Hanseníase:  um problema de saúde pública no Brasil

Paulo Cezar de Moraes – Mestre em Ciências Médicas UFRGS

A hanseníase é uma doença infectocontagiosa, sistêmica, causada pela bactéria Mycobacterium leprae, afetando pele e nervos periféricos. Se houver progressão da doença, poderá afetar outros órgãos como: olhos, gânglios linfáticos, fígado, rins, glândulas suprarrenais e testículos.

A hanseníase possui uma história milenar, sendo conhecida, em muitos países, como lepra. No Brasil, desde 1975, houve a alteração do termo através de decreto, igualando a hanseníase a outras doenças, objetivando reduzir o estigma, preconceito e discriminação que o termo carrega até hoje. No Brasil é um problema de saúde pública e está incluída no grupo das doenças tropicais negligenciadas pela OMS e Brasil.

No ano de 2022 (dados consolidados), foram registrados 174.087 casos novos de hanseníase no mundo, correspondendo a uma taxa de detecção de 21,8 casos novos por 1 milhão de habitantes. Índia, Brasil e Indonésia são os países com maior registro de casos novos ao ano, acima de 10 mil novos casos. Em 2022, o Brasil registrou 19.635 casos novos, correspondendo a 92% dos casos novos nas Américas. Entre janeiro e novembro de 2023, se observou um aumento de 5% nos casos novos em relação ao ano anterior. O Brasil é o segundo país no ranking da OMS em registros de casos novos ao ano.

O homem é reconhecido como a única fonte de infecção (reservatório), mas foram identificados  animais naturalmente infectados (Chimpanzés, tatu-galinha, esquilos-vermelhos). A transmissão da doença ocorre com o contato próximo e prolongado com aerossóis das secreções nasais de um doente bacilífero não tratado. Não se transmite a doença pelo abraço, beijo, compartilhamento de pratos, talheres, roupas de cama ou outros objetos. Cerca de 90% das pessoas apresentam imunidade natural contra a doença, ou seja, estima-se que somente 10% das pessoas que entram em contato com um doente não tratado adoecem.

Ao iniciar o tratamento, em cerca de 4 dias a doença deixa de ser transmitida. Os fatores de risco relacionados à doença são: os determinantes sociais, susceptibilidade individual e fragilidades ao acesso às ações de cuidado e controle da hanseníase.

As ações de prevenção para o controle e eliminação da hanseníase como problema de saúde pública (meta de menos de 1 caso por 10 mil habitantes, OMS) passam pela detecção precoce da doença, tratamento adequado e oportuno, avaliação de contatos domiciliares e sociais, vacinação da população em geral e contatos sadios com a BCG. Estima-se que o tempo de incubação da doença varia de 2 a 7 anos, podendo ser maior, até 20 anos.

Ao longo da história, houve vários avanços no campo da biologia molecular e técnicas sorológicas, entretanto para o diagnóstico da hanseníase não há nenhum exame que substitua a avaliação clínica dermatoneurológica minuciosa, observando com cuidado as lesões cutâneas e nervos periféricos, que, na maioria dos casos, permite o diagnóstico da hanseníase em nível de Atenção Primária em Saúde. Os exames são complementares e podemos citar: Avaliação Neurológica Simplificada (ANS), biópsia de pele, baciloscopia, ultrassonografia, eletroneuromiografia, entre outros, mas os resultados dos exames devem ser associados à clínica apresentada pelo paciente.

A definição de um caso de hanseníase deve considerar a presença de pelo menos um ou mais dos seguintes sinais cardinais da hanseníase:

  • Lesão(ões) e/ou áreas(s) da pele com alteração de sensibilidade térmica e/ou dolorosa e/ou tátil;
  • Espessamento de nervo periférico, associado a alterações sensitivas e/ou motoras e/ou autonômicas;
  • Presença do M. leprae, confirmada na baciloscopia de esfregaço intradérmico ou na biópsia de pele.

Figura 1: Formas da hanseníase

O tratamento da hanseníase é gratuito, ambulatorial e deverá estar disponível na Atenção Primária em Saúde do Brasil, visando atenção integral ao paciente. A poliquimioterapia (PQT-U) é o esquema padrão de tratamento para a hanseníase e consiste no uso de três drogas: Rifampicina, Dapsona e Clofazimina. A duração do tratamento é definida conforme a classificação operacional do caso, que se divide em paucibacilares, com tratamento de 6 doses mensais (uso diário) ou multibacilares com o tratamento de 12 doses mensais (uso diário), o tratamento está divido em infantil e adultos em blisters.

Figura 2: Blisters para poliquimioterapia da hanseníase.

O diagnóstico tardio e tratamentos irregulares são os principais fatores que levam a incapacidades físicas e sequelas. No Brasil, a hanseníase é a terceira doença mais incapacitante, ficando somente atrás da doenças crônicas e infecções sexualmente transmissíveis (ISTs).

Referências

 Brasil. Ministério da Saúde Secretaria de Vigilância em saúde e Ambiente. Boletim Epidemiológico Hanseníase 2024. janeiro de 2024, [citado 21 set 2024 ]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/boletins/epidemiologicos/especiais/2024/be_hansen-2024_19jan_final.pdf

Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Hanseníase [recurso eletrônico] / Ministério da Saúde, Secretaria de Ciência, Tecnologia, Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde. – Brasília : Ministério da Saúde, 2022. 152 p.[citado 21 set 2024] : il. Modo de acesso: World Wide Web: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/protocolo_clinico_diretrizes_ terapeuticas_hanseniase.pdf

DERMATOLOGY ATLAS. [Homepage]. ©1999-2022. Disponível em: https://www. atlasdermatologico.com.br. Acesso em: 22 set. 2024.

Eidt, LM. Hanseniasis. In Bonamigo RR, Dornelles SIT. Dermatology in Public Health Environments. A Comprehensive Textbook; Switwrzland, Springer: 2018. Volume 1, 61-86 Eidt, LM. Hanseniasis. In Bonamigo RR, Dornelles SIT. Dermatology in Public Health Environments. A Comprehensive Textbook; Switwrzland, Springer: 2018. Volume 1, 61-86.

Uma resposta para “Hanseníase:  um problema de saúde pública no Brasil”

  1. Artigos sobre Hanseníase são de extrema importância para a população adquirir conhecimento sobre essa doença, que pouco se fala. Usar figuras também facilita a identificação para pessoas leigas.
    Obrigada por seu trabalho e esforço!!!

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