Esforços para o desenvolvimento de uma vacina para a COVID-19: 1ª parte.

Para muitos cientistas e autoridades políticas, o desenvolvimento de uma vacina contra o SARS-CoV-2 irá ser o caminho para restaurar a normalidade da vida. Existem várias candidatas para a vacina, mas todas têm um denominador em comum: a proteína Spike (S), que o vírus usa para entrar nas células.  

As candidatas são baseadas em diferentes plataformas. Existem abordagens novas e promissoras, como as vacinas de mRNA ou de DNA, ambas codificando a proteína Spike, mas também existem abordagens clássicas, baseadas em tecnologia já estabelecida e licenciada, como o uso de partículas virais inativadas ou atenuadas. Outras abordagens, ainda, exploram vetores virais (adenovírus) com replicação deficiente.

Todas essas abordagens devem levar meses ou anos para ficarem disponíveis para uso pela população humana. Assumindo que os resultados demonstrem imunidade protetora, é necessário tempo para a obtenção das licenças e produção das vacinas.  A indústria farmacêutica tem capacidade para produzir centenas de milhares de doses de vacinas para Influenza e as instalações industriais poderiam ser utilizadas parcialmente para a produção da vacina para a COVID-19, já que é preciso continuar a produzir vacinas para a Influenza. Isso significa que, mesmo que uma abordagem tradicional de produção de vacina seja adotada, a capacidade de produção atual é muito pequena para todas as doses que serão necessárias.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) propôs coordenar testes paralelos das candidatas à vacina. Em junho de 2020 existiam 120 candidatas, muitas já em fase de testes clínicos.  A ideia é testar todas as vacinas usando o mesmo protocolo, de forma a poder comparar os resultados. Anúncios de que conseguiram uma vacina eficaz devem ser vistos com precaução. Em muitos casos esses anúncios significam que foi observada uma resposta imunológica contra o SARS-CoV-2 em poucos voluntários, com ausência de efeitos adversos.

Isso não constitui evidência de eficácia/proteção contra infecção. Essa evidência só pode ser conseguida após testes em larga escala envolvendo milhares de pessoas vacinadas e que estejam em contato com o vírus (risco de infecção), avaliando se a vacina protegeu da infecção em comparação com placebos.  

Um cálculo otimista estima que a vacina para a COVID-19 estará disponível em 12 a 18 meses. O Departamento de Saúde dos EUA lançou um programa ambicioso para diminuir o tempo médio de desenvolvimento de vacinas, que é de 15 a 20 anos, para cerca de 1 ano (Operação Velocidade de Dobra, em alusão à velocidade das naves espaciais dos filmes). O objetivo é distribuir 300 milhões de doses de uma vacina eficaz e segura até janeiro de 2021.

VOCÊ QUER SABER COMO ESSAS VACINAS FUNCIONAM? NÃO PERCA O NOSSO POST DE AMANHÃ…

FONTE: Efforts towards a COVID-19 vaccine. Harald Brüssow. Environmental Microbiology; n/a(n/a), 2020. doi: 10.1111/1462-2920.15225. 

Estratégias para promoção da vacinação contra o SARS-CoV-2.

Uma vacina contra o SARS-CoV-2 está sendo considerada uma peça-chave para a “volta ao normal”, mas análises têm sido feitas sobre as atitudes das pessoas em relação a uma vacina potencial. A aprovação da vacina é apenas o ponto inicial de uma longa e desafiadora corrida para alcançar a sua aceitação.

Em uma pesquisa realizada em abril de 2020 com 1000 adultos representativos da população dos EUA, foi visto que apenas 6 em cada 10 respondentes disseram “sim” quando perguntados se iriam se vacinar quando uma vacina estivesse disponível. Outras pesquisas semelhantes têm encontrado que cerca de 1 pessoa entre 10 respondentes diria “não” e 3 pessoas diriam “não sei”.  Diferentes estratégias de promoção da vacina serão necessárias para cada um desses grupos.

Os estudos permitiam que os respondentes justificassem as suas respostas. Respondentes do grupo do “não” disseram que não acreditavam, não queriam ou não se sentiam confortáveis com vacinas. Segurança, efeitos colaterais e descrença geral também foram respostas comuns. Pesquisas anteriores sobre aceitação de vacinas sugerem que esse grupo é difícil de persuadir. Dada a força do movimento antivacinação, a politização da vacinação e a escassez de recursos financeiros, talvez essa seja uma batalha que não valha a pena lutar.

O grupo “não sei” (cerca de 30% dos respondentes) é um que não podemos nos dar ao luxo de perder, mas que também é difícil de influenciar. As razões para esse grupo não ter certeza sobre a vacinação são similares às descritas para o grupo do “não”, mas a segurança, eficácia e novidade da vacina possuem uma maior importância para o grupo do “não sei”. A hesitação acerca da vacina contra o SARS-CoV-2 parece ser motivada pela velocidade sem precedentes no seu desenvolvimento, pela incerteza da aprovação pelo FDA (órgão responsável para aprovação de vacinas nos EUA) e pela limitação do suprimento da vacina. Esse grupo poderia, então, ser denominado “vamos aguardar para ver”. Essa hesitação torna esse grupo muito suscetível à desinformação sobre as vacinas contra o SARS-CoV-2.

Uma estratégia promissora contra a desinformação é denominada inoculação psicológica. A ideia é expor as pessoas a uma dose fraca de desinformação e oferecer imediatamente explicações lógicas que apontem as falhas e argumentações fracas ou maliciosas. O objetivo é que as pessoas reconheçam a desinformação quando ela for encontrada nas mídias sociais ou em outras fontes.

Agora vamos ao grupo do “sim” (60% dos respondentes). Apesar desse grupo ter a intenção de se vacinar, a percentagem dos que irão efetivamente se vacinar é menor. É sabido, pelas campanhas de vacinação para a Influenza, que as pessoas procrastinam, esquecem ou se justificam por razões logísticas ou financeiras.  A vacina deve ser gratuita e encontrar as pessoas onde elas estão (escolas, academias, etc). Focar na população que tem a intenção de se vacinar provavelmente irá resultar no melhor custo-benefício, na mitigação da doença e na melhoria da saúde pública.

E VOCÊ? EM QUE GRUPO VOCÊ SE ENCAIXA?

FONTE: SARS-CoV-2 Vaccine Acceptance: We May Need to Choose Our Battles. Alison M. Buttenheim. Annals of Internal Medicine. 4 setembro 2020. https://doi.org/10.7326/M20-6206.

Hospitalizações por COVID-19 no SUS.

Pesquisadores brasileiros estudaram o perfil das hospitalizações devidas à COVID-19 pelo SUS para identificar fatores associados com a mortalidade relacionada à doença. Foram analisados dados de hospitalizações por COVID-19 entre fevereiro e junho de 2020, disponíveis no DATASUS em 04 de agosto de 2020.

Das 89.405 hospitalizações observadas, 24,4% resultaram em óbito. Os pacientes hospitalizados foram predominantemente do sexo masculino (56,5%), com média de 58,9 anos. A duração da hospitalização foi de menos de 24 horas a 114 dias, com média de, aproximadamente, 7 dias. Do número total de hospitalizações, 22,6% necessitaram UTI.

As chances de óbito no hospital entre os homens foram quase 17% maiores do que entre as mulheres e aumentavam com a idade. Pessoas negras tiveram maior chance de óbito. Houve maior risco de óbito entre pacientes com comorbidades, sendo que a obesidade foi o fator que mais aumentou esse risco.

Alguns estados tiveram maior risco de morte em hospitais associada à COVID-19, como Amazonas e Rio de Janeiro. As chances de óbito hospitalar foram mais de 70% maiores em municípios com menos de 100 mil habitantes e a hospitalização no município de residência foi um fator protetor.

Os autores concluíram que houve uma grande variação da mortalidade por COVID-19 no SUS, associada a fatores demográficos e clínicos, desigualdade social, diferenças nas estruturas de serviços e qualidade do serviço de saúde.

FONTE: COVID-19 hospitalizations in Brazil’s Unified Health System (SUS). Carla Lourenço Tavares de Andrade, Claudia Cristina de Aguiar Pereira, Mônica Martins, Sheyla Maria Lemos Lima; Margareth Crisóstomo Portela. medRixv. 5 setembro 2020. https://doi.org/10.1101/2020.09.03.20187617.t.

Será que a cura da AIDS é possível?

Indivíduos com infecções por HIV, o vírus que causa a AIDS (também conhecida por SIDA), e que controlam, sustentadamente, o nível de replicação do vírus em níveis inferiores ao limite de detecção dos testes comerciais, podem representar a situação mais próxima possível da cura natural para a AIDS.

Estudos anteriores ligaram esse controle do HIV a variações específicas em genes humanos e à presença de respostas imunes celulares com grandes capacidades de matar as células infectadas pelo vírus, entre outros fatores.  Apesar da persistência de reservatórios virais (provirus) no genoma da célula hospedeira ser documentada, as características desses reservatórios permanecem pouco conhecidas.

Pesquisadores dos EUA, ao caracterizarem esses reservatórios do vírus no genoma das células hospedeiras, se depararam com um caso em que foram incapazes de detectar as sequências intactas do provirus, o que levanta a possibilidade de que uma cura real da AIDS seja possível. A pessoa analisada havia tido apenas um episódio de aumento de cópias do RNA viral em mais de 24 anos de acompanhamento sem terapia antirretroviral. Foram detectadas 19 sequências defectivas (defeituosas) do provirus, contendo mutações, o que claramente indica que essa pessoa teve infecção por HIV no passado.

Apesar de que a descoberta científica não permite a confirmação de que a pessoa analisada tenha se curado da infecção pelo HIV por meio de mecanismos imunes naturais, os pesquisadores não foram capazes de comprovar que isso não ocorreu.

UMA ESPERANÇA, NÃO É?

FONTE: Distinct viral reservoirs in individuals with spontaneous control of HIV-1.  Chenyang Jiang et al. Nature. 2020 Aug 26. doi: 10.1038/s41586-020-2651-8.

Neonato alimentado com leite materno positivo para SARS-CoV-2 permanece saudável.

Pesquisadores italianos publicaram um relato de caso sobre um recém-nascido que foi alimentado de forma inadvertida com leite materno positivo para o novo coronavírus.

As recomendações sobre a amamentação variam no mundo todo: algumas sociedades científicas recomendam a não separação das mães de seus bebês recém-nascidos e a amamentação. Outras recomendam uma abordagem de maior precaução. Até o momento, apenas dois estudos demonstraram a presença do SARS-CoV-2 em amostras de leite humano.

Uma criança nasceu por cesariana de emergência na 32ª semana de gestação e permaneceu na incubadora do hospital. Após o parto, a mãe ocasionalmente entrava na enfermaria, sempre usando máscaras e avental como precaução para a Unidade de Tratamento Intensiva (UTI).

No terceiro dia pós-parto, a mãe foi liberada para ir para casa, mas desenvolveu dor de garganta e astenia algumas horas após a liberação. Como ela não podia mais ir à UTI, um pequeno volume do leite materno fresco era levado ao hospital por um membro da família.

Nove dias após o parto, a mãe retornou ao hospital para uma consulta de acompanhamento e trouxe o leite materno coletado em casa (sem as precauções para coleta de leite de mães infectadas pelo SARS-CoV-2). Esse leite foi dado ao recém-nascido.

No exame clínico, a mãe estava febril e um suabe de nasofaringe testou positivo para o SARS-CoV-2. No dia seguinte, o resultado do RT-PCR do leite que havia sido dado para o bebê também foi positivo e a amamentação com o leite materno fresco foi descontinuada. Outra amostra de leite materno foi coletada com todos os cuidados para não haver contaminação, com a finalidade de pesquisa. Essa amostra testou positiva para o SARS-CoV-2 após manutenção a −80°C por 30 dias.

Apesar de ter sido inadvertidamente alimentado com leite materno positivo para o SARS-CoV-2, o bebê não desenvolveu sintomas de COVID-19. Suabes de nasofaringe e fecais testaram negativo para o vírus até o 18º dia de vida. As amostras de soro do bebê testaram negativas para IgG e IgM até o 25º dia de vida. O bebê foi alimentado com leite do banco de leite até a liberação do hospital, no 32º dia de vida. Como dois suabes de nasofaringe consecutivos da mãe testaram negativos para o vírus, a amamentação foi retomada.

Os autores concluíram que o leite humano pode ser um vetor para o SARS-CoV-2, mas os neonatos não necessariamente se infectam por esta via.

FONTE: An Uninfected Preterm Newborn Inadvertently Fed SARS-CoV-2–positive Breast Milk. Licia Lugli, Luca Bedetti, Laura Lucaccioni, William Gennari, Chiara Leone, Gina Ancora and Alberto Berardi. Pediatrics August 2020, e2020004960; DOI: https://doi.org/10.1542/peds.2020-004960

Eventos de superdisseminação da COVID-19 são comuns e podem estar relacionados à faixa etária do indivíduo infectado.

Pesquisadores analisaram dados de vigilância referentes à COVID-19 na Geórgia, EUA. Os dados continham informações demográficas de 9.559 casos sintomáticos, incluindo idade, sexo, etnia e data de início dos sintomas, além de localização das residências. Dados de mobilidade antes e após a ordem de isolamento social foram obtidos por intermédio do Facebook, cujos usuários tinham o serviço disponível pelos celulares. Com isso foi possível calcular a distância diária percorrida por cada pessoa durante o período avaliado.

Foi estimado que o valor médio do número básico de reprodução (R0), que indica quantas pessoas são contagiadas a partir de um caso infectado, era 3,30 antes da ordem de isolamento (uma pessoa infectada disseminava o vírus para 3,30 pessoas em média). Os resultados sugeriram que a ordem de isolamento foi eficaz, com o R0 decaindo para abaixo de 1 entre uma e três semanas após a ordem.

Eventos de superdisseminação se referem a fenômenos nos quais certos indivíduos infectam um grande número de pessoas em comparação com o R0. Os resultados mostraram que os eventos de superdisseminação são comuns. Os autores relatam o caso do condado rural de Dougherty, onde houve evidência de superdisseminação associada à realização de um funeral na área.

Os resultados também mostraram que infectados com idade inferior a 60 anos tendem a ser os principais vetores da superdisseminação, quando comparados com infectados com idade superior a 60 anos.

Os autores concluem que os resultados desse trabalho têm importantes implicações para o desenho de medidas de controle mais eficazes, com medidas de intervenção mais direcionadas.

FONTE: Characterizing superspreading events and age-specific infectiousness of SARS-CoV-2 transmission in Georgia, USA. Max S. Y. Lau, Bryan Grenfell, Michael Thomas,  Michael Bryan, Kristin Nelson, and Ben Lopman. PNAS August 20, 2020 https://doi.org/10.1073/pnas.2011802117.

Artigo apresenta o cálculo do R0 para sete países.

O número básico reprodutivo (R0) é muito importante quando se discute a disseminação de uma doença porque representa o número de casos esperados gerados a partir de um caso infectado. O R0 é uma ferramenta importante em qualquer pandemia porque quando esse valor é menor do que 1, significa que a doença está diminuindo. Quando ele é maior que 1, significa que ela está aumentando e se tornando uma epidemia.

O artigo apresenta o cálculo do R0 para a COVID-19 na Síria, China, Iêmen, EUA, França, Nigéria e Rússia. Os autores usaram os dados reportados para novos casos de COVID-19 nesses países até a data de 30 de julho de 2020. Os maiores valores foram encontrados na Síria (R0=2.7936) e os menores na Nigéria (R0= 1.0011).

Foi calculado que a epidemia irá diminuir nos EUA, Índia e Síria nos meses de agosto a setembro. O cálculo para a China apontou para os meses de fevereiro e março e o cálculo para a Rússia apontou para julho a agosto.

FONTE: The basic reproduction number of the new coronavirus pandemic with mortality for India, the Syrian Arab Republic, the United States, Yemen, China, France, Nigeria and Russia with different rate of cases. Marwan Al-Raeei. Clinical Epidemiology and Global Health 20 August 2020 https://doi.org/10.1016/j.cegh.2020.08.005.

Organização Mundial da Saúde divulga recomendação para uso de corticosteroides em casos graves de COVID-19.

Os corticosteroides têm recebido atenção mundial como um tratamento potencialmente eficaz para a COVID-19. A OMS acaba de divulgar uma recomendação baseada, principalmente, na publicação de resultados do esforço de avaliação de tratamentos denominado RECOVERY. Foram agrupados dados de oito testes clínicos randomizados sobre uso de corticosteroides para a COVID-19, totalizando 7.184 participantes.

A evidência reunida pelos estudos sugeriu que o uso de corticosteroides sistêmicos reduziu a mortalidade dos pacientes com COVID-19 crítica e severa. Além disso, corticosteroides sistêmicos provavelmente reduzem a necessidade de ventilação mecânica invasiva. Ao contrário, corticosteroides podem aumentar o risco de óbito quando administrados a pacientes sem doença severa.  

São feitas duas recomendações: uma forte recomendação para terapia sistêmica com corticosteroides em pacientes com COVID-19 severa a crítica e uma recomendação de não uso de terapia com corticosteroides em pacientes com COVID-19 leve a moderada.

Dada a evidência de redução no risco de óbito, foi concluído que os pacientes com COVID-19 severa ou crítica possam ser tratados com corticosteroides. Ao contrário, pacientes com COVID-19 não severa não devem escolher receber esse tratamento, já que os dados atuais indicam que eles não iriam se beneficiar.

O documento alerta que o uso indiscriminado de qualquer terapia para a COVID-19 pode escassear os recursos globais, potencialmente privando os pacientes que poderiam se beneficiar do tratamento.

VAMOS SER CONSCIENTES: SE VOCÊ NÃO PRECISA DO MEDICAMENTO, NÃO USE. PODE FAZER FALTA PARA ALGUÉM.

FONTE: Corticosteroids for COVID-19. Living guidance. 2 setembro 2020. World Health Organization. WHO/2019-nCoV/Corticosteroids/2020.1

Disfunção olfativa na COVID-19 pode ser parcial e despercebida pelo paciente.

A disfunção olfativa é comum durante e após infecções virais e está associada com dificuldade de alimentação, depressão e problemas de higiene e segurança. Durante a pandemia de COVID-19, ela tem sido reconhecida como um sintoma inicial e prevalente.  

Os autores brasileiros analisaram 57 pacientes, com diagnóstico de COVID-19 confirmado por RT-PCR, e 36 indivíduos saudáveis (controle). Vinte e três pacientes relataram perda de olfato. Em 17 desses, a perda de olfato foi o primeiro sintoma percebido.

Todos os participantes foram submetidos a um teste denominado Q-SIT, que consiste em cartões descartáveis individuais, cada um com tiras contendo odores microencapsulados (chocolate, banana e cigarro). O teste foi realizado por um médico treinado. Para cada odor, o paciente tinha que escolher entre as alternativas de respostas possíveis ou declarar que não percebia o odor. O escore final era classificado de 0-3, baseado no número de respostas corretas. Microsmia foi definida como uma habilidade olfativa diminuída.

Foram comparados três grupos de participantes: controles saudáveis, pacientes com COVID-19 sem perda olfativa e pacientes com COVID-19 com perda olfativa. Foi observado um efeito gradual com maiores escores de Q-SIT nos controles saudáveis, seguido pelos pacientes com COVID-19 sem perda olfativa e, por último, os com perda olfativa. A maior parte dos indivíduos com COVID-19 com perda olfativa erraram todas as perguntas (escore 0).

Esse estudo evidencia que a disfunção olfativa na COVID-19 é comum e mais prevalente do que os pacientes conseguem perceber. Déficits parciais (microsmia) são frequentes e não são percebidos. Os mecanismos implicados na disfunção olfativa associada à COVID-19 não são bem compreendidos, mas as células epiteliais são ricas no receptor ACE-2, que media a entrada do vírus nas células.  

FONTE: Smell dysfunction in COVID-19 patients: More than a yes-no question. Marco A. Lima, Marcus Tulius T. Silva, Raquel V. Oliveira, Otávio Espíndola, Ana Claudia Leite, Abelardo Araujo. Journal of the Neurological Sciences 418. August 25, 2020. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jns.2020.117107.

Novos tratamentos potenciais para a COVID-19: quanto mais cedo, melhor!

Usualmente, drogas que atuam contra vírus são prescritas nos primeiros dias dos sintomas, mas com o coronavírus as únicas duas drogas eficazes conhecidas (um antiviral chamado remdesivir e esteroides, como a dexametasona) são dadas apenas para pacientes hospitalizados. Essas drogas podem impedir que pessoas seriamente doentes venham a óbito e podem ajudá-las a se recuperem mais rapidamente. Mas seria melhor evitar que as pessoas ficassem doentes. Para isso, várias drogas estão sendo testadas, que poderiam ser prescritas assim que alguém testasse positivo.

Claro que os cientistas estão correndo atrás de uma vacina, mas pode levar meses a anos para que vacinas eficazes estejam disponíveis para todos. Não podemos contar apenas com isso.

Cientistas estão testando uma variedade de drogas que podem ser reposicionadas para lutar contra o coronavírus logo no início das infecções. Nenhuma está comprovada ainda, mas alguns poucos investidores estão financiando esse tipo de pesquisa. Por exemplo, foi financiada uma pesquisa para avaliação da hidroxicloroquina como possível preventivo para pessoas expostas ao vírus. O resultado não demonstrou benefício no uso da droga, mas esses resultados negativos são importantes porque temos que ter dados para dizer “sim” ou “não”, de forma a priorizarmos recursos.

Uma forma de parar o coronavírus é, em primeiro lugar, impedir a sua entrada nas células. Para infectar uma célula, o vírus precisa de uma porta de entrada específica. Estudos recentes sugeriram que o SARS-CoV-2 prefere uma rota de entrada que depende de uma enzima chamada TMPRSS2. Essa enzima cliva a proteína Spike, permitindo que o vírus se funda com a membrana citoplasmática e insira seu material genético na célula. Uma vez lá dentro, o vírus pode se multiplicar.  Em estudos de laboratório, uma droga usada para pancreatite bloqueou a enzima TMPRSS2, mas essa droga ainda tem que ser testada em estudos clínicos.

Uma vez que o vírus entre nas células, ele começa a se multiplicar. Várias drogas interferem com esse processo, incluindo o redemsivir e o favipiravir, uma droga eficaz para a influenza. Essas duas drogas mimetizam os nucleotídeos que constituem o RNA viral, sendo incorporadas no material genético do vírus e impedindo a sua multiplicação.

Resultados dos testes com essas drogas serão conhecidos em breve. Se forem promissores, testes clínicos mais amplos serão realizados para estabelecer a sua real eficácia.

FONTE: New treatments aim to treat COVID-19 early, before it gets serious. Tina Hesman Saey. Science News. 24 agosto 2020. https://www.sciencenews.org/article/coronavirus-covid-19-new-early-treatments