Por que governos de vários países têm tanto medo da variante Delta?

A temida variante Delta do SARS-CoV-2 está se espalhando com uma velocidade impressionante. Publicamos recentemente um post relatando a predominância dessa variante no Reino Unido, mas atualmente ela já foi isolada em quase todo o mundo. Apesar disso, os artigos científicos relativos à biologia dessa variante ainda são poucos, mas essenciais para entendermos como ela (e outras variantes) irá nos afetar.

Deixando questões ideológicas de lado, o primeiro alerta mundial sobre a COVID-19 surgiu na China no final de 2019 e, de lá para cá, os chineses têm contribuído imensamente para o conhecimento dessa doença. Pesquisadores chineses acabaram de publicar um preprint (artigo ainda não avaliado pelos pares para publicação em uma revista científica) no qual reportam a primeira transmissão local da variante Delta na China, conseguindo rastrear as infecções até o caso índice (primeiro caso).

No artigo, os pesquisadores chamam a atenção para o fato de que a carga viral (quantidade de partículas virais carreadas por uma pessoa) da variante Delta é cerca de mil vezes maior do que a da cepa do SARS-CoV-2 que circulou na China durante a primeira onda da pandemia (início de 2020). Isso pode significar que a variante Delta tem uma taxa de replicação maior e pode ser mais infecciosa durante as fases iniciais da infecção.

Os pesquisadores chineses conseguiram acompanhar casos de infecção pela variante Delta, traçando os contatos dos infectados e realizando o teste de RT-PCR, padrão para a detecção do vírus. Com isso, foram capazes de verificar que o tempo entre a exposição ao vírus e a obtenção de teste RT-PCR positivo diminuiu para quatro dias em média, em comparação com os seis dias de intervalo nos testes realizados em 2020.  

O artigo conclui que a frequência da testagem populacional deve ser otimizada, já que a transmissão da variante Delta é mais rápida. Se essa variante for realmente mais infecciosa durante a fase pré-sintomática (antes dos sintomas aparecerem), a quarentena precoce de casos suspeitos e seus contatos se torna ainda mais importante.

VAMOS FAZER A NOSSA PARTE: USEM MÁSCARAS, PRATIQUEM O DISTANCIAMENTO SOCIAL E NÃO PERCAM A OPORTUNIDADE DE SE VACINAR. VAMOS VENCER ESSE VÍRUS!

FONTE: Viral infection and transmission in a large, well-traced outbreak caused by the SARS-CoV-2 Delta variant. Baisheng Li et al. medRxiv preprint doi: https://doi.org/10.1101/2021.07.07.21260122. July 23, 2021.

Qual a real ameaça das mutações do SARS-CoV-2?

Dra. Patricia Valente – DEMIP/UFRGS

Acaba de ser publicada uma reportagem na Science News chamando a atenção para um artigo, publicado na conceituada revista Cell, que mostra que uma única mudança em uma proteína viral importante pode ter ajudado o coronavírus por trás do COVID-19 a passar dos animais para as pessoas, fazendo com que o vírus se tornasse o flagelo que é hoje. Essa mutação parece ajudar a proteína spike do vírus a se agarrar fortemente à versão humana de uma proteína hospedeira chamada ACE2, que o vírus usa para entrar e infectar células.

A reportagem apresenta opiniões de alguns pesquisadores sobre esse achado. Enquanto alguns acreditam que sem essa mutação a pandemia não teria acontecido como aconteceu e a propagação global do coronavírus teria sido menos provável, outros ponderam que, apesar das novas descobertas sugerirem que a mutação é importante, ela é potencialmente uma entre várias mudanças que tornaram possível o salto dos animais para as pessoas, não sendo, necessariamente, a única que possibilitou esse salto.

Independentemente da controvérsia, o fato é que mutações são eventos que ocorrem naturalmente e possuem efeitos imprevisíveis. A grande maioria não causa alterações perceptíveis no organismo que as sofreu (no SARS-CoV-2, por exemplo). Porém, elas podem ocorrer em locais do genoma que são importantes para alguma característica morfológica ou fisiológica. Se essa característica estiver correlacionada a alguma função importante para o organismo, como, no caso do SARS-CoV-2, a invasão de uma célula hospedeira, aumento de virulência ou fuga do sistema imunológico, ela passa a conferir uma vantagem adaptativa para o vírus.

A humanidade está atravessando um período, como tantos outros que já atravessamos no passado, em que travamos uma batalha pela nossa sobrevivência enquanto espécie. A diferença é que, dessa vez, temos mais conhecimento científico e maior capacidade de mobilização de pessoas do que nas vezes anteriores. A grande pergunta, então, é: Por que não estamos conseguindo usar esse conhecimento e essa capacidade de mobilização em nosso favor? Por que o vírus está ganhando da gente?

Nós somos seres inteligentes, sabemos o que temos que fazer para vencer essa batalha. Recentemente, publicamos um post sobre a nossa responsabilidade no aparecimento das variantes do SARS-CoV-2. Mutações são naturais, mas insistirmos em comportamentos que dão chance ao vírus de se multiplicar e acumular mutações, possibilitando o surgimento de variantes preocupantes, que podem ser mais virulentas ou fugir da cobertura das vacinas que temos atualmente ao nosso dispor, é burrice.

Vamos nos unir contra o vírus. É essencial o uso de máscaras, manutenção do distanciamento social e vacinação. Unidos nós somos mais fortes!

#unidoscontraovírus

FONTES: One mutation may have set the coronavirus up to become a global menace. Erin Garcia de Jésus. Science News 12/07/2021.

Kang et al. A selective sweep in the spike gene has driven SARS-CoV-2 human adaptation. Cell. Published online July 6, 2021. doi: 10.1016/j.cell.2021.07.007.

Qual a nossa responsabilidade no surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2?

Dra. Patricia Valente – DEMIP/UFRGS

O mundo está estarrecido com o aparecimento de uma variante do SARS-CoV-2 após a outra. A preocupação mais recente é a variante Delta, que já foi encontrada em pelo menos 98 países ) e tem uma capacidade de disseminação maior do que as demais variantes (veja nosso post sobre esse assunto). A origem do vírus inicial passou a ter uma importância cada vez menor e ficamos nos perguntando quando esse vírus irá parar de sofrer mutações.

Cada vez que uma nova variante aparece, entramos em pânico porque ela pode causar sintomas mais graves, se espalhar mais facilmente, fugir do nosso sistema imunológico com mais eficácia e, até mesmo, escapar da cobertura das vacinas que temos ao nosso dispor no momento.

Mas, afinal, como surgem essas variantes?

Para responder essa pergunta, primeiro é preciso entendermos como os vírus se multiplicam. Para que a multiplicação das partículas virais ocorra, é necessário que elas infectem uma célula viva. Os vírus dependem da célula hospedeira (célula infectada) para se replicar, sendo incapazes de se multiplicar fora dessa célula e essa é a chave para entendermos o nosso papel no surgimento das variantes.

Durante o processo de replicação (multiplicação), várias cópias do genoma (material genético) viral são produzidas dentro da célula infectada. Nesse processo podem ocorrer alguns erros (as famosas mutações), que são incorporados no genoma viral. Quando há acúmulo de mutações, temos o aparecimento das variantes e o que é conhecido por evolução do vírus.

O processo de replicação do SARS-CoV-2 é bastante complexo e ele, diferentemente de vários outros vírus, como o HIV (causador da AIDS), por exemplo, tem capacidade de corrigir os tais pequenos erros que ocorrem durante a replicação do genoma (mecanismo conhecido pelo termo em inglês proofreading). Portanto, o SARS-CoV-2 é um vírus que evolui lentamente em comparação com os que não possuem o proofreading, por mais inacreditável que isso possa parecer.

Então, se ele evolui lentamente, como é que aparecem tantas variantes em tão pouco tempo?

A resposta direta é que isso é nossa responsabilidade. Quem possibilita o surgimento de tantas variantes somos nós mesmos, na medida em que não adotamos as práticas recomendadas de distanciamento social e uso de máscaras, principalmente. Somos nós que permitimos que o vírus permaneça em circulação e infecte novas células hospedeiras a fim de replicar as partículas virais. Quanto mais nós deixamos que ele se replique, mais mutações irão escapar do sistema de proofreading e, portanto, mais variantes irão surgir.

Aí vocês podem perguntar: mas as vacinas não estão aí para parar o vírus?

As vacinas foram desenvolvidas com o objetivo primário de reduzir a gravidade da doença. A diminuição dos sintomas tem como efeito colateral diminuir a possibilidade de disseminação do vírus entre as pessoas, já que pessoas sintomáticas transmitem maior quantidade de partículas virais do que as assintomáticas. As vacinas não são garantias de que você não irá se infectar, por isso é tão importante manter o distanciamento social e uso de máscaras, mesmo já estando vacinado. Essas medidas não farmacológicas só podem ser suspensas quando a circulação do vírus na população estiver sob controle, o que não é o caso atual do Brasil e de muitos outros países.

Moral da história: Como o SARS-CoV-2 é eficiente em seu processo de multiplicação e corrige a maioria dos erros que ocorrem durante a replicação do seu genoma, a única explicação para o aparecimento sistemático de variantes cada vez mais preocupantes é que não estamos fazendo a nossa parte, isto é, impedindo a multiplicação viral. A diversidade de variantes que estamos vendo só é possível porque estamos deixando o vírus se manter entre nós. Como ele se dissemina rápido e consegue infectar vários hospedeiros de faixas etárias e condições sociais diferentes (só para ficar em dois parâmetros), a quantidade de partículas virais em circulação é tão gigantesca que é possível o aparecimento das variantes. Só vamos conseguir conter essa pandemia quando aprendermos a trabalhar juntos contra o vírus, contendo a sua disseminação.

FONTE: Coronavirus disease (COVID-19): Virus Evolution. Q & A Section. World Health Organization.30 December 2020. https://www.who.int/news-room/q-a-detail/sars-cov-2-evolution