Bruno Damasceno, Laura Gentilin e Lucas Milanez*
*Alunos do curso de Biotecnologia
Disciplina Fundamentos de Imunologia Biotecnologia
Regente: Prof. Dra. Adriana Simon Coitinho
A vacinação é uma alternativa simples, segura e eficaz para desenvolver uma proteção contra doenças potencialmente nocivas, antes mesmo de entrar em contato com tais patógenos. A vacinação é mediada por vacinas, as quais são produtos biotecnológicos que contêm microrganismos inativados ou atenuados, seja em sua integridade ou somente partes específicas. O objetivo é estimular uma resposta imunológica do organismo receptor da vacinação, fornecendo uma referência para que o sistema imunológico seja capaz de desenvolver anticorpos. Visto que o material das vacinas não contém microrganismos vivos, o organismo não passa pelo período de adoecimento nem por suas complicações. Portanto, a vacinação atua como uma estratégia para proteger o organismo de uma doença sem que haja a necessidade de uma exposição prévia.
A aplicação de vacinas ocorre, em sua grande maioria, por via parenteral, ou seja, administração por meio de injeção. O tecido alvo que se deseja atingir por meio da injeção vai depender da finalidade de aplicação da vacina. Dessa forma, uma das vias de administração é a subcutânea, a qual consiste na injeção de fármacos na camada de gordura por baixo da pele. Alguns exemplos da via subcutânea são as vacinas contra sarampo, caxumba, rubéola e febre amarela. Além disso, a via intramuscular consiste na aplicação de fármacos na camada muscular do tecido e o local de aplicação costuma ser em braços, nádegas ou coxas. Exemplos clássicos da via intramuscular são vacinas contra hepatite A e B, tétano, influenza e poliomielite. Dentre as diferentes vias de administração, a via intramuscular é mais amplamente empregada para a vacinação. Entretanto, quais são os motivos que tornam o músculo uma camada alvo mais adequada para aplicação? E, dentre os possíveis locais do corpo, por que se utiliza especificamente o músculo do braço, o deltoide, na parte superior do ombro?
A vacinação no braço tem sido amplamente utilizada e estudada ao longo dos anos, com experiência e resultados positivos confirmados. Tradicionalmente, as vacinas eram injetadas na camada subcutânea, logo abaixo da pele, principalmente nas nádegas. Porém, por ser uma região mais superficial e, ser basicamente formada por gordura, não contém as células apropriadas necessárias para iniciar a resposta imune (células fagocíticas ou apresentadoras de antígeno). Dessa forma, os resultados gerados com essa aplicação tinham efeitos adversos, como irritação no local até formação de abcessos. Foi visto que, após ser depositado na camada de gordura, os macrófagos demoravam mais para processar o antígeno e, consequentemente, na apresentação às células T e B envolvidas no sistema imune.
Devido a esses problemas, foram necessários mais estudos para uma busca de uma rota de aplicação diversa. Assim, foi visto que aplicar as vacinas no músculo gerava uma resposta imune maior e sem esses efeitos adversos. Isso se dá porque os músculos do braço têm uma boa irrigação sanguínea, o que favorece a distribuição dos componentes da vacina para outras partes do corpo. Além disso, a vacinação no braço permite que os antígenos e outros componentes da vacina sejam transportados pelo sistema circulatório, ativando o sistema imunológico em locais distantes do local da aplicação.
Essa escolha é justificada pela acessibilidade ao sistema linfático, uma rede de vasos e nódulos essenciais para a resposta imune do organismo, visto que, o braço possui alta densidade de vasos linfáticos e nódulos linfáticos, o que permite uma entrada eficiente das substâncias vacinais nesse sistema. Quando a vacina é administrada no braço, os antígenos contidos nela são prontamente drenados para os vasos linfáticos adjacentes, alcançando os nódulos linfáticos, onde estabelecem interações cruciais com células imunológicas fundamentais. Essa estratégia visa promover uma resposta imune eficaz e rápida contra uma doença.
Existem outros locais que têm essa característica de músculo com grande fluxo de sangue e pequena camada de gordura: a perna, o braço e o glúteo. Porém, o braço ainda é uma região de mais fácil acesso, tornando a aplicação da vacina simples e rápida – e a vacinação em massa é mais eficiente quando a aplicação pode ser realizada de forma rápida e simples. A escolha do braço como local de aplicação permite que as campanhas de imunização alcancem um grande número de pessoas em um curto período de tempo, especialmente em cenários de pandemia ou surtos de doenças.
Além disso, a região do braço onde se aplicam as vacinas é abundantemente rica em células dendríticas, presentes tanto na pele como nos tecidos adjacentes, e isso é fundamental para a ativação do sistema imunológico após a vacinação. As células dendríticas do sistema imune desempenham um papel crucial na captura e processamento de antígenos, incluindo aqueles presentes nas vacinas, e têm extrema importância na apresentação dos antígenos vacinais às células do sistema imunológico, como os linfócitos T e B, que são componentes essenciais para a resposta imune adaptativa. A atuação das células dendríticas no braço é crucial para a indução de uma resposta imune eficaz e o estabelecimento de imunidade protetora contra agentes infecciosos, contribuindo para a eficácia das vacinas aplicadas nesse local específico.
Em suma, a aplicação da maior parte das vacinas no nosso braço é justificada por vários fatores próprios da nossa fisiologia corporal e funcionamento do sistema imunológico, além de pautada em uma série de estudos e dados científicos que possibilitam a nossa proteção contra certas doenças infecciosas. Também devemos sempre lembrar que a vacinação é um ato de responsabilidade individual e coletiva que contribui para o controle e eliminação de doenças e melhora a saúde e o bem-estar da sociedade como um todo.
Referências
- Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Administer the Vaccine(s). Vaccine Administration. 2021. Disponível em: https://www.cdc.gov/vaccines/hcp/admin/administer-vaccines.html
- Manual de Normas e Procedimentos para Vacinação. Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Brasília: Ministério da Saúde, 2014. 176 p.: il.
- Polania Gutierrez, JJ e Munakomi, S. Intramuscular Injection. StatPearls. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; Janeiro de 2023 (Update em maio de 2023). Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK556121/
- Poland GA, Borrud A, Jacobson RM, McDermott K, Wollan PC, Brakke D, et al. Determination of deltoid fat pad thickness: implications for needle length in adult immunization. JAMA. 1997;277:1709–1711. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/9169899/
- Shaw, F E Jr et al. Effect of anatomic injection site, age and smoking on the immune response to hepatitis B vaccination. Vaccine; vol. 7,5 (1989): 425-30. doi:10.1016/0264-410x(89)90157-6.
- Sociedade Brasileira de Imunização (SBIM). O que são vacinas e como agem no organismo? 2017. Disponível em: https://familia.sbim.org.br/vacinas/perguntas-e-respostas/o-que-sao-vacinas-e-como-agem-no-organismo
- Zuckerman JN. The importance of injecting vaccines into muscle. Different patients need different needle sizes. BMJ. 2000; 321(7271):1237-8. doi: 10.1136/bmj.321.7271.1237.

Eu jamais havia imaginado que teria tanta ciência por trás da vacinação no braço.
Muito interessante o artigo!