O único hantavírus com transmissão entre humanos: conheça o Vírus Andes

Leonardo de Oliveira Rodrigues e Rafaela Feijó Vieira, Graduandos em Biotecnologia, UFRGS.

Revisado por Dra. Adriana Simon Coitinho, Professora Associada do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS

O que é o Vírus Andes (ANDV) e por que ele é único entre os Hantavírus?

Entre as várias espécies existentes de hantavírus, o Vírus Andes (ANDV) se destaca não apenas pela sua gravidade, mas por ser o único hantavírus conhecido capaz de ser transmitido de pessoa para pessoa. Cientificamente batizado de Orthohantavirus andesense, o ANDV é um vírus que pertence à ordem Bunyavirales e à família Hantaviridae. Estudos mostram que ele utiliza uma proteína celular chamada Protocaderina-1 (PCDH-1) como receptor para invadir as células humanas, iniciando um processo de replicação que ataca nosso organismo.

Origem viral e seu hospedeiro nato:

O vírus Andes foi identificado pela primeira vez em 1995, após um surto na região andina da Patagônia, no sudoeste da Argentina, sendo assim uma cepa viral endêmica na América do Sul. Diferente dos humanos, que sofrem gravemente com a infecção, os hospedeiros naturais do vírus não ficam doentes, sendo o principal deles o rato-do-arroz-de-cauda-longa (Oligoryzomys longicaudatus), popularmente conhecido na região como colilargo. Esse roedor é extremamente abundante na Patagônia, com estudos de campo na Argentina que já demonstraram que o colilargo pode representar até 63% dos roedores capturados em áreas endêmicas, com cerca de 9,2% deles testando positivo para anticorpos contra o vírus.

Como ocorre sua transmissão?

Na grande maioria dos hantavírus, a transmissão para humanos acontece da seguinte maneira: a inalação de aerossóis contendo urina, fezes ou saliva de roedores infectados. Isso costuma ocorrer em atividades ao ar livre (como acampar, colher lenha ou limpar galpões fechados).

O perigo da transmissão interpessoal:

A contaminação entre humanos ocorre principalmente por contato próximo e prolongado (familiares e parceiros sexuais possuem o maior risco). O mais alarmante é que a transmissão ocorre durante a fase prodrômica precoce ou até mesmo no período de incubação (que varia de 9 a 40 dias), ou seja, quando o paciente ainda não apresenta sintomas graves e nem necessariamente sabe que está doente.

Como ocorre a resposta imune ao vírus?

Ao entrar no corpo humano, o vírus ataca principalmente células que revestem os vasos sanguíneos (células endoteliais) e tecidos dos pulmões. O que torna a infecção particularmente perigosa não é apenas a destruição direta das células pelo patógenos, mas sim uma resposta imune exagerada e desregulada do próprio organismo. O sistema de imune, ao tentar combater o invasor, libera uma quantidade exacerbada de substâncias inflamatórias chamadas citocinas, como a Interleucina-6 e a Interleucina-18. Essa reação intensa, em vez de proteger o corpo, acaba causando uma ativação imunológica descontrolada que prejudica o funcionamento dos órgãos.

Esse excesso de inflamação provoca uma disfunção nos vasos sanguíneos, fazendo com que eles se tornem “permeáveis”, ou seja, comecem a vazar líquido para os tecidos ao redor. Nos pulmões, esse vazamento resulta em um acúmulo de fluido (edema pulmonar), o que impede a passagem correta do oxigênio para o sangue e causa grave dificuldade respiratória. Ademais, o vírus consegue se multiplicar dentro de células de defesa chamadas macrófagos, que podem espalhar a infecção enquanto o corpo continua a responder com uma inflamação, comprometendo a pressão arterial e a estabilidade do coração.

Sintomas e gravidade:

A infecção por ANDV frequentemente evolui para a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), uma condição de rápida evolução e alta letalidade. Os sintomas iniciais são inespecíficos e podem ser facilmente confundidos com uma gripe forte:

  • Febre e dores musculares (mialgia);
  • Dor de cabeça e tontura;
  • Problemas gastrointestinais (náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia).

Em poucos dias, o quadro pode evoluir consideravelmente, com sintomas abrangendo: tosse, falta de ar (dispneia), edema pulmonar, insuficiência respiratória e até mesmo choque cardiogênico. Estima-se que a hantavirose cardiopulmonar possua uma taxa de mortalidade próxima a 40% em pacientes que desenvolvem os sintomas respiratórios.

Prevenção e tratamento: há motivo para pânico?

Até o momento, não existe uma terapia antiviral específica para tratar a SCPH. O manejo clínico dos pacientes é baseado estritamente em suporte médico, como ventilação mecânica e monitoramento hemodinâmico em UTI. Apesar da gravidade, a prevenção deve ser guiada pelo gerenciamento de riscos e não pelo pânico. Embora os surtos de ANDV causem ansiedade pública por onde passam, eles são raros e geralmente limitados a ambientes fechados ou contatos muito próximos, especialistas já apontaram que é altamente improvável que o vírus Andes gere um surto global sustentado.

Como se proteger em áreas de risco:

  • Evite entrar em locais fechados e abandonados que possam conter fezes ou urina de roedores sem antes ventilar o ambiente;
  • Ao acampar, mantenha alimentos protegidos e use barracas com piso vedado;
  • Adote precauções de higiene e isolamento ao lidar com casos suspeitos.

Referências:

PIZARRO, E. et al. Immunocytochemical and Ultrastructural Evidence Supporting That Andes Hantavirus (ANDV) Is Transmitted Person-to-Person Through the Respiratory and/or Salivary Pathways. Frontiers in Microbiology, v. 10, 10 jan. 2020.

VELAVAN, T. P.; SCHMIDT-CHANASIT, J. When Rare Zoonoses Travel: Andes virus, Hantavirus Cardiopulmonary Syndrome, and the Preparedness Gap. International Journal of Infectious Diseases, p. 108778, maio 2026.

ALONSO, D. O. et al. Person-to-Person Transmission of Andes Virus in Hantavirus Pulmonary Syndrome, Argentina, 2014. EmergingInfectiousDiseases, v. 26, n. 4,p. 756–759, abr. 2020.

POLOP, F. J. et al. Temporal and Spatial Host Abundance and Prevalence of Andes Hantavirus in Southern Argentina. EcoHealth, v. 7, n. 2, p. 176–184, jun. 2010.

Hantavirose. Disponível em: <https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hantavirose>.

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