Seu sistema imune é a razão pela qual sua tatuagem é fixada

Redigido por Alessandra Pastor, Mariana Linck e Nícolas Heller, graduandos em Biotecnologia, UFRGS.

Revisado por Dra. Adriana Simon Coitinho, Professora Associada do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS.

As tatuagens têm sido usadas desde culturas antigas, com a evidência mais antiga datando cerca de 5.300 anos atrás, em rituais religiosos ou celebrações dependendo da cultura. Elas envolvem a introdução de pigmentos na pele através de diversas perfurações de agulhas, o que desencadeia uma resposta do sistema imunológico e libera glóbulos brancos, inflamando a região da lesão e gerando inchaço e vermelhidão no local. Contudo, apesar da popularidade das tatuagens, ainda há poucos estudos sobre as tintas usadas e as consequências que isso pode causar. 

Para compreender como a tatuagem funciona precisamos primeiro entender como nossa pele e suas camadas se organizam. A pele é o maior órgão do corpo humano e está constantemente em contato com o mundo a sua volta, com a sua primeira camada (epiderme) formada basicamente de células mortas que continuamente estão sendo renovadas e substituídas. Essa camada funciona como uma barreira física contra qualquer objeto ou organismo estranho ao corpo e, por ser constantemente renovada, uma tatuagem aplicada nessa camada superior não seria fixada ao corpo. 

Logo após a epiderme se encontra a derme, que está repleta de vasos sanguíneos, células sensoriais, folículos capilares, glândulas sudoríparas e células do sistema imune, sendo essas últimas as principais quando se trata da tatuagem. É nessa camada da pele que sua tatuagem irá fixar! Os macrófagos (células do sistema imunológico que realizam a fagocitose e substituem as células mortas ou danificadas) tentam digerir essas partículas estranhas dos pigmentos da tatuagem e não conseguem digeri-las completamente. Ao chegarem ao local da tatuagem, os macrófagos liberam substâncias químicas que dilatam os vasos sanguíneos e atraem mais macrófagos para essa área. Esses pigmentos das tatuagens são relativamente grandes e insolúveis e, por isso, estas células não têm sucesso no processo de fagocitose e desenvolvem uma estratégia de reter o pigmento no seu interior, razão pela qual as tatuagens são permanentes. 

Esses macrófagos que contêm pigmento podem eventualmente morrer, mas novos macrófagos são continuamente recrutados para a área e engolfam o pigmento liberado, mantendo a cor e a aparência da tatuagem estável durante muitos anos. A tinta é encontrada na derme próxima aos vasos sanguíneos, mas não está claro se os fibroblastos (células que produzem colágeno e são importantes na cicatrização) também estão envolvidos na deposição ou na manutenção da tinta na pele. Compreender para onde se desloca a tinta da tatuagem no corpo humano, a nível celular, é crucial porque ela pode se mover para órgãos internos como os gânglios linfáticos ou o fígado!

Recentemente, estudos têm revelado informações sobre como os componentes químicos e as propriedades físicas das tintas podem interagir com as células do corpo, especialmente os macrófagos. Uma determinada tinta de tatuagem não estava em conformidade com os padrões do REACH (Regulamento sobre Registro, Avaliação, Autorização e Restrição de Substâncias Químicas), sendo tóxica para macrófagos em concentrações superiores a 1 μL/mL de meio de cultura celular, afetando significativamente sua viabilidade. Esses achados levaram pesquisadores a investigar uma versão compatível com o REACH da mesma tinta de outra cor, que não apresentou toxicidade aos macrófagos e, portanto, foi escolhida para estudos subsequentes.

A caracterização físico-química da tinta revelou que ela consiste em nanopartículas em forma de haste, com um tamanho médio de cerca de 200 nm. A análise detalhada usando Microscopia Eletrônica de Transmissão e Microscopia Eletrônica de Varredura (resumidamente para avaliar as estruturas e as superfícies cortadas em fatias muito finas) destacou a natureza coloidal da dispersão da tinta, evidenciando a formação de agregados que complicam a determinação precisa do tamanho das partículas. Além disso, essas análises revelaram variações significativas no tamanho das partículas com diferentes diluições da tinta, enfatizando a complexidade de sua estrutura. Os macrófagos foram identificados como os principais absorvedores de tinta de tatuagem e modelos 3D de pele humana (compostos por fibroblastos e macrófagos) mostraram uma co-localização da tinta preta com os macrófagos, indicando sua eficiência na captação desses pigmentos. Queratinócitos e fibroblastos apresentaram menor capacidade de absorção.

A análise utilizando citometria de fluxo confirmou que os macrófagos são os principais responsáveis pela absorção da tinta, com até 80% das células mostrando sinais fluorescentes após a exposição. Esta absorção foi dependente da dose e persistiu ao longo do tempo, mesmo após 9 dias de cultivo celular. Estudos adicionais exploraram o potencial de fármacos como o dexpantenol e a dexametasona para influenciar a persistência da tinta nos macrófagos e, surpreendentemente, essas drogas não apenas não reduziram a absorção da tinta, como também resultaram em aumento da captura celular, destacando novas considerações sobre as interações farmacológicas com a tatuagem.

Estes estudos destacam a importância de caracterizar detalhadamente as tintas de tatuagem quanto a sua composição química e suas interações com as células do corpo. O sistema imunológico pode ser repleto de surpresas e reações em cadeia. Assim, a cada dia novos estudos são necessários para entendermos o pleno funcionamento dele e as consequências que algo como as tatuagens podem causar no organismo!

Referências

LIN, Cheng et al. (2023). Macrophage-like rapid uptake and toxicity of tattoo ink in human monocytes. Immunology Insights into Immunity in health and disease; V. 171; P. 388-401.

CANAS, David Chalarca et al. (2024). Tatuagens: riscos e complicações, abordagem clínica e histopatolologia. Sociedade Brasilera de Dermatologia. V. 99; N. 4; P. 491-502.

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