Desvendando a Leishmania: uma aventura microscópica

Redigido por Ana Julia Steffen do Nascimento, Catarine Oliveira Adam, Frederico Kraemer Mattos, Igor Ritzel Pacheco e Lucas Pacheco Wisnieswski, graduandos em Biotecnologia, UFRGS

Revisado por Dra. Onilda Santos da Silva, Professora Titular do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS

1 O que é Leishmania

Leishmania é um gênero de protozoários digenéticos. Isto significa que, ao longo de seu ciclo de vida, se apresentam de duas formas distintas: promastigota e amastigota.
A promastigota é a forma que o parasito se encontra quando está no intestino dos vetores, ou seja, no meio extracelular. Ela é alongada, tem um tamanho entre 20 e 30 μm e possui um flagelo que lhe confere mobilidade.

A amastigota é a forma que os protozoários assumem no meio intracelular, e.g., ao ser fagocitados por células do Sistema Fagocítico Mononuclear (SFM). Esta forma é arredondada e menor, com um tamanho entre 2 e 5 μm e não possui flagelos.

2 O ciclo de vida do protozoário

Quando um vetor infectado por Leishmania pica um animal vertebrado (hospedeiro) para se alimentar de sangue, as promastigotas presentes no intestino do vetor são regurgitadas na pele do hospedeiro. Então, células do SFM, como macrófagos e neutrófilos, fagocitam os protozoários invasores, e, através de um processo chamado fagocitose facilitada, os fagossomos se fundem aos lisossomos, formando um fagolisossomo. Dentro deste fagolisossomo, os protozoários assumem a forma amastigota e se reproduzem por divisão binária dentro das células do SFM, que são destruídas com a multiplicação intensa dos protozoários. Dependendo da espécie de Leishmania, estes microrganismos podem permanecer em células do SFM a nível cutâneo ou ser disseminados por vias linfática ou sanguínea, contaminando mucosas e vísceras. Assim, tem-se as formas clínicas conhecidas como leishmaniose cutânea, mucocutânea ou visceral.

Quando um vetor pica um vertebrado contaminado, pode ingerir amastigotas circulantes que, ao entrar em contato com o lúmen intestinal do inseto, mudam para a forma promastigota e se dividem por fissão binária. Assim, o ciclo pode se repetir em um novo hospedeiro.

Quando o vetor se alimenta do sangue de um vertebrado infectado, ele pode ingerir formas amastigotas do protozoário presentes nas células hospedeiras. No interior do trato digestivo do inseto, essas formas se transformam em promastigotas, que se multiplicam por fissão binária. Posteriormente, ao picar um novo hospedeiro, o vetor pode transmitir o parasita, reiniciando o ciclo de infecção.

3 Leishmaniose: o que ela causa e quem ela afeta

Várias espécies de Leishmania podem causam diferentes formas clínicas de leishmaniose. A infecção pode afetar seres humanos, cães, gatos, roedores e animais silvestres, e se apresentar de três formas principais: visceral, cutânea e mucocutânea.
Na forma visceral, a mais grave, apresenta sintomas como febre, perda de peso, fadiga, anemia, aumento de órgãos como o fígado, o baço e a medula óssea, aumento de linfonodos, fraqueza, suor noturno e calafrios, dor abdominal e palidez.
Na sua forma cutânea, aparecem muitas lesões na pele, que geralmente são indolores, porém podem se desenvolver em úlceras abertas. Já na forma mucocutânea, apresenta lesões nas cavidades mucosas, como nariz e boca, podendo levar à desfiguração dessas estruturas.

4 Histórico da doença

Existem evidências de casos de leishmaniose desde a Antiguidade. Por exemplo, em um estudo paleoparasitológico, de 42 múmias egípcias de uma tumba no Império Médio em Tebas Ocidental (2050–1650 a.C.) avaliadas, em quatro se encontrou DNA mitocondrial de Leishmania.


No Brasil, a leishmaniose tegumentar americana emergiu como um problema de saúde pública na região amazônica. Contudo, a doença se tornou conhecida no início do século XX em Bauru, São Paulo, com a construção da Estrada de Ferro Noroeste. A doença ficou conhecida como “úlcera de Bauru”, levando à identificação de Leishmania braziliensis, uma espécie que pode produzir leishmaniose tegumentar e mucocutânea.


Atualmente, a leishmaniose continua sendo um problema de saúde pública. Entre 2020 e 2024, segundo o Ministério da Saúde, foram registrados cerca de 62 mil casos novos de leishmaniose tegumentar e cerca de 7 mil casos novos de leishmaniose visceral no Brasil.

5 Curiosidades

Apesar de ser popularmente chamado de “mosquito-palha”, o vetor do protozoário causador da leishmaniose não é um mosquito verdadeiro. Os mosquitos pertencem à família Culicidae, enquanto o chamado mosquito-palha é, na realidade, um flebotomíneo — inseto da família Psychodidae, subfamília Phlebotominae — que compreende espécies hematófagas responsáveis pela transmissão da leishmaniose.

Em inglês, esses flebotomíneos são chamados de “sandflies”, mas essa tradução não deve ser confundida com moscas. Apesar do nome, não se trata de verdadeiras moscas picadoras, já que o termo “mosca” designa insetos de outros grupos taxonômicos.

O vídeo abaixo tem como público-alvo crianças do ensino fundamental e pode ser utilizado tanto como campanha de conscientização sobre a leishmaniose quanto como material didático a fim de atrair mais os alunos para o aprendizado sobre a doença. Utilizando referências de desenhos animados e super-heróis clássicos como o super-homem e o pica pau, criou-se dois personagens cartunescos, os “super-cientistas”. A dupla de heróis une a capa e o jaleco junto com “armas” relacionadas a prevenção da doença como a raquete mata-mosquito e o repelente.

REFERÊNCIAS

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4 respostas para “Desvendando a Leishmania: uma aventura microscópica”

  1. Bom lembrar de vários conceitos. Embora a forma visceral seja mais grave, a cutânea pode causar lesões assustadoras!

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