Você sabia que a febre turbina a resposta imune do organismo contra as infecções? Os alunos da Medicina da UFRGS explicam.

Prof. Dr. Tiago Degani Veit (ICBS-UFRGS)

Não gostamos quando temos febre. Quase sempre significa que estamos doentes. Ter febre está associado a sintomas desagradáveis, como letargia e uma necessidade quase incontrolável de ir para baixo do cobertor. Na busca pelo alívio dos sintomas, costumamos recorrer logo aos antitérmicos (Ex. aspirina, paracetamol), que estão em praticamente todas as gavetas de remédios dos domicílios brasileiros. Entretanto, a febre é um efeito direto da resposta imunológica a infecções ou outros tipos de agressões ao organismo, um sinal de que o corpo está respondendo a algum estímulo potencialmente nocivo. O aumento da temperatura corporal é um processo altamente conservado ao longo da evolução: em animais que não são capazes de regular  a temperatura interna (ex. répteis e anfíbios), observa-se neles um comportamento de procura por sol/calor quando eles estão doentes, o que acaba tendo o mesmo efeito prático. Para ser assim conservado, é justo inferir que esse mecanismo tenha alguma utilidade para o organismo.

Desde o Ensino Médio, minha noção dos efeitos benéficos associados à febre estava limitada ao conceito de “diminuição da atividade/divisão dos microrganismos”, o que os tornaria mais “lentos”, possibilitanto assim que o sistema imunológico os eliminasse mais facilmente. Por décadas, essa explicação me serviu, e imagino que ela seja compartilhada por muitas pessoas que já pararam alguma vez para pensar sobre esse fenômeno biológico. Entretanto, a necessidade preparar aulas para ensinar alunos sobre a resposta imune acabou me obrigando a atualizar essa noção.

Muito mais do que ser um efeito da resposta inflamatória a uma infecção e do que ter um efeito claro na velocidade de replicação de muitos microrganismos, a febre exerce efeitos muito relevantes em diversos componentes da nossa resposta imunológica. É sobre essa miríade de efeitos que pretendo falar hoje, aproveitando o produto do trabalho que passei para os alunos do terceiro semestre do curso de Medicina da UFRGS, dentro da disciplina de Imunologia. O vídeo abaixo, elaborado pelos alunos *, apresenta uma revisão bibliográfica sobre os diversos efeitos do aumento da temperatura corporal no sistema imunológico.

Dado que os mecanismos descritos no vídeo podem ser de difícil compreensão para o leitor leigo, citarei abaixo, em linguagem mais simples, os principais efeitos elencados no artigo:

  • A febre induz a saída de um tipo de célula branca chamada neutrófilo do seu local de produção, a medula óssea, direcionando a sua migração para o local da infecção. Os neutrófilos são a principal célula imune envolvida no combate às infecções nos seus estágios iniciais.
  • A febre também aumenta a atividade de uma célula muito importante no combate precoce a infecções virais, a célula NK (do inglês Natural Killer, ou “matadora natural”).
  • O aumento da temperatura para a faixa febril também aumenta a sensibilidade de duas importantes células sentinelas envolvidas na detecção da presença de patógenos: os macrófagos e as células dendríticas. Essa última célula é um elemento importantíssimo para a ativação do braço da imunidade que responde de maneira específica às infecções e que é responsável pela nossa memória imunológica, a imunidade adaptativa. Quando a célula dendrítica é ativada pela presença de infecção, ela sai do tecido infeccionado e migra até o gânglio linfático mais próximo onde ela ativa a célula-chave da resposta adaptativa, a célula T.
  • As células T, quando expostas a temperaturas febris, também são mais facilmente ativáveis na ocorrência de uma infecção.
  • A febre também tem um efeito benéfico de facilitar a entrada e a concentração de células T nos gânglios linfáticos, onde elas são normalmente ativadas. Isso aumenta a possibilidade de as poucas células T capazes de reconhecer o agente patogênico serem rapidamente ativadas contra a infecção. Esse efeito que o calor tem na migração das células T do sangue para dentro de um determinado tecido está sendo explorado hoje como terapia adjuvante no combate ao câncer.

Em suma, o aumento da temperatura corporal turbina a ativação e a função de várias células do sistema imunológico no combate a infecções. Talvez o uso cada vez mais popularizado de antibióticos nos tempos de hoje tenha colocado em segundo plano a importância desse fenômeno natural de defesa do organismo. Para aqueles que reclamam dos seus efeitos desagradáveis, cabe lembrar que, até 1946, não dispúnhamos de antibióticos, o que deixava todo o trabalho de combate à infecção para o próprio organismo, que precisava lançar mão de todos os meios possíveis para acelerar a resposta imune contra patógenos perigosos da época, como a varíola (hoje erradicada), o sarampo, difteria e a poliomielite, doenças para as quais hoje existem vacinas. Falando em vacinas, convém cabe mencionar que alguns estudos clínicos observaram que o uso de antipiréticos logo após a vacinação foi associado a respostas de anticorpos mais baixas para algumas vacinas aplicadas na infância. Considerando tudo o que foi apresentado nesse post, dá para ter uma ideia dos porquês. Por isso, fica a recomendação: use os antipiréticos com parcimônia, e de preferência sob orientação médica, e evite dar aquele paracetamol para o seu filho logo após a vacinação para evitar o efeito colateral; o sistema imunológico dele vai ficar bastante agradecido.

* O vídeo foi produzido pelos alunos Eduarda Schneider, Leonardo Backes, Leonardo Krause, Letícia de Souza, Maria Kaminski, Renato Ferraz e Samuel Toledo.

Referência: Evans, S., Repasky, E. & Fisher, D. Fever and the thermal regulation of immunity: the immune system feels the heat. Nat Rev Immunol 15, 335–349 (2015). https://doi.org/10.1038/nri3843

Água de beber camará

Dr. Carlos E. Silva – DEMIP/UFRGS

É muito importante no diagnóstico e controle de infecções que tenhamos certeza quais agentes infecciosos já estão controlados, de modo que isso não necessite ser levado em conta na hora de suspeitar de uma doença.
Entre os agentes infecciosos que comprometem outros diagnósticos infecciosos estão as Doenças de Veiculação Hídrica. As infecções crônicas por estes organismos mascaram o diagnóstico e tornam mais complexas as manifestações clínicas causadas por outras condições. Em tempos de pandemia, onde as manifestações intestinais também contribuem para o diagnóstico diferencial, a giardose e a criptosporidiose assumem importância para todas as idades e para indivíduos com comorbidades.
Em relação à agua, o índice de atendimento urbano de água (IN023) indicou que a população urbana atendida por abastecimento de água no Rio Grande do Sul atingiu 97,4% em 2018.
Recentemente Zini e colaboradores (2021) estudaram as águas de captação de estações de tratamento de água (ETAs) no Rio Grande do Sul, afim de verificar a possibilidade de contaminação pelos protozoários Giardia e Cryptosporidium, utilizando o critério de monitoramento de protozoários quando Escherichia coli estava acima de 1000 células/100 mL de água bruta. De 204 ETAs, 66 estações ultrapassaram o critério e foram submetidas à análise específica. Foi então identificado que de 66 ETAs a eficiência de filtração contra protozoários só ocorreu em 13 das 66 estações.
Considerando que a urbanização e a produção animal são os principais fatores de contaminação da água para consumo animal e humano e o tratamento terciário no Rio Grande do Sul é condicional, então existe grande possibilidade de contaminação da água de bebida para mais de 2,5 milhões de gaúchos. Os resultados encontrados, em tempos de pandemia de SARS COV 2, adicionam mais complexidade ao diagnóstico clínico, podendo favorecer recidivas e prolongar a convalescença.
No Rio Grande do Sul, embora a cobertura da distribuição de água tratada seja elevada, a circulação de G. intestinalis e Cryptosporidium spp. é endêmica e, portanto, a proteção de fontes de abastecimento de água deve ser mais rigorosa e prioritária.

Saiba o que um simples banho de piscina pode causar à sua visão.

Denise Leal dos Santos – Doutoranda (PPGMAA)

Porto Alegre, verão de 2022, temperaturas chegando aos 40 °C. Com um calor desses, impossível resistir a um banho de piscina ou mar. Mas você sabe o perigo que pode estar correndo?

Calma, não precisa ficar preocupado, a não ser que você use lentes de contato. Isso mesmo, banhos de piscina, mar ou até mesmo de chuveiro associados ao uso de lentes são uma combinação desastrosa.

Segundo a Sociedade de Oftalmologia do RS (SORIGS), com a chegada da temporada de veraneio, as pessoas procuram ambientes aquáticos onde podem ocorrer a concentração/proliferação de diversas bactérias, vírus e protozoários. Um dos protozoários causadores de ceratite em usuários de lentes de contato, encontrado nesses ambientes é Acanthamoeba spp. Esse microrganismo é amplamente distribuído na natureza e pode se tornar patogênico causando problemas de visão, inclusive a perda dela.

Acanthamoeba spp. possuem duas formas de vida distintas: o trofozoíto (forma ativa) e o cisto (forma de resistência). Os ambientes aquáticos não naturais, mesmo recebendo tratamento químico não oferecem proteção, pois o cisto é resistente à cloração. Além disso, esse protozoário pode carrear outros microrganismos em seu interior, como vírus ou bactérias, podendo potencializar os efeitos da doença nos usuários de lentes.

Os casos de ceratite por Acanthamoeba spp. são mais frequentes nos meses mais quentes do ano, devido principalmente ao uso de águas recreativas, como piscina, lagoas ou mar.  Em Porto Alegre temos o relato de 28 casos durante o período de 1994 a 2016 onde a maioria dos casos está relacionado com a falta de manutenção e cuidado com as lentes de contato e o uso das mesmas em ambientes aquáticos.

O cuidado com a limpeza e manutenção das lentes e estojos de armazenamento é fundamental para minimizar os riscos de contrair a ceratite por Acanthamoeba spp. Deve ser utilizada solução multiuso para desinfecção e soluções salinas como a fisiológica devem ser evitadas, pois não possuem conservantes/desinfetantes. O uso de lentes durante banhos deve ser evitado, pois pode ocorrer adesão do trofozoíto à lente e dessa para a córnea, facilitando assim a invasão do parasito e a instalação da doença. Os sintomas apresentados são principalmente dor desproporcional aos achados clínicos, fotofobia e vermelhidão.

Um dos grandes problemas enfrentados por quem contrai essa doença é o diagnóstico errôneo e/ou tardio, o que acarreta atraso no tratamento e um possível prognóstico ruim, levando em muitos casos a transplantes de córnea.

O ideal e recomendado segundo a SORIGS e oftalmologistas é evitar nadar com as lentes ou usar lentes de descarte diário para que não haja perigo de contaminação ocular.

Portanto, aproveite o verão, e não descuide da saúde dos seus olhos!!!

Pereira, Vitor de Arruda. Sociedade de Oftalmologia do RS alerta para os cuidados com os olhos em mar e piscina. Agora RS. https://agoranors.com/2022/01/oftalmologia-alerta-cuidados-olhos/

Santos DL, Kwitko S, Marinho DR, de Araújo BS, Locatelli CI, Rott MB (2018) Acanthamoeba keratitis in Porto Alegre (southern Brazil): 28 cases and risk factors. Parasitol Res 117(3):747-750. https://doi:10.1007/s00436-017-5745-y.