Desastres naturais, pragas, pânico e preces: porque muitas vezes não enxergamos o óbvio?

Prof. Dr. Carlos Eugênio Silva. Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia – UFRGS

Falar em pragas depois de uma grande enchente parece literalmente “chover no molhado”. As tragédias são férteis em produzir falsos especialistas. Ainda “ontem”, na pandemia COVID-19 os “virologistas” e “imunologistas” apareciam de todos os lugares, incluindo ateístas com sentenças baseadas em artigos de periódicos com análises incompletas, até teístas apocalípticos que encontravam justificativas em textos improváveis. Entretanto, não é objetivo deste post ter caráter inquisitório, mas apenas registrar como as tragédias mobilizam nossa mente a ponto de poder confundir nossa visão sobre a natureza e a vida.

O desconhecimento a respeito do funcionamento mais básico da biosfera, com seus complexos fenômenos geológicos e climáticos de longo prazo, as interações físicas e químicas deles decorrentes e seus efeitos sobre os biomas ultrapassam a concepção da maioria da população, limitada a uma vida de um punhado de quinquênios ou decênios. Os próprios cientistas não têm noção completa do seu funcionamento. Entretanto, através da Ciência é possível prever melhor o que acontece na natureza, quando investigamos um fenômeno e atribuímos relações de causa e efeito. Desta maneira, tentaremos apresentar de modo introdutório, como fenômenos naturais intensos são muitas vezes interpretados de modo simplista, o que mais confunde que instrui, pela simples falta de modelos ou testes comparativos para discutir.

Vejamos o medo. Ele pode ser “um péssimo conselheiro” e as catástrofes mobilizam muito desse sentimento. Nas situações coletivas, o medo pode provocar a submissão total ou o suicídio coletivo. Entretanto, se existe uma causa para um mal específico, também deve haver uma solução específica (Peters, 2016). No passado, muitas culturas tentavam prevenir a volta de fenômenos ambientais devastadores aplacando a ira de divindades com sacrifícios, sendo os sacrifícios humanos os mais precisos (Watts et al., 2016). A própria ressignificação da morte em prol do coletivo poderia trazer honra ao voluntário e seus familiares, como aconteceu nas culturas mesoamericanas. Infelizmente, isso não evitou o desaparecimento da civilização Maia Clássica, frente às alterações ambientais severas e as doenças que as sucederam (Acuna-Soto et al., 2005; Vagene et al., 2018; Tiesler; Lopes, 2022; Prufer et al., 2023).

Ainda falando sobre o medo, livrar-se dos inimigos poderia ser um bom motivo para satisfazer divindades, uma vez que certas pessoas ou comunidades são estigmatizadas com algum mal. Por exemplo, o não entendimento dos mecanismos subjacentes às alterações ambientais pode ter gerado entre os egípcios o medo de que os hebreus tivessem o poder de invocar pragas/maldições, contribuindo para o êxodo durante o Novo Império Egípcio (Êxodo, 7-11). Os eventos narrados como a “transformação do Nilo em sangue” podem estar associados tanto com a proliferação exacerbada de algas (Hallegraeff, 2024 in Leiden et al., 2024, pp. 175), quanto à alteração química da água por atividade vulcânica (Noji, 2000). A partir de eventos naturais como estes, fenômenos em cadeia podem ressignificar as pragas como desequilíbrios ecológicos em sequência (Trevisanato 2005a; Trevisanato, 2005b; Ehrenkranz; Sampson, 2008; Friedman e Marr, 2017; Mazokopakis e Karagiannis, 2019; Huremovic, 2019; Habicht et al., 2021; Brown, 2024).

Sem querer invalidar crenças ou relações metafísicas que não são o escopo da ciência (Brown, 2024), diversos autores entendem que a sequência muitas “pragas” podem representar eventos naturais em sequência, associados a determinados efeitos fundadores. Está aí uma das causas do intenso despovoamento das Américas ao longo do século XVI. Mas para diversos povos ameríndios, as epidemias de Gripe, Varíola e Salmonelose (Wesley-Esquimaux; Esmolewski, 2004), foram atribuídas ao “fim dos tempos”.

Muitas vezes, sacrifícios individuais ou a expulsão não são o suficiente! O medo pode levar à tentativas drásticas. Fenômenos que desconhecemos, pensamos que conhecemos ou apenas conhecemos pouco, podem levar populações inteiras a atos de violência injustificáveis, como a história da civilização ocidental, pretensamente mais instruída, nos mostra. Exemplos históricos ligados às pragas são o genocídio dos judeus no século XIV , acusados de espalhar a “Peste Negra” (Cohn, 2012) e o Ato de Exclusão dos Chineses de 1882, acusados de espalhar sífilis, varíola, tracoma e peste no Oeste dos Estados Unidos (White; King, 2020).

Mas, se naqueles períodos a ciência era incipiente em teorias e tecnologias que pudessem refutar a histeria coletiva, por outro lado, no século XX, com a ciência melhor estruturada, encontramos expressões pejorativas como a “Gripe Espanhola”, apesar de ter surgido na Inglaterra, ou ainda, de modo mais emblemático, a “Febre Gay” (SIDA-HIV), erroneamente associada à orientação sexual. Mesmo em pleno século XXI, temos a Gripe Suína Mexicana, que aumentou a discriminação contra os mexicanos (Cohn, 2012). Ainda bem viva na memória temos a COVID-19, que teve como principais vítimas os chineses (Devakumar et al, 2020).

Chegamos agora à negação de dados científicos cuja amplitude de justificativas tem as mais diferentes causas. Hofer e Sinatra (2021) abordam essa questão no livro “Science Denial: Why it happens and 5 things you can do about it” onde reconhecem pelo menos 5 situações que geram argumentos não científicos para fenômenos naturais mensuráveis: a) As pessoas são seres sociais e tendem a se alinhar com aqueles que têm crenças e valores semelhantes; b) Todo mundo está ocupado, e seria exaustivo ser um pensador profundo e vigilante o tempo todo; c) Todo mundo tem ideias sobre o que pensa que é conhecimento, de onde ele vem e em quem confiar e algumas pessoas podem não entender que as alegações científicas mudarão à medida que mais evidências forem reunidas; d) Você pode não pensar que a forma como interpreta um gráfico simples pode depender de suas visões políticas; e) As emoções e as atitudes estão ligadas, de modo que ao ouvir que o ser humano está influenciando o clima pode fazer que as pessoas manifestem sentimentos tão antagônicos como raiva, frustração, ansiedade e desesperança.

Os eventos climáticos extremos proporcionam bons exemplos de como as pessoas podem agir de modo negacionista. As inundações, ondas de frio ou calor extremos, tornados, furacões e microexplosões são eventos climáticos naturais e sua frequência pode ser medida ao longo dos anos gerando estimativas que são úteis em cada local, a fim de resguardar as populações e o ambiente. Entretanto, quando a frequência e intensidade aumentam buscamos verificar as causas (Lindsey et al. 2014). No âmbito planetário é inegável que as alterações provocadas pelo homem para suprir necessidades econômicas e sociais crescentes foram tão intensas nos últimos dois séculos que seu efeito têm correlação com a o aumento dos eventos climáticos extremos em todo o mundo (World Climate Organization, 2023; Zhou et al., 2023).

Ainda assim, entre muitas pessoas existe grande ceticismo para explicações científicas sobre catástrofes, baseado no fato de nunca terem presenciado nenhum dos efeitos acima mencionados, ou não terem percepção ou compreensão completa de suas causas, ou, simplesmente, a aceitação das evidências compromete interesses pessoais. Quem vive em áreas muito florestadas muitas vezes não acredita que possa existir falta de árvores ou quem pesca, muitas vezes não consegue ter a dimensão da carência de um determinado recurso, pela sensação de imensidão do mar. Outros, como o ex-presidente americano Donald Trump, negam os efeitos do aquecimento global por ação humana (Milmann, 2024), o que pode comprometer muito investimento em vantagens pessoais que não contavam com esse viés. Essa noção seria até compreensível se vivêssemos expostos aos elementos naturais de controle como doenças, predadores e períodos de fome extrema disseminada. Mas, felizmente há alguns milhares de anos isso não é mais uma grande preocupação para os seres humanos, o que tem impactado diretamente a vida no planeta.

É inevitável que a falta de acesso à informação técnica possa gerar uma inércia, estupefação e falta de comunicação adequada. Nesse caso ocorre uma barreira ao comportamento preventivo dos indivíduos ou da coletividade, como: a) a busca por unidades de saúde; b) engajamento com autocuidado; c) adesão ao tratamento e outras condições de saúde física e mental. Mas já existem propostas de modelos de pesquisa e intervenção inspiradas em uma estrutura comum, que identificam semelhanças e diferenças em processos traumáticos causados por doenças, ampliando a capacidade humana de melhor responder em nível coletivo (Stangl et al., 2019).

Acima de tudo, faz-se necessário entender a íntima relação entre o ambiente planetário, o homem e os outro seres. Assim, a tomada de decisão sobre políticas públicas para a saúde deve ser construída a partir de um conhecimento desenvolvido pela prática multiprofissional e trans profissional integradas (Couto; Brandespim, 2020), independentemente do tamanho dos surtos ou dos eventos ambientais extremos. É preciso lidar com as catástrofes com políticas públicas que apresentem previsões revisáveis, feitas por especialistas, com metas adequadas de gestão ambiental e os recursos reservados para o tipo de necessidade que cada região apresenta (Labadie, 2008, Fan et al., 2024). Caso contrário, sem o estudo e discussão continuada entre ciência, o comportamento e a cultura humanas, estaremos realmente indo de encontro à máxima “não atirar pérolas aos porcos” (Mateus, 7:6).

REFERÊNCIAS

Peters, 2016. Fear is a bad counsellor. https://www.behaviorchange.eu/posts/2016-12-fear-is-a-bad-counsellor.html
Watts et al., 2016. Ritual human sacrifice promoted and sustained the evolution of stratified societies http://doi:10.1038/nature17159
Acuna-Soto et al., 2005. Drought, epidemic disease, and the fall of classic period cultures in Mesoamérica (AD 750–950). Hemorrhagic fevers as a cause of massive population loss. http://doi:10.1016/j.mehy.2005.02.025
Vagene et al., 2018. Salmonella enterica genomes from victims of a major sixteenth-century epidemic in México. https://doi.org/10.1038/s41559-017-0446-6
Tiesler; Lopes, 2022. Health among classic – period urban and rural Maya: A regional perspective. http://doi:10.1017/S0956536121000109
Prufer et al., 2023. The development and disintegration of a Classic Maya Center and its climate context. https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/03091333221112359
Êxodo, 7-11. Bíblia Sagrada, Tradução Oficial da CNBB, ISBN-10 ‏ : ‎ 8579727189, ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8579727184. Versão online: https://salvaimerainha.org.br/biblia-online/
Leiden ; Boston : Brill, 2024. | Series: Critical plant studies, 2213-0659; volume 8. https://library.oapen.org/bitstream/handle/20.500.12657/88420/1/9789004683310.pdf#page=196
Noji, 2000. https://doi.org/10.1061/(ASCE)1527-6988(2001)2:3(143)
Trevisanato, 2005a. The Plagues of Egypt: Archaeology, History and Science Look at the Bible. ISBN: 9781463210564. http://doi:10.31826/9781463210564
Trevisanato, 2005b. Ancient Egyptian doctors and the nature of the biblical plagueshttp://doi:10.1016/j.mehy.2005.04.036
Ehrenkranz; Sampson, 2008. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC2442724/pdf/yjbm_81_1_31.pdf
Friedman; Marr, 2017. https://jbqnew.jewishbible.org/current-issue/exodus-syndemic-epidemiology-tenth-plague/
Mazokopakis; Karagiannis, 2019. https://doi.org/10.26574/maedica.2019.14.3.310
Huremovic, 2019. Brief History of pandemics. Chapter 2. https://doi.org/10.1007/978-3-030-15346-5_2
Habicht et al., 2021. A critical assessment of proposed outbreaks of plague and other epidemic diseases in Ancient Egypt. https://doi.org/10.1016/j.ijid.2020.11.160
Brown, 2024. Plagues and Hypotheses: Applying Science to the Passover Story. https://www.jewishbookcouncil.org/pb-daily/plagues-and-hypotheses-applying-science-to-the-passover-story
Wesley-Esquimaux; Esmolewski, 2004. Historic Trauma and Aboriginal Healing. Ontario, Aboriginal Healing Foundation, 2004.
Cohn, 2012. Pandemics: waves of disease, waves of hate from the Plague of Athens to A.I.D.S. http://doi:10.1111/j.1468-2281.2012.00603.x
White; King, 2020. The U.S. has an ugly history of blaming ‘foreigners’ for disease That attitude can spread more quickly than a virus. https://www.washingtonpost.com/politics/2020/03/24/us-has-an-ugly-history-blaming-foreigners-disease/
Devakumar et al, 2020. Racism and discrimination in COVID-19 responses. https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(20)30792-3/fulltext
Hofer; Sinatra, 2021. https://theconversation.com/science-denial-why-it-happens-and-5-things-you-can-do-about-it-161713
Lindsey et al., 2016. Extreme event attribution: the climate versus weather blame game. ClimateWatch Magazine, NOAA. https://www.climate.gov/news-features/understanding-climate/extreme-event-attribution-climate-versus-weather-blame-game
World Climate Organization. Climate change indicators reached record levels in 2023: WMO. Press Release, 2023. https://wmo.int/news/media-centre/climate-change-indicators-reached-record-levels-2023-wmo
Zhou et al., 2023. Global concurrent climate extremes exacerbated by anthropogenic climate change. https://doi.org/10.1126/sciadv.abo1638
Milmann, 2024. ‘The dumbest climate conversation of all time’: experts on the Musk-Trump interview. https://www.theguardian.com/environment/article/2024/aug/13/trump-musk-x-climate
Stangl et al., 2019. The Health Stigma and Discrimination Framework: a global, crosscutting framework to inform research, intervention development, and policy on health-related stigmas. https://doi.org/10.1186/s12916-019-1271-3
Couto; Brandespim, 2020. A review of the One Health concept and its application as a tool for policy-makers. http://doi: www.doi.org/10.14202/IJOH.2020.83-89
Labadie, 2008. Auditing of post-disaster recovery and reconstruction activities. http://DOI 10.1108/09653560810918612
Fan et al., 2024. Considerações sobre a dragagem como medida de redução das cheias no RS. https://www.ufrgs.br/iph/nota-tecnica-consideracoes-sobre-a-dragagem-como-medida-de-reducao-das-cheias-no-rs/
Mateus, 7-6. Bíblia Sagrada, Tradução Oficial da CNBB, ISBN-10 ‏ : ‎ 8579727189, ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8579727184. Versão online: https://salvaimerainha.org.br/biblia-online/

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