Novos estudos imunológicos sobre a COVID-19: Existe diferença entre as células T geradas após uma infecção natural e após a vacinação?

Alunos: Vinícius Gregory, Pedro Moraes, Zaira Teston, Zilma Silva

Supervisão: Prof. Dr. Tiago Degani Veit (DEMIP/UFRGS) e Bruno Lopes Breda

A partir de hoje, e durante as próximas 3 semanas, o Microbiologando vai disponibilizar uma série de postagens produzidas por alunos da disciplina de Imunologia do curso de Medicina da UFRGS, todas elas versando sobre algumas das últimas descobertas a respeito dos aspectos imunológicos da COVID-19. Desejamos uma boa leitura a todos.

Muito se tem discutido sobre uma provável diferença na resposta imune entre as pessoas infectadas pelo SARS-CoV-2 e os indivíduos vacinados. As vacinas contra a Covid-19 foram criadas com o objetivo principal de estimular a produção de anticorpos — um dos principais elementos de defesa do nosso corpo — para combater a doença e de gerar memória imunológica duradoura, capaz de proteger o indivíduo contra contatos posteriores com o vírus. A proteína spike (S) do SARS-CoV-2 funciona como uma garra capaz de se encaixar ao receptor ECA2, que está presente em várias células do organismo, permitindo a entrada do vírus nas células humanas. Por esse motivo, a proteína S é o principal foco das vacinas contra COVID-19, que fazem o corpo porduzir anticorpos capazes de neutralizar a proteína S e evitanto que o vírus infecte as células. Tão importantes quanto os anticorpos, as células T desempenham um papel importantíssimo contra as infecções virais, principalmente porque elas orientam a produção de anticorpos pelo organismo, além de atuar na eliminação das células que foram infectadas pelo vírus. Após a vacinação e durante a infecção natural, o nosso organismo também desenvolve várias células T contra a proteína S do vírus. Cada célula T é capaz de reconhecer apenas uma pequena porção de uma determinada proteína, e isso não é diferente com a proteína S. De maneira geral, consideramos uma coisa boa quando o conjunto das nossas células T desenvolvidas contra o vírus é capaz de reconhecer várias porções do mesmo antígeno viral, porque isso significa que uma grande quantidade de células T será capaz de ajudar o corpo numa reinfecção. Até pouco tempo, pouco se sabia sobre as diferenças entre a quantidade e a qualidade da resposta de células T que reconhecem a proteínas S entre os indivíduos vacinados e aqueles que passaram por uma infecção natural. Foram essas diferenças que foram estudadas por um grupo de cientistas da Universidade de Hamburgo, na Alemanha, cujos resultados foram publicados online no dia 9 de agosto na revista Clinical and Translational Immunology.

Para fazer o estudo, os autores extraíram células T do sangue de 35 participantes, entre os quais a) 8 pacientes eram não vacinados com COVID, b) 16 pacientes tinham sido vacinados com duas ou três doses, e c) 11 pacientes com episódio prévio de COVID e com um ou mais doses vacinais. No laboratório, ospesquisadores estimularam as células T com diferentes partes da proteína S e avaliaram as respostas por células T contra o vírus.

O grupo de pesquisa avaliou a ação de um tipo especial de células T: as células T auxiliares. Essas células são especializadas em secretar moléculas mensageiras, como o interferon-gama, que  auxiliam na coordenação da resposta imune e na produção de anticorpos.

Por meio de comparações entre as respostas de células T auxiliares que reconhecem a proteína S nos três grupos de participantes, os autores chegaram à conclusão de que a imunidade conferida pelas células T que são induzidas pela vacinação é bastante parecida coma gerada após aquela provocada pela infecção pelo SARS-CoV-2. Importantemente, várias das células T geradas nesses pacientes reconhecem porções da proteína S que são iguais entre as diferentes variantes do vírus que surgiram até agora. Ou seja, é possível que a proteção conferida pelas células T possa nos ajudar contra várias outras variantes futuras do vírus. Outro fato marcante, nas que já tinha sido constatado por outros estudos, é que as respostas de células T contra a proteína S do vírus foram significativamente duradouras – havia pacientes que haviam contraído COVID-19 há 448 dias antes da coleta da amostra sanguínea – o que sugere que a imunidade pelas células T seja mais duradoura que os próprios anticorpos circulantes, os quais sabidamente reduzem consideravelmente sua presença na corrente sanguínea com o passar do tempo. O estudo demonstra também que os pacientes que foram submetidos a um regime vacinal de 3 doses desenvolveram respostas por células T CD4 + mais robustas do que os pacientes com duas doses da vacina. As doses de reforço não necessariamente aumentam a quantidade de regiões da proteína S que são reconhecidas pelas células T nos indivíduos vacinados, mas podem aumentar o percentual total de células T que reagem à proteína S. Esses achados são bastante alentadores, principalmente se considerarmos que as respostas de células T costumam ser menos afetadas do que as respostas de anticorpos quando enfrentamos novas variantes do vírus.

Para saber mais…

As células do sistema imune secretam moléculas sinalizadoras denominadas citocinas, que são as principais responsáveis pelos processos de comunicação entre as células. Os ensaios imunoenzimáticos — como o ELISPot — são capazes de quantificar as células individuais que foram ativadas e que estão produzindo citocinas; no caso deste estudo, mais especificamente, uma molécula chamada interferon -gama (INF-γ). Nesse tipo de análise, as células T isoladas de um determinado material biológico, como o sangue, são cultivadas em placas que contém um anticorpo específico contra o INF-γ. Depois de serem estimuladas (no caso deste estudo, os estímulos foram diferentes conjuntos de peptídeos de 15 aminoácidos da sequência da proteína S viral), as células T ativadas, que reconhecem algum dos peptídeos da proteína viral passam a secretar o IFN- γ, que acaba ficando preso aos anticorpos da placa, em pequenos pontos (spots),  precisamente no local onde as células T ativadas estão produzindo essa citocina. Esses pontos são visualizados pela adição de um segundo anticorpo, que também reconhecem o IFN- γ, que está imobilizado na placa pelo primeiro anticorpo. Esse segundo anticorpo carrega uma enzima que é capaz de “colorir” os pontos quando adicionamos um determinado composto que muda de cor quando quebrado pela enzima carregada pelo anticorpo, e o número de células T produtoras da citocina é então contabilizado pelo número de pontos visíveis. Essa contabilização diz quantas e quais as células T que, por estarem produzindo IFN-γ, são específicas para a proteína S viral, que era justamente um dos objetivos dos autores no estudo.

Referência:

[1] KARSTEN, Hendrik et al. High‐resolution analysis of individual spike peptide‐specific CD4 + T‐cell responses in vaccine recipients and COVID ‐19 patients. Clinical & Translational Immunology, [S.L.], v. 11, n. 8, p. 1-23, 09 ago. 2022. Wiley.

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