Por que o mortal ‘fungo negro’ está devastando pacientes com COVID na Índia?

Uma preocupação adicional associada à COVID-19 surgiu recentemente: uma infecção por um grupo de fungos em pacientes na Índia, que pode levar ao óbito. Transcrevemos abaixo trechos da reportagem publicada em 28 de maio na Scientific American sobre este assunto. A reportagem original pode ser lida aqui.

O hospital do Instituto Mahatma Gandhi de Ciências Médicas, na Índia, recebe pacientes com COVID desde maio de 2020. Mas, em meados do mês passado, pacientes chegaram com problemas que os médicos ainda não tinham visto na pandemia: as pessoas não estavam apenas sem fôlego e febris, mas também sentiam dor e pressão atrás das maçãs do rosto e ao redor dos olhos.

Seus casos foram alguns dos primeiros indícios de uma doença denominada mucormicose. O fungo causador pode infestar os seios da face e os ossos do rosto e invadir o cérebro ou fazer com que os pacientes percam um olho. Quando não é tratada – e o tratamento é prolongado e difícil – a mucormicose pode matar até metade das pessoas que a contraem.

Um componente padrão do tratamento para casos graves de COVID são altas doses de corticosteroides, medicamentos antiinflamatórios que atenuam a reação exagerada do sistema imunológico à infecção. Os esteróides salvam vidas, mas ao mesmo tempo tornam o paciente mais vulnerável ao ataque de qualquer bactéria ou fungo que já esteja em seu corpo ou circule em seu ambiente.

Os esporos de fungos estão por toda parte e somos muito eficientes em eliminá-los de nossos pulmões, porém a COVID-19 danifica o pulmão. Então você tem um golpe duplo: capacidade reduzida de eliminar naturalmente os esporos dos fungos e resposta imunológica reduzida como resultado de esteróides.

Essa colisão de fatores é complicada por outra coisa. Anos antes do surgimento da COVID-19, pesquisadores na Austrália e na Europa, assim como na Índia, relataram que a mucormicose parecia particularmente feroz em pacientes com diabetes não controlado. Na Índia, um em cada oito adultos com 30 anos ou mais é diabético, a maioria com controle subótimo do açúcar. Quando os pacientes apresentam resultado positivo para COVID, usualmente são prescritos esteroides em altas doses, geralmente na primeira semana.

A identificação precoce de um caso de mucormicose pode ser um desafio. Ao contrário de algumas outras infecções fúngicas, não existem testes sanguíneos que possam detectá-la. O diagnóstico requer fazer uma biópsia, examinar a amostra e, às vezes, fazer o acompanhamento com uma tomografia computadorizada.

Não é possível, neste ponto, prever o fim desta epidemia de fungos, embora uma maior consciência da vulnerabilidade dos pacientes possa permitir que os médicos na Índia reconheçam os casos mais cedo. Por enquanto, continua sendo mais uma maneira pela qual a pandemia pegou o mundo de surpresa e mais uma ilustração de como seus piores efeitos caíram mais duramente sobre os países que menos podem pagar por eles.

FONTE: Why Deadly ‘Black Fungus’ Is Ravaging COVID Patients in India. Maryn McKenna. Scientific American, 28 de maio de 2021. https://www.scientificamerican.com/article/why-deadly-black-fungus-is-ravaging-covid-patients-in-india/

Estudo analisa a prevalência e origem da desinformação sobre a COVID-19 em 138 países.

O trabalho foi publicado na plataforma de preprints (artigos ainda não avaliados para publicação em uma revista científica), mas serve de alerta para todos nós.

O autor analisou 9.657 informações incorretas originadas de 138 países e desmascaradas por 94 organizações de verificação de fatos para entender a frequência da desinformação em diferentes países, fontes e distribuições de fontes por país. Os resultados sugerem que a prevalência de desinformação não segue nenhum padrão geográfico; em vez disso, pode ser consistente com a tensão e o vácuo de informações. Além disso, a mídia social representa um grande desafio para a saúde pública e a comunicação em saúde ao produzir a maior parte da desinformação sobre COVID-19.

Os dados para este estudo foram coletados no site oficial do Poynter Institute for Media Studies (https://www.poynter.org/ifcn-covid-19-misinformation). É uma organização sem fins lucrativos com sede na Flórida, fundada em 1975, que está trabalhando ativamente para reduzir a prevalência da desinformação em todo o mundo.

A maioria dos países asiáticos e africanos apresentou uma quantidade menor de desinformação, enquanto o Sul da Ásia e as Américas do Norte e do Sul apresentam uma quantidade maior de desinformação. A Índia apresentou o maior índice de desinformação no período, seguida dos Estados Unidos e Brasil.

Das quatro fontes principais, as redes sociais veicularam a maior quantidade de desinformação (84,94%), seguidas por outras fontes da Internet (5,56%). Curiosamente, as fontes baseadas na Internet sozinhas veicularam 90,5% de toda a desinformação. Apesar de beneficiar o público ao fornecer informações úteis, a mídia social está disseminando informações incorretas sobre o COVID-19 em profusão. Por esse motivo, a mídia social é tratada como uma “faca de dois gumes” e a desinformação na mídia social é tratada como “uma epidemia [de desinformação] dentro da pandemia de COVID-19”.

De todos os países, a Índia produziu a maior quantidade de desinformação nas mídias sociais (18,07%), seguida pelo Brasil (9,17%) e pelos Estados Unidos (8,61%). A razão para a epidemia de desinformação da mídia social na Índia pode ser: (a) as taxas de penetração da mídia social mais altas dos últimos anos, que podem aumentar ainda mais nos próximos anos; (b) o aumento do consumo de conteúdo de mídia social durante a pandemia; (c) a falta de alfabetização digital dos usuários de mídia social, que os torna vítimas de desinformação.

Os EUA sozinhos produziram 31,16% de desinformação oriundas, principalmente, de figuras políticas, grupos e celebridades. Brasil (9,77%) e Filipinas (8,60%) seguiram os EUA nesse aspecto. Alguns fatores políticos e socioculturais podem ser responsáveis ​​por tais resultados. Por exemplo, políticos conservadores e o ambiente político são considerados propícios para a desinformação sobre COVID-19 nos EUA. Além disso, na cultura popular contemporânea dos Estados Unidos, as celebridades têm influência significativa sobre eventos sociais e políticos, o que pode ser outro motivo para esse resultado.

A maior prevalência de desinformação complicaria as respostas de saúde pública e a comunicação em saúde em muitos países. A desinformação do COVID-19 custou muitas vidas ao redor do mundo. Em países como Índia e Bangladesh, a desinformação religiosa e política do COVID-19 está impulsionando descontentamentos inter-religiosos e encorajando superstições e práticas de saúde não científicas. Portanto, medidas adequadas devem ser sancionadas para controlar a prevalência de desinformação para reduzir os riscos à saúde.

FONTE: Prevalence and source analysis of COVID-19 misinformation of 138 countries. Sayeed Al-Zaman. medRixv doi: https://doi.org/10.1101/2021.05.08.21256879.

Reinfecção pela variante SARS-CoV-2 P.1 em doadores de sangue em Manaus, Brasil.

Pesquisadores brasileiros publicaram dia 12 de maio um preprint (artigo ainda não avaliado para publicação em uma revista científica) na plataforma de preprints medRix. Preparamos um resumo dos principais achados.

Uma segunda onda epidêmica de COVID-19 ocorreu em Manaus, coincidindo com o surgimento de uma nova Variante de Preocupação (VOC) do SARS-CoV-2 em novembro de 2020, denotada P.1, correspondendo a 87% de todas as infecções em janeiro de 2021. Mutações associadas ao escape imunológico, que podem aumentar o risco de reinfecção, têm sido postuladas para explicar o ressurgimento da COVID-19 em Manaus.

Os autores testaram amostras seriadas de 3.655 doadores de sangue em Manaus usando um kit sorológico para a detecção de anticorpos. Desse grupo foram selecionados todos os doadores de sangue não vacinados com três ou mais doações, sendo pelo menos uma durante a primeira onda epidêmica (antes de 1º de julho de 2020) e pelo menos uma em janeiro-março de 2021, levando a 238 doadores incluídos neste estudo.

De todas as 59 infecções presumidas por P.1 que foram observadas em 2021, foi inferido que 10 foram reinfecções. Essas 10 reinfecções por P.1 representam 9,5% dos 105 doadores que tiveram infecção primária na primeira onda. Por outro lado, indivíduos previamente negativos apresentaram 40,5% de probabilidade de serem infectados pela P.1.

Os dados sugerem que a reinfecção devido a P.1 é comum e mais frequente do que foi detectado pela vigilância epidemiológica, molecular e genômica tradicional de casos clínicos. Isso ocorre porque poucas pessoas infectadas são testadas por PCR no Brasil, portanto, pacientes positivos para PCR têm uma pequena chance de ter outro teste PCR positivo, mesmo que a taxa de reinfecção seja grande.

Esses resultados reforçam as preocupações sobre o risco de reinfecção, particularmente conforme as variantes continuem a evoluir, e demonstram que a sorovigilância repetida de doadores de sangue é valiosa para documentar as taxas de reinfecção.

FONTE: Reinfection by the SARS-CoV-2 P.1 variant in blood donors in Manaus, Brazil. Carlos A. Prete Jr,  Lewis F. Buss,  Claudia M. M. Abrahim,  Tassila Salomon,  Myuki A. E. Crispim,  Marcio K. Oikawa, Renata Buccheri,  Eduard Grebe,  Allyson G. da Costa,  Nelson A. Fraiji,  Maria do P. S. S. Carvalho,  Neal Alexander,  Nuno R. Faria,  Christopher Dye,  Vítor H. Nascimento,  Michael P. Busch,  Ester C. Sabino. medRixv doi: https://doi.org/10.1101/2021.05.10.21256644.

Humanos são intrinsecamente capazes de produzir anticorpos neutralizantes contra o SARS-Cov-2.

Tiago Degani Veit (ICBS-UFRGS)

Gostaria de compartilhar com vocês mais um vídeo produzido por alunos do curso de Medicina da UFRGS*, dentro da disciplina de Imunologia. O vídeo apresenta um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Rockfeller (EUA) e que foi publicado online na revista Nature em junho de 2020. Embora seja já um pouco ‘antigo’ (hoje em dia, artigos sobre COVID com um ano de publicação são, sim, considerados antigos), ele analisa uma característica muito importante da nossa resposta imunológica contra o vírus SARS-Cov-2 – a produção de anticorpos neutralizantes. A mensagem principal do artigo é que a maioria dos indivíduos convalescentes, isto é, que se recuperaram da infecção, são capazes de produzir anticorpos neutralizantes contra o vírus, que são aqueles anticorpos que conseguem evitar a entrada do vírus nas células que ele costuma infectar.

Para chegar a essas conclusões, os pesquisadores analisaram o plasma de pacientes convalescentes para a presença de anticorpos contra o vírus e a capacidade neutralizante desses anticorpos. Para fazer isso, o que normalmente se faz é um ensaio de neutralização: coloca-se em tubos ou placas de cultura algumas células infectáveis pelo vírus, o próprio vírus (que pode ser o próprio SARS-Cov-2 ou, mais comumente, um pseudovírus, que é um vírus produzido em laboratório, com patogenicidade reduzida, expressando a proteína S), e diferentes diluições do plasma dos convalescentes, que contém os anticorpos, e analisa-se em qual diluição esses anticorpos são capazes de impedir a infecção de 50% das células pelo vírus (NT50). Quanto maior for esse valor, maior a capacidade de neutralização dos anticorpos no plasma.

Os plasmas com a maior quantidade de anticorpos neutralizantes foram capazes de proteger as células da infecção mesmo quando diluídos mais de 1000 vezes, o que, infelizmente, foi uma observação pouco frequente entre os pacientes que, na sua maioria, apresentavam níveis baixos a moderados de anticorpos neutralizantes. Entretanto, quando os pesquisadores analisaram detalhadamente as células B de 6 desses indivíduos, eles observaram que todos eles possuíam células B capazes de produzir anticorpos altamente neutralizantes contra a proteína S em quantidade detectável. Durante uma infecção, ou após uma vacinação, o corpo “seleciona” as células B que reconhecem elementos do microrganismo para serem ativadas e multiplicadas em número, para que possam gerar quantidades suficientes de anticorpos contra a infecção. Essa expansão é que torna possível o isolamento e a análise dessas células B, que não foram detectadas nos controles saudáveis. E não apenas a detecção dessas células B específicas para S foi uma constante entre os convalescentes, mas também o fato de que, interessantemente, pessoas diferentes apresentavam alguns anticorpos contra S que eram praticamente idênticos entre si, e que tinham alta afinidade justamente pela parte da proteína S que interage com o receptor de entrada nas células (RBD). Ou seja, os anticorpos que “dão certo” contra o vírus costumam se repetir entre os pacientes em recuperação, e seria apenas uma questão de incentivar ainda mais o crescimento das células B que produzem esses anticorpos para obter os níveis adequados de anticorpos neutralizantes de que tanto necessitamos para protegê-los de uma reinfecção.

As implicações dos resultados do estudo são claras: se a maioria dos pacientes consegue gerar memória na forma de células B e anticorpos contra o vírus após uma infecção natural, é possível explorar esta capacidade intrínseca da nossa espécie para desenhar vacinas que potencializem as respostas de anticorpos contra o vírus. Não por acaso, hoje temos várias vacinas aprovadas à disposição contra a COVID-19 que exploram, entre outras coisas, a produção de anticorpos contra o vírus. O ‘copo meio-vazio’ dessas observações é a de que os níveis de anticorpos neutralizantes após a infecção natural são baixos em uma fração considerável dos convalescentes. De fato, temos observado imunidade variável entre a população, com diversos relatos de reinfecção. Extrapolando para os efeitos das vacinas, podemos reparar que a maioria delas requer duas doses, a fim de atingir proteção máxima. Artigos como esse, de ciência básica, são como pequenas peças de um quebra-cabeças que nos ajudam a entender aspectos básicos da doença e são fundamentais para nortear os esforços da pesquisa aplicada na busca de novos tratamentos e medidas sanitárias de combate à pandemia.

* Integrantes: Débora Vitória, Eduardo Mileski, Luiz Fernandes Filho, Patricia Rosa e Patricia Rigo.

Fonte: Robbiani, D.F., Gaebler, C., Muecksch, F. et al. Convergent antibody responses to SARS-CoV-2 in convalescent individuals. Nature 584, 437–442 (2020). https://doi.org/10.1038/s41586-020-24…

Estudo brasileiro sobre o impacto da vacinação na taxa de mortes de idosos acaba de ser divulgado.

O estudo foi divulgado na plataforma de preprints (artigos ainda não avaliados para publicação em uma revista científica) medRxiv em 30 de abril de 2021.

A imunização contra COVID-19 foi iniciada no Brasil no final de janeiro de 2021, com dois tipos de vacinas sendo oferecidos: Coronavac e Oxford-AstraZeneca. A vacinação foi inicialmente direcionada a quatro grupos prioritários: trabalhadores de saúde, idosos (começando com os de 85 anos ou mais e gradualmente vacinando os grupos de idade mais jovem), populações indígenas e indivíduos institucionalizados. Em 22 de abril, 17,4% da população havia recebido a primeira dose e 7,1% a segunda. A Coronavac foi responsável até agora por 77,3% e a AstraZeneca por 15,9% de todas as doses administradas.

Os dados sobre óbitos por COVID-19 e sobre a cobertura vacinal foram obtidos do Ministério da Saúde. Desde o início de 2020, 377.124 óbitos devido à COVID-19 foram notificados no sistema, dos quais 171.454 em 2021. Houve uma clara aceleração nas mortes a partir do início de março (semana epidemiológica 9), quando a variante P.1 se tornou a cepa dominante.

A mortalidade proporcional de indivíduos com mais de 90 anos caiu rapidamente a partir da semana 9, uma tendência que também foi observada para indivíduos com mais de 80 anos. A queda na mortalidade proporcional começou nas semanas 7-8 de 2021. Se o número de mortes entre indivíduos com mais de 80 anos continuasse a aumentar na mesma taxa de mortes entre pessoas mais jovens, seria de se esperar 47.992 dessas mortes durante o período de oito semanas entre meados de fevereiro e meados de abril. Ainda assim, 34.168 mortes foram relatadas, ou 13.824 a menos do que o esperado sob o cenário de tendências semelhantes para todas as faixas etárias.

Os autores encontraram evidências de que, embora a disseminação da variante P.1 tenha levado a aumentos nas mortes por COVID-19 relatadas em todas as idades, a proporção de mortes entre os idosos começou a cair rapidamente a partir da segunda metade de fevereiro de 2021. A explicação mais provável para as reduções observadas na mortalidade proporcional para os idosos é o rápido aumento na cobertura de imunização nesses grupos de idade.

Como a adesão a intervenções não farmacêuticas, como distanciamento social e uso de máscara, é limitada na maior parte do país, o rápido aumento da vacinação continua sendo a abordagem mais promissora para controlar a pandemia em um país onde cerca de 400.000 vidas já foram perdidas para COVID -19.

VAMOS NOS VACINAR!

FONTE: Estimating the early impact of immunization against COVID-19 on deaths among elderly people in Brazil: analyses of secondary data on vaccine coverage and mortality. Cesar G Victora,  Marcia C. Castro,  Susie Gurzenda,  Aluisio JD Barros. medRxiv doi: https://doi.org/10.1101/2021.04.27.21256187. 30 de abril de 2021.