Bibiana Walcher. Acadêmica de Medicina – UFRGS
Carlos Eugênio Silva. Prof. Associado do DEMIP, ICBS-UFRGS.
As larvas, na maioria das vezes, estão no imaginário coletivo relacionadas a exemplos negativos. Como a “bicheira” (Miíase). No entanto, é possível utilizar alguns tipos específicos de larvas de forma terapêutica para certas feridas crônicas. A utilização de larvas de forma terapêutica foi introduzida na medicina moderna pelo cirurgião ortopédico americano William Baer, para o tratamento de osteomielite, na década de 30, apesar de ser uma técnica utilizada a séculos por culturas ancestrais. Apesar do aparente sucesso inicial, acabou caindo em desuso na década de 40, por consequência do desenvolvimento dos antibióticos.
Nas últimas décadas, devido ao avanço da multirresistência bacteriana, o tratamento com antibióticos foi dificultado, surgindo a necessidade de tratamentos alternativos para essas feridas. Uma ferida se torna crônica quando ela não progride de maneira adequada para a cicatrização e acaba desenvolvendo uma inflamação persistente, como ocorre no diabetes. O aumento de ferimentos nos últimos tempos, está associado ao uso indiscriminado de antibióticos, sendo relatado que o uso dessas medicações cresceu cerca de 40% em uma década (2000-2010) em todo o mundo.
A multirresistência bacteriana representa um grande problema para a saúde pública em um âmbito mundial, estimando-se que, se não forem tomadas medidas imediatas, o número de mortes devido à resistência a antibióticos poderá atingir 10 milhões por ano até 2050, sendo uma condição difícil e que exige tratamento intensivo e caro, portanto é fundamental a busca por tratamentos eficazes contra bactérias, evitando a formação de biofilmes. Um biofilme é uma congregação de microrganismos, predominantemente bactérias, que adere a uma superfície e cria uma matriz extracelular robusta. Essa formação pode ocorrer em vários ambientes e é notável pela sua resistência a antibióticos e agentes de limpeza. Os biofilmes desempenham um papel significativo em questões de saúde, como infecções hospitalares e são os principais dificultadores de cicatrização.
Recentemente, Morris e colaboradores (2023) analisaram doze estudos para compreender a eficácia real dos produtos de excreção e secreção das larvas dessas moscas decompositoras, para entender sua ação no controle de Biofilmes. A revisão tem como foco os estudos relacionados com os produtos de secreção/excreção das larvas da mosca varejeira Lucilia sericata. As larvas dessa espécie de mosca são utilizadas, pois são exclusivamente necrófagas, ou seja, se alimentam apenas de tecidos mortos. Desta maneira, quando são utilizadas sobre ferimentos superficiais, as larvas de L. sericata removem apenas os tecidos mortos, preservando os tecidos sadios. Além de se alimentarem na ferida através do processo chamado de “digestão extracorpórea” as larvas também criam uma combinação de enzimas, incluindo proteases, glicosidases, lipases e nucleases que digerem e decompõem os tecidos necrosados. Enquanto isso ainda ocorre a liberação de peptídeos antimicrobianos, o que inibe o estado inflamatório facilitando o processo de cicatrização. Apesar de ser um tratamento muito eficaz, é um recurso utilizado em último caso devido a alguns fatores, como o desconforto visual do paciente e do médico e a eliminação das larvas ao fim do procedimento. Outros intervenientes que afetam a eficácia da técnica biocirúrgica também ocorrem, como o número de larvas a ser aplicado, volume do diluente, tipo de diluente, temperatura de coleta, estágio larval, tempo de coleta e, ainda, o processamento pós-coleta (centrifugação, filtração, esterilização etc.).
Após essa análise Morris e colaboradores (2023) concluíram que a terapia larval tem a capacidade de inibir e degradar biofilmes bacterianos associados a feridas crônicas. No entanto, concluiu-se que mais pesquisas são necessárias para esclarecer e padronizar a abordagem metodológica nessa área de investigação, uma vez que conseguiram coletar apenas 12 estudos publicados entre 2008 e 2022. Os autores sugerem que tais pesquisas podem levar à aplicação clínica da terapia larval ou de tratamentos derivados para o manejo de biofilmes de feridas crônicas e melhorar os resultados de cicatrização do paciente em um momento em que terapias alternativas são desesperadamente necessárias.
Entretanto, é imprescindível que ao se falar sobre tratamentos para feridas crônicas se fale dos custos que elas causam como um todo, tanto na escala paciente como em escalas maiores como saúde pública.
Estudos mostram que pacientes com feridas crônicas acabam apresentando resultados clínicos piores do que pacientes que não apresentam feridas crônicas. Demandando, assim, mais recursos e custos, desde o número e tempo de internações, custo de remédios, duração da doença, testes adicionais e por fim, mortalidade elevada.
Finalmente, apesar de ser um assunto que não é amplamente divulgado, o uso de larvas de moscas no tratamento de ferimentos crônicos é de extrema relevância em momentos que precisamos de terapias alternativas. Por isso, é necessário incentivar mais pesquisas que contribuam para o maior controle de biofilmes em situações de resistência aos antimicrobianos, assim como tecnologias mais amigáveis que favoreçam a aplicação de insumos biológicos de origem entomológica.
Morris, D.; Flores, M.; Harris, L.; Gammon, J.; Nigam, Y. Larval Therapy and Larval Excretions/Secretions: A Potential Treatment for Biofilm in Chronic Wounds? A Systematic. Microorganisms 2023, 11, 457. https://doi.org/10.3390/microorganisms11020457
