A sazonalidade das doenças virais

Escrito pela Dra Gertrud Rey, Mintz
Traduzido pelo Prof Fabrício Campos, UFRGS

Você já se perguntou por que alguns vírus circulam principalmente no inverno e outros são mais prevalentes no verão? Embora não tenhamos uma resposta clara para essa pergunta, uma combinação de fatores provavelmente é responsável.
Trabalhos realizados com vírus respiratórios sugerem que esses vírus podem ser transmitidos de quatro maneiras: 1) por contato direto com uma pessoa infectada; 2) por contato indireto ao tocar um objeto inanimado contaminado por uma pessoa infectada; 3) pela inalação de grandes gotículas contendo vírus que se espalharam por uma curta distância; e 4) pela inalação de pequenas gotículas contendo vírus que se espalharam por uma longa distância (ou seja, transmissão “aérea”). O mesmo conjunto de estudos também indica que a sazonalidade da transmissão viral é provavelmente influenciada por mudanças no ambiente, mudanças na fisiologia humana e mudanças no comportamento humano, todos os quais afetam a estabilidade e disseminação dos vírus.
Um dos elementos ambientais que influenciam a viabilidade dos vírus respiratórios é a luz ultravioleta (UV), que aumenta em intensidade no verão e geralmente inativa os vírus. Estudos também mostraram que o envelope viral, a camada externa de muitos vírus respiratórios, é mais estável em clima frio e mais propenso a se degradar em temperaturas quentes. No entanto, os principais fatores ambientais para a natureza sazonal dos vírus respiratórios são a temperatura e a umidade absoluta. A umidade absoluta é uma medida da quantidade exata de vapor de água em um certo volume de ar (expressa em gramas de água por metro cúbico de ar) e é independente da temperatura. Essa característica diferencia a umidade absoluta da umidade relativa, que é uma proporção (expressa em porcentagem) da umidade absoluta para a quantidade de vapor de água que pode existir no ar à temperatura atual. Quando o ar está quente e a umidade absoluta é alta, as gotículas respiratórias expelidas tendem a cair no chão ou a se depositar em objetos inanimados próximos. Em contraste, o ar frio e seco faz com que as gotículas evaporem parcialmente e formem partículas de aerossol menores que permanecem suspensas por mais tempo, flutuam para mais longe e, portanto, têm mais probabilidade de serem inaladas por outra pessoa. As mudanças sazonais na umidade absoluta, marcadas por níveis altos no verão e baixos no inverno, tanto em ambientes internos quanto externos, são opostas aos padrões sazonais de circulação dos vírus influenza, coronavírus e vírus sincicial respiratório, que atingem o pico de infecção no inverno e diminuem no verão. Essa correlação inversa sugere que a umidade absoluta é um fator-chave na transmissão geral desses vírus.
No entanto, a correlação entre umidade absoluta e incidência de infecção não explica a circulação de infecções por vírus respiratórios em regiões tropicais, onde ocorre continuamente, mesmo que tanto a umidade absoluta interna quanto externa permaneçam altas o ano todo. A explicação mais provável para essa disparidade é que a transmissão nessas regiões ocorre principalmente por contato direto e/ou indireto entre indivíduos. A alta umidade absoluta provavelmente faz com que as gotículas expelidas se depositem em superfícies próximas, onde evaporam menos água do que sob condições secas, mantendo assim as partículas virais estáveis até serem captadas pela próxima pessoa.
Mudanças na fisiologia humana também podem alterar a taxa de infecção, suscetibilidade e gravidade da doença. Os dias mais curtos de inverno levam a baixos níveis de vitamina D e melatonina, ambos gerados por uma cascata de reações enzimáticas que requerem exposição à luz solar. Essa deficiência compromete certas respostas imunes inatas, como a ativação de macrófagos, o que por sua vez diminui a capacidade de uma pessoa de combater uma infecção viral.
As mudanças sazonais também são marcadas por mudanças no comportamento humano, que podem afetar ainda mais a frequência de contato entre indivíduos infectados e não infectados. No inverno, as pessoas passam mais tempo dentro de casa, onde a transmissão viral é mais provável, já que entram em contato próximo com indivíduos infectados. O início do ano escolar também normalmente coincide com um aumento na incidência de infecções respiratórias entre as crianças, que frequentemente são seguidas pela transmissão para os membros de suas famílias.
Enquanto isso, muitos vírus que se espalham pela rota fecal-oral predominam no verão. Existem várias razões para esse fenômeno. Antes da introdução das vacinas contra o poliovírus, as infecções pelo poliovírus frequentemente ocorriam no verão, porque crianças e adultos se reuniam em piqueniques onde consumiam alimentos frios e crus, que, em comparação com alimentos cozidos, têm mais probabilidade de estar contaminados com vírus provenientes de fezes. Muitos surtos também se originavam em piscinas públicas com água inadequadamente tratada. Da mesma forma, enterovírus como o vírus da doença mão-pé-boca também circulam mais durante o verão, mas a razão para isso é menos clara. É possível que um mecanismo de interferência entre diferentes vírus, no qual a infecção por um primeiro vírus reduz a probabilidade de infecção por outro vírus, faça com que um grupo de vírus predomine durante uma estação.
Obviamente, você ainda pode ser infectado com um vírus “de inverno” durante os meses de verão, e vice-versa. Lavar as mãos frequentemente é o método mais eficaz para prevenir infecções por qualquer vírus e, com base no que sabemos, o uso de um umidificador em sua casa pode reduzir suas chances de ser infectado por um vírus respiratório.

Original está disponível em: https://virology.ws/2023/08/03/why-do-some-viruses-have-a-seasonal-cycle/

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