Carlos Eugênio Silva – Professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia – UFRGS
O Toxoplasma gondii é um protozoário que desenvolve um ciclo com um número vasto de hospedeiros intermediários (HI) e tem apenas os felídeos como hospedeiros definitivos (HD). Estudos crescentes têm demostrado que este protozoário é capaz de interferir com o senso de perigo nos HI, favorecendo a predação por parte dos HD. Entretanto, existe pouca investigação sobre o efeito desta infecção em carnívoros não felídeos. Neste trabalho de longo de monitoramento, Connor Meyer e colaboradores1 (2022) apresentam mais de 25 anos de estudos sobre o comportamento de lobos cinzentos (Canis lupus) re-introduzidos no Parque Nacional de Yellostone (YNP), nos Estados Unidos, juntamente com os achados de sorologia de T. gondii, associados com a dispersão e comportamento desta espécie. Também é comparado o efeito da infecção destes animais com a proximidade do HD onça parda (Puma concolor).
O objetivo inicial foi determinar quais fatores demográficos e ecológicos afetam a infecção por T. gondii em lobos cinzentos no YNP. Foram testados fatores demográficos individuais, incluindo idade, sexo, cor da pelagem (devido à sua variação potencial na suscetibilidade a doenças) e status social no momento da captura.
Os resultados obtidos ao longo do tempo mostraram que as populações de onças pardas (HD) e lobos cinzentos (HI), apresentavam em 2020, respectivamente, 73% e 36,5% de positividade para T. gondii. A positividade em ambos carnívoros foi crescente ao longo dos mais de 25 anos de estudo. Os resultados soropositividade para C. lupus não demonstram diferença significativa em relação ao sexo ou pelagem (cinza ou preta). Entretanto, lobos idosos apresentavam maior prevalência sorológica para o parasito (46,7%) bem como as populações de lobos que compartilhavam pelo menos 40% da sua área de caça com as onças pardas.
Posteriormente foi determinado se a infecção por T. gondii influenciava o comportamento do lobo cinzento. Foram avaliados três comportamentos associados com um maior risco para os lobos:
(1) dispersar-se de uma alcateia: nesta categoria, lobos que se dispersavam apresentavam o dobro de soropositividade (36,26%) do que lobos que se mantinham em grupo na alcateia, para ambos sexos;
(2) alcançar status social dominante (tornar-se um líder): a probabilidade de um lobo alcançar a liderança de uma alcateia foi 46% maior para indivíduos soropositivos para T. gondii, do que para indivíduos soronegativos (β = 3.83, 95% CIs: −0.004–7.664);
(3) abordar pessoas ou veículos (habituação): não foi observada diferença significativa no efeito do contato com T. gondii em relação à morte por causa antropogênica (morte por humanos, devido à aproximação com o ambiente alterado pelo homem) nem por causa intraespecífica (morte devido a lutas entre alcateias). Como o comportamento pode ser influenciado por muitos fatores, certas variáveis foram controladas em cada um dos modelos de comportamento, como o sexo e a idade, que podem influenciar a probabilidade de certos comportamentos ocorrerem.
O estudo revelou que a infecção por T. gondii em lobos cinzentos está associada com a sobreposição entre o território da alcateia (HI) e o território da onça parda (HD). Em relação aos lobos soronegativos, os lobos soropositivos para T. gondii mudaram seu comportamento, assumindo mais riscos, como se dispersar mais facilmente da alcateia ou se tornarem mais propensos a liderar uma alcateia. Devido à estrutura social do grupo de lobos cinzentos, essas mudanças de comportamento podem causar um ciclo de retroalimentação que leva a aumento no nível de tomada de riscos por parte da alcateia, com implicações importantes como a possibilidade de maior transmissão de doenças, competição interespecífica com onças pardas e a própria sobrevivência do lobo cinzento.
O T. gondii infecta principalmente espécies de sangue quente, incluindo humanos, onde se estima que um terço da população esteja infectada2. A infecção humana produz uma gama de manifestações clínicas, desde alterações comportamentais e cognitivas, até a mortalidade após a reativação de bradizoítos encistados, quando ocorre imunocomprometimento intenso. O forte tropismo e persistência dos cistos de T. gondii no cérebro confirmam que a toxoplasmose do SNC prejudica o complexo funcionamento cerebral3 dos HI.
Os estudos sobre a infecção do T. gondii em ratos tem mostrado que, quando estes animais não sofrem da doença aguda fatal, a infecção crônica pode gerar redução do medo, da fobia a situações novas, maior impulsividade, aumento da impulsividade geral e sexual e redução do medo a gatos. Esses são comportamentos que geram grande risco para ratos e favorecem a continudade do ciclo sexuado de T. gondii no HD4. Já no homem, além do risco de abortos e malformações e das lesões oculares, a toxoplasmose aumenta a chance do desenvolvimento de esquizofrenia, comportamento bipolar e comportamento obsessivo compulsivo, abrindo margem para importantes áreas de estudo, como a ecologia parasitária4. Estudos recentes mostram que uma abordagem multidisciplinar seja mais adequada para lidar com processos neurológicos complexos como a esquizofrenia e podem envolver estresse, agentes infecciosos (T. gondii) e características do hospedeiro como microbioma, genética e inflamassoma nervoso5.
Também devemos acrescentar que, ao contrário dos países do hemisfério norte, o T. gondii circulante na América do Sul apresenta uma estrutura populacional altamente diversa, com maior severidade da doença do que outras regiões do mundo, além de apresentar centenas de genótipos atípicos. Considerando a predominância de cepas atípicas de T. gondii na América do Sul, bem como a alta frequência de transtornos mentais neste continente, novos estudos devem ser realizados para avaliar o papel dessas cepas no desenvolvimento de doenças neuropsiquiátricas, para que a natureza das possíveis relações possa ser elucidadas3.
Por si só, as informações anteriores corroboram a importância epidemiológica e sanitária da toxoplasmose, mas este trabalho pode promover pistas para outros comportamentos não tidos como disruptivos e até valorizados, caso os achados descritos neste trabalho sobre lobos1 também pudesse ser verificado em outros animais sociais, incluindo o homem.
O homem (HD) não é mais uma espécie presa de grandes felinos, assim poderia a grande prevalência da toxoplasmose também contribuir para o aparecimento de indivíduos mais ousados como grandes financistas ou grandes líderes guerreiros? Talvez o trabalho de Meyer e colaboradores aqui descrito, possa dar pistas para a veracidade das palavras de Titus Maccius Plautus (254 a.C-184 a.C.)., popularizada em Leviatã, de Thomas Hobbes: “o homem é o lobo do homem”.
1- Meyer, CJ et alli, 2022. Parasitic infection increases risk-taking in a social, intermediate host carnivore. Communications Biology.
doi: 10.1038/s42003-022-04122-0
2- Shwab EK et alli, 2014. Geographical patterns of Toxoplasma gondii genetic diversity revealed by multilocus PCR-RFLP genotyping. Parasitology. (2014) 141:453–61.
doi: 10.1017/S0031182013001844
3- Bessa, GL et alli, 2021. Toxoplasma gondii in South America: a differentiated pattern of spread, population structure and clinical manifestations. Parasitology Research. 120:3065–3076.
doi: 10.1007/s00436-021-07282-w
4- Tong, WH et alli, 2021. Tong et al. Behavioral biology of Toxoplasma gondii infection. Parasites & Vectors 14:77
doi: 10.1186/s13071-020-04528-x
5- Rentala, MJ, 2022. Schizophrenia: The new etiological synthesis. Neuroscience and Biobehavioral Reviews 142:104894
doi: 10.1016/j.neubiorev.2022.104894
