Pesquisadores ingleses acompanharam semanalmente trabalhadores de um hospital em Londres e avaliaram a resposta imune à COVID-19.

Bruno Lopes Breda

Professor Carlos Eugênio Silva

Sabemos que a imunidade contra doenças infecciosas acontece por diversas vias: os anticorpos, que ganharam especial destaque na mídia desde o início da pandemia, a imunidade celular, que acontece pelas células que atuam como “vigilantes” no sangue, e, também, por citocinas, que auxiliam na comunicação entre as células do nosso corpo. A fim de saber um pouco mais sobre a correlação entre imunidade celular e anticorpos na COVID-19, um grupo de pesquisadores desenvolveu um estudo muito interessante em um hospital situado em Londres.

Iniciado em março de 2020, no início do lockdown que foi instaurado no Reino Unido, o estudo acompanhou um grupo de 731 trabalhadores da saúde de um hospital em Londres, os quais realizavam, semanalmente, testes de swab nasofaríngeo, PCR e coleta de sangue para análise sorológica. À medida em que o tempo foi passando, 21,5% desses trabalhadores teve diagnóstico confirmado de COVID-19, sendo todos os casos considerados leves ou assintomáticos. Para analisar as respostas celulares e de anticorpos nesse grupo, os pesquisadores selecionaram 76 integrantes que tiveram o diagnóstico laboratorial de infecção por SARS-CoV-2 e os compararam com outros 60 integrantes do grupo que, ao longo do estudo, não se infectaram com a doença, todos pareados adequadamente por sexo, idade e etnia, a fim de comparar como estava a resposta de células T – responsáveis pela imunidade celular – e a produção de anticorpos nos dois grupos após 16 – 18 semanas do início do lockdown inglês.

Análise da Resposta de Células T

Para avaliar a resposta das células T ao vírus, foram realizados testes laboratoriais de IFNgama-ELISpot de 3 formas complementares: proteína inteira, epítopo de peptídeo mapeado e pool de peptídeos sobrepostos. Dessa maneira, os pesquisadores conseguiram avaliar adequadamente se houve resposta de células T CD4 e T CD8 contra proteínas do vírus que desempenham papel importante na infecção às nossas células.

Na análise cumulativa da resposta de células T, viu-se que 89% dos pacientes que foram infectados com o vírus apresentam resposta detectável. A análise isolada de cada uma das regiões das proteínas apresenta uma frequência relativamente baixa, entretanto as frequências acumuladas são semelhantes a resposta de células T contra Influenza, Epstein-Barr e Citomegalovirus. Além disso, os pesquisadores perceberam que a resposta às proteínas spike e nucleocapsídeo – duas proteínas muito estudadas no vírus da COVID-19 – foi significativamente mais frequente em pacientes que tiveram infecção confirmada por laboratório.

Dos pacientes infectados com o vírus, 85% apresentaram resposta à proteína do nucleocapsídeo, enquanto apenas 29% dos pacientes não infectados demonstraram essa resposta. Já na análise da resposta à proteína spike, 49% dos infectados responderam, enquanto apenas 22% dos não infectados respondeu.

Anticorpos Neutralizantes

Entre pacientes que tiveram infecção confirmada pelo vírus da COVID 19, 97% apresentava anticorpos IgG contra a proteína spike ou IgM/IgG contra a proteína do nucleocapsídeo. A observação dos anticorpos reconheceu que 89% dos infectados apresentavam anticorpos neutralizantes – ou seja, que conseguem impedir a funcionalidade do vírus dentro do nosso corpo – contra o pseudovírus da COVID-19. O título desses anticorpos, ou seja, a “concentração” em que eles estavam presentes no plasma variou bastante, mas 66% das amostras de sangue dos pacientes tinham um IC50 (a quantidade mínima de anticorpos que neutraliza 50% das partículas virais com que entra em contato) com título superior a 200.

Quando comparadas as infecções com a clínica dos pacientes, ou seja, como foram os sintomas que eles tiveram, os pesquisadores perceberam que pacientes que eram assintomáticos ou que não tinham os sintomas clássicos da COVID-19 apresentaram níveis mais baixos de anticorpos IgG (figura 2E) contra a proteína S do vírus, embora os níveis de anticorpos neutralizantes entre os grupos tenham apresentado similaridade ao longo do período estudado (figura 2F).

Conclusões

No estudo analisado, podemos perceber que o grupo de pacientes infectados com o vírus apresentou níveis variados de resposta celular às proteínas do vírus da COVID-19, entretanto, apenas duas amostras não apresentaram resposta alguma ao vírus. No que concerne aos anticorpos, 89% dos pacientes infectados apresentavam anticorpos neutralizantes contra a COVID-19 16-18 semanas após serem infectados (uma surpresa para nós, uma vez que uma hipótese muito discutida no meio científico é a de que os anticorpos caem rapidamente após a infecção). Outra surpresa é que os níveis desses anticorpos neutralizantes foram relativamente altos entre as amostras analisadas. Isso abre espaço para, por exemplo, investigar o real potencial de reinfecção do novo coronavírus na espécie humana ou a forma como o vírus pode evadir da resposta imune induzida pelas vacinas aplicadas atualmente.

Com relação ao risco de agravamento da doença e das formas graves, sabemos hoje que a idade e as comorbidades são fatores de risco importantes para que a doença seja mais severa e precise de internação hospitalar. Apesar de nenhum membro do grupo estudado ter necessitado de internação quando foi infectado com a doença, percebeu-se que, nas mulheres avaliadas, quanto mais idoso o indivíduo estudado, maiores eram os níveis de anticorpos no sangue. Já para as células T, foi observado que a resposta celular aumenta com nos homens junto com a idade.

Trabalhos com células T indicam que mesmo pessoas assintomáticas e contatos domiciliares desenvolvem respostas de células T de baixa frequência. Estes achados se relacionam com os resultados encontrados nos profissionais da saúde amostrados sem infecção confirmada laboratorialmente. O trabalho demonstrou que os indivíduos infectados podem apresentar uma resposta T altamente heterogênea no reconhecimento de epítopos de ´diferentes proteínas estruturais e não estruturais de SARS-CoV-2.

Esse estudo serve como um bom ponto de partida para análises mais aprofundadas sobre a resposta imune ao vírus da COVID-19, e fala a favor da ideia de que a resposta à infecção pela COVID-19 não é mediada apenas por anticorpos ou células de defesa, mas sim uma trama complexa em que todos os fatores do sistema imunológico atuam de forma conjunta. O estudo mostra como devemos realizar mais estudos longitudinais para entender a resposta contra o SARs COV 2 e se sua disseminação e futura endemicidade pode gerar comportamento semelhante àqueles encontrados para outros Coronavírus sazonais do homem. Apesar de tudo o estudo foi medido em profissionais da saúde, o que nos coloca novamente na posição de considerarmos o quanto o uso de máscaras, higiene e a prática do distanciamento social também pode ter contribuído com a própria resposta imune para o não aparecimento de casos graves.

O verme dos ovos de ouro

Dr. Carlos Eugênio Silva – DEMIP – UFRGS

As infecções virais causaram mais de 3 milhões de mortes em todo o mundo em 2017, e, provavelmente, aumentarão em mais de 1 milhão a mortalidade geral em 2020, devido à pandemia COVID-19. Surtos virais globais, incluindo COVID-19, HIV e Influenza ilustram a necessidade crítica de entender como e por que um mesmo vírus pode causar doença leve em alguns hospedeiros, mas desencadear doenças graves e morte em outros.
As infecções por helmintos (vermes) afetam mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo e infectam desproporcionalmente as populações pobres do mundo, matando anualmente mais de 1 milhão de pessoas. Evidências científicas crescentes sugerem que as infecções por vermes, particularmente os esquistossomos, afetam a suscetibilidade do hospedeiro a diferentes vírus e aumentam a gravidade das doenças virais devido ao impacto que causam no sistema imunológico do hospedeiro.
Especificamente no caso da esquistossomose o homem desenvolve uma resposta imune dinâmica à infecção por este verme. A resposta que predomina no início da infecção apresenta um forte componente celular (Th1) e algum componente envolvendo a produção de anticorpos (Th2), atuando na destruição do parasito no fígado e mucosa intestinal. Em seguida, a resposta Th2 passa a ser mais relevante. Finalmente, na doença crônica, ocorre a dominância de um componente regulatório da resta imune (T reg), com alguma contribuição Th2. A diminuição concomitante de citocinas Th1 durante esta fase crônica fundamenta a hipótese de que o hospedeiro infectado com esquistossomo pode apresentar a resposta antiviral comprometida pela redução da atividade citotóxica e imunidade Th1.
Bullington e colaboradores recentemente (2021) examinaram esses argumentos, através de uma revisão sistemática da literatura a respeito dos efeitos da infecção por esquistossomos concomitante com infecções virais em relação a: resposta antiviral do hospedeiro, prevalência e incidência da infecção viral, virulência e na vacinação antiviral. O trabalho envolveu a revisão de 4.731 títulos relacionados, dos quais 103 estudos preencheram completamente os critérios a serem analisados.
A revisão apresentada demonstrou consistentemente que a infecção pelo esquistossomo prejudica resposta imune do hospedeiro a algumas vacinas antivirais, distorce a imunidade antiviral e impacta, possivelmente tanto positiva quanto negativamente na virulência das infecções virais dependendo do vírus e o local da patologia.
Assim, a mudança do perfil da atividade imune durante a fase crônica da doença, com o aumento do controle da resposta inflamatória e celular (T reg) parece favorecer a susceptibilidade ao Herpesvírus do Sarcoma de Kaposi e do HIV, favorecer a virulência dos vírus das Hepatites B e C e favorecer a infecção feminina ao HIV. Entretanto, quando os estudos envolveram a tratamento dos indivíduos estudos com Praziquantel, principal medicação utilizada no tratamento da esquistossomose, a atividade antiviral aumentou significativamente.
É interessante notar que o padrão de imunidade induzido na coinfecção pelo esquistossoma reduz a inflamação pulmonar na infecção pelo vírus da Influenza, a inflamação associada com a paralisia na infecção com HTLV-1 e a redução da carga viral na infecção crônica pelo HIV. Como era esperado, nos estudos comparativos com infecções virais simples a resposta predominante era a Th1.
Entre os impactos sanitários mais importantes reforçados pela revisão é o comprometimento da resposta vacinal contra os vírus da Hepatite B e do sarampo, devido a forte regulação as respostas imunes celular e humoral.
Este padrão de atividade de defesa verificado nesta coinfecção e comum na esquistossomose é em grande parte decorrente da presença passiva e errática de ovos do verme que são retidos nos tecidos provocando forte resposta Th1. Uma resposta tão intensa poderia matar o hospedeiro, forçando o esquistossoma a criar um arsenal especial de moléculas que possam regular fortemente a atividade inflamatória.
Muito embora essas evidências pudessem tornar o Schistosoma o “verme dos ovos de ouro”, estamos muito longe de entender as relações evolutivas as quais o homem ou seus parasitos compartilham benefícios que possam incluir outros parceiros, como bactérias e os próprios vírus. É importante salientar que mitigar as situações de risco de infecção envolvem um custo-benefício muito maior, mas o trabalho abre muitas perspectivas desde estudos em nível molecular e na saúde única.

Referência: Bullington BW, Klemperer K, Mages K, Chalem A, Mazigo HD, Changalucha J, et al. (2021). Effects of schistosomes on host anti-viral immune response and the acquisition, virulence, and prevention of viral infections: A systematic review.
PLoS Pathog 17(5): e1009555. https://doi.org/10.1371/journal.ppat.1009555

“Porque eu estou escrevendo essa postagem?” Déficits cognitivos na pandemia

À medida que a pandemia de Covid-19 avança, as suspeitas de efeitos a longo prazo da infecção são relatadas. A também denominada COVID “persistente” (“Long Covid”, tradução livre) envolve manifestações mais brandas e persistentes de manifestações das fases iniciais (subaguda e crônica precoce). Também há relatos informais de confusão mental, fraqueza geral, um amplo espectro de manifestações psicológicas, como falta de concentração, desorientação e dificuldade de encontrar as palavras certas. A literatura tem demonstrado complicações neurológicas para diferentes condições patológicas decorrentes da COVID-19, uma vez que essas manifestações podem ser sequelas que envolvam a sepse, hipoxia e hiper estimulação imune.
Preocupados com estas sequelas, Hampshire e colaboradores (2021) desenvolveram um estudo consistente em que mais de 81 mil indivíduos foram submetidos a um questionário para testar a hipótese de que a recuperação da COVID-19 está associada com manifestações objetivas de déficit cognitivo.
Para tanto, a coleta de dados envolveu o público em geral, predominantemente do Reino Unido, que respondeu a um questionário e uma série de avaliações cognitivas incluídas no chamado ‘Teste Intelectual da Gram Bretanha”, amplamente divulgados pelos meios de comunicação. Esta avaliação foi sensível a variáveis de interesse como idade, sexo, grau de instrução, passível de ser ajustado para pacientes idosos e pacientes com deficiências motoras e cognitivas leves.
Os resultados confirmaram a hipótese principal de que aqueles que se recuperaram da COVID-19 (com confirmação laboratorial) em casos com internação hospitalar apresentaram pior desempenho do que o esperado nos testes cognitivos, independente de sua idade ou perfil demográfico.
O estudo em questão não considerou aspectos clínicos individuais, mas representou uma tentativa extensa de avaliar aptidões intelectuais em respondentes com ou sem histórico de COVID-19. Os resultados encontrados sugerem que estudos longitudinais envolvendo análises de imagem e biológicas devem ser realizados para fundamentar os achados de deficiências cognitivas em indivíduos que se recuperam de manifestações da COVID-19.

Referência:
Hampshire, A; et alli. 2021. Cognitive deficits in people who have recovered from COVID-19. The Lancet: EClinicalMedicine.
https://www.thelancet.com/journals/eclinm/article/PIIS2589-5370(21)00324-2/fulltext?s=08#seccesectitle0013
DOI: https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2021.101044