Divulgadas evidências científicas de que medidas como o distanciamento social reduziram a disseminação do SARS-CoV-2 no Brasil.

Pesquisadores brasileiros, do Reino Unido e da Bélgica concluíram a análise do genoma (sequência do RNA) de 427 amostras de SARS-CoV-2 circulantes no Brasil, provenientes de 84 municípios pertencentes a 21 estados brasileiros. Os resultados foram disponibilizados na plataforma de pré-impressões medRix e ainda não passaram por avaliação pelos pares (processo de avaliação de artigos antes de sua publicação em revistas científicas).

O Brasil é atualmente um dos países em que há crescimento mais acelerado da epidemia de COVID-19 no mundo. Os cientistas investigaram o impacto de medidas de proteção não farmacológicas na disseminação do vírus no Brasil.  Com a análise do genoma viral, foram identificadas mais de 100 introduções do vírus no país a partir do exterior.

As análises indicaram que a maioria das introduções ocorreram em locais com conexão internacional direta (São Paulo, com 36% de todas as importações, Minas Gerais, Ceará e Rio de Janeiro). A maioria dos genomas brasileiros foi classificada em 15 grupos, sendo que três deles foram mais representados: grupo 1, que circula predominantemente em São Paulo, grupo 2, que é o mais disseminado, aparecendo em 16 estados brasileiros, e grupo 3, que está concentrado no Ceará. Foram encontradas evidências de introduções múltiplas nacionais e internacionais na região Amazônica, com 37% das sequências do Pará e Amazonas pertencendo ao grupo 1 e 32% ao grupo 2.

Os pesquisadores estimaram que esses grupos foram introduzidos a partir da Europa, entre os dias 22 e 27 de fevereiro de 2020, indicando que a transmissão comunitária se estabeleceu no Brasil no final de fevereiro ou início de março, antes das restrições do transporte aéreo. Com as restrições, apesar de ter havido uma redução no número de viagens aéreas no país, os pesquisadores verificaram que a distância média viajada aumentou em 25%, o que coincidiu com a disseminação do vírus a partir dos grandes centros urbanos para o resto do país.

As mudanças da transmissibilidade do SARS-CoV-2 são associadas com mudanças na mobilidade das pessoas e podem ser calculadas por um parâmetro da Epidemiologia (ciência das epidemias) denominado número reprodutivo (número médio de infecções a partir uma pessoa infectada). Se esse número for maior que 1, indica que a epidemia está crescendo; se for menor que 1, significa que está havendo um decréscimo na transmissão. Como exemplo, os pesquisadores encontraram um número reprodutivo maior do que 3 em São Paulo e Rio de Janeiro no início da epidemia. Com a introdução das medidas não farmacológicas, como o isolamento adotado nesses lugares, os valores caíram para próximo a 1.

Os autores estimam que durante a primeira fase da epidemia, o SARS-CoV-2 se disseminou, principalmente, de forma local e nas fronteiras. A segunda fase foi caracterizada por movimentações de longa distância, fazendo com que a epidemia saísse da região sudeste. O movimento do vírus foi mais frequente dentro dos estados do que entre os estados brasileiros. Os dados sugeriram que houve decréscimo da disseminação viral após a implementação das medidas não farmacológicas. Com a recente flexibilização dessas medidas, é necessário monitorar as tendências na transmissão e aparecimento de novas linhagens de vírus no país.

FONTE: Evolution and epidemic spread of SARS-CoV-2 in Brazil. Candido et al. medRxiv 2020.06.11.20128249; doi: https://doi.org/10.1101/2020.06.11.20128249

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