Lucas Saldanha, Mariana Zomer e Vitória Montagner, Graduandos em Biotecnologia, UFRGS.
Revisado por Dra. Adriana Simon Coitinho, Professora Associada do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS
Se você conhece alguém que já passou por um tratamento moderno contra o câncer, artrite reumatoide ou outras doenças inflamatórias, existe uma boa chance de que os anticorpos monoclonais tenham feito parte dessa história. Essas moléculas revolucionaram a medicina ao agir de forma extremamente específica, como verdadeiros “mísseis guiados”, reconhecendo e atacando alvos ligados à doença sem afetar grande parte das células saudáveis do organismo. O desenvolvimento dos anticorpos monoclonais envolveu mais de 50 anos de pesquisas, avanços em engenharia genética e muitos desafios científicos até que essas proteínas pudessem ser transformadas em medicamentos seguros e eficazes. Hoje, além de serem essenciais no tratamento de diversas doenças, essas terapias estão entrando em uma nova era impulsionada pela biotecnologia e pela inteligência artificial.
Desde a aprovação do primeiro anticorpo monoclonal terapêutico, na década de 1980, essas moléculas deixaram de ser apenas uma promessa científica para se tornarem protagonistas no tratamento de dezenas de doenças, da oncologia à neurologia. Com o avanço da biotecnologia, os anticorpos atuais já vão muito além dos formatos tradicionais: hoje, existem versões altamente modificadas, capazes de agir quase como “softwares biológicos” programados para reconhecer e destruir alvos específicos com o mínimo possível de efeitos colaterais. Neste texto, vamos explorar a incrível evolução dessas terapias e descobrir como a inteligência artificial pode revolucionar o futuro da medicina.
Surgimento da técnica
A descoberta da tecnologia de hibridoma por Georges Köhler e César Milstein, em 1975, marcou o início da era dos anticorpos monoclonais. A técnica consiste na fusão entre linfócitos B (células do sistema imune responsáveis pela produção de anticorpos) e células de mieloma, que possuem capacidade de proliferação ilimitada. O resultado dessa fusão é o hibridoma, uma célula capaz de produzir continuamente grandes quantidades de um único anticorpo altamente específico. Essa inovação revolucionou a pesquisa biomédica e abriu caminho para o desenvolvimento de terapias baseadas em anticorpos monoclonais.
Desafios na eficácia de anticorpos murinos
Apesar do enorme potencial inicial, os primeiros anticorpos produzidos eram derivados de camundongos e apresentavam importantes limitações clínicas. Como eram reconhecidos pelo organismo humano como proteínas estranhas, frequentemente induziam respostas imunológicas que comprometiam sua eficácia e segurança. Além disso, possuíam menor eficiência em interações com o sistema imune humano e apresentavam meia-vida reduzida na circulação sanguínea. Para contornar esses problemas, surgiram estratégias de engenharia genética capazes de tornar os anticorpos mais “humanos”. Inicialmente foram desenvolvidos os anticorpos quiméricos, que combinam regiões murinas e humanas. Posteriormente, surgiram os anticorpos humanizados, nos quais apenas pequenas regiões responsáveis pelo reconhecimento do antígeno permanecem de origem murina. Mais recentemente, tecnologias como phage display e animais transgênicos permitiram a obtenção de anticorpos totalmente humanos.
Biomanufatura
Outro fator essencial para o sucesso dessas terapias foi o avanço da biomanufatura. Após a identificação e modificação do gene do anticorpo desejado, ele é inserido em células em cultura, principalmente células CHO (Chinese Hamster Ovary), que funcionam como fábricas biológicas. Essas células são cultivadas em grandes biorreatores industriais, possibilitando a produção em larga escala de anticorpos terapêuticos altamente purificados. Graças a esses avanços, os anticorpos monoclonais deixaram de ser apenas ferramentas de laboratório e se tornaram medicamentos fundamentais no tratamento de diversas doenças.
Exemplos:
- O rituximab foi um dos primeiros grandes sucessos dos anticorpos terapêuticos no tratamento de cânceres de células B. Esse anticorpo quimérico reconhece a proteína CD20 presente na superfície dessas células, promovendo sua destruição pelo sistema imune. Seu uso revolucionou o tratamento de linfomas e leucemias.
- O adalimumab é um anticorpo totalmente humano que atua contra o TNF, uma importante molécula inflamatória. Ele é amplamente utilizado no tratamento de doenças autoimunes e inflamatórias, como artrite reumatoide, sendo um dos medicamentos biológicos mais utilizados no mundo.
- O trastuzumab é um anticorpo direcionado à proteína HER2, superexpressa em alguns tipos de câncer de mama. Seu desenvolvimento representou um importante avanço na terapia-alvo contra tumores HER2 positivos.
- Entre os formatos mais modernos estão os ADCs, como o gemtuzumab ozogamicin. Nesse tipo de terapia, o anticorpo funciona como um “transportador” que leva uma droga tóxica diretamente até a célula tumoral, aumentando a especificidade do tratamento.
- Outro avanço importante são os anticorpos biespecíficos, como o catumaxomab, capazes de se ligar simultaneamente a células tumorais e células do sistema imune, aproximando-as e favorecendo a destruição do tumor.
- Além disso, terapias CAR-T, como o ciltacabtagene autoleucel, utilizam fragmentos de anticorpos para modificar células T do próprio paciente, permitindo que reconheçam e ataquem células cancerosas de maneira altamente específica.
Em suma, a celebração dos cinquenta anos da tecnologia do hibridoma consolida os anticorpos monoclonais como uma das maiores revoluções da medicina moderna e da biotecnologia. A jornada iniciada em 1975 demonstra que a superação das limitações dos anticorpos murinos, através da engenharia de anticorpos quiméricos, humanizados e totalmente humanos, foi essencial para o desenvolvimento de centenas de terapias aprovadas mundialmente. Além disso, a evolução para além do formato tradicional de IgG, incluindo anticorpos biespecíficos, conjugados anticorpo-medicamento (ADCs) e fragmentos direcionados para terapias celulares (CAR-T), ampliou significativamente o arsenal terapêutico contra cânceres e doenças imunológicas. Somados aos avanços em biomanufatura e às formulações de administração subcutânea, esses progressos aumentaram o acesso e a praticidade dos tratamentos. Diante desse cenário, o futuro da área aponta para uma integração crescente com a inteligência artificial, capaz de acelerar a descoberta e o aperfeiçoamento de anticorpos terapêuticos para alvos clínicos até então considerados intratáveis.
ARTIGO BASE:
Chan, A.C., Martyn, G.D. & Carter, P.J. Fifty years of monoclonals: the past, present and future of antibody therapeutics. Nat Rev Immunol 25, 745–765 (2025). https://doi.org/10.1038/s41577-025-01207-9
