É relevante saber a prevalência do SARS-CoV-2 entre pessoas assintomáticas por duas razões principais: 1) indivíduos saudáveis em áreas epidêmicas podem estar infectados e assintomáticos, ainda representando uma fonte significativa de transmissão; 2) a imunidade de rebanho indica a disseminação de uma infecção pela comunidade. Monitorando o seu nível, podemos nos guiar para futuras decisões sobre relaxamento das medidas de distanciamento social.
A determinação da prevalência do SARS-CoV-2 em doadores de sangue permite o monitoramento da circulação do vírus em pessoas saudáveis. Nas duas últimas semanas de abril de 2020, os autores conduziram uma pesquisa de soroprevalência entre 2.857 doadores de sangue voluntários do Hemorio, o principal centro de coleta de sangue do Rio de Janeiro. Esse é o primeiro estudo na América Latina sobre soroprevalência de SARS-CoV-2 em doadores de sangue assintomáticos.
Para detectar os anticorpos IgG e IgM, foram realizados testes rápidos com amostras de soro. Amostras positivas para anticorpos foram testadas por RT-PCR visando a detecção do RNA viral.
A prevalência geral dos anticorpos foi 4%, sendo que 23,7% foram positivos para IgM apenas, 11,4% positivos para IgG apenas e 64,9% foram positivos para os dois anticorpos. Não houve nenhum resultado positivo no RT-PCR. A prevalência dos anticorpos foi maior entre os mais jovens e com menores níveis educacionais.
Os resultados indicam que alcançar um nível eficaz de imunidade de rebanho é desafiador em curto prazo, portanto, o relaxamento das medidas de distanciamento social não é sábio no horizonte próximo e deve ser cuidadosamente ponderado no futuro.
Não é claro se a resposta de anticorpos fornece o efeito de prevenção contra novas infecções. No caso de apenas uma fração dos indivíduos apresentarem anticorpos neutralizantes, o nível de imunidade de rebanho que teremos que ter como meta deve ser aumentado. Nessas circunstâncias, o nível desejado de imunidade de rebanho não irá, provavelmente, ser atingido antes de uma vacina eficaz estar disponível.
FONTE: Seroprevalence of anti-SARS-CoV-2 among blood donors in Rio de Janeiro, Brazil. Luiz Amorim Filho, Célia Landmann SzwarcwaldI, Sheila de Oliveira Garcia Mateos, Antonio Carlos Monteiro Ponce de Leon, Roberto de Andrade Medronho, Valdiléa Gonçalves Veloso, Josiane Iole França Lopes, Luis Cristovão de Moraes Sobrino Porto, Alexandre Chieppe, Guilherme Loureiro Werneck, Grupo Hemorio de Pesquisa em Covid-19. Rev Saude Publica. 2020;54:69.
