Saliva é promissora para a detecção de SARS-CoV-2 durante os estágios iniciais da infecção.

O teste diagnóstico é crucial para suprimir a disseminação de COVID-19 em pessoas com sintomas de doença respiratória, bem como em indivíduos expostos assintomáticos e em pacientes convalescentes que ainda podem ser infecciosos. O padrão-ouro atual é o RT-PCR usando amostra obtida por suabe de nasofaringe, uma metodologia de amostragem desconfortável para o paciente. A saliva é um espécime alternativo atraente porque o paciente pode coletá-la de forma não invasiva. As partículas de SARS-CoV-2 na saliva podem resultar da migração de células infectadas para o trato respiratório inferior e superior ou de infecção da cavidade oral, principalmente da língua. O RT-PCR baseado em amostras de suabe de nasofaringe é bem estabelecido, porém pouco se sabe sobre a condição ideal para testar a saliva.

O conhecimento sobre a sensibilidade dos testes de diagnóstico na saliva ao longo do curso da infecção pode ser útil para adotar este biofluido como uma amostra alternativa e para abordar o potencial de transmissão do vírus por pessoas infectadas. Embora a saliva seja uma opção atraente como amostra para a detecção de SARS-CoV-2, várias questões metodológicas devem ser sistematicamente exploradas antes que possa ser usada na clínica. Neste estudo, as alterações na capacidade da saliva de relatar a presença do vírus SARS-CoV-2 foram avaliadas em função das condições de armazenamento da amostra, condições da boca e evolução da infecção.

Todos os participantes foram positivos no RT-PCR de suabes de nasofaringe. Alíquotas de amostras de saliva de dois participantes foram analisadas no dia da coleta e após armazenamento por até 2 dias em temperatura ambiente, na geladeira ou freezer para testar a estabilidade do RNA viral na saliva durante 48 h após a coleta, mostrando que houve preservação do genoma viral (RNA viral). Atualmente, a presença do vírus é direcionada pela detecção de seu genoma, embora isso não signifique, necessariamente, a presença de partículas virais infectantes ativas. No entanto, a estabilidade das partículas virais é desejável para testes de diagnóstico porque relaxa as condições de armazenamento e transporte para o laboratório.

Os resultados demonstraram que, para amostras com valores de RT-PCR dentro da faixa de resultados positivos, o genoma viral é estável por 2 dias se mantido em temperatura ambiente, na geladeira ou após ciclo de congelamento e descongelamento. Essas condições cobrem os tipos mais comuns de armazenamento e transporte de amostras clínicas. A atividade da RNase da saliva (enzima que degrada o RNA) não atinge o genoma viral, sugerindo a presença de partículas virais intactas nas diferentes temperaturas testadas.

Um dos aspectos a se considerar ao usar a saliva como amostra é se as primeiras salivas da manhã são melhores do que as coletadas a qualquer hora do dia e se as perturbações na cavidade oral (ex: escovação dos dentes) afetam a sensibilidade do ensaio. Portanto, a presença do vírus foi comparada entre as amostras da primeira saliva pela manhã e aproximadamente 15 minutos após o café da manhã e escovação dos dentes. Os resultados indicaram que a primeira saliva da manhã é tão boa para detecção do vírus quanto a obtida 15 min após o café da manhã e escovação dos dentes. Este resultado apoia a noção de que a saliva é um biofluido robusto para o diagnóstico de COVID-19, embora não seja 100% confiável.

Em dois relatos da literatura sobre detecção de SARS-CoV-2 na saliva de crianças, o vírus se tornou indetectável entre os dias 8 e 10 após o início dos sintomas, enquanto ainda era detectável pelo suabe de nasofaringe. Esses resultados são consistentes com a ideia de que a saliva pode ser uma boa opção para o diagnóstico de COVID-19 apenas durante os estágios iniciais da infecção.

FONTE: Saliva as a promising biofluid for SARS-CoV-2 detection during the early stages of infection. Briceida López-Martínez, Ana L. Guzmán-Ortiz, Abraham J. Nevárez-Ramíre, Israel Parra-Ortega, Víctor B. Olivar-López, Tania Ángeles-Floriano, Armando Vilchis-Ordoñez, Héctor Quezada. Bol Med Hosp Infant Mex. 2020;77(5):228-233. DOI: 10.24875/BMHIM.20000204.

COVID-19 de longo prazo: danos a múltiplos órgãos em pacientes de baixo risco.

COVID-19 representa uma convergência de doença infecciosa, doenças pré-existentes não relatadas e determinantes sociais de saúde, sendo considerada uma “sindemia”. As pesquisas têm focado na fase aguda da infecção pelo vírus SARS-CoV-2 em pacientes hospitalizados e indivíduos que foram a óbito, mas é claro que a COVID-19 tem sintomas múltiplos e efeitos de longo prazo. Apesar disso, a “COVID de longo prazo” não é bem definida, parcialmente por causa do desconhecimento sobre a sua patofisiologia.

Os autores deste trabalho, publicado na forma de preprint (ainda não avaliado para publicação em uma revista científica), estudaram indivíduos de baixo risco, avaliando sintomas, exames de imagem por ressonância magnética de múltiplos órgãos e marcadores inflamatórios após três meses do diagnóstico de COVID-19. O funcionamento dos órgãos foi avaliado por meio de questionários preenchidos pelos pacientes, exames de sangue e ressonância magnética.

Foram encontrados três principais achados: (1) Em indivíduos jovens, largamente sem fatores de risco, doenças pré-existentes ou hospitalização, foi encontrado um peso significativo dos sintomas e evidência de danos ao coração, pulmões, fígado e pâncreas; (2) Nem os sintomas nem os exames de sangue são preditores de danos a órgãos ou hospitalização; e  (3) Danos cardíacos (miocardite e disfunção sistólica) e pulmonares tiveram prevalências similares em indivíduos de baixo risco que apresentaram COVID-19 de longo prazo. Alguns sintomas podem persistir por quatro meses após a infecção, particularmente fadiga, dificuldade em respirar, mialgia, dor de cabeça e artralgia (dor nas articulações).

Apesar dos autores descreverem danos leves aos órgãos, a escala da pandemia e as taxas de infecção altas em indivíduos de baixo risco sugerem um impacto em médio e longo prazo da COVID-19 que não pode ser ignorado. Os achados sinalizam para a necessidade de monitoramento e acompanhamento dos pacientes, principalmente em relação às sequelas extrapulmonares. Enquanto a procura por vacinas e tratamentos eficazes para a COVID-19 continua, as consequências da infecção pelo SARS-CoV-2 em múltiplos órgãos reforçam a importância primordial do distanciamento social, uso de máscaras, isolamento físico e outras medidas não farmacológicas de controle da infecção.

FONTE: Multi-organ impairment in low-risk individuals with long COVID. Andrea Dennis, Malgorzata Wamil, Sandeep Kapur, Johann Alberts, Andrew Badley, Gustav Anton Decker, Stacey A Rizza, Rajarshi Banerjee, Amitava Banerjee. medRixv 16 outubro 2020 doi: https://doi.org/10.1101/2020.10.14.20212555.

A Pandemia COVID-19 como uma oportunidade para promover o desenvolvimento sustentável do ensino no ensino superior.

A pandemia da COVID-19 é uma preocupação mundial e um tópico que está frequentemente presente nas agendas de pesquisa atuais de laboratórios, instituições de ensino superior (IES) e Instituições de desenvolvimento. Algumas das medidas de contenção da pandemia impactaram o ensino superior, notadamente a suspensão das aulas presenciais e do apoio tutorial aos alunos. As atividades de ensino e aprendizagem estão agora muito mais desenvolvidas via Internet, as IES estão utilizando suas plataformas específicas de Internet (por exemplo, Moodle) ou outras ferramentas online, como Zoom ou Google Sala de Aula, por exemplo, e o e-learning tornou-se, em muitos deles, o único modo possível de aprendizagem formal. Esse pode ser um momento crucial de oportunidade para a reformulação do ensino superior, notadamente com a implantação, desenvolvimento e disseminação das tecnologias digitais.

Um estudo usando uma amostra de 30.383 alunos de 62 países concluiu que os estudantes estão globalmente satisfeitos com a transição do ensino presencial para o online e com o apoio que receberam de seus professores ao longo desse processo. No lado negativo, os alunos mencionaram a falta de competências digitais e a percepção de maior carga horária.

A literatura mais recente sobre os temas COVID-19 e as consequências da pandemia nos processos educacionais é unânime em defender que as IES têm um papel preponderante na promoção do ensino a distância por meio do uso de ferramentas digitais. Embora este contexto turbulento represente muitos obstáculos e desafios para o processo de aprendizagem e ensino, também deve ser visto como uma oportunidade de mudança. Mais do que nunca, os métodos tradicionais de ensino e aprendizagem estão mudando para acomodar as novas necessidades educacionais. Embora professores e alunos não tenham tido muito tempo para se preparar para essa mudança e muitos estejam lutando para acompanhar o ritmo, a mudança para o e-learning ou b-learning (ensino híbrido) é inevitável.

Com o fechamento dos campi das IES em escala global e a mudança de todo o aprendizado, ensino e avaliação dos modos tradicionais de entrega presencial para ensino e aprendizagem online, as IES enfrentaram e ainda enfrentam o grande desafio de adaptar e reformular suas estratégias, técnicas e ferramentas educacionais. Para muitos deles, este pode ser o teste final de sua capacidade de sobreviver e lutar em meio a esses tempos turbulentos.

O ensino superior precisa, no contexto da pandemia COVID-19, se reinventar. No atual cenário desafiador causado pela pandemia COVID-19, a resposta para a questão da determinação do papel fundamental da educação pode ser que todo o sistema educacional, e especificamente o de ensino superior, precisa se engajar e se comprometer com um processo transformacional. A educação deve questionar seu próprio papel nestes tempos difíceis, notadamente na promoção de uma sociedade justa, equitativa e sustentável para todos.

FONTE: The COVID-19 Pandemic as an Opportunity to Foster the Sustainable Development of Teaching in Higher Education. Maria José Sá, Sandro Serpa. Sustainability; 12(20):8525, 2020.

Por quanto tempo um vírus pode permanecer em um corpo morto? Parte 6.

Sexta e última parte da série de posts baseados na entrevista concedida pelo virologista americano Matthew Koci, professor do Departamento de Ciência Avícola da Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA. A entrevista completa pode ser vista aqui.

Pergunta: Há mais alguma coisa em particular que você acha que vale a pena observar para o público em geral no campo mais amplo de pesquisa em vírus históricos?

Koci: A natureza nos avisou que algo estava por vir. H5N1, SARS, H1N1 e MERS foram todos disparos de advertência. Muitas pessoas têm tocado o alarme há anos, mas a preparação para uma pandemia é difícil de vender. Quando funciona, nada acontece e parece que você desperdiçou todo o dinheiro investido.

As lições que estamos aprendendo hoje com o COVID-19 se baseiam nas lições que aprendemos com a gripe de 1918. Não somos o predador de ponta que pensamos ser. Um organismo 750 vezes menor que a largura de um cabelo humano pode causar estragos em nós capazes de rivalizar com a maioria das guerras, e a cada duas gerações a natureza libera um desses apenas para nos lembrar quem manda.

Dito isso, no final do dia, vamos vencer. A abordagem colaborativa sem precedentes, “todas as mãos no convés”, de cientistas de todo o mundo está trazendo recursos para essa luta de maneiras que eram inimagináveis ​​até sete ou oito meses atrás. Vamos desenvolver terapias e vacinas contra isso, e vamos fazer isso mais rápido do que nunca. Só espero que as lições que todos aprendemos, não apenas os cientistas, permaneçam conosco por um tempo. Nesse caso, estaremos muito mais bem preparados da próxima vez que a Mãe Natureza tentar nos matar.

ESTAMOS REAPRENDENDO VÁRIAS LIÇÕES SOBRE NOSSA INTERAÇÃO COM VÍRUS INFECCIOSOS. MAS NÃO PERCAM A ESPERANÇA: ESTAMOS NO CAMINHO CERTO.

FONTE: Quanto tempo os vírus podem sobreviver em um corpo morto? Matt Shipman, North Carolina State University. https://medicalxpress.com/news/2020-05-viruses-survive-dead-body.html. 21 DE MAIO DE 2020.

Por quanto tempo um vírus pode permanecer em um corpo morto? Parte 5.

Quinta parte da série de posts baseados na entrevista concedida pelo virologista americano Matthew Koci, professor do Departamento de Ciência Avícola da Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA. A entrevista completa pode ser vista aqui.

Pergunta: Por que pesquisadores iriam querer ressuscitar o vírus da gripe de 1918?

Koci: Até o surgimento do COVID-19, a maioria das pessoas esperava que a próxima pandemia fosse causada por outro vírus da gripe. Olhando para trás ao longo da história, tivemos uma pandemia de gripe a cada 30 anos ou mais. Todo mundo sabe sobre o grande problema em 1918, e temos certeza de que um aconteceu em 1890, mas também tivemos a gripe asiática em 1957-58 e a gripe de Hong Kong em 1968-69. Portanto, no final da década de 1990, a maioria dos virologistas estava começando a se preparar para a próxima pandemia de gripe. Tínhamos sistemas de vigilância e vacinas, então presumimos que estávamos mais bem preparados, mas a pandemia de 1918 foi muito pior do que qualquer outra desde então e não sabíamos por quê.

Então, em 1997, surgiu a gripe aviária H5N1. Embora fosse devastador para as aves, também era capaz de infectar e matar pessoas. Nunca tínhamos visto um vírus da gripe saltar direto dos pássaros para as pessoas. Poderia ter sido assim que 1918 começou? Poderia haver pistas no vírus de 1918 que nos diriam o que procurar em novas cepas de gripe que nos dariam um alerta precoce de uma nova cepa pandêmica?

Assim, o vírus de 1918 foi ressuscitado para tentar entender o que tornou aquela pandemia pior do que outras, na esperança de nos ajudar a estar mais bem preparados para a próxima.

Esse trabalho durou cerca de oito anos. Com todo esse tempo e esforço, a maior lição que aprendemos foi que a Mãe Natureza não revela seus segredos tão facilmente. A esperança era que houvesse alguma luz vermelha piscando gritando “olhe para mim!” para explicar por que o vírus de 1918 foi tão mortal. Mas a verdadeira resposta é mais complicada do que isso. Não existe uma série de eventos ou mudanças que possam dar origem a uma nova cepa pandêmica; é a coleção de várias mudanças diferentes reunidas na combinação certa (ou errada).

Mas ainda aprendemos muito e várias dessas lições parecem que estamos reaprendendo agora. O vírus veio de pássaros, mas passou um tempo evoluindo para infectar humanos em algum outro animal. O que era aquele hospedeiro intermediário ou quanto tempo levou para infectar as pessoas e se espalhar de pessoa para pessoa, não sabemos, mas era claramente diferente de outros vírus para que nosso sistema imunológico não estivesse preparado.

Aprendemos que as mudanças na proteína que a gripe usa para entrar em nossas células (proteína HA) funcionavam de maneira diferente da maioria dos outros vírus da gripe e, se movêssemos apenas esse gene para cepas de gripe sazonal, eles se tornariam mais virulentos. No entanto, se substituíssemos o gene HA do vírus de 1918 pelo HA da gripe sazonal e deixássemos todos os outros genes de 1918 iguais, 1918 era igualmente virulento, independentemente do gene HA que tivesse. Portanto, o gene HA desempenha um papel, mas não é o único que explica a virulência do vírus de 1918.

No final das contas, a lição aprendida, ou melhor, acho que a lição que deveríamos aprender foi: pare de esperar que a natureza cuspa uma nova cepa viral para correr para fazer uma vacina contra ela. Aprendemos que realmente precisamos de uma vacina universal contra a gripe, uma vacina que proporcione proteção a todas as cepas da gripe, não importa o que a natureza decida nos aplicar. Também aprendemos que precisamos de mais armas do que apenas vacinas. Precisamos de mais antivirais, projetados para atingir todas as diferentes partes dos vírus. E não apenas o vírus da gripe, mas todos os vírus que pensamos ter potencial pandêmico.

Fizemos progresso nessas lições. Ainda não existe uma vacina universal contra a gripe no mercado, mas há várias nos estágios finais de teste que parecem promissoras. Além disso, temos mais alguns medicamentos antivirais hoje do que há 20 anos, mas claramente não o suficiente para estarmos prontos para a a atual pandemia de COVID-19.

SERÁ QUE VAMOS CONSEGUIR VENCER A COVID-19? NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO AMANHÃ…

FONTE: Quanto tempo os vírus podem sobreviver em um corpo morto? Matt Shipman, North Carolina State University. https://medicalxpress.com/news/2020-05-viruses-survive-dead-body.html. 21 DE MAIO DE 2020.

Por quanto tempo um vírus pode permanecer em um corpo morto? Parte 4.

Quarta parte da série de posts baseados na entrevista concedida pelo virologista americano Matthew Koci, professor do Departamento de Ciência Avícola da Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA. A entrevista completa pode ser vista aqui.

Pergunta: Podemos identificar vírus em vestígios de décadas ou séculos atrás, com base em DNA ou RNA identificável (em vez de fazer um diagnóstico com base em sintomas físicos)?

Koci: A resposta curta aqui é sim. O vírus mais antigo que conheço que conseguimos detectar foi encontrado em um dente de 7.000 anos. Os pesquisadores foram capazes de detectar e sequenciar todo o genoma do vírus da hepatite B (HBV) neste dente antigo. O HBV tem um genoma de DNA em vez de um genoma de RNA (coronavírus, vírus da influenza e vírus Ebola têm genomas de RNA).

O genoma viral pode ser feito de RNA ou DNA. Como molécula, o DNA é muito mais estável no ambiente e, aparentemente, pode sobreviver em um dente por milhares de anos. É improvável que sejamos capazes de detectar vírus de RNA, como o do novo coronavírus, há tanto tempo, mas, dependendo do que aconteceu com o corpo da pessoa quando morreu, talvez. Se a pessoa foi embalsamada, congelada ou se os tecidos foram coletados em uma autópsia, poderíamos usá-los para identificar ou mesmo diagnosticar vírus.

Por exemplo, a última grande pandemia – a pandemia de influenza de 1918 – veio em um momento antes mesmo de sabermos que os vírus existiam. Foi só na década de 1930 que descobrimos o que eram os vírus, mas então esse vírus em particular havia desaparecido. Como não sabíamos o que era na época, as amostras não foram coletadas ou armazenadas de uma forma que as tornasse úteis mais tarde. Assim, durante décadas, ficamos especulando o que pode ter sido tão diferente no vírus de 1918 das cepas de influenza que vieram depois dele. Isso foi até o final da década de 1990, quando pesquisadores encontraram amostras de tecido preservadas de soldados que morreram de sintomas semelhantes aos da pneumonia durante a pandemia. Foram desenvolvidos métodos para extrair RNA dessas amostras de tecido (algo que as pessoas não achavam possível na época). Ao longo de vários anos, esses pesquisadores foram capazes de reunir todo o genoma do vírus influenza de 1918 – e eles usaram isso para ressuscitar esse vírus extinto.

POR QUE CIENTISTAS IRIAM RESSUSCITAR MONSTROS? NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO AMANHÃ…

FONTE: Quanto tempo os vírus podem sobreviver em um corpo morto? Matt Shipman, North Carolina State University. https://medicalxpress.com/news/2020-05-viruses-survive-dead-body.html. 21 DE MAIO DE 2020.

Por quanto tempo um vírus pode permanecer em um corpo morto? Parte 3.

Terceira parte da série de posts baseados na entrevista concedida pelo virologista americano Matthew Koci, professor do Departamento de Ciência Avícola da Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA. A entrevista completa pode ser vista aqui.

Pergunta: Por quanto tempo seria possível detectar um vírus em um cadáver? Por exemplo, seríamos capazes de examinar restos mortais de animais ou humanos daqui a 10 anos para estimar melhor o impacto da COVID-19?

Koci: A maioria dos dados que temos sobre a sobrevivência do SARS-Cov-2 é, na verdade, de um teste de laboratório chamado reação em cadeia da polimerase por transcriptase reversa, ou RT-PCR, para abreviar. Este teste de laboratório detecta a presença do genoma do vírus. Os genomas estarão lá independentemente de o vírus ainda poder infectar você ou não. Se você fez o teste, ou viu um vídeo de pessoas recebendo o cotonete nasal, esse cotonete coleta amostras para o teste RT-PCR.

O teste RT-PCR nos diz se o vírus está lá. No início da infecção e durante o tempo em que você se sente péssimo, a suposição é (e é uma suposição realmente segura) que, se você for positivo no RT-PCR, você está infectado e muito provavelmente contagioso para outras pessoas. Em algum ponto após a recuperação, você ainda será positivo para o vírus por RT-PCR, mas pode não ser mais contagioso. Isso ocorre porque algumas das partes do vírus detectadas podem ser apenas estilhaços de vírus remanescentes da guerra travada entre o sistema imunológico e o vírus.

Não temos nenhum dado sobre o SARS-CoV-2 no que se refere a cadáveres, mas podemos olhar para exemplos de outros vírus novamente. Normalmente, se o vírus infeccioso é detectado por dias a semanas, o genoma do vírus pode ser detectado por meses a anos. Um estudo que analisa por quanto tempo o vírus Ebola pode sobreviver após a morte pode detectar o vírus infeccioso 10 dias após a morte, mas ainda detecta o genoma do vírus 10 semanas depois.

SERÁ POSSÍVEL IDENTIFICAR VÍRUS EM CADÁVERES DE DÉCADAS OU SÉCULOS ATRÁS? NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO AMANHÃ…

FONTE: Quanto tempo os vírus podem sobreviver em um corpo morto? Matt Shipman, North Carolina State University. https://medicalxpress.com/news/2020-05-viruses-survive-dead-body.html. 21 DE MAIO DE 2020.

Por quanto tempo um vírus pode permanecer em um corpo morto? Parte 2.

Continuando a uma série de posts baseados na entrevista concedida pelo virologista americano Matthew Koci, professor do Departamento de Ciência Avícola da Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA. A entrevista completa pode ser vista aqui.

Pergunta: Você já mencionou que o SARS-CoV-2 – o vírus que causa o COVID-19 – é um vírus envelopado. Nós sabemos quanto tempo o SARS-CoV-2 pode permanecer viável em um cadáver?

Koci: Não vi nenhum estudo específico sobre isso. Existem poucos laboratórios em todo o mundo com o nível de segurança para trabalhar com este vírus e agora todos estão focados em fazer vacinas ou tentar encontrar medicamentos antivirais que possam funcionar.

No entanto, podemos fazer algumas suposições baseadas no que sabemos de outros vírus. Muito do que sabemos sobre a sobrevivência do vírus nos corpos vem de animais usados como alimento. Em estudos que examinaram como a gripe aviária (vírus da gripe aviária, um vírus envelopado) sobrevive em carcaças de frango, 90% das partículas virais foram inativadas em cerca de 15 dias, quando a carcaça foi deixada em temperatura ambiente. Mas se a carcaça foi mantida em temperatura de geladeira (4ºC), o vírus durou 4,5 vezes mais – isso é, mais de dois meses.

Esse período de 15 dias em temperatura ambiente era para testes de busca do vírus no músculo nas carcaças. O tempo de inativação de 90% foi em torno de 10 dias nas penas e menos de um dia no fígado, em temperatura ambiente. Esses tempos diferentes em tecidos diferentes são esperados. Conforme o corpo se decompõe após a morte, as células de diferentes tecidos se desfazem e as enzimas digestivas dentro dessas células se derramam. Como uma das funções do fígado é filtrar e desintoxicar, ele tem muito mais enzimas do que outros tecidos. Portanto, quando as células do fígado se rompem, essas enzimas podem acabar inativando o vírus. O músculo, entretanto, tem relativamente menos enzimas do que o fígado, mas ainda é interno, o que ajuda a manter o vírus em temperatura e umidade constantes por um longo período de tempo.

Também é importante lembrar que, embora 90% pareça muito, você deve ter em mente que os vírus fazem muitas cópias de si mesmos. Não é incomum que os vírus façam bilhões, senão trilhões de cópias. Portanto, se levar 15 dias em temperatura ambiente para 90% do vírus ser inativado e você tiver 1.000.000 vírus lá, pode levar até 105 dias para que todo o vírus desapareça. Portanto, é mais do que apenas uma ou duas semanas.

QUER SABER MAIS SOBRE POR QUANTO TEMPO UM VÍRUS PODE SER DETECTADO EM UM CADÁVER? NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO AMANHÃ…

FONTE: Quanto tempo os vírus podem sobreviver em um corpo morto? Matt Shipman, North Carolina State University. https://medicalxpress.com/news/2020-05-viruses-survive-dead-body.html. 21 DE MAIO DE 2020.

Por quanto tempo um vírus pode permanecer em um corpo morto? Parte 1.

As pessoas podem ficar doentes por desenterrar corpos com décadas de idade? Ou poderiam os futuros cientistas obter mais informações sobre COVID-19 examinando restos mortais de um século a partir de agora? Para responder perguntas como estas, preparamos uma série de posts baseados em uma entrevista concedida pelo virologista americano Matthew Koci, professor do Departamento de Ciência Avícola da Universidade Estadual da Carolina do Norte, EUA. A entrevista completa pode ser vista aqui.

Pergunta: Por quanto tempo os vírus em um corpo morto representam um perigo biológico? Por exemplo, os restos desenterrados de um animal ou humano representariam uma ameaça biológica (por causa de um vírus) após uma semana? Um mês? Um ano? Um século? Isso varia de vírus para vírus?

Matt Koci: Infelizmente a resposta depende de muitos fatores. Provavelmente, o maior fator é o tipo de vírus. De que é feito o seu vírion? Para que um vírus mova seu genoma de uma célula para outra, ele precisa de proteção ambiental. Uma maneira de obter essa proteção é o vírus envolver seu genoma com uma membrana de bicamada lipídica. Esses vírus são chamados de vírus envelopados, porque estão nesses “envelopes” de membrana. As partículas virais dos vírus envelopados tendem a ser menos capazes de sobreviver no ambiente em comparação com os vírus não envelopados. Os vírus envelopados são mais propensos a secar e são sensíveis a muito mais desinfetantes do que os vírus não envelopados. É por isso que lavar as mãos com sabão simples é eficaz contra vírus como o vírus da gripe e coronavírus (que são vírus envelopados), mas o sabão não funciona com vírus não envelopados.

A composição do vírus é, provavelmente, o maior problema que afeta por quanto tempo ele pode durar e ainda ser um perigo para outras pessoas. Mas não é o único fator. A temperatura e a umidade de onde o corpo está, onde o vírus está localizado no corpo, a quantidade de vírus que existe quando a pessoa morreu, o processo de sepultamento e a profundidade de sepultamento do corpo influenciam por quanto tempo o vírus está associado ao corpo pode representar um risco.

A boa notícia para nós é que, ao contrário das bactérias que podem crescer sozinhas, os vírus precisam estar dentro das células vivas para se replicar. Portanto, quando o corpo morre, o vírus não consegue mais se replicar; é apenas uma questão de quanto tempo levará para que todos os vírus existentes não sejam mais infecciosos.

CURIOSO PARA SABER MAIS? NÃO PERCA A CONTINUAÇÃO AMANHÃ…

FONTE: Quanto tempo os vírus podem sobreviver em um corpo morto? Matt Shipman, North Carolina State University. https://medicalxpress.com/news/2020-05-viruses-survive-dead-body.html. 21 DE MAIO DE 2020.

Hábito de evitar sair de casa por causa da COVID-19 pode diminuir infecção por influenza no Japão.

Há um medo mundial da coinfecção com o vírus da influenza e o SARS-CoV-2. Desde o início da COVID-19 no Japão, medidas para impedir a transmissão do novo coronavírus, como o uso de máscaras, lavagem frequente das mãos, distanciamento social, permanecer em casa e cancelamento de grandes eventos, são amplamente promovidas.

Em Tóquio, o número de doenças infecciosas sazonais, como a influenza, foi menor em 2019-2020 do que a média dos anos precedentes. Autores japoneses examinaram se as medidas acima citadas influenciaram a incidência de doenças infecciosas sazonais. Foi visto que um decréscimo na taxa de uso de máscaras e aumento na taxa de saída das pessoas de casa influenciou o aumento do número de pessoas infectadas pelo vírus da influenza.

Na era da COVID-19, durante o estado de emergência no Japão (7 de abril a 25 de maio), o número de pessoas que saiu de casa diminuiu mais de 25% em comparação com o período anterior à COVID-19. Já em setembro de 2020, esse número diminuiu até 59%. Se, durante a epidemia de influenza, o número de pessoas que saem de casa for reduzido a 60%, o número de pessoas infectadas com o vírus influenza pode diminuir a 36% em comparação com a média anual. Evitar sair de casa pode atuar fortemente como um efeito preventivo contra a influenza.

FONTE: COVID-19 era, preventive effect of no going out against co-infection of the seasonal influenza virus and SARSCoV-2. Takuma Hayashi, Nobuo Yaegashi,  Ikuo Konishi. medRxiv preprint doi:https://doi.org/10.1101/2020.09.27.20202739