Alergia a Marisco: Uma só, duas ou mais?

Redigido por João Victor Castanheira Tavares e Lucas dos Santos Linares, Graduandos em Biotecnologia, UFRGS.

Revisado por Dra. Adriana Simon Coitinho, Professora Associada do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS.

A alergia a mariscos é um problema sério para muitas pessoas no mundo todo, porque pode causar reações graves, como inchaço, urticária e até dificuldade para respirar. O que muita gente não sabe é que o termo “mariscos” inclui dois tipos diferentes de alimentos: os crustáceos, como camarão, caranguejo e lagosta, e os moluscos, como mexilhões, lulas e polvos. As alergias podem ser causadas por proteínas específicas que o sistema imunológico identifica como perigosas, mesmo sem razão, e o corpo reage exageradamente a isso. Nem sempre uma pessoa que tem alergia a camarão, por exemplo, também é alérgica a mexilhão ou lula. Esse é um ponto importante, porque muitas vezes se acredita que quem tem alergia a um tipo de marisco deve evitar todos, mas estudos mostram que isso não é sempre verdade. Compreender bem essas diferenças é essencial para evitar riscos desnecessários e também para que a alimentação das pessoas com alergia seja segura, sem exageros ou restrições que poderiam ser evitadas.

A reação cruzada entre camarão e moluscos ocorre quando o sistema imunológico de uma pessoa alérgica reconhece proteínas semelhantes presentes em diferentes tipos de mariscos, reagindo a ambos mesmo que ela só tenha sido exposta a um deles. De acordo com o artigo: Mollusk allergy in shrimp-allergic patients: Still a complex diagnosis. An Italian real-life cross-sectional multicenter study, embora os crustáceos e os moluscos pertençam a grupos biológicos diferentes, eles compartilham algumas proteínas alergênicas, como a tropomiosina, que é altamente conservada entre essas espécies. Isso pode levar à sensibilização cruzada, ou seja, uma pessoa alérgica a camarão pode reagir também a lulas e mexilhões, mesmo sem ter consumido esses alimentos antes. No entanto, o estudo destaca que essa reação cruzada não é universal, ou seja, nem todos os indivíduos alérgicos a crustáceos terão reações ao consumir moluscos.

O artigo também chama atenção para a importância de testes específicos para confirmar se há ou não sensibilização cruzada em cada caso. Os avanços nos testes moleculares de diagnóstico permitem identificar com mais precisão quais proteínas estão envolvidas na alergia de cada paciente, ajudando a evitar dietas excessivamente restritivas. Isso é particularmente relevante, pois eliminar todos os tipos de mariscos sem necessidade pode comprometer a nutrição e a qualidade de vida do paciente. Assim, ao invés de uma exclusão genérica de todos os mariscos, o estudo sugere uma abordagem individualizada, baseada em evidências, que leve em consideração os perfis de sensibilização específicos de cada pessoa.

Em resumo, a alergia a mariscos, especialmente a relação entre crustáceos e moluscos, é um tópico complexo e que ainda necessita de avanços importantes no diagnóstico e no manejo. Embora exista uma possibilidade de reação cruzada, ela não é universal, e cada caso deve ser avaliado individualmente, com base na

história clínica, testes de alergia e, sempre que possível, provas de provocação oral. A abordagem excessivamente restritiva, que elimina todos os mariscos da dieta de pessoas alérgicas a camarão sem confirmação de reação cruzada, pode levar a prejuízos nutricionais e de qualidade de vida desnecessários. Por isso, é fundamental que o diagnóstico seja o mais preciso possível, considerando as limitações dos testes disponíveis atualmente e o papel central dos testes com alimentos frescos. Avançar na compreensão dos perfis moleculares de sensibilização e aprimorar os testes específicos são passos essenciais para garantir uma alimentação segura e individualizada para os pacientes. A conscientização sobre as diferenças entre os tipos de mariscos e a importância de uma avaliação personalizada são fundamentais para que o manejo da alergia seja baseado em evidências, reduzindo riscos e promovendo o bem-estar das pessoas alérgicas.

Artigo referência: Scala, Enrico et al. “Mollusk allergy in shrimp-allergic patients: Still a complex diagnosis. An Italian real-life cross-sectional multicenter study.” The World Allergy Organization journal vol. 15,9 100685. 5 Sep. 2022, doi:10.1016/j.waojou.2022.100685

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