Denise Leal dos Santos – Doutoranda (PPGMAA)
Porto Alegre, verão de 2022, temperaturas chegando aos 40 °C. Com um calor desses, impossível resistir a um banho de piscina ou mar. Mas você sabe o perigo que pode estar correndo?
Calma, não precisa ficar preocupado, a não ser que você use lentes de contato. Isso mesmo, banhos de piscina, mar ou até mesmo de chuveiro associados ao uso de lentes são uma combinação desastrosa.
Segundo a Sociedade de Oftalmologia do RS (SORIGS), com a chegada da temporada de veraneio, as pessoas procuram ambientes aquáticos onde podem ocorrer a concentração/proliferação de diversas bactérias, vírus e protozoários. Um dos protozoários causadores de ceratite em usuários de lentes de contato, encontrado nesses ambientes é Acanthamoeba spp. Esse microrganismo é amplamente distribuído na natureza e pode se tornar patogênico causando problemas de visão, inclusive a perda dela.
Acanthamoeba spp. possuem duas formas de vida distintas: o trofozoíto (forma ativa) e o cisto (forma de resistência). Os ambientes aquáticos não naturais, mesmo recebendo tratamento químico não oferecem proteção, pois o cisto é resistente à cloração. Além disso, esse protozoário pode carrear outros microrganismos em seu interior, como vírus ou bactérias, podendo potencializar os efeitos da doença nos usuários de lentes.
Os casos de ceratite por Acanthamoeba spp. são mais frequentes nos meses mais quentes do ano, devido principalmente ao uso de águas recreativas, como piscina, lagoas ou mar. Em Porto Alegre temos o relato de 28 casos durante o período de 1994 a 2016 onde a maioria dos casos está relacionado com a falta de manutenção e cuidado com as lentes de contato e o uso das mesmas em ambientes aquáticos.
O cuidado com a limpeza e manutenção das lentes e estojos de armazenamento é fundamental para minimizar os riscos de contrair a ceratite por Acanthamoeba spp. Deve ser utilizada solução multiuso para desinfecção e soluções salinas como a fisiológica devem ser evitadas, pois não possuem conservantes/desinfetantes. O uso de lentes durante banhos deve ser evitado, pois pode ocorrer adesão do trofozoíto à lente e dessa para a córnea, facilitando assim a invasão do parasito e a instalação da doença. Os sintomas apresentados são principalmente dor desproporcional aos achados clínicos, fotofobia e vermelhidão.
Um dos grandes problemas enfrentados por quem contrai essa doença é o diagnóstico errôneo e/ou tardio, o que acarreta atraso no tratamento e um possível prognóstico ruim, levando em muitos casos a transplantes de córnea.
O ideal e recomendado segundo a SORIGS e oftalmologistas é evitar nadar com as lentes ou usar lentes de descarte diário para que não haja perigo de contaminação ocular.
Portanto, aproveite o verão, e não descuide da saúde dos seus olhos!!!
Pereira, Vitor de Arruda. Sociedade de Oftalmologia do RS alerta para os cuidados com os olhos em mar e piscina. Agora RS. https://agoranors.com/2022/01/oftalmologia-alerta-cuidados-olhos/
Santos DL, Kwitko S, Marinho DR, de Araújo BS, Locatelli CI, Rott MB (2018) Acanthamoeba keratitis in Porto Alegre (southern Brazil): 28 cases and risk factors. Parasitol Res 117(3):747-750. https://doi:10.1007/s00436-017-5745-y.
