O fantástico mundinho de Microsporum, Trichophyton e Epidermophyton
Dr. Artur Rhoden, Médico
Enquanto alguns preferem, digo, se adaptam melhor às condições climáticas somadas aos fatores predisponentes de cada ser humano, outros, assim digamos, importunam em qualquer momento do ano. Pode ser verão, outono, inverno ou primavera, você pode ter certeza: vai ver alguma unha amarelada por aí, um vermelho meio estranho no corpo ou alguém reclamando que tá perdendo cabelo em só uma área.
E aí a gente pode, talvez, culpar o fungo logo de cara.
Ou melhor, os vários.
Nesta parte, abriremos uma Caixa de Pandora, e não tão simples quanto a da Malassezia furfur e sua pitiríase versicolor. São tantos os agentes, são vastos os diagnósticos e, para colaborar (se é que podemos usar esse termo), é longo o tratamento, então, não dependemos apenas do bem-estar e do conhecimento daquele que diagnostica, mas, principalmente, da boa vontade de melhoria do indivíduo.
Microsporum, Trichophyton e Epidermophyton: o Trio Parada Dura das Dermatofitoses.
Antes de mais nada, devemos ter em mente algo: como podemos diferenciar os agentes se não soubermos a fisiopatologia desse grande grupo de doenças. Grande? Sim. Temos múltiplas doenças causadas pelo mesmo agente, porém, o que vai mudar é a região acometida do corpo – o que pode ser um problema, já que, para a maioria das pessoas, “na dermatologia é tudo igual”. E pode até ser! Mas não é!
As dermatofitoses, como o próprio nome já entrega, abrangem os dermatófitos (imagem abaixo), que são estruturas múltiplas e septadas (parecidas com tubos) capazes de causar uma inflamação superficial da epiderme (incluindo o estrato córneo, as unhas e os cabelos) em até 1 hora (mas a clínica vai aparecer bem depois desse período, certo?). Na pele, essa contaminação por dermatófitos rompe a camada córnea da epiderme, ocorrendo a descamação (propriedade fúngica característica) e o prurido. Assim, o dermatófito é um queratinolítico.
A redução das células de Langerhans (as células epidérmicas dendríticas, ou seja, com prolongamentos celulares longos) aumenta o risco de dermatofitoses, assim como acontece em uma resposta tardia das reações de hipersensibilidade. Altos níveis de anticorpos (ativação Th2 com forte produção de IgG e IgE) e uma resposta celular menos intensa, são encontradas em infecções crônicas e persistentes.
Da mesma forma, como a localização é importante, o folículo piloso (vulgo pelo) pode ser quebrado por esse rompimento da camada córnea e chegar até aos níveis mais profundos (raiz do pelo), causando uma inflamação conhecida como foliculite, ou até mesmo um abscesso.
E, como num todo, “fungos são fungos” (um alô para a Malassezia furfur), então, o clima quente dos países tropicais e subtropicais colabora com as suas proliferações (muito pela umidade – o que é um dado muito importante para uma das principais queixas de consultório). Também, outras espécies que, habitualmente, não causariam manifestação clínica estão começando a ter aumento da incidência (ou seja, casos novos), o que pode ser explicado pelo uso desenfreado de antifúngicos e sua respectiva resistência, causando aumento de sobrevida e da patogenicidade.
Além disso, condições como Diabetes Mellitus, atopias e doenças crônicas podem facilitar a inflamação ocasionada pelos dermatófitos. Também não esqueçamos que, como quase toda doença, existe um componente genético não muito bem definido entre gerações familiares para algumas infecções. Por exemplo, a obesidade deixa o paciente suscetível em áreas de calor ao suar e deixar a região com um pH alcalino. Culpa do calor! Então cuidado com aqueles sapatos apertados e as roupas rentes ao corpo, porque elas facilitam a entrada dos agentes.
Tudo bem que, dessa vez, o tema foi um pouco mais denso e pesado, mas é aquela coisa: fungo é quase que um vespeiro, quanto mais se mexe, pior vai ficando e mais espécies você vai isolando e diagnosticando. Texto longo para combinar com o tempo de tratamento da maioria das doenças. Então cuidado! Mudam as estações, mas não deixe o sapato úmido. Troque a meia!
Fitzpatrick’s Color Atlas and Synopsis of Clinical Dermatology, 7e, p. 605 – 628.
Jartarkar, S.R.; Patil, A.; Goldust, Y.; Cockerell, C.J.; Schwartz, R.A.; Grabbe, S.; Goldust, M. Pathogenesis, Immunology and Management of Dermatophytosis. J. Fungi 2022, 8, 39. https://doi.org/ 10.3390/jof8010039.
