Doenças tropicais negligenciadas no Brasil: ausência de correlação entre carga de doenças, financiamento de pesquisa e produção científica.

Um artigo publicado em 2020 por pesquisadores da FIOCRUZ avaliou a correlação entre a carga de sete doenças tropicais negligenciadas (DTNs) prioritárias incluídas na Agenda Nacional de Prioridades de Pesquisa em Saúde do Brasil – tuberculose, doença de Chagas, hanseníase, malária, leishmaniose, dengue e esquistossomose – e seus respectivos financiamentos e resultados de pesquisa.

Há consenso de que as DTNs são, ao mesmo tempo, consequência e causa do subdesenvolvimento econômico e social.  Há doenças negligenciadas porque há pessoas negligenciadas. Doenças que impõem um alto fardo econômico e de saúde à sociedade deveriam, idealmente, receber mais atenção tanto dos financiadores quanto da comunidade de pesquisa. No entanto, esse não tem sido o caso da maioria dos países de baixa e média renda.

Para avaliar a carga das DTNs, foi utilizada uma medida denominada DALY, que mensura os anos de vida ajustados por incapacidade. O DALY contabiliza tanto os anos de vida perdidos devido à morte prematura quanto as estimativas de anos vividos com incapacidade. No geral, as sete doenças acima citadas resultaram em aproximadamente 556 mil DALYs em média por ano durante o período do estudo. Tuberculose, doença de Chagas e esquistossomose foram responsáveis ​​pelas maiores taxas de carga com 89,8, 67,5 e 51,6 DALYs/100.000 habitantes, respectivamente. Juntas, essas três doenças foram responsáveis ​​por 77,6% do total de DALYs entre as DTNs prioritárias revisadas.

O financiamento governamental de P&D foi responsável por uma expansão significativa da capacidade de pesquisa local para abordar os desafios prioritários das DTNs. De 2012 a 2016, 321 projetos visando DTNs prioritários foram financiados pelo governo brasileiro, com um valor total estimado de US$ 17,2 milhões.

A busca por publicações prioritárias sobre DTNs recuperou um total de 4.817 documentos. Leishmaniose teve o maior número de publicações (n  = 1.613 artigos), seguida por tuberculose (n  = 1.056), malária (n  = 579), dengue (n  = 552), hanseníase (n  = 440), doença de Chagas (n  = 305) e esquistossomose (n  = 272).

A produção de pesquisa e o valor do financiamento foram mal correlacionados com a carga da doença em termos de DALYs. A doença de Chagas, a esquistossomose e a tuberculose mostraram um déficit significativo de pesquisa em relação à sua carga proporcional, enquanto a leishmaniose, a malária e a hanseníase mostraram um superávit de pesquisa. A hanseníase, a leishmaniose e a malária tiveram uma carga menor e receberam níveis significativamente maiores de financiamento, enquanto o inverso foi observado para a doença de Chagas, tuberculose e esquistossomose.

Embora o controle da transmissão da doença de Chagas tenha sido bem-sucedido no Brasil, a pesquisa clínica sobre novos biomarcadores é urgentemente necessária para o diagnóstico e avaliação do tratamento de pacientes crônicos. A leishmaniose visceral continua sendo um desafio à saúde, uma vez que os medicamentos disponíveis exigem tratamento longo e caro, e devem ser administrados sob supervisão médica devido à sua toxicidade. Novos agentes quimioterápicos ainda são necessários para a esquistossomose, embora poucos novos compostos promissores tenham sido identificados.

Os esforços para controlar a hanseníase reduziram a prevalência da doença, mas a pesquisa de base populacional ainda é necessária para promover a interrupção da transmissão. A dengue tem sido considerada uma falha de controle no país, e a pesquisa clínica é necessária para entender os mecanismos envolvidos na progressão da doença para a forma grave da febre hemorrágica. Ainda são necessárias pesquisas de base populacional sobre estratégias de controle de vetores e pesquisas de descoberta e desenvolvimento de novos métodos para diagnósticos precoces. O relativo equilíbrio de tipos de pesquisa observado na tuberculose pode estar relacionado à estreita colaboração entre a Rede Brasileira de Pesquisa em TB (Rede TB) e o Programa Nacional de Controle na promoção de atividades estratégicas inovadoras e multidisciplinares.

O estudo atual revelou um cenário desafiador com a falta de correlação entre volume de publicações, financiamento e carga de doenças para as DTNs prioritárias do Brasil. Tuberculose, doença de Chagas e esquistossomose foram responsáveis ​​por mais de 75% do total de DALYs relacionados às sete DTNs prioritárias revisadas, mas receberam apenas 37% do financiamento total e foram responsáveis ​​por apenas 34% de todas as publicações. Hanseníase, leishmaniose e malária, juntas, receberam 49% do financiamento total, apesar de representarem apenas 9% de todos os DALYs relacionados às DTNs.

Embora a comunidade científica brasileira tenha um interesse especial na pesquisa sobre DTN, os resultados sugerem uma falta de coordenação entre o impacto que algumas DTN têm na população e o que tem sido considerado importante nas publicações. Essa disparidade pode ser possivelmente explicada pelo interesse e experiência dos pesquisadores; infraestrutura de pesquisa e recursos de financiamento limitados, levando os pesquisadores a adotarem a agenda dos financiadores; e comunicação deficiente entre formuladores de políticas e pesquisadores para concordar com as prioridades nacionais de pesquisa.

Fonte: Neglected tropical diseases in Brazil: lack of correlation between disease burden, research funding and output. Bruna de Paula Fonseca, Priscila Costa Albuquerque, Fabio Zicker. Tropical Medicine & International Health 25(11): 1373-1384, 2020. https://doi.org/10.1111/tmi.13478

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