Estudo relata que uma vacina contra herpes-zóster pode diminuir a chance de desenvolver demência

Redigido por Bruna Spellmeier, Lara Friedrich, Lorenza Villa e Maísa Ferronato. Graduandos em Biotecnologia, UFRGS.

Revisado por Dra. Adriana Simon Coitinho, Professora Associada do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS.

Publicado em abril de 2025 pela revista Nature, o artigo “A natural experiment on the effect of herpes zoster vaccination on dementia” de Eyting et al propõe que a vacina contra a doença herpes-zóster (também conhecida como cobreiro) aplicada no Reino Unido, em 2013, pode diminuir a probabilidade de receber um diagnóstico de demência em até 20%.

O estudo utilizou dados de registros eletrônicos de saúde em larga escala e explorou uma peculiaridade do programa de vacinação em Gales: apenas pessoas nascidas após 2 de setembro de 1933 eram elegíveis para receber a vacina contra herpes-zóster. Esse corte por data de nascimento criou dois grupos muito semelhantes, separados por apenas uma semana, o que permitiu uma comparação quase aleatória entre eles, minimizando possíveis vieses.

O estudo identificou uma diferença marcante nas taxas de vacinação contra herpes-zóster entre os grupos divididos pela data de elegibilidade: apenas 0,01% das pessoas nascidas imediatamente antes do limite receberam a vacina, enquanto 47,2% dos nascidos logo após o corte foram vacinados. Com isso, foi possível reduzir a influência de fatores de confusão e obter uma análise mais robusta sobre os efeitos da vacina.

Além disso, a vacinação contra herpes-zóster reduziu significativamente a ocorrência de herpes-zóster, com uma redução de 1,0 ponto percentual na probabilidade de diagnóstico da doença entre indivíduos elegíveis, o que representa uma redução relativa de 18,8% ao longo de um período de acompanhamento de sete anos. O estudo indicou que aqueles que efetivamente receberam a vacina apresentaram uma redução de 2,3 pontos percentuais, correspondendo a uma redução relativa de 37,2% nos diagnósticos de herpes-zóster.

Em relação ao foco do estudo – a relação entre a vacinação e diminuição da demência –, os autores encontram dificuldades em distinguir clinicamente os tipos de demência, por isso foram considerados todos os tipos, tanto por novos diagnósticos quanto como causa de morte em certidões de óbito. Entre 282.541 adultos acompanhados por sete anos, 35.307 foram diagnosticados com demência.

Os resultados mostraram que ser elegível para a vacinação reduziu a probabilidade de desenvolver demência em 1,3 ponto porcentual (8,5%), e o recebimento efetivo da vacina da vacina levou a uma redução ainda maior, de 3,5 pontos percentuais (20%).

A  partir  de  diferentes  análises  para  garantir  a  robustez  dos  dados,

observou-se que o efeito é específico da vacinação, sem influência de outros fatores.

Baseado na descoberta que, para a faixa etária analisada naquela população, a vacina realmente tinha um efeito estatisticamente significante sobre os diagnósticos de demência, os autores discorrem sobre três possíveis mecanismos por trás desse resultado, como mudanças no cuidado de saúde após a herpes- zóster (1), redução da reativação do vírus da varicella-zoster (2) e efeitos imunomoduladores independentes do vírus da varicella-zoster (3).

Após avaliar essas diferentes hipóteses, os autores descartaram sua primeira sugestão, mas mantiveram que as outras duas constituíam explicações plausíveis para os efeitos observados. É indicado que a reativação do vírus da varicella-zoster pode acarretar em uma resposta neuroinflamatória e problemas cerebrovasculares que levam ao desenvolvimento de condições como a demência. De tal maneira, ao se vacinar e impedir a reativação desse vírus, por consequência, também diminuiria a aparição da demência.

Sobre os efeitos imunomoduladores independentes, os pesquisadores levantaram questões sobre as consequências off target de vacinas, que apontam efeitos benéficos do sistema imune que são independentes do patógeno alvo.

Ademais, vale ressaltar as diferenças vistas entre gêneros na reação à vacina. O estudo observou que mulheres se beneficiaram mais da vacina do que homens em termos de seu efeito nos diagnósticos de demência, destacando que já é conhecido que mulheres frequentemente apresentam reações imunes mais fortes à vacinas vivas atenuadas (que era o caso dessa), o que pode explicar esse achado. Também foi indicado que mulheres são diagnosticadas com demência mais frequentemente que homens. Outro achado interessante é que pessoas com doenças autoimunes e alergias se beneficiaram menos do efeito da vacina na demência do que aquelas sadias.

Para completar o artigo, os cientistas também relataram suas limitações, que incluíram um leve grau de subdetecção (da demência e de sua precocidade), uma limitação na faixa etária (só podiam confirmar suas conclusões em relação àquela analisada no estudo). Também relataram que só puderam acompanhar os pacientes ao longo de um período máximo de 8 anos e que a tempestividade dos diagnósticos de demência pode ter sido afetada pela pandemia do COVID-19 (mesmo que todas suas análises primárias estivessem concluídas antes do início da pandemia).

No final, os autores reforçam que, embora mais pesquisas sejam necessárias, os resultados são promissores e sugerem que a vacina pode ser uma aliada importante na prevenção da demência, apresentando um custo benefício maior que as alternativas farmacológicas que existem atualmente. Em suma, o trabalho traz uma perspectiva otimista em relação a novos possíveis tratamentos de prevenção às doenças neurodegenerativas, enfatiza benefícios já conhecidos das vacinas e traz à tona outros que ainda estão sendo descobertos.

Fonte: EYTING, M. et al. A natural experiment on the effect of herpes zoster vaccination on dementia. Nature, p. 1–9, 2 abr. 2025.

2 respostas para “Estudo relata que uma vacina contra herpes-zóster pode diminuir a chance de desenvolver demência”

  1. Vacina aliada na prevenção da demência! Que interessante! Realmente difícil de acreditar. Certamente mais estudos são necessários!

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