Por Dr. Carlos Eugênio Silva, Professor Associado do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS
As mudanças climáticas têm produzido projeções preocupantes em relação à integridade do ambiente natural, a produção de alimentos e a saúde do homem.
O impacto na disseminação de doenças para o homem fica claro, quando 17% das mortes por doenças infecciosas no mundo são causadas por vetores (Rinker_etal_2016).Entre estes, os mosquitos são os animais mais envolvidos com mortalidade humana, estimada em mais de um milhão de mortes, só em 2022 (Statistica).
O raciocínio mais simples nos indica que, quanto mais alta a temperatura e a umidade, maior os riscos de enfrentarmos o assédio de insetos danosos nos ambientes alterados pelo homem. Assim, calor e doenças, andam juntos. Nas épocas frias, não estamos imunes pelo mesmo motivo; a procura por calor, tende a provocar aglomerações, como também acontece nas catástrofes, e novamente vamos encontrar vetores à espoliar a população. Infelizmente, o assédio dos artrópodes parasitos e a transmissão de doenças tende a aumentar com o aumento médio global da temperatura.
Estima-se em 1,5°C o aumento da temperatura média da superfície do planeta desde a era pré-industrial (Intergovernamental Panel on Climate Change. Climate change, 2021) e a temperatura dos oceanos esteve 3°C acima da média de 2016 em novembro de 2023, aumentando também a absorção de carbono e acidificação da água (Relatório da Organização Meteorológica Mundial, 2023). Esse cenário climático aliado às alterações ambientais criadas pelo homem é muito impactante para a perda da biodiversidade geral dos insetos (Wagner, 2000). Por outro lado, os artrópodes parasitos tem sido influenciados de formas bastante diferentes. Portanto, o entendimento da biologia dos organismos parasitários e sua relação com o próprio ambiente que o selecionou, nunca foram tão fundamentais.
De todas as espécies de mosquitos existentes, 150 são considerados vetores de alguma infecção para o homem, destacando-se os gêneros Aedes e Anopheles e as famílias Simulidae, Phlebotominae e Ceratopogonidae que incluem, respectivamente, pernilongos, borrachudos, mosquitos-palha e mosquitos-pólvora. Estes insetos aumentaram a transmissão de doenças ao homem, uma vez que a expansão de espécies antropofílicas (que preferem alimentar-se do homem) está diretamente relacionado com o aumento da temperatura global (George et al., 2023). Essa elevação térmica representa um incremento de 3% na mortalidade humana anual em ambiente urbano (Rodriguez-Gonzalez et al., 2024). Para piorar, apesar das populações urbanas marginalizadas contribuírem menos para a emissão dos gases do efeito estufa, são aquelas que mais sentem os efeitos incômodos da presença de vetores e das doenças que estes transmitem (Semenza, 2024).
Apesar da sensibilidade dos mosquitos anofelinos à temperatura poder diferir muito entre diferentes espécies e até num mesmo complexo, verificou-se que o aumento das temperaturas diminuiu a longevidade, o tamanho do corpo, a duração do ciclo gonotrófico (período em que as fêmeas de mosquito sugam sangue e realizam a postura dos ovos) e a fecundidade dos mosquitos anofelinos (Agyekum et al., 2021). Temperaturas de criação mais altas aumentaram a resistência aos piretroides e DDT, sendo que o aumento da temperatura também reduziu a toxidade aos inseticidas, por promover um aumento da óxido nítrico sintase (NOS) nestes insetos (Agyekum et al., 2021). Os autores sugerem a formulação de políticas e diretrizes baseadas em evidências, que abordem o impacto das alterações climáticas na transmissão da malária e no controle dos vectores. Esta estratégia poderá promover sistemas de alerta precoce e planos de contingência para mitigar os efeitos das alterações climáticas nas doenças transmitidas por mosquitos.
As mudanças climáticas e o impacto do homem sobre o ambiente natural (globalização e alteração do ambiente natural) têm favorecido muito o desenvolvimento de espécies mais antropofílicas como Aedes aegypti e Ae. albopictus (Lwande et al., 2020). Por exemplo, ao contrário de inúmeras outras espécies de mosquitos, Ae. aegypti pode fazer várias refeições durante um único ciclo gonotrófico, estando positivamente correlacionado com um ambiente mais quente e, tanto Ae. aegypti quanto Ae. albopictus, conseguiram expandir significativamente sua distribuição geográfica em todo o mundo nos últimos 30 anos, graças as alterações climáticas ocorridas (Reinhold et al., 2018).
Abordando a perspectiva climática no longo prazo para grupos diversos de artrópodes, o comportamento vetorial pode ser diferente. Se considerarmos duas espécies diferentes de vetores, suas curvas de tolerância térmica (menor e maior temperaturas toleradas) podem ser diferentes. Num cenário de aumento na temperatura global, enquanto ambas possam ser beneficiadas com a redução do limite térmico inferior, uma delas pode ser muito prejudicada com um período maior de exposição aos limites térmicos superiores. Essa situação pode, por outro lado, favorecer a dispersão de espécies vetoras para áreas onde antes o conforto térmico era menor, como áreas antes mais frias do planeta (Souza; Weaver, 2024).
Outro elemento importante é como se comportam as populações no longo prazo. Os dípteros (moscas, mutucas, mosquitos) podem responder rapidamente às mudanças de curto prazo no tempo e no clima, enquanto as populações de ácaros (carrapatos) respondem às médias climáticas ao longo do tempo e não à variabilidade climática. Estas diferenças significam que os riscos de doenças transmitidas por carrapatos correspondem à adaptação interanual (progressiva) do vetor, enquanto as mudanças no risco de transmissão de doenças por dípteros acontecem, no longo prazo, em surtos (Ogden; Lyndsay, 2016). Estas diferentes características, precisam ser consideradas no estudo dos riscos de transmissão de doenças por influência das alterações climáticas, e sublinham a necessidade de dados e modelos mais detalhados sobre a biologia dos vectores (Rinker_etal_2016), para que tenhamos programas de saúde pública e animal de longo prazo, para um mundo em transformação.
Finalmente a questão mudança climática afeta a biosfera como um todo, sendo a transmissão de patógenos apenas uma característica do “mundo humano” com todos os seus organismos domesticados. É preciso entender o efeito das rápidas mudanças climáticas como algo que interfere com os mecanismos de adaptação de forma tão rápidos que pode gerar o chamado “Impacto de Três Níveis” (Butler, 2024): (1) alteração climática em si (seca, desertificação, monções intensas, acomodações geológicas, alagamentos), (2) a proliferação de patógenos e (3) a falta de estabilidade social (depressão, crise de refugiados, fome, sede, conflitos armados, pandemias). Não estamos falando de algo profético que ocorrerá num “futuro incerto”. Esta é simplesmente uma previsão à médio prazo, baseado em argumentos científicos, ou seja com no mínimo, seus 95% de certeza. Mais cego é aquele que não quer ver.
Fontes:
Rinker et al., 2016 (https://genomebiology.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13059-016-0966-4)
Statistica 2024 (https://www.statista.com/statistics/448169/deadliest-creatures-in-the-world-by-number-of-human-deaths/)
Intergovernamental Panel on Climate Change. Climate change, 2021 (https://www.ipcc.ch/site/assets/uploads/2018/11/AR6_WGI_outlines_P46.pdf)
Relatório da Organização Meteorológica Mundial, 2023 (https://wmo.int/news/media-centre/climate-change-indicators-reached-record-levels-2023-wmo)
Wagner, 2000 (https://doi.org/10.1146/annurev-ento-011019-025151)
George et al., 2023 (https://doi.org/10.1016/j.ijid.2023.12.004)
Rodriguez-Gonzalez et al., 2024 (https://doi.org/10.1016/j.actatropica.2024.107179)
Semenza, 2024 (https://doi.org/10.1093/infdis/jiad571)
Agyekum et al., 2021 (https://doi.org/10.3390/ijerph18147255)
Lwande et al., 2020 (https://doi.org/10.1089/vbz.2019.2486)
Reinhold et al., 2018 (https://dx.doi.org/10.3390/insects9040158)
Souza; Weaver, 2024 (https://doi.org/10.1038/s41579-024-01026-0)
Ogden; Lyndsay, 2016 (http://dx.doi.org/10.1016/j.pt.2016.04.015)
Butler, 2024 (https://doi.org/10.1016/B978-0-443-18515-1.00007-1)
