Reino Unido aprova o primeiro ensaio de desafio humano COVID-19 do mundo.

Leia a matéria original na íntegra aqui.

Em poucas semanas, dezenas de voluntários jovens e saudáveis ​​no Reino Unido serão intencionalmente expostos ao coronavírus como parte do primeiro ensaio de desafio humano COVID-19 do mundo.

O projeto, que recebeu aprovação ética do governo do Reino Unido em 17 de fevereiro, vai estudar a quantidade de vírus necessária para iniciar uma infecção. Eventualmente, os pesquisadores poderiam então responder a outras questões, como quão bem as diferentes vacinas funcionam.

Em testes de desafio em humanos, os voluntários são deliberadamente infectados com um patógeno em um ambiente controlado. Os pesquisadores podem então estudar de perto a progressão da doença ou tratamentos potenciais com um nível de detalhe praticamente indisponível nos ensaios tradicionais, que exigem a espera dos participantes para pegar a doença por conta própria.

A possibilidade de ensaios de desafio com COVID-19 gerou controvérsia; alguns questionam a ética de colocar voluntários em risco com um patógeno relativamente novo cujas consequências a longo prazo não são totalmente compreendidas. Para este teste, a promessa de pesquisa acelerada supera os riscos para os participantes, dizem os reguladores do Reino Unido.

Em quartos de hospitais isolados, os voluntários serão expostos a vários níveis de uma variante original do coronavírus que circula desde março de 2020. Os voluntários serão monitorados 24 horas por dia, permitindo aos pesquisadores determinar a dose mínima de coronavírus necessária para iniciar a infecção. Descobrir o quanto a exposição leva à infecção é uma das questões em aberto na pandemia COVID-19. Os pesquisadores também poderão rastrear a resposta imunológica de um voluntário ao longo da infecção.

Precisamente como esse desafio humano recém-aprovado funcionará ainda não está claro, já que os detalhes não foram divulgados. Os pesquisadores dizem que planejam publicar o protocolo e uma explicação do desenho do estudo em algum momento no futuro.

E VOCÊ, O QUE PENSA SOBRE ISSO? OS RISCOS DE DELIBERADAMENTE INFECTAR VOLUNTÁRIOS SAUDÁVEIS SÃO ACEITÁVEIS EM FACE DAS DESCOBERTAS QUE PODEM SER FEITAS? ESCREVA A SUA OPINIÃO NOS COMENTÁRIOS.

Fonte: The U.K. approved the world’s first COVID-19 human challenge trial. Jonathan Lambert.  Science News 18/02/2021. https://www.sciencenews.org/article/coronavirus-uk-first-human-challenge-trial-covid-19.

O foco está errado: saiba por que desinfetar superfícies sem renovação do ar em estabelecimentos públicos é tapar o sol com a peneira

Prof. Dr. Tiago Degani Veit (ICBS-UFRGS)



Em postagem anterior neste blog (veja o post aqui), comentei sobre um estudo científico publicado na revista JAMA que argumentou que mais da metade dos casos de COVID-19 parecem ser causados por pessoas sem sintomas, e que o ato performático de medir a temperatura das pessoas que entram em estabelecimentos públicos fechados é apenas isso mesmo: um ato performático que pouco serve para prevenir qualquer tipo de transmissão. Hoje quero falar sobre outra medida adotada pelos estabelecimentos públicos que, isoladamente, surte pouco efeito no controle da pandemia: o ato de desinfecção constante de superfícies. Vejamos o porquê.

O editorial de 2 de fevereiro da conceituada revista Nature (veja aqui) trouxe novamente ao centro das discussões a questão sobre as vias de contágio do vírus SARS-Cov-2, responsável pela pandemia de COVID-19. Segundo o editorial, após um ano de pandemia, há evidências suficientes para afirmar que, apesar de plausível, a transmissão do vírus pelo contato com superfícies contaminadas parece ser rara; a via preferencial de contágio é mesmo pelo ar. Estudos preliminares, mostrando que o vírus seria capaz de sobreviver por dias em diversas superfícies por muito tempo, além de uma série de relatos anedóticos de transmissão via superfícies e  objetos, levaram as agências reguladoras envolvidas no controle da pandemia em todo o mundo a recomendar (acertadamente), desde o início da pandemia, a desinfecção constante das superfícies como forma de prevenção ao espalhamento do vírus. O que ocorre é que essa preocupação com a higienização das superfícies encontra-se superdimensionada frente ao principal fator de risco, que é a contaminação por gotículas expelidas por pessoas contaminadas, frequentemente assintomáticas, dentro de ambientes fechados e/ou aglomerados. Por ignorância, ou na falta de uma solução satisfatória para a solução do problema de circulação do ar, vários estabelecimentos públicos investem pesadamente na desinfecção de superfícies, disponibilização de álcool em gel e mesmo luvas descartáveis para ‘mostrar serviço’ ao cliente. Veja bem, caro leitor, não estou afirmando que desinfetar frequentemente as superfícies e objetos é inútil, ou que você deva deixar para trás os seus hábitos de limpeza adquiridos ao longo de todos esses meses de pandemia, mas sim que isso resolve apenas 10% do problema. A falta de clareza por parte dos órgãos de regulação – no mundo, não apenas no Brasil – não ajuda em nada nessa questão e acaba tendo sérias implicações no cômputo geral do combate à pandemia.

Sendo assim, o que os estabelecimentos deveriam fazer se quiserem realmente diminuir o risco de contaminação? Devem focar na renovação do ar. Janelas abertas ajudam; ventiladores apontando para fora dos recintos fechados também. Levar a sério o espaçamento entre as pessoas ajuda, mas não muito, caso a renovação do ar seja deficitária, já que algumas gotículas expelidas por pessoas contaminadas podem permanecer no ar por várias horas.

E você, leitor, no que precisa focar para seguir livre desse vírus? Primeiramente, focar mais ainda no uso da máscara (muita atenção para o tipo de máscara – ver aqui). Evite ou permaneça o menor tempo possível em estabelecimentos mal ventilados. Estabelecimentos preocupados com limpeza podem mostrar boa intenção, mas isso não se traduz em proteção, se a circulação do ar for pobre e/ou se o ambiente estiver aglomerado. E, por último (sempre é bom repetir), evite qualquer tipo de aglomeração, tanto em ambientes abertos como fechados. Entender qual é o ponto crítico a que temos que prestar atenção – o ar que respiramos – é fundamental para nos manter afastados de situações de risco potencial de contaminação enquanto esperamos a vacinação em massa.

A utilidade da sorologia na Covid-19.

Contribuição do Dr. Carlos Eugenio Silva, docente do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS.

Estamos há mais de um ano vivendo a disseminação dos efeitos de uma pandemia que parece ter surgido na China, por força de diversas questões biológicas e sócio-culturais. Entretanto, dada a emergência de uma virose com mortalidade impactante sobre a população humana, independente de limites geográficos ou étnicos, tem ocorrido um esforço global para entender a biologia do agente e da infecção na busca da cura ou prevenção imediata dessa condição.

Devemos lembrar, contudo, que o comportamento da doença em uma população nos dá valiosas pistas para novas percepções que nos apontem soluções para seu controle. Assim, no artigo “A utilidade da sorologia na Covid 19”, Raoult (2021) nos mostra como situações a posteriori, como aquelas que a sorologia nos revela, são importantes no entendimento de uma infecção.

Diversos trabalhos têm mostrado que soro de crianças apresentam positividade ao SARS-COV-2, indicando um caso raro de infecção respiratória do homem com baixíssimo impacto na infância. Por outro lado, diversos estudos também mostraram que indivíduos sob confinamento (lockdown) apresentavam sorologia positiva média, maior que indivíduos da área da saúde envolvidos na atenção à infecção pelo mesmo vírus.

Esses resultados reforçam a ideia de conceitos básicos de autocuidado e da importância dos indivíduos assintomáticos na disseminação da infecção. Também reforçam a importância da detecção em massa da população, cujo grau de imunidade geral precisa ser estabelecido para orientar políticas de investimento bem direcionadas em pesquisa e prevenção.

FONTE: Raoult, D. 2021. How useful is serology for COVID-19 https://doi.org/10.1016/j.ijid.2020.10.058

Ao menos metade das infecções de COVID-19 é transmitida por indivíduos sem sintomas: o que isso tem a ver com o ar-condicionado de restaurantes e a aferição de temperatura nos shoppings?

Prof. Dr. Tiago Degani Veit (ICBS-UFRGS)

Sente-se seguro ao entrar no shopping porque mediram a temperatura (no pulso!) dos frequentadores? Aliviado porque no restaurante em que você entrou para comer (que não tinha nenhuma janela aberta e com ar-condicionado a mil) não tinha ninguém tossindo ou espirrando? Repense. [TV1] [TV2] Um novo artigo publicado na conceituada revista científica JAMA (Journal of the American Medical Association) concluiu que ao menos metade das infecções por SARS-Cov-2 são causadas pela transmissão do vírus por indivíduos assintomáticos. Esses indivíduos assintomáticos podem ser tanto “pré-sintomáticos” (que estão infectados, mas cujos sintomas ainda não se manifestaram) ou indivíduos com infecção assintomática, que não desenvolvem sintomas ao longo da infecção (chamados no artigo de “nunca sintomáticos”).

Muito cedo na pandemia descobriu-se que indivíduos infectados tornavam-se infectantes antes de apresentarem sintomas. Além disso, vários estudos apontaram que uma parcela significativa de infectados não apresentava quaisquer sintomas ao longo da infecção, ou apresentavam sintomas muito leves e quase irreconhecíveis. Dados laboratoriais e epidemiológicos sugeriram que esses indivíduos assintomáticos poderiam e podem transmitir o vírus com a mesma facilidade que os indivíduos sintomáticos. Sabemos de tudo isso atualmente, mas, até recentemente, não havia uma estimativa da proporção de infecções que poderiam ser causadas por esses indivíduos.

O grupo de pesquisadores do CDC (Centers for Disease Control and Prevention, órgão governamental responsável pelo controle da pandemia nos EUA) elaborou um modelo matemático simples para avaliar a proporção de infecções causadas por indivíduos assintomáticos. Esse modelo matemático levou em conta diversos parâmetros ou fatores que foram sendo estimados por dezenas de estudos epidemiológicos ao longo de 2020, tais como tempo de incubação do vírus, tempo de infectividade do indivíduo, proporção de assintomáticos, infectividade relativa dos assintomáticos em relação aos sintomáticos, entre outros.

Os autores partiram dos pressupostos de que 30% dos indivíduos com infecção nunca desenvolvem sintomas e que esses indivíduos apresentam 75% da infecciosidade daqueles que desenvolvem sintomas. Combinados, esses pressupostos básicos implicam que 59% de toda a transmissão teria vindo de transmissão assintomática, compreendendo 35% de indivíduos pré-sintomáticos e 24% de indivíduos nunca sintomáticos.

Como os pressupostos usados para calcular a percentagem de infecções causadas por assintomáticos possuem um grau de incerteza associada (por exemplo, a proporção de assintomáticos real é estimada em 30%, mas pode ser um pouco maior ou um pouco menor), [TV3] [TV4] os autores modelaram vários cenários diferentes, variando todos os pressupostos iniciais para o cálculo da equação. Mesmo assim, a grande maioria dos modelos apontou que ao menos metade dos casos de COVID-19 seria causada por transmissão de indivíduos assintomáticos.

Essas observações têm um grande impacto na adoção de medidas de contenção da pandemia. Em uma pandemia em que a transmissão do vírus se dá predominantemente por assintomáticos, é até risível achar que a aferição da temperatura das pessoas na porta de estabelecimentos esteja tendo um impacto significativo. Tal protocolo cumpre mais a função de performar uma medida profilática, detectando apenas indivíduos (muito) sintomáticos. Indivíduos infectados e assintomáticos passam todos os dias por esses controles e transmitem o vírus nestes ambientes. Assim, é ilusório sentir-se seguro em qualquer ambiente público em que haja outras pessoas, ainda mais se o ambiente for fechado, e mais ainda se há pessoas sem máscara. Mesmo se você já teve COVID-19. O surgimento de variantes novas do vírus, algumas delas ainda mais transmissíveis que as do início da pandemia, colocam todos, curados e não infectados, como possíveis alvos de (re)infecção.

O corolário dos resultados desse estudo é: ambientes públicos fechados sem janelas abertas, com pouca renovação NATURAL de ar, devem (continuar a) ser evitados, especialmente aqueles em que as pessoas precisam tirar a máscara, como restaurantes. Torna-se obrigatório, no mínimo, o uso constante de máscaras em ambientes públicos, e mais ainda em ambientes fechados, como uma forma de proteção de si mesmo e dos outros, assim como a higienização das mãos. Em um país que não adota nenhuma medida de testagem ostensiva da população, e em que os estabelecimentos comerciais permanecem abertos a despeito da alta lotação das UTIs, faz-se ainda mais necessário observar as situações de risco acima citadas para evitar a infecção até que a vacinação em massa mude o panorama da pandemia.

Link para o artigo: https://jamanetwork.com/journals/jamanetworkopen/fullarticle/2774707