Redigido por Alessandra Pastor Beraldo, Ana Paula da Silva Wives, Bruna Lise Tusset, Felipe Acker Gomes e Iago Mocelin da Silva, bacharelandos em Biotecnologia na UFRGS
Revisado por Dra. Patricia Valente, Professora Titular do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS
Quem nunca ficou com fome e, na hora de montar um sanduíche, encontrou um pão bem mais colorido do que esperava? É, aquele pão velho na cozinha que acabou “apodrecendo” depois de algum tempo guardado. Uma mancha verde, né? Você provavelmente diria que seu pão mofou ou embolorou. Mas você sabe o que é esse mofo ou bolor? Ou, melhor ainda, você sabe quem é ele?
Os mofos que crescem em alimentos velhos ou mal conservados são fungos, microrganismos fascinantes que são muito mais importantes e diversos do que você possa imaginar. E as chances são muito altas de ter acertado quem disse Aspergillus. Esse gênero de fungos filamentosos está por todos os lugares: do pão velho escondido no balcão escurinho e quente na cozinha, até o solo das nossas lavouras e voando livre pelo ar que respiramos.
Aspergillus é um gênero de fungos ubíquos, que estão em quase todos os lugares. São importantes decompositores de matéria orgânica (sentimos dizer que seu pão foi só mais um), com um destacado impacto econômico e social. Isso porque os Aspergilli são utilizados pela biotecnologia na fermentação de produtos alimentícios ou na produção de metabólitos, que podem ser antibióticos, ácidos, fármacos e enzimas. Porém eles não são tão queridos assim o tempo todo e o menor problema causado por eles vai ser o bolor em uma comida velha. Algumas espécies de fungos do gênero Aspergillus são patogênicas – ou seja, causam doenças – em humanos e outros animais.
Os esporos dos fungos filamentosos são estruturas germinativas que originarão novos organismos. Eles podem ser levados pelo vento, pelo solo, pela água ou pela intervenção humana. São esses esporos que podem adentrar o organismo infectado e desencadear um crescimento fúngico e a colonização dos tecidos.
As aspergiloses são doenças principalmente do trato respiratório, já que a principal forma de transmissão dessas patologias é a inalação de esporos do fungo. Elas podem assumir diversas configurações, a depender muito da espécie colonizadora e da resposta do organismo infectado. As principais espécies patogênicas desse gênero são o Aspergillus fumigatus e o Aspergillus niger.
Do crescimento de massas fúngicas (chamadas aspergilomas) até sinusites, de alergias a infecções invasivas e sistêmicas, o desenvolvimento de uma aspergilose pode ser letal. Mas deixa nós te contarmos uma coisa: você com certeza já inalou milhares de esporos de Aspergillus enquanto caminhava pelo parque. Lembra que falamos que esses fungos são ubíquos? O que acontece é que para pessoas com o sistema imunológico a todo vapor, uma contaminação ambiental (inalar alguns esporos do fungo já espalhados por aí no meio ambiente) não representa qualquer risco. No máximo, um atchim! aqui e outro lá. As aspergiloses são especialmente perigosas, entretanto, para pessoas imunocomprometidas. Pacientes neutropênicos (com número baixo de neutrófilos, um tipo de glóbulo branco), em tratamento com imunossupressores, com alguma imunodeficiência ou que carregam mutações genéticas que afetam o funcionamento do seu sistema imunológico estão mais em risco para o desenvolvimento de uma aspergilose quando expostos a fungos do gênero Aspergillus (bem como para o desenvolvimento de outras micoses invasivas e oportunistas, como candidemias ou aquelas causadas por fungos da ordem Mucorales).
Sabendo desse risco importante, esses pacientes costumam seguir tratamentos preventivos contra infecções fúngicas, tomando medicamentos fungistáticos ou fungicidas. São, principalmente, aqueles medicamentos terminados em -azol, como o fluconazol, o itraconazol, o voriconazol e por aí vai, além, é claro, de adotar outras medidas profiláticas, como evitar a exposição ao fungo, o uso de máscaras, e a higiene das mãos e dos alimentos.
Falando de medicamentos, imaginamos que você já tenha ouvido falar sobre bactérias resistentes a antimicrobianos. Esse é um problema de saúde cada vez mais grave e preocupante. O surgimento dos antimicrobianos no século passado salvou milhões de vidas, acabando com as mortes por doenças que hoje tratamos com um comprimidinho a cada 12 horas por uma semana. O problema é que, com a falta de educação em saúde, o uso indiscriminado de antimicrobianos pela população, ao menor sinal de um resfriado, acabou selecionando bactérias resistentes a esses medicamentos. Infelizmente, este não é um problema limitado a elas: os fungos também estão cada vez mais resistentes. E nem é só no caso de uma infecção refratária (aquela que parece ter sido curada, mas acaba se manifestando de novo) – pacientes têm sido infectados com fungos resistentes a antimicrobianos sem nunca terem nem passado por esse tipo de terapia.
Sendo microrganismos ubíquos, os Aspergilli também estão no solo das plantações. Eles são fungos saprofíticos, mas não causam grandes problemas às plantas. O problema é que o uso de antifúngicos da classe dos azóis nas lavouras, para combater os fungos fitopatogênicos de verdade, acabou causando mutações no gene cyp51A que os tornaram resistentes aos principais fármacos utilizados para seu controle. Pacientes na clínica já apresentam casos de infecção por essa variante resistente vinda do meio ambiente e os pesquisadores estudam outras rotas metabólicas e outros alvos nos fungos que permitam reverter esse e outros casos de resistência a antimicrobianos.
Mas os Aspergilli não são apenas vilões. São personagens muito mais complexas que também nos trazem diversos benefícios. Veja o Aspergillus niger, por exemplo, que produz altas concentrações de ácido cítrico quando cultivado num meio com açúcares. O ácido cítrico que temos hoje na indústria, ao contrário do que se possa pensar, não vem mais de frutas cítricas, mas sim do A. niger. Essa descoberta, de 1917, antecede o nascimento da indústria de fermentação bioquímica e da biotecnologia industrial e hoje movimenta bilhões de dólares. Isso sem contar os outros diversos produtos biotecnológicos obtidos desta e de outras espécies de Aspergillus.
Na Microbiologia, não podemos separar microrganismos em caixinhas de “bom” ou “mau.” Até mesmo fungos potencialmente patogênicos podem ter aplicações vantajosas à saúde humana. Talvez esse seja um conceito que deveríamos levar para a vida, o de aprender a não categorizar coisas e pessoas em moldes estereotipados… Tá vendo? Hoje você aprendeu microbiologia, resistência de microrganismos a antimicrobianos e uma lição de vida!
Ah, e aqui vai uma última lição super-importante: se o Aspergillus já chegou ao seu pão, não adianta separar as fatias que parecem mofadas e comer o resto. Se forem alimentos líquidos ou moles, então, nem pense nisso! Os esporos e as hifas dos fungos são microscópicos e nem sempre criam essas estruturas bem visíveis – quando você viu o bolor, eles provavelmente já espalharam por todo o alimento. Guardar os alimentos perecíveis na geladeira pode aumentar o seu tempo de vida útil, porque as baixas temperaturas desfavorecem a proliferação de fungos e bactérias (eles também têm preguiça no frio!). Antes de ir embora, dá uma olhada na sua cozinha para ver se não tem uma visita indesejada.
BIBLIOGRAFIA
CADENA, Jose; THOMPSON, George R.; PATTERSON, Thomas F. Aspergillosis: Epidemiology, Diagnosis, and Treatment. Infectious Disease Clinics of North America, [s. l.], v. 35, n. 2, Fungal Infections, p. 415–434, 2021.
CAIRNS, Timothy C.; NAI, Corrado; MEYER, Vera. How a fungus shapes biotechnology: 100 years of Aspergillus niger research. Fungal Biology and Biotechnology, [s. l.], v. 5, n. 1, p. 13, 2018.

