Estudo analisa o risco de disseminação da COVID-19 em municípios do interior do estado de São Paulo.

São Paulo é o estado mais populoso do Brasil, com 44 milhões de habitantes, sendo que metade dessas pessoas moram na região metropolitana da capital. Estudos preliminares demonstraram que a estratégia de distanciamento social diminuiu a transmissão do SARS-CoV-2 na região metropolitana, porém os dados de mobilidade populacional, monitorados por meio de celulares, detectaram que a adesão ao distanciamento social é menor nos municípios do interior do estado.

Pesquisadores da UNESP conduziram um estudo com o objetivo de identificar fatores que afetam a vulnerabilidade à COVID-19 em 604 municípios do estado de São Paulo localizados fora da região metropolitana. A população total desses municípios é de cerca de 24 milhões de habitantes.

Vários fatores foram positivamente correlacionados com a introdução da COVID-19: maior influência social e econômica do município, maior conectividade com grandes centros urbanos, densidade demográfica, proporção de pessoas vivendo em área urbana, índice de desenvolvimento humano e índice de inequidade na renda. Por outro lado, a distância da capital do estado teve um efeito protetor, isto é, foi negativamente correlacionada com a introdução da doença.

Foram detectados dois padrões de disseminação da epidemia para o interior do estado: 1) disseminação por causa da proximidade das áreas que rodeiam a capital e 2) disseminação do vírus para grandes centros urbanos localizados no interior do estado, a partir dos quais a COVID-19 se disseminou para municípios menores. A grande conectividade desses municípios com os seus centros urbanos regionais aumentou a vulnerabilidade para a COVID-19. Isso explica o aparente paradoxo de algumas cidades de grande risco serem localizadas longe da capital do estado.

Os resultados sugerem que medidas de controle deveriam ser fortalecidas em áreas urbanas de grande influência social e econômica e, posteriormente, nos municípios que se conectam com essas cidades.

FONTE: Taking the inner route: spatial and demographic factors affecting vulnerability to COVID-19 among 604 cities from inner São Paulo State, Brazil. C.M.C.B. Fortaleza, R. B. Guimarães, G. B. de Almeida, M. Pronunciate, C. P. Ferreira. Epidemiology and Infection. Cambridge Coronavirus Collection 19 Jun 2020. https://doi.org/10.1017/s095026882000134x.

Poderíamos desenhar e construir nossas cidades de forma a impedir a disseminação do SARS-CoV-2 e outros vírus?

As epidemias sempre transformaram nosso ambiente construído por causa do medo da infecção. Por exemplo, a estética clean pode ser parcialmente atribuída à tuberculose. Os arquitetos desenharam os ambientes a partir de preocupações com os efeitos curativos da luz, do ar e da natureza. Essas construções incluíram grandes janelas, varandas, superfícies que não acumulam poeira e pintura branca, enfatizando a sensação de limpeza.

Será que a era pós-pandemia irá gerar um novo conceito em urbanismo baseado no distanciamento social?  O que acontecerá com o transporte público? Será que a COVID-19 será um catalisador da descentralização das cidades e do incentivo à locomoção a pé? Qual é o futuro dos espaços de trabalho coletivos? Nossas casas terão que se adaptar para acomodar os espaços de trabalho? Devem ser autossuficientes, com cultivo de itens para alimentação? Será que os arranha-céus continuarão a ser construídos? As pessoas irão querer usar elevadores? A pandemia irá acelerar a era da automação nas nossas cidades?

Com a atitude de se manter em casa, essencial para a resposta à COVID-19, as características da casa passaram a ter grande importância. A permanência em casa por longo tempo traz desafios. Espaços superlotados aumentam o risco de transmissão de infecções. Temos que pensar em casas separadas e rodeadas por um jardim, facilitando o distanciamento social. Os prédios terão corredores mais largos e mais escadas, já que evitaremos o uso de elevadores.

Escritórios poderão usar radiações germicidas para desinfetar os ambientes à noite ou entre reuniões, uma prática que já é utilizada em hospitais. Os shopping centers perderão seu apelo e serão substituídos pelos mercados tradicionais da vizinhança.

É importante que essas questões comecem a ser pensadas agora para que não tenhamos que esperar que uma nova pandemia nos sirva de lembrete.

FONTE: Antivirus-built environment: lessons learned from covid-19 pandemic. Naglaa A.Megaheda e Ehab M. Ghoneim.  Sustainable Cities and Society. Available online 24 June 2020, 102350https://doi.org/10.1016/j.scs.2020.102350.

Será que a maior suscetibilidade de idosos à COVID-19 está relacionada à resposta imunológica desses indivíduos?

Em uma carta ao editor da revista GeroScience, pesquisadores de vários países argumentaram que pouca atenção tem sido dada à ligação entre a imunossenescência (deterioração do sistema imunológico produzida pelo envelhecimento) e a alta taxa de mortalidade entre idosos.

Provavelmente esse fenômeno é multifatorial. Por exemplo, indivíduos idosos com COVID-19 severa têm maior prevalência de comorbidades. O acúmulo progressivo de células senescentes pode ter um papel na vulnerabilidade desses indivíduos à COVID-19, resultando em funcionalidade reduzida dos órgãos e facilitando as condições para desenvolvimento de fibrose.

Um importante fator para a rápida disseminação de vírus emergentes é a sua introdução em uma população humana não exposta a eles anteriormente. A indução da resposta imune contra esses vírus depende do seu reconhecimento por células T naive (células T que nunca encontraram um antígeno diferente). Esse tipo de células T diminui com a idade, alcançando números muito baixos em idosos. Os autores acreditam que isso possa contribuir para a maior severidade dos sintomas em pacientes idosos.

Pacientes infectados com o SARS-CoV-2 têm pronunciada redução na contagem de células T e a normalização da contagem coincide com a melhoria das condições clínicas.

Finalmente, a ativação da resposta de células T, que já demonstrou ter longa duração nas infecções pelo SARS-CoV e pelo MERS-CoV, deveria ser considerada no desenvolvimento de vacinas contra a COVID-19.

FONTE: Age-related decline of de novo T cell responsiveness as a cause of COVID-19 severity. Francesco Nicoli & Maria Teresa Solis-Soto & Deepak Paudel & Peggy Marconi & Riccardo Gavioli & Victor Appay & Antonella Caputo. GeroScience https://doi.org/10.1007/s11357-020-00217-w. Publicado online 24/06/2020.

Avaliação por RT-PCR e anticorpos demonstra a importância da quarentena precoce para indivíduos assintomáticos.

Apesar do reduzido número de indivíduos testados, um trabalho de pesquisadores chineses traz algumas considerações bem interessantes sobre a dinâmica de replicação do vírus SARS-CoV-2 e as respostas de anticorpos específicos contra o vírus.

Foram avaliados 21 pacientes de um hospital chinês, confirmados por RT-PCR, sendo 11 com COVID-19 não severa, cinco com COVID-19 severa e cinco casos assintomáticos. Foram analisadas amostras sequenciais de suábe de garganta e anal por RT-PCR e de soro por imunocromatografia (IgM e IgG).

Nos pacientes com COVID-19 não severa, os suábes de garganta permaneceram positivos no RT-PCR por dois a 21 dias após o aparecimento dos sintomas, dependendo do paciente. Os resultados de RT-PCR foram positivos por nove a 33 dias em pacientes com COVID-19 severa, também dependendo do paciente. Para os casos assintomáticos, o período de resultado positivo no suábe de garganta foi de cinco a 28 dias. Isso demonstra a importância da identificação precoce e início de quarentena para os portadores assintomáticos.

Entre os 15 pacientes que tiveram suábes anais testados, três permaneceram com resultado positivo no RT-PCR das amostras de suábes anais, apesar das amostras de suábes de garganta já terem dado resultado negativo. Os suábes anais foram testados porque observações clínicas haviam demonstrado que há uma disseminação viral mais prolongada nessas amostras.

Quase 30% dos pacientes desenvolveram anticorpos na primeira semana após o aparecimento dos sintomas, mais de 60% até a segunda semana, aproximadamente 82% até a terceira semana e todos os pacientes apresentaram anticorpos até a sexta semana.

Apenas um dos cinco casos assintomáticos avaliados apresentou anticorpos após a terceira semana, concomitante com o aparecimento de resultado negativo no RT-PCR de suábe de garganta. Os demais casos assintomáticos não apresentaram anticorpos no período avaliado. É possível que os casos assintomáticos soronegativos tenham resultado de menor carga viral (quantidade de partículas virais), mas resultados falso-positivos no RT-PCR não podem ser descartados.

FONTE: Different longitudinal patterns of nucleic acid and serology testing results based on disease severity of COVID-19 patients. Zhang Yongchena, Han Shenb, Xinning Wanga, Xudong Shia, Yang Lib, Jiawei Yanc, Yuxin Chenb and Bing Gud. Emerging Microbes & Infections 2020, VOL. 9 https://doi.org/10.1080/22221751.2020.1756699.

É possível haver reinfecção pelo SARS-CoV-2?

Apesar de ainda não ser possível investigar as reinfecções pelo SARS-CoV-2 por conta do pouco tempo de aparecimento da COVID-19, um estudo publicado na plataforma de preprints medRixv, ainda não avaliado para publicação em revistas científicas, propõe estudar a reinfecção por outros coronavírus como modelo para o SARS-CoV-2. Existem quatro espécies de coronavírus que causam a gripe sazonal: HCoVNL63, HCoV‐229E, HCoV‐OC43 e HCoV‐HKU1.

Os pesquisadores acompanharam 10 indivíduos saudáveis, selecionados aleatoriamente, de 1985 a 2020, com falha no acompanhamento entre os anos 1997 e 2003. Infecções pelos coronavirus sazonais foram definidas como aumento de 1,4 vezes no nível de anticorpos entre duas visitas.

A média temporal das reinfecções foi 30 meses, embora não tenha havido observação de reinfecção no primeiro intervalo de três meses. Seis meses após a infecção, a maioria das pessoas perdeu 50% dos seus anticorpos e 75% dos indivíduos perderam seus anticorpos após um ano.

Quando esses achados são analisados à luz das atuais ações para controle da COVID-19, fica claro que o risco de reinfecção pelo SARS-CoV-2 é primordial para as políticas públicas de saúde. Este estudo revela o risco de que os testes baseados em sorologia não sejam úteis quando a infecção tiver ocorrido há mais de um ano. Adicionalmente, estudos de vacinas devem antecipar que a imunidade protetora sustentada possa ser incerta para os coronavírus e campanhas de vacinação periódicas tenham que ser realizadas.

Existe uma discussão sobre a imunidade de rebanho para o controle do SARS‐CoV‐2. Imunidade de rebanho ocorre quando uma proporção da população está imune a um certo patógeno e é capaz de proteger indivíduos não imunes contra a infecção por conta da disseminação limitada do patógeno. No caso do SARS‐CoV‐2, alcançar a imunidade de rebanho pode ser desafiador devido à rápida perda da imunidade protetora, já que ela pode ser perdida seis meses após a infecção. Portanto, conseguir a imunidade de rebanho por meio da infecção natural parece bastante improvável.

VAMOS AGUARDAR UMA VACINA EFICAZ E SEGURA. TODOS DEVEMOS NOS VACINAR ASSIM QUE ELA ESTIVER DISPONÍVEL.

FONTE: Human coronavirus reinfection dynamics: lessons for SARS-CoV-2. Edridge, Arthur & Kaczorowska, Joanna & Hoste, Alexis & Bakker, Margreet & Klein, Michelle & Jebbink, Maarten & Matser, Amy & Kinsella, Cormac & Rueda, Paloma & Prins, Maria & Sastre, Patricia & Deijs, Martin & van der hoek, Lia. (2020). medRxiv doi 10.1101/2020.05.11.20086439.

Estudo observa três tipos de soroconversão na COVID-19: IgM e IgG simultâneos, IgM antes de IgG e IgG antes de IgM.

Pesquisadores chineses publicaram um estudo com 285 pacientes com COVID-19 que estavam em três hospitais na China, sendo 39 em condição severa ou crítica. Amostras de soro sequenciais estavam disponíveis para 70 desses pacientes. Todos os pacientes tiveram a infecção confirmada por RT-PCR. IgG e IgM contra o SARS-CoV-2 foram testados com kits MCLIA (Magnetic Chemiluminescence Enzyme Immunoassay).

Todos os pacientes apresentaram IgG específico para o SARS-CoV-2 depois de aproximadamente 17-19 dias após o aparecimento dos sintomas, enquanto cerca de 94% dos pacientes atingiram o pico de IgM em 20-22 dias. Durante as primeiras três semanas após o aparecimento dos sintomas, houve um aumento nos títulos (quantidades) de anticorpos IgM e IgG. Porém, IgM teve um ligeiro decréscimo após três semanas. Os títulos de IgG e IgM no grupo com infecção severa foram maiores do que nos demais pacientes.

Sessenta e três pacientes foram acompanhados até a alta hospitalar, com amostras de soro coletadas a cada três dias. A taxa de soroconversão foi de aproximadamente 97% durante o período de acompanhamento, mas duas pacientes (mãe e filha) continuaram negativas para os dois anticorpos durante a hospitalização. Foram observados três tipos de soroconversão: IgM e IgG simultâneos, IgM antes de IgG e IgG antes de IgM.

Para investigar se a sorologia poderia ajudar a identificar pacientes com COVID-19, foram avaliados 52 pacientes suspeitos de COVID-19, mas RT-PCR negativo em dois testes sequenciais.  Quatro desses pacientes apresentaram IgG ou IgM específicos para o SARS-CoV-2.

Os pesquisadores também demonstraram a aplicação do teste de sorologia na pesquisa de um grupo de 164 contatos de pacientes com COVID-19. Dezesseis contatos tiveram a confirmação da infecção pelo SARS-CoV-2 por RT–PCR, sendo três deles assintomáticos. Os demais 148 contatos testaram negativo no RT-PCR e não apresentaram sintomas. Amostras de soro dos 164 contatos foram testadas pela sorologia cerca de 30 dias após a exposição ao vírus. Os 16 contatos positivos pelo RT-PCR também foram positivos para IgG e/ou IgM. Sete dos contatos que tinham sido negativos no RT-PCR apresentaram anticorpos.

Os autores concluem que a detecção de anticorpos para a COVID-19 pode ser importante (1) como complemento ao teste de RT-PCR e (2) na pesquisa de contatos assintomáticos.

FONTE: Antibody Responses to SARS-CoV-2 in Patients With COVID-19. Quan-Xin Long et al. Nat Med . 2020 Jun;26(6):845-848. doi: 10.1038/s41591-020-0897-1.

Nota técnica da ANVISA sobre acurácia dos testes para COVID-19.

A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanítária) publicou uma nota técnica sobre acurácia dos testes diagnósticos para a COVID-19 registrados no Brasil. Preparamos um extrato do documento para vocês.

Após o levantamento dos testes diagnósticos registrados na ANVISA, foram realizadas buscas nos sites dos fabricantes, nos manuais técnicos dos produtos diagnósticos e na literatura científica para compilar dados de desempenho desses testes.

Foram encontrados 64 produtos diagnósticos registrados, sendo todos eles vigentes e disponíveis comercialmente. Dos 64 testes registrados, 15 são RT-PCR, 38 são testes imunocromatográficos, seis são por ELISA, dois são imunoensaios por quimioluminescência (CLIA) e três atuam por imunofluorescência (FIA) para a detecção e diferenciação de anticorpos IgA, IgG ou IgM contra o coronavírus (SARS-CoV-2). Atualmente, mais da metade dos registros concedidos diz respeito a testes rápidos para anticorpos. As amostras a serem avaliadas são em sua maioria de sangue total, soro ou plasma, e o tempo para a leitura dos resultados variou entre 10 e 20 minutos. O tempo máximo para limite de leitura variou de 15 a 30 minutos.

A especificidade (capacidade que o teste tem de ser negativo para indivíduos que não têm a doença) para os anticorpos do tipo IgM variou entre 94% a 98%, de acordo com o fabricante. Para os anticorpos do tipo IgG, observou-se uma oscilação entre 97% e 98%. A sensibilidade (capacidade que um teste tem de ser positivo em indivíduos que estão efetivamente doentes) para os anticorpos IgM variou entre 85% e 90% e para os anticorpos do tipo IgG entre 95% e 100%. Alguns kits relataram a sensibilidade de testes individuais de IgM e IgG de acordo com o número de dias da doença ou a partir das amostras iniciais de PCR coletadas.

A sensibilidade e especificidade dos testes sorológicos variaram entre os fabricantes. É importante destacar que uma baixa sensibilidade do teste diagnóstico pode resultar em uma maior probabilidade de detectar falsos-negativos, o que poderia interferir principalmente em casos de indivíduos assintomáticos. Em geral, a sensibilidade dos testes foi superior a 85% e a especificidade, superior a 94%.

Os testes sorológicos medem a quantidade de dois anticorpos (IgG e IgM) que o organismo produz quando entra em contato com um invasor. Contudo, o desenvolvimento da resposta de um anticorpo à infecção pode ser dependente do hospedeiro e levar tempo. No caso de SARS-CoV-2, estudos iniciais sugerem que a maioria dos pacientes se converte entre 7 e 11 dias após a exposição ao vírus, embora alguns pacientes possam desenvolver anticorpos mais cedo. Devido a esse atraso natural, o teste de anticorpos pode não ser útil no cenário de uma doença aguda.

Os testes de anticorpos para SARS-CoV-2 podem facilitar (i) o rastreamento de contatos (os testes baseados em RNA também podem ajudar); (ii) a vigilância sorológica nos níveis local, regional, estadual e nacional; e (iii) a identificação de quem já teve contato com o vírus.

Veja a lista atualizada de testes para COVID-19 registrados na ANVISA.

FONTE: Acurácia dos testes diagnósticos registrados na ANVISA para a COVID-19. Nota técnica ANVISA maio 2020.

Veja o documento que a ANVISA preparou para esclarecer dúvidas sobre os testes para COVID-19.

A ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanítária) publicou um documento com perguntas e respostas sobre testes que podem ser utilizados para a Covid-19. Preparamos um extrato do documento para vocês.

1- O que são testes para Covid-19? Que tipo de amostra é usada nos testes?

Os testes para Covid-19 podem identificar:

a) anticorpos, ou seja, uma resposta do organismo quando este teve contato com o vírus, recentemente (IgM) ou previamente (IgG); ou

b) material genético (RNA) do vírus (RT-PCR).

Existem os testes que usam sangue, soro ou plasma e os outros que precisam de amostras de secreções coletadas das vias respiratórias, como nasofaringe (nariz) e orofaringe (garganta).

2- O que são testes rápidos (IgM/IgG)?

Esse termo vem sendo usado popularmente para os testes imunocromatográficos. No caso dos testes rápidos para o novo coronavírus, são dispositivos de uso profissional, manuais, de fácil execução, que não necessitam de outros equipamentos de apoio, como os que são usados em laboratórios, e que conseguem dar resultados entre 10 e 30 minutos.

Testes rápidos (IgM/IgG) podem auxiliar o mapeamento da população “imunizada” (que já teve o vírus ou foi exposta a ele), mas NÃO têm função de diagnóstico.

Continue a ler.

FONTE: Testes para Covid-19: perguntas e respostas. ANVISA.

Especialista americano em testes sorológicos responde sobre anticorpos para a COVID-19.

O texto a seguir é um extrato da entrevista concedida pelo Dr. Norman Sharpless, especialista em testes sorológicos, ao Dr. Francis Collins, diretor do National Institutes of Health (NHI), EUA, sobre a testagem de anticorpos para a COVID-19.

Collins: O que são anticorpos?

Sharpless: São proteínas que nosso corpo produz em resposta a uma bactéria ou vírus. Os anticorpos podem permanecer durante um tempo; quanto tempo exatamente é um tópico de extremo interesse, especialmente durante a pandemia de COVID-19. Nós imaginamos que a maior parte das pessoas infectadas com o coronavírus irá formar anticorpos em alto nível dentro de algumas semanas.

Collins: O que os anticorpos nos dizem sobre a exposição ao vírus?

Sharpless: Muitas pessoas infectadas nem vão perceber que se infectaram. Podemos usar os testes de anticorpos para dizer quantas pessoas foram infectadas em uma determinada área.

Collins: Os anticorpos interagem com o vírus de alguma forma específica?

Sharpless: Encontramos anticorpos que reconhecem o nucleocapsídeo viral, que é a proteína estrutural, ou a proteína Spike. Nós sabemos que 99% das pessoas infectadas com o vírus irão desenvolver anticorpos. A maioria dos anticorpos que detecta a proteína Spike é neutralizante, isto é, inativa o vírus em laboratório.

Collins: Os anticorpos contra a COVID-19 são protetores? Existem relatos de pessoas que melhoraram, foram re-expostas ao vírus e voltaram a ficar doentes?

Sharpless: Isso é controverso. As pessoas podem disseminar o RNA viral por semanas ou até mais de um mês antes de melhorarem. Portanto, se elas testarem a presença de RNA viral novamente, pode ser positivo mesmo que elas se sintam melhores. Frequentemente, elas não estarão produzindo muitas partículas virais infecciosas, mas pode ser que elas nunca tenham deixado de disseminar o vírus. Por outro lado, pode ser que elas tenham sido re-infectadas, mas isso deve ser um evento raro.

Collins: Alguém que tem anticorpos pode parar de se preocupar sobre uma nova exposição ao vírus?

Sharpless: Não, ainda não. Para usar os anticorpos para saber quem está imune, é necessário saber duas coisas: 1) se os testes de anticorpos são confiáveis e 2) se o aparecimento de anticorpos no sangue significa que você está realmente imune ou que apenas é menos provável que você pegue o vírus novamente. Nós simplesmente não sabemos a resposta para isso ainda.

Collins: Se houver proteção, por quanto tempo você espera que ela durará?  É uma daquelas coisas que você estará livre para o resto da vida? Ou você poderá voltar a ter por que a imunidade ficou fraca com o tempo?

Sharpless: Como nós não temos experiência com esse vírus, é difícil responder. Essa informação é importante para a vacinação.

Collins: Uma última pergunta: e a imunidade de rebanho?

Sharpless: Imunidade de rebanho é quando uma porção significativa da população é imune a um patógeno. O patógeno, então, não consegue se disseminar mais na população porque não há pessoas susceptíveis em número suficiente na população. Quanto é essa porção da população para que aconteça a imunidade de rebanho depende de quão infeccioso é o vírus. Para um vírus altamente infeccioso como o sarampo, esse percentual é de 90% da população. Esse percentual para o novo coronavírus não é conhecido. Essa imunidade pode ser adquirida por meio de vacinas ou simplesmente deixando as pessoas se infectarem naturalmente. Mas ninguém quer que a imunidade de rebanho venha por meio da infecção natural das pessoas. A forma que nós queremos que ela venha é por meio da vacinação, de forma a que a imunidade seja adquirida de maneira mais segura e controlada.

Collins: Mas eu estou preocupado com alguns relatos de que um em cada cinco americanos (a entrevista foi nos EUA) dizem que não irão tomar a vacina. Seria uma verdadeira tragédia se nós tivéssemos uma vacina segura e eficaz, mas não conseguíssemos vacinar um número suficiente de pessoas para conseguir a imunidade de rebanho.

NÃO PODEMOS DEIXAR ISSO ACONTECER! QUANDO A VACINA ESTIVER DISPONÍVEL, TODOS TEMOS QUE NOS VACINAR. FAZ PARTE DO CUIDADO PARA QUE A COVID-19 NÃO VOLTE A NOS ATORMENTAR.

FONTE: NHI Director´s Blog. Discussing the need for reliable antibody testing for COVID-19. Postado pelo diretor do NHI Dr. Francis Collins em 04/06/2020.

Estudo avalia qualidade e performance de diagnóstico em sete testes rápidos para COVID-19.

No primeiro quadrimestre de 2020, mais de 100 testes para detecção de anticorpos IgM/IgG, denominados de rápidos, foram comercializados.  Existem, porém, preocupações importantes acerca da qualidade e performance de diagnóstico dos testes rápidos para a COVID-19. Por exemplo, no final de março o governo espanhol devolveu um carregamento de testes rápidos porque eles foram julgados não confiáveis.

O objetivo do estudo foi avaliar a performance diagnóstica de sete testes rápidos para detecção de anticorpos contra o SARS-CoV-2. Foram determinadas a especificidade (capacidade que o teste tem de ser negativo para indivíduos que não têm a doença), sensibilidade (capacidade que um teste tem de ser positivo em indivíduos que estão efetivamente doentes) e tempo de soropositividade para IgM e IgG. Foram analisados 103 pacientes de um hospital na Bélgica. Como controle negativo, foram utilizadas amostras de indivíduos coletadas antes de janeiro de 2020, que incluíam pacientes com outras doenças respiratórias (não-COVID-19), pacientes confirmados para outros coronavírus que não o SARS-CoV-2 e pacientes com outras viroses.

A especificidade dos testes rápidos variou entre 91,3% e 100% para IgM e entre 90,3% e 99% para IgG, dependendo do kit testado.

A sensibilidade da maioria dos testes rápidos foi menor que 50% durante a primeira semana após o aparecimento dos sintomas, inclusive em pacientes testados na admissão ao hospital, sugerindo que a performance dos kits rápidos para diagnóstico na admissão não é boa. A baixa sensibilidade na admissão não é surpreendente, já que o tempo médio para admissão do paciente ao hospital neste trabalho foi 7 dias após o início dos sintomas, enquanto o tempo médio para soropositividade foi de 7 a 14 dias.   

Após duas semanas (dias 14 a 25), a sensibilidade ficou entre 50% e 97,4% para IgM, dependendo do kit, e foi de 100% para IgG. Quando comparados diferentes kits para a detecção de IgM, houve uma concordância de apenas 70% nos resultados. A concordância para IgG entre os kits foi de aproximadamente 90%.

Apesar da sugestão inicial de que IgM apareceria antes do que IgG, os resultados demonstraram que as classes de anticorpos IgM e IgG contra o SARS-CoV-2 aparecem simultaneamente.

Entre as limitações do trabalho mencionadas pelos autores, está o fato de que não foram estudadas pessoas assintomáticas ou com sintomas leves. Questões importantes ainda permanecem sem resposta: Pode alguém ser colonizado pelo SARS-CoV-2 e não desenvolver IgG? Nesse caso, essa pessoa estaria protegida contra uma reinfecção? Finalmente, ainda não é claro se os anticorpos IgG são protetores contra reinfecção.

FONTE: Diagnostic Performance of Seven Rapid IgG/IgM Antibody Tests and the Euroimmun IgA/IgG ELISA in COVID-19 Patients. J Van Elslande, E Houben, M Depypere, A Brackenier, S Desmet, E André, M Van Ranst, K Lagrou, P Vermeersch. Clin Microbiol Infect. 2020 May 28;S1198-743X(20)30300-1. doi: 10.1016/j.cmi.2020.05.023.