Alice Borges Ferreira, Zootecnista
Mestre em Agronegócios
Doutoranda pelo PPG Zootecnia da UFRGS
A apicultura é uma atividade que gera renda para os apicultores, atingindo grande importância econômica para o agronegócio brasileiro e para o meio ambiente, por ser considerada uma atividade sustentável. Em 2020, a produção de mel brasileira atingiu 51,5 mil toneladas (IBGE, 2022). Recentemente, a atenção tem se voltado para as abelhas devido à redução da população de polinizadores, fato este que está interligado a diversos fatores (Etxegarai-Legarreta; Sanchez-Famoso, 2022). Dentre estes fatores, tem-se a dispersão de doenças que acometem os enxames de abelhas. No Brasil, já foram encontradas ao menos dez tipos de doenças, as quais prejudicam colônias de abelhas e podem levar à morte ou redução da população de colônias (Ministério da Agricultura e Pecuária, 2023).
Destas doenças, a varroatose, causada pelo Varroa destructor (um ácaro parente dos carrapatos), é considerada uma grande praga que pode acometer os enxames. Desde 1978 observa-se a presença desse ácaro nos apiários, considerado como o carrapato das abelhas, por se alimentar sugando a hemolinfa e parasitando as abelhas. O ácaro mede de 1 a 1,8 mm de comprimento e 1,5 a 2 mm de largura, e, quando adulto, adquire cor marrom-avermelhada e corpo achatado (do Rego Lopes et al., 2004).
No Brasil, não se recomenda o tratamento com antibióticos para tratar as abelhas contra doenças (do Rego Lopes et al., 2004). Entretanto, o que deve ser utilizado pelo apicultor é a prevenção como forma de evitar a disseminação de doenças. Como prevenção, um método comumente utilizado é o de contagem de ácaros por colmeia, o qual consegue predizer como está a contaminação de determinado enxame. Para isso, é importante que o apicultor colete em média 100 abelhas adultas, as quais devem ser transferidas para um recipiente com álcool 70%. O frasco deve ser agitado para facilitar a remoção do Varroa destructor do tórax das abelhas (Castagnino e Orsi, 2012). A partir de uma regra de três, é possível calcular o índice de infestação, através do número de ácaros encontrados divididos pelo número de abelhas adultas coletadas multiplicadas por cem, o qual não deve ultrapassar o valor de 10% (Ministério da Agricultura e Pecuária, 2023).
Alguns autores já vem explorando o termo conhecido como “imunidade social”, o qual infere que os indivíduos podem criar estratégias para prevenir uma determinada patologia. Destas, os autores Schmid-Hempel e Cremer (2021), afirmam que os insetos podem utilizar como mecanismo, a eliminação de abelhas infectadas da colônia, como forma de permanecer apenas com os indivíduos mais fortes da colmeia.
Uma maneira comumente utilizada pelas abelhas africanizadas de se defender contra pragas é através do comportamento higiênico. Ainda que o ácaro Varroa destructor não cause no Brasil tantos prejuízos econômicos como em outros países, este ácaro vem se dispersando pelos apiários brasileiros. Este fato está interligado com a característica das abelhas africanizadas, as quais são mais resistentes a pragas do que as abelhas europeias, possuindo mais recursos para evitar que parasitas infestem as colônias (Gramacho, 1999).
Sendo assim, colônias fortes possuem o mecanismo de comportamento higiênico, no qual as abelhas conseguem limpar e retirar de larvas de abelhas os ácaros encontrados. Além disso, existe outro tipo de comportamento, conhecido como grooming, no qual as abelhas conseguem retirar os ectoparistas de outras abelhas ou de si próprias (Wielewski, 2010).
Dessa forma, atualmente, sabe-se que a varroatose está dispersa pelos apiários brasileiros, podendo, a mesma, ser vetor para outras doenças, o que causa grande preocupação para os apicultores. Entretanto, ainda que a mesma exista no território brasileiro, os órgãos encarregados trabalham na linha de prevenção. Dessa forma, é necessário que o apicultor controle o índice de infestação de cada colônia a cada 6 meses ou, pelo menos, uma vez por ano. Além disso, é recomendável que os apicultores mantenham sempre forte as colônias, visto que enxames fortes possuem maior propensão a se defender. Por fim, realizar a seleção de rainhas com fins para comportamento higiênico é fundamental para ter linhagens que possam se limpar e retirar parasitas de dentro das colônias.
Referências
Castagnino, G.L.B.; Orsi, R. de O. Natural products for the control of the mite Varroa destructor in Africanized bees. Pesquisa Agropecuária Brasileira, v. 47, n. 6, p. 738-744, 2012. https://doi.org/10.1590/S0100-204X2012000600002
Etxegarai-Legarreta, O.; Sanchez-Famoso, V. The role of beekeeping in the generation of goods and services: The interrelation between environmental, socioeconomic, and sociocultural utilities. Agriculture, v. 12, n. 4, p. 551, 2022. https://doi.org/10.3390/agriculture12040551
Gramacho, K. P. Fatores que interferem no comportamento higiênico das abelhas Apis mellifera. 1999. 220p. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ribeirão Preto-USP, São Paulo, 1999. https://repositorio.usp.br/item/001065960
IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Pesquisa pecuária municipal- IBGE. 2022. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/Tabela/74.
Ministério da Agricultura e Pecuária. Manual de doenças das abelhas : Boas práticas aplicadas à prevenção, controle e erradicação de doenças das abelhas direcionado ao serviço veterinário oficial. Departamento de Saúde Animal. Secretaria de Defesa Agropecuária. – Brasília : MAPA/SDA, 2023. 180 p. https://www.gov.br/agricultura/pt-br/assuntos/sanidade-animal-e-vegetal/saude-animal/programas-de-saude-animal/ManualdeDoencasdasAbelhaswebcomprimido.pdf
do Rego Lopes, M.T.; Gonçalves; J.C.; Message, D.; Pereira, F. de M.; De Camargo, R.C.R. Doenças e inimigos naturais das abelhas. Teresina : Embrapa Meio-Norte, 2004. 26p. Embrapa Meio-Norte. Documentos, n. 103. https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/68248/1/Doc103.pdf
Schmid-Hempel, P.; Cremer, S. Parasites and Pathogens. Encyclopedia of Social Insects, 713-723, 2021. https://link.springer.com/referenceworkentry/10.1007/978-3-030-28102-1_94
Wielewski, P. A Relação entre o comportamento higiênico e o ácaro Varroa destructor em Colônias de abelhas produzindo de geleia real e mel. 2010,45p. Dissertação (Mestrado em Zootecnia) – Universidade Estadual de Maringá, Paraná, 40, 2010. http://repositorio.uem.br:8080/jspui/handle/1/1677
