Redigido por Bianca S Santos e Raul S Batista, graduandos em Ciências Biológicas UFRGS
Revisado por Dra. Patricia Valente, Professora Titular do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS
A evolução da vida na Terra é marcada por diversas mudanças decorrentes de uma série de eventos, tanto geológicos, quanto biológicos, que alternam constantemente a maneira como os organismos vivem e interagem. Algumas relações entre os indivíduos foram essenciais para que a vida se estabelecesse da maneira como conhecemos atualmente. Cada interação biológica gera um efeito, que nem sempre é benéfico aos indivíduos envolvidos.
As relações simbióticas, que estão relacionadas ao termo “viver junto”, ocorrem entre indivíduos de diferentes espécies e têm como efeito um benefício mútuo. Um exemplo clássico de simbiose são as micorrizas, um tipo de associação entre fungos e raízes de determinadas plantas. As micorrizas auxiliaram não só na evolução direta dos organismos dos reinos Fungi e Plantae, mas também de todos os outros organismos que os utilizam para subsistência. Essa importância filogenética das associações entre fungos e plantas foi comprovada através de diversos estudos. Atualmente se estima que 65% de todas as plantas terrestres apresentam tais associações, totalizando aproximadamente 90% das plantas vasculares conhecidas. Tais números evidenciam o impacto dessa simbiose no desenvolvimento direto desses organismos.
Nessa associação, os fungos podem se relacionar com a planta de duas maneiras: as endomicorrizas e as ectomicorrizas. No primeiro caso, as estruturas dos fungos, denominadas de hifas, adentram no interior de células das raízes, formando estruturas denominadas de arbúsculos. As endomicorrizas estão presentes em aproximadamente 80% das plantas vasculares e englobam fungos do filo Glomeromycota. Já as ectomicorrizas, que incluem organismos fúngicos dos filos Basidiomycota e Ascomycota, interagem a partir da parede das células, sendo encontradas majoritariamente em ambientes temperados.
Os efeitos fisiológicos gerados a partir dessa associação são notórios, tanto para as plantas, quanto para os fungos. Com relação à planta, a associação com o fungo aumenta a superfície de contato das suas raízes com o solo, o que otimiza a obtenção de nutrientes, principalmente aqueles pouco móveis, como o fosfato, nitrogênio e cobre. Além disso, alguns experimentos demonstraram que as micorrizas aumentam a tolerância vegetal à seca e a ataques de patógenos, sendo, então, fundamentais para a construção de agregados, que previnem a erosão do solo e auxiliam na infiltração de água e ar. Já os fungos, recebem carboidrato e vitaminas essenciais para o seu desenvolvimento, podendo totalizar até 20% de toda a produção daquele indivíduo vegetal.
As micorrizas ocorrem nos mais diversos ecossistemas terrestres. Essa relação simbiótica apresenta enormes possibilidades para a exploração comercial, seja com objetivo de aumentar a produção de madeira, fibras e alimentos, ou ainda reduzir os custos financeiros e o impacto no meio ambiente causados pela agricultura. Para tal, ainda são necessárias mais pesquisas, porém, já se sabe da importância e do potencial das micorrizas como auxiliadores na recuperação de áreas impactadas. Por todos esses motivos, as micorrizas têm uma forte expressão ecológica e devem ser colocadas em maior evidência no meio científico.
REFERÊNCIAS:
Bonfante, P. & Genre, A. (2010). Mechanisms underlying beneficial plant–fungus interactions in mycorrhizal symbiosis. Nat Commun 1, 48. doi: 10.1038/ncomms1046.
Bücking, H.; Mensah, J. A.; Fellbaum, C. R. (2016). Common mycorrhizal networks and their effect on the bargaining power of the fungal partner in the arbuscular mycorrhizal symbiosis. Commun Integr Biol. 1;9(1):e1107684. doi: 10.1080/19420889.2015.1107684.
Oldroyd, G. E.; Harrison, M. J.; Paszkowski, U. (2009). Reprogramming plant cells for endosymbiosis. Science. 8;324(5928):753-4. doi: 10.1126/science.1171644
