Bruno Lopes Breda – aluno de Medicina da UFRGS
Prof. Dr. Tiago DeganI Veit (ICBS-UFRGS)
Dentre as várias repercussões proporcionadas pela variante ômicron na saúde pública mundial, uma delas foram as infecções em pacientes já vacinados para o SARS-CoV-2 – as famosas breaktrough infections. Tendo isso em mente, um grupo de pesquisadores suecos decidiu analisar as amostras de sangue de 56 profissionais de saúde que já vinham sendo acompanhados periodicamente para saber como a infecção repercutiu na resposta imune dos trabalhadores. Os achados do estudo foram surpreendentes: pessoas previamente infectadas parecem apresentar uma menor proteção contra a variante ômicron do que pessoas que nunca tiveram a infecção.
O estudo foi idealizado da seguinte maneira: foram selecionados, entre um grupo de profissionais que já vinha sendo acompanhado, 56 pessoas que haviam recebido 3 doses da vacina contra a COVID–19 e acabaram se infectando pela variante ômicron. Esses pacientes foram divididos em dois grupos: o primeiro grupo foi composto por participantes que já haviam sido infectados por alguma das outras variantes da COVID (como a beta, gama ou delta); já o segundo grupo foi composto por participantes também vacinados, mas que nunca haviam se infectado com o vírus da COVID. Durante o período de maior infecção da ômicron, os participantes do estudo foram monitorados por um período de quatro semanas para a presença da infecção com a nova variante. Caso testassem positivo, os participantes também realizariam PCR a cada 2 dias durante os 14 dias seguintes e seguiriam sendo monitorados por até sete semanas após o término da infecção para monitorar os marcadores imunológicos. Entre os resultados, notou-se um aumento em duas vezes da quantidade total de anticorpos IgG contra a proteína spike e dos títulos de anticorpos neutralizantes – estes últimos contra todas as variantes!
Um resultado inesperado foi que os níveis de anticorpos neutralizantes (os que impedem que o vírus infecte novas células) foram maiores entre os participantes (triplamente vacinados) que nunca haviam sido infectados pelo vírus, quando comparados aos que já haviam se infectado alguma vez. Isso pode sugerir que os pacientes em que a ômicron tenha causado a primeira infecção podem estar mais protegidos contra futuras infecções por essa variante. Não obstante, essa “vantagem” dos que tiveram a ômicron como primeira infecção não parece ser muito grande – mesmo nesse grupo, o aumento de anticorpos contra a ômicron foi discreto se comparado ao aumento observado nos anticorpos contra outras variantes. Esses dados podem explicar em parte os vários casos de reinfecção por ômicron que estão acontecendo, mesmo com o intervalo de poucos dias, como esta: https://gauchazh.clicrbs.com.br/saude/noticia/2022/07/paciente-do-rio-grande-do-sul-e-reinfectado-por-diferentes-sublinhagens-da-variante-omicron-cl58nb2h8001f019iwztneb6y.html.
Diante desses resultados preocupantes, há alguma boa notícia? Felizmente, sim: a resposta de células T, as principais células envolvidas na montagem da resposta imune, tiveram aumento em ambos os grupos (tanto os previamente infectados como dos que tiveram a ômicron como primeira infecção), o que indica que a infecção com a ômicron gera sim um aprimoramento da resposta imune de quem se infecta. Isso pode se traduzir em infecções mais leves ou assintomáticas quando do reencontro com o vírus. É importante considerar que o estudo tem suas limitações, com uma das principais sendo o número de participantes (apenas 56), o que dificulta a extrapolação desses dados para a população em geral. Entretanto, ele fornece mais um dado que corrobora o que já vem se observando durante essa era da variante ômicron: você ter se infectado recentemente não dá carta branca para sair “lambendo o corrimão” na ilusão de estar protegido contra COVID. Medidas preventivas como o uso de máscara, principalmente em ambientes fechados, e evitar aglomerações seguem sendo fundamentais para evitar a infecção.
