Será que o SUS se fortaleceu com a pandemia de COVID-19?

Pesquisadores brasileiros publicaram um comentário sobre esse tema e analisaram a oferta de leitos de UTI disponíveis no Brasil. Com as notícias de instalação de hospitais de campanha, de criação de leitos e de tentativas de reabrir ou disponibilizar leitos públicos não utilizados, criou-se uma metodologia para investigar a expansão desses leitos em todo o país, segmentando os resultados por região geográfica.

Houve um salto no número de leitos no país, saindo de 46.045 em dezembro de 2019 (momento pré-pandemia) para 60.265 (pós-pandemia) em abril de 2020. Poder-se-ia pensar que a população brasileira estaria agora bem mais assistida. Entretanto, destes 14.220 novos leitos, apenas 3.104 são do SUS, ou seja, disponíveis para toda a população, inclusive para quem possui plano privado de saúde. Esse tímido avanço do SUS representa apenas 21,82% dos novos leitos UTI. Ou seja, o setor privado conseguiu instalar mais 11.116 leitos, o que representou 78,18% das novas camas de tratamento intensivo em todo o país, expressando uma desigualdade sem precedentes na história do país desde a implantação do SUS. A predominância do setor privado no quesito de expansão dos leitos de UTI é visível, o que é muito grave em um país no qual apenas 22,41% da população dispõem de plano privado e os outros 77,59% dependem exclusivamente do SUS.

Quando se analisa essa situação por região, verifica-se que as iniquidades no acesso à saúde, especificamente aos leitos de UTI, são ainda mais brutais. A Região Norte possui um contingente populacional de 18,43 milhões de pessoas (8,77% da população nacional). Deste, 90,72% são dependentes exclusivos do SUS e disputam 1.793 leitos de UTI SUS, o que significa dizer que há aproximadamente um leito SUS para cada 9.325 pessoas. Ainda nesta região, percebe-se que 9,28% da população possuem plano de saúde e disputam 1.335 leitos, resultando na proporção aproximada de um leito a cada 1.281 pessoas.

A Região Nordeste, por sua vez, concentra 57,07 milhões de pessoas (27,15% da população do país). Destes, 88,43% dependem unicamente do SUS, disputando 5.968 leitos, perfazendo a proporção aproximada de um leito a cada 8.456 pessoas. Quanto aos beneficiários dos planos de saúde, nota-se que são 11,57% da população desta região disputando 6.512 leitos de UTI, o que resulta aproximadamente na proporção de um leito a cada 1.013 pessoas.

Esses dados contrastam com os desejos e discursos dos sanitaristas de que o SUS está se fortalecendo na pandemia.

FONTE: Crescimento dos leitos de UTI no país durante a pandemia de Covid-19: desigualdades entre o público x privado e iniquidades regionais. Dorival Fagundes Cotrim Junior, Lucas Manoel da Silva Cabral. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 30(3), e300317, 2020. https://doi.org/10.1590/S0103-73312020300317

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