 Outbreak Associated with Air Conditioning in Restaurant, Guangzhou, China, 2020. Emerg Infect Dis. 2020;26(7):1628-1631. https://doi.org/10.3201/eid2607.200764)

Para avaliar a possibilidade de infecção por meio de fômites ou de contatos próximos, os pesquisadores desenvolveram um modelo hipotético em que todos os infectados naquele ambiente o tivessem sido contaminados por meio de contato com superfícies infectadas com partículas virais. Foram desenvolvidas oito rotas que traçavam todos os contatos a partir dos quatro clientes que podem ter sido o “paciente zero” na ocasião (todos provenientes de Wuhan e apresentando sintomas em dias próximos, o que torna impossível saber quem de fato foi o primeiro a se infectar). Entretanto, quando analisados esses modelos, não se encontrou nenhuma correlação entre aqueles que mais ficaram mais expostos às superfícies infectadas pelos clientes que estavam carregando o vírus consigo e os clientes que, de fato, desenvolveram a doença nos dias subsequentes. Um bom exemplo citado no trabalho é o fato de que, na análise das rotas de disseminação viral traçadas, não houve nenhum contato sequer entre os potenciais clientes infectados na ocasião e clientes de outras mesas, mesmo sabendo que houve transmissão para clientes que se encontravam em outras partes do ambiente. Outro exemplo citado é que cinco funcionários tiveram contato próximo com os clientes infectados, mas nenhum desenvolveu a doença. Dessa maneira, foi possível descartar a possibilidade de as infecções terem ocorrido predominantemente pelas vias de fômites e contato próximo.

               É importante ressaltar que os pesquisadores reconhecem algumas limitações do seu trabalho. Uma vez que boa parte dos casos se concentrou na mesma mesa, e tendo os clientes interagido antes e depois do evento em questão, não se pode afirmar que eles foram infectados durante o almoço. Além disso, as métricas utilizadas para quantificar a exposição a partículas virais foram baseadas em modelos, ou seja, elas são apenas uma aproximação da realidade, e não conseguem estimar com acurácia outros parâmetros, como a quantidade de partículas virais transmitidas pelo toque e a quantidade que ficou acumulada em cada uma das superfícies estudadas.

               Como é o propósito de todo estudo científico, podemos retirar algumas lições deste trabalho. Uma conclusão baseada nos achados do artigo, talvez hoje já difundida o suficiente, é que a transmissão pelo ar é crítica na COVID-19, o que torna o uso de máscaras importantíssimo para contermos a transmissão. Outra conclusão, baseada nos delírios do autor dessa postagem, é que até mesmo o Big Brother Brasil pode ser inspiração para a metodologia de um artigo científico!

Novo estudo sugere que altos níveis de vitamina D não protegem contra a infecção por SARS-CoV-2.

Natália Morél Cerva1 – Acadêmica de Enfermagem – UFRGS 

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS 

Durante a pandemia de COVID-19, muitas pessoas têm feito uso da vitamina D, na esperança de evitar o contágio, ou ao menos minimizar os efeitos deletérios da infecção.  Este suplemento chegou inclusive a fazer parte dos assim chamados “kits COVID”, distribuídos pelo governo e receitados por tantos médicos. O uso era em parte suportado por alguns estudos observacionais que associaram os níveis sanguíneos de 25OHD com proteção contra a COVID-19, reforçando a ideia de que a vitamina D poderia ser um fator importante contra a COVID-19. No entanto, estudos observacionais sobre 25OHD estão longe de serem o tipo de estudo ideal para avaliar a eficácia de qualquer tratamento, e não encontraram respaldo convincente nos dois ensaios clínicos randomizados (RCTs) sobre a suplementação de vitamina D, ambos usando altas doses de vitamina D no momento da admissão hospitalar para COVID-19.  O post de hoje traz um novo estudo conduzido por pesquisadores canadenses da Universidade McGill, publicada na revista PLOS Medicine, que procurou avaliar o efeito da vitamina D nos desfechos clínicos de uma grande população de indivíduos de descendência europeia de 11 países diferentes utilizando para isso uma abordagem genética (clique aqui para o artigo na íntegra). 

Um problema central nos estudos que avaliam o efeito da vitamina D em qualquer desfecho clínico é que existem vários fatores ambientais associados à produção dessa vitamina que podem estar associados a um desfecho clínico favorável, confundindo os cientistas. Por exemplo, a exposição ao sol aumenta a produção de vitamina D. A exposição ao sol é relacionada, entre outras coisas à atividade física. Assim, fica difícil conseguir “isolar” o efeito benéfico da vitamina D em relação ao efeito benéfico da exposição ao sol e da atividade física. Para tentar resolver este problema, os pesquisadores adotaram uma estratégica analítica que levou em conta apenas o perfil genético dos pacientes para a produção de vitamina D. Neste tipo de análise, chamado de Randomização Mendeliana, pessoas que possuem um perfil genético de baixos níveis sanguíneos de 25OHD (25-hidroxi-vitamina D, a a forma encontrada no sangue) são comparados com pessoas geneticamente propensas a apresentarem maiores níveis de 25OHD. Se a vitamina D tiver um efeito protetor contra a COVID-19, é esperado que o segundo grupo tenha algum nível de proteção em relação ao primeiro. 

E o que os resultados desse grande estudo mostraram? Mostraram que indivíduos com predisposição natural a maiores níveis de 25OHD não estavam particularmente menos suscetíveis a infecção, hospitalização ou a COVID-19 grave. É um resultado digno de respeito, considerando o número de indivíduos estudados (por exemplo, para analisar a suscetibilidade à COVID-19, foram analisados 14.134 casos e 1.284.876 controles sem doença). OS resultados do estudo, portanto, estão advogando contra a suplementação de vitamina D para fins de proteção contra as complicações decorrentes da COVID-19, embora admitam que pacientes realmente deficientes possam se beneficiar da suplementação para proteção e resultados relacionados à COVID-19. Corolário: se você não é particularmente deficiente em vitamina D, não vale a pena gastar o seu dinheiro com este suplemento. Ao invés disso, siga praticando as boas práticas de contenção da pandemia já consagradas: vacine-se, use máscara e evite aglomerações e ambientes fechados. 

Fonte: Butler-Laporte G, Nakanishi T, Mooser V, Morrison DR, Abdullah T, Adeleye O, et al. (2021) Vitamin D and COVID-19 susceptibility and severity in the COVID-19 Host Genetics Initiative: A Mendelian randomization study. PLoS Med 18(6): e1003605. https://doi.org/10.1371/journal.pmed.1003605 

Depois de vacinar 95 por cento dos adultos, a cidade de Serrana – SP, está voltando ao normal.

Leia a reportagem original aqui.

Em Serrana, as escolas estão sendo reabertas e há planos para um grande concerto ao ar livre. Os profissionais de saúde têm tempo para refeições sentadas, em vez de correr para pegar comida de rua durante um momento livre. Essas cenas que se aproximam da normalidade contrastam fortemente com o que está acontecendo no resto do país, onde os hospitais estão lotados, as empresas praticamente fechadas e 2.000 pessoas morrem todos os dias de COVID-19.

Serrana, uma cidade de 45.600 habitantes no estado de São Paulo, pode começar a fazer esses planos porque um experimento chamado Projeto S, que vacinou quase todos os adultos, parece estar reduzindo drasticamente as hospitalizações e mortes por COVID-19. Os casos sintomáticos caíram 80 por cento e as internações hospitalares caíram 86 por cento.

A incidência de mortes relacionadas ao COVID-19 por 100.000 habitantes também caiu 95 por cento na cidade, disseram os líderes da equipe responsável pelo Projeto S, embora os dados brutos por trás dos números ainda não tenham sido divulgados. Em abril, o município registrou apenas seis óbitos COVID-19, segundo a Secretaria de Saúde de Serrana.

O projeto, no qual mais de 95% dos adultos da cidade receberam a vacina CoronaVac de fabricação chinesa, é um experimento em tempo real para medir a eficácia da vacina, incluindo quão bem ela protege contra variantes do coronavírus. Em testes clínicos, a vacina CoronaVac teve uma eficácia de pouco mais de 50 por cento, levantando preocupações sobre como funcionaria no mundo real.

“Este projeto é importante porque mostra que mesmo uma vacina com eficácia relativamente baixa pode ter alta eficiência e diminuir significativamente as taxas de mortalidade em ambientes da vida real”, diz a neurocientista Mellanie Fontes-Dutra, coordenadora da Rede de Análise COVID-19 no Brasil.

Os resultados também mostram que a vacina é eficaz contra uma versão mais contagiosa do vírus chamada P.1, dominante em Serrana na época do início do estudo, disse Ricardo Palácios, diretor de ensaios clínicos do Instituto Butantan e diretor do Projeto S.

Os números ainda são preliminares e os pesquisadores terão que olhar os dados brutos do experimento para garantir que a vacina funcione em larga escala, diz Fontes-Dutra. “Mas esses números preliminares mostram que temos uma vacina eficaz. E a coisa mais importante a fazer é expandir a cobertura de vacinação o máximo que pudermos para ter o maior número possível de pessoas imunizadas”.

À medida que mais pessoas são vacinadas, elas formam uma espécie de escudo imunológico que protege os indivíduos para os quais a vacina pode não funcionar tão bem ou aqueles que ainda são suscetíveis à infecção, como os imunossuprimidos pelo HIV, diz Fontes-Dutra.

A cidade está começando a testar a força desse escudo conforme os residentes voltam à igreja, as famílias dão festas para seus filhos e as escolas reabrem. Os casos também caíram entre os menores de 18 anos, que ainda não foram vacinados, sugerindo que a campanha está tendo um efeito protetor de transbordamento.

FONTE: After vaccinating 95 percent of adults, a Brazilian city is returning to normal. Meghie Rodrigues. Science News, 02 de junho de 2021.

As epidemias e a ética por trás da busca pela cura. O caso da COVID-19.

Contribuição do Prof. Dr. Carlos Eugênio Silva (ICBS – UFRGS)

A pandemia de Sars-CoV-2 e a COVID-19 têm trazido um importante marco para a ciência. Mesmo considerando as a principal pandemia do vírus Influenza e suas variantes asiáticas posteriores, é a primeira vez que em uma pandemia a ciência tem a obrigação de identificar o agente, rastrear suas fontes e trazer uma solução rápida para mitigar a morte e as sequelas nos infectados, em tempo recorde. Tudo isso, porque a própria vida globalizada proporciona o espalhamento ímpar desse tipo de patógeno e interfere com todas as relações sociais e de trabalho que constituem uma característica da nossa espécie.

               A ciência é uma forma de manifestação cultural do homem que envolve a racionalização instrumentalizada para explicar realidade. Isso a difere do Senso Comum, da Religião e da Filosofia (Silva, 2017), outras importantes formas de manifestação humana, mas que não trazem soluções rápidas e concretas para estancar a pandemia, como bem nos mostra a história. Desta maneira a busca por soluções salvadoras tensiona a comunidade científica a tal ponto, que a ponderação e parcimônia em relação aos resultados torna os mesmos motivo de crença e não de convencimento (probabilidade de certeza). Para tanto é imperioso não negar que o desespero das populações e a possibilidade de sucesso econômico de alguns grupos são fortes elementos de pressão sobre a comunidade científica e suas fontes de financiamento.

               Quero citar aqui três situações emblemáticas que estamos vivendo em relação a esta pressão sobre a ciência. O primeiro é o caso do papel da hidroxicloroquina em combinação com a azitromicina na prevenção e combate da infecção humana (Gautret et al. 2020), liderado pelo renomado pesquisador francês Didier Raoult, e o forte questionamento da Comunidade Científica (Else, 2021) em relação aos resultados obtidos por aquele grupo. Neste caso, há diversos elementos que criaram viés no estudo, como a não uniformidade entre os pacientes nos grupos controle e tratado, problema na detecção via PCR no grupo controle, descarte de pacientes no grupo tratado e outras questões éticas em relação ao experimento e a revisão por pares. Nesta situação, seria mais prudente que os autores tivessem reconduzido os estudos e tentado apresentar uma nota científica com resultados menos frágeis. Entretanto, o que aconteceu foi pior, uma vez que a apropriação política de um resultado científico duvidoso interferiu com o entendimento de qualquer solução cientificamente séria para investigação de possíveis medicações antivirais.

               A segunda situação parece ser um desdobramento da mesma politização, levando ao famoso estudo de Manaus (Borba et al., 2020) liderado pelo infectologista Marcus Lacerda e que mostra a ineficácia da cloroquina, utilizando, por outro lado, doses 4 vezes maiores que o máximo recomendado para o medicamento, sem acompanhamento sanguíneo e grande disparidade entre os grupos. Durante o período experimental morreram 11 pacientes. O pesquisador está tentando provar o porquê de sua abordagem laboratorial junto ao MPF e ao CONEP. Por outro lado, isso não impediu a OMS de utilizar o estudo do pesquisador como argumento para não recomendar a cloroquina e mesmo a hidroxicloroquina. A crítica científica aos desdobramentos do estudo não impediu que muitos defensores dos sais de quinino não também não utilizassem de forma política este possível erro experimental.

               A terceira situação diz respeito ao efeito do desafio sobre a imunidade contra a COVID-19. Hoje parece claro que a imunidade humoral e celular contra o Sars Cov 2 pode ser de longa duração (Wang, X, et al., 2020). Por outro lado, também há fortes evidências científicas que a deriva evolucionária em Sars-Cov-2 se assemelha muito à dos Coronavírus do ser humano (Jo, WK, et al., 2021). Infelizmente esses fatos científicos são hora aviltados por manifestações públicas sobre a não necessidade de vacinação em indivíduos já infectados naturalmente, como também a ideia de que passaremos a ter necessidade de reforço anual para um patógeno contra o qual apenas pouco mais de 5,5% da população mundial foi vacinada (no mento em que este texto é escrito).

               Parece evidente que a ciência sofre um assédio grande sobre seu modus operandi. Embora a estrutura científica em todo o mundo disponibilize informações e soluções relevantes em curto espaço de tempo a mesma necessita longos períodos de discussão entre seus pares para poder estar convencida de que uma determinada estratégia tenha um forte significado. É muito importante lembrar que não existem verdades eternas ou crenças em ciência e sim conclusões temporárias que são aperfeiçoadas ou refutadas. Holofotes, fama e alta rentabilidade são desejos humanos que facilmente não condizem com boas atitudes científicas.

Referências

Silva, MA., 2017. A importância do senso comum, da religião, da ciência e da filosofia. JUS. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/55922/a-importancia-do-senso-comum-da-religiao-da-ciencia-e-da-filosofia. Acesso em: 01 jun. 2021.

Gautret et al., 2020. Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open-label non-randomized clinical trial. Int J Antimicrob Agents. https://doi: 10.1016/j.ijantimicag.2020.105949.

Else, H., 2021. Scientific image sleuth faces legal action for criticizing research papers. Nature. https://doi.org/10.1038/d41586-021-01430-z.

Borba et al., 2020. Chloroquine diphosphate in two different dosages as adjunctive therapy of hospitalized patients with severe respiratory syndrome in the context of coronavirus (SARS-CoV-2) infection: Preliminary safety results of a randomized, double-blinded, phase IIb clinical trial. https://doi.org/10.1101/2020.04.07.20056424.

Wang X, et al., 2020. Long-Term Existence of SARS-CoV-2 in COVID-19 Patients: Host Immunity, Viral Virulence, and Transmissibility. Virol Sin. https://doi: 10.1007/s12250-020-00308-0

Jo, WK, et al., 2021. The evolutionary dynamics of endemic human coronaviruses. Virus Evolution. https://doi: 10.1093/ve/veab020.