Vacina é uma coisa e vacinar é outra

Prof. Carlos E. Silva – DEMIP/UFRGS

As vacinas só desempenham o papel de imunizantes efetivos e seguros, quando a vacinação é realizada de forma adequada.
As vacinas utilizadas até agora são aplicadas pela via intramuscular. Esta vacinação envolve um procedimento simples, com muitas referências mostrando o modo adequado de aplicar medicamentos e vacinas no músculo (https://pebmed.com.br/tecnica-de-aplicacao-da-vacina-contra-covid-19/).
Por outro lado, a aplicação da vacina de modo desinteressado pode ter consequências ruins. Existem muitos vídeos que circulam abertamente mostrando a vacinação intramuscular no braço (músculo deltoide), onde a penetração da agulha é seguida da imediata inoculação do conteúdo da seringa, sem a verificação se a ponta da agulha está em um vaso sanguíneo (procedimento de puxar o êmbolo da seringa). Um trabalho experimental recente tenta mostrar (em análise por pares) que a aplicação intravenosa de vacina contra COVID 19 a base de ácido ribonucleico mensageiro (mRNA da Pfizer BioNTech) desencadeia inflamação no coração (miocardite) de camundongos (Li et al., 2021). Neste estudo os pesquisadores tentaram mostrar se havia alguma alteração no uso de vacina endovenosa (EV) e intramuscular (IM) em comparação com animais respectivamente inoculados com solução salina de cloreto de sódio, como controle.
O trabalho foi desenvolvido em camundongos e procurou comparar qual o efeito da administração da vacina mRNA administrada na veia ou no músculo em duas ocasiões. Foram realizadas com coletas em diferentes dias após as aplicações e avaliada a existência de possíveis diferenças entre sexo,  alterações  patológicas macro e microscópicas, níveis de citocinas e quimiocinas da inflamação, entre outras análises.
Os resultados mostraram, sem sombra de dúvidas, que a inflamação do coração  e seu envoltório (miopericardite) esteve presente de 24 a 48 horas após os desafios em todos os animais que receberam a vacina de mRNA EV, confirmado por lesões macroscópicas e histológicas, incluindo a confirmação imunocitoquímica e níveis teciduais significativamente elevados de citocinas e quimiocinas inflamatórias. Entre outros órgãos analisados o fígado também apresentou degeneração de células hepáticas e necrose. Os camundongos inoculados por via IM, não apresentaram lesões significativas na primeira inoculação. Entretanto, alguma inflamação no miocárdio pode ser verificada na segunda inoculação. Os grupos controles EV e IM, não apresentaram nenhum tipo de lesão ou alteração microscópica tecidual e nem de marcadores ou sinalizadores de inflamação. A presença ou ausência de lesões não apresentou diferenças entre o sexo dos animais.
Com o papel de simularem as infecções, para proporcionar o desenvolvimento de proteção, as vacinas também podem gerar inconvenientes. Entretanto, o trabalho mostra claramente que alguns efeitos colaterais da vacinação poderiam ser facilmente evitados com procedimentos simples como a conduta de puxar o êmbolo da seringa para verificar se a ponta da agulha não está em um vaso sanguíneo. Isso garantiria que a vacina intramuscular está realmente no músculo. Observemos que não estamos criticando a qualidade de uma vacina, mas os problemas potenciais da sua má utilização. Será que parte dos 40 casos por milhão de miocardites em vacinados, nos Estados Unidos da América, não poderiam estar relacionados a vacinações mal administradas? O trabalho indica que a negligência em um procedimento simples, contudo fundamental, como vacinar corretamente, pode acabar trazendo consequências muito desagradáveis à população e comprometer a credibilidade de produtos criteriosamente avaliados.

Can Li, et al., 2021. Intravenous injection of COVID-19 mRNA vaccine can induce acute myopericarditis in mouse model. Clin Infect Dis.Aug 18. Online ahead of print.
https://doi.org/10.1093/cid/ciab707

Imunidade natural e vacinal na COVID 19: a dura corrida da “Rainha Vermelha”

Por Carlos Eugênio Silva – Professor do ICBS-UFRGS

Em biologia, a interação entre duas espécies gera um conjunto de adaptações que são dinâmicas e envolvem aquilo que chamamos de “corrida evolutiva”. Por exemplo, se um hospediro desenvolve um tipo de defesa novo, é muito vantajoso ao parasito desenvolver algum tipo de contra-ataque e vice-versa, caso contrário,  haverá uma vantagem crescente de um sobre, uma vez que linhagens mais bem-sucedidas simplesmente persistem, enquanto as outras vão desaparecendo. Esse tipo competição entre os elementos biológicos foi  chamado pelo biólogo norte-americano Leigh Van Valen (1973) de “Hipótese da Rainha Vermelha. O pesquisador faz referência ao personagem homônimo do livro Alice através do espelho, de Lewis Carroll (1832-1898). Numa passagem do livro, Alice, já cansada de correr e espantada por todas as outras coisas parecerem ter permanecido imóveis, recebe a explicação da Rainha Vermelha: “Alice, aqui, como você vê, precisamos estar sempre correndo para ficar no mesmo lugar”.

A situação de pandemia que vivemos pode ser um bom exemplo disso, com o homem tentando utilizar a inteligência na produção de vacinas em resposta a facilidade infectiva de um tipo de Coronavirus. Pois um estudo que ainda está sob revisão comparou a imunidade vacinal promovida pela vacina Pfizer-BioNTech e a imunidade natural contra a infecção pela variante Delta em Israel, o que nos mostra em que pé estamos nessa “corrida”.

Nesse estudo a imunidade natural revelou ser 13 vezes mais potente que a vacina em questão, o principal imunizante utilizado em Israel. Foi demonstrado que a imunidade natural foi mais efetiva em prevenir a hospitalização e as manifestações da Covid-19, ou mesmo a infecção pela variante Delta do Sars Cov-2.

O estudo avaliou indivíduos do Maccabi Healthcare Services, serviço de saúde estatal de Israel com 2,5 milhões de atendidos. Gazit e colaboradores (2021) estudaram 3 grupos que chamaremos aqui de:  grupo de somente vacinados ou VA, composto por 673.676 indivíduos, sem a exposição prévia a SARS-CoV-2 e que recebeu a imunização recomendada, com duas doses da vacina;  grupo de infectados e vacinados ou IV, com 42.099 indivíduos, que apresentou infecção prévia por SARS-CoV-2 e recebeu apenas uma dose da vacina; e o grupo de somente infectados ou IN, 62.883 indivíduos não vacinados e previamente infectados pelo SARS-CoV-2. Sendo assim, o artigo é o maior maior estudo observacional em grade escala comparando imunidade natural e vacinação realizado até agora.

Este estudo foi realizado de 1 de junho a 14 de agosto de 2021, quando a variante Delta era comum em Israel e comparou a taxa da infecção por SARS-CoV-2, a severidade da COVID 19, a hospitalização e a mortalidade. O grupo VA apresentou um risco 13,06 vezes maior (IC de 95%, 8,08 a 21,11) de apresentar infecção pela variante Delta em comparação em comparação com os grupos IV e IN, infectados naturalmente 5 a 6 meses antes do estudo. O risco de desenvolver manifestações de Covid-19 pela variante Delta também foi maior para o grupo VA (P <0,001). O grupo de VA também foi mais vulnerável à hospitalização. Quando a infecção ocorreu em qualquer momento antes da vacinação (março de 2020 a fevereiro de 2021, grupo IV), foi demonstrada uma chance  5,96 vezes menor de  diminuição da imunidade natural (IC de 95%, 4,85 a 7,33) e uma chance 7,13 vezes menor de manifestações graves (IC 95%, 5,51 a 9,21) que no grupo VA.  Os indivíduos exclusivamente vacinados (VA) contra a SARS-CoV-2 também correram um risco maior de hospitalizações pela variante Delta em comparação com aqueles que foram previamente infectados. Não houve mortes em nenhum grupo durante o estudo.

Embora mais trabalhos sejam necessários, os pesquisadores acreditam que os resultados do trabalho podem indicar que outros antígenos devam estar contribuir para incrementar a proteção, além da proteína Spike (tipo de proteína de superfície viral ou peplômero). O trabalho é interessante pela proposta e pelo número de participantes envolvidos, o que só seria possível em um país com grande mobilização para vacinação. Entretanto, os autores levantam elementos importantes que não puderam ser controlados neste estudo, como a ausência de testagem em indivíduos assintomáticos, uma vez a busca não foi compulsória, mas espontânea, e o comportamento natural dos indivíduos que não conseguem prever erros no autocuidado (máscara, distanciamento social e higiene das mãos e mucosas). É importante observar que as vacinas podem adicionar um impulso extra à proteção de comunidades que se recuperaram da COVID-19. Os resultados mostraram que a imunidade natural seguida de uma única dose vacinal (IV) promoveu maior proteção contra o reinfecção do que na imunidade natural sozinha (IN) e ainda não existem estudos a respeito do efeito da terceira dose (segundo reforço). 

Mas cuidado! Insistir na vacinação é dar um tiro no pé. É procurar entender como insraelenses que sobreviveram a infecção, podem ter uma resposta 13 vezes melhor que seus compatriotas que receberam a vacina Pfizer-BioNTech.  A imunidade natural nos dá grandes oportunidades para esclarecer os mecanismos de reconhecimento e neutralização viral, de maneira que isso aprimore a vacinação.  Nossa vantagem evolutiva não está relacionada apenas à nossa capacidade genética de resistir à infecção, mas também a nossa capacidade intelectual de tentar impedir qualquer morte; é ter consciência de não correr o risco de estar entre os 2% que morrem pela infecção natural, caso não tenham nenhum tipo de proteção prévia!!! Esta é a nossa “corrida da Rainha Vermelha”, onde fugimos do bandido sem utilizarmos somente as “pernas”, pois tentamos salvar até os que não têm fôlego.

Hipotese da Rainha Vermelha. Sugestão de leitura: https://cienciahoje.org.br/artigo/a-rainha-vermelha-e-o-bobo-da-corte/

Gazit S, et al. Comparing SARS-CoV-2 natural immunity to vaccine-induced immunity: reinfections versus breakthrough infections. medRxiv, 2021. https://doi.org/10.1101/2021.08.24.21262415

Um novo inseticida que mata larvas de mosquitos? Não é só a COVID-19 que é preocupante. Vamos nos lembrar da dengue, zika e chikungunya. Participem dessa pesquisa de mercado.

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