Novos estudos imunológicos sobre a COVID-19 (5): Células T das vias aéreas de indivíduos que nunca tiveram COVID reconhecem o vírus SARS-CoV-2. Entenda…

Alunos: Cláudia Griebler, Eduardo Brittes, Johannes Wildner, Maria Eduarda de Souza. 

Supervisão: Prof. Dr. Tiago Degani Veit (ICBS/UFRGS), Dr. Matheus Becker Freitas

Uma característica marcante da infecção causada pelo vírus SARS-CoV-2, conhecida desde o início da pandemia de COVID-19, é a a sua grande diversidade na apresentação clínica, com vários pacientes apresentando infecções leves ou assintomáticas, ao passo que uma parcela considerável dos infectados pode apresentar complicações que os levam ao hospital e, nos casos mais extremos, ao  óbito. Assim sendo, um grande esforço tem sido feito para tentar entender as causas dessa grande discrepância de apresentações da doença. É sabido que, desde muito antes do início da pandemia de COVID-19, a espécie humana tem convivido com outros membros da família dos coronavírus, que causam o resfriado comum. Assim sendo, é plausível que a memória imunológica desenvolvida contra os vírus da mesma família do SARS-CoV-2 possa contribuir para uma melhor resposta imune contra esse agente infeccioso. Essa possível influência da memória contra outros coronavírus foi abordada por um grupo da University College London, de Londres, cujo estudo foi publicado na Nature Immunology, em 29 de agosto de 2022. Mais especificamente, os autores investigaram as possíveis contribuições de um tipo específico de glóbulo branco, as células T. Essas células possuem várias funções na resposta imune, inclusive a de armazenar a memória contra infecções anteriores no organismo. Diversos estudos recentes têm mostrado que, depois de cumprir com a missão de defesa originária, algumas dessas células T poderiam se alojar nos diversos tecidos do corpo e proteger o indivíduo não apenas contra o mesmo patógeno, mas também contra infecções por agentes infecciosos relacionados àquele microrganismo que causou a primeira infecção (isso é chamado de proteção cruzada), amenizando eventuais infecções futuras por esses microrganismos. Com base nisso, os pesquisadores hipotetizaram que o controle viral melhor e mais rápido da infecção por SARS-CoV-2 poderia ser influenciado pela presença de células T pré-existentes contra outros coronavírus residindo no próprio local da proliferação viral, ou seja, na mucosa respiratória. 

Para investigar isso, os autores analisaram lavados broncoalveolares (o líquido coletado pela lavagem de um pequeno segmento do pulmão para fins diagnósticos) que haviam sido coletados entre 2016 e 2018 (ou seja, muito antes da pandemia de COVID-19) de 10 indivíduos saudáveis, buscando encontrar células T que fossem capazes de reconhecer o SARS-CoV-2. Em 6 das 10 amostras, os pesquisadores conseguiram detectar linfócitos T que se ativavam quando expostos a antígenos do SARS-CoV-2 e, em resposta a esses antígenos, produziam diversos fatores envolvidos na comunicação imunológica (chamados coletivamente de citocinas), como o TNF-alfa  e o interferon-gama. Ou seja, em uma grande proporção de pacientes, linfócitos T coletados do pulmão de pessoas que nunca haviam tido contato com o SARS-COV-2, podem ser reativados para nos defender quando o vírus entrar em contato com esses pacientes. Esse resultado levantou uma outra questão: seriam esses linfócitos T, coletados a partir do tecido pulmonar, células T relacionadas à memória imunológica? Para responder a essa questão, os pesquisadores compararam as células T do lavado pulmonar com as células T coletadas do sangue e observaram que as primeiras possuíam mais características de células T envolvidas na memória imunológica que estabelecem um local fixo de residência no tecido (chamadas células T de memória residente) do que aquelas coletadas do sangue do mesmo doador, o que ensejou a próxima pergunta a ser respondida: quais seriam os vírus que poderiam ter gerado essas células de memória que foram capazes de reagir à presença do SARS-COV-2? Como as infecções por coronavírus humanos sazonais (HCoV) são muito comuns, especulou-se que essas células T pré-existentes poderiam advir de infecções por esses outros coronavírus. Para testar essa hipótese, os pesquisadores investigaram se esses pacientes que possuíam essas células T capazes de responder à proteína S do SARS-CoV-2 eram também capazes de responder às proteínas S (Spike) dos coronavírus sazonais. A conclusão a que os autores  chegaram foi que, sim, foi observada maior frequência nas respostas de linfócitos T CD4+ e CD8+ às proteínas spike dos HCoV nesses pacientes, sugerindo que a reatividade contra o SARS-CoV-2 observada nesses pacientes estava associada também ao reconhecimento dos HCoVs sazonais. Em outras palavras, parecia mesmo que os pacientes que têm células T que respondem ao SARS-CoV-2 o fazem em virtude da memória montada contra os coronavírus sazonais que causam o resfriado comum. 

Em resumo, em uma fração considerável dos pacientes nunca antes infectados pelo SARS-CoV-2, já existem células T de memória habitando as vias aéreas, apresentando reatividade cruzada contra o SARS-CoV-2, e essa memória parece estar relacionada com a produção de imunidade contra os coronavírus sazonais que causam boa parte dos nossos resfriados. Os resultados desse estudo, portanto, parecem apontar a memória pré-existente contra outros coronavírus como um fator positivo para o desfecho da infecção por SARS-CoV-2. Muito bom isso, não? Acontece que esse não é o fim da história: existem outros estudos que apontaram para um possível papel negativo dessa memória, como o estudo que apresentamos na terceira postagem desta série. Nesse estudo, em que se analisou as células T pré-existentes do sangue (diferentes daquelas  que ficam nos tecidos, link aqui), foi observada uma influência negativa dessa memória contra outros coronavírus na resposta imune à vacinação contra a COVID-19. Embora os resultados de ambos os estudos estejam longe de ser irreconciliáveis, o fato é que ambos analisaram um número baixo de pacientes. Para esclarecer qual o papel da memória contra os coronavírus sazonais na infecção pelo SARS-CoV-2, são necessários estudos mais abrangentes – aliás, essa é uma conclusão comum a muitos estudos científicos bem conduzidos que, muito embora não coloquem um ponto final no problema científico, colocam mais uma pitada de informação à disposição da comunidade científica, ajudando na elaboração de novas hipóteses e na construção do conhecimento daquela área de pesquisa. Certamente, não tardaremos a ter mais dados que elucidem o papel da memória cruzada no desfecho da COVID-19. Pois, aguardemos.


Referência: DINIZ, Mariana O. et al. Airway-resident T cells from unexposed individuals cross-recognize SARS- CoV-2. Nature Immunology, p. 1-6, 29 ago. 2022. DOI 10.1038/s41590-022-01292-1. 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.