E surge mais uma variante de preocupação…

Dra. Patricia Valente – DEMIP/UFRGS

Em 7 de julho de 2021, nós postamos no Microbiologando um artigo sobre a nossa responsabilidade no surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2. Nesse artigo, explicamos como surgem as variantes e chamamos a atenção para o fato que a única explicação para o aparecimento sistemático de variantes cada vez mais preocupantes é que não estamos fazendo a nossa parte, isto é, impedindo a multiplicação viral. A diversidade de variantes que estamos vendo só é possível porque estamos deixando o vírus se manter entre nós. Como ele se dissemina rápido, a quantidade de partículas virais em circulação é tão gigantesca que é possível o aparecimento das variantes. Portanto, o aparecimento de novas variantes do vírus é nossa responsabilidade.

O tempo passa, mas a história se repete…

Em 26 de novembro de 2021, o Grupo Consultivo Técnico em Evolução do Vírus SARS-CoV-2 (TAG-VE, na sigla em inglês), da Organização Mundial da Saúde (OMS), se reuniu para avaliar a nova variante B.1.1.529 e a denominou Omicron.

A nova variante foi inicialmente reportada na África do Sul, com o primeiro caso confirmado de infecção tendo sido coletado em 9 de novembro. Essa variante tem um grande número de mutações e, aparentemente, um maior risco para reinfecções. Além disso, pode não ser detectada em alguns dos testes de diagnósticos usuais e existe dúvida em relação à eficácia das vacinas já desenvolvidas para a COVID-19.

Olhem um paralelo do histórico da pandemia na África do Sul com o histórico no Brasil: segundo a OMS, a situação epidemiológica da COVID-19 na África do Sul é caracterizada por três picos (nós aqui, no Brasil, estamos caminhando a passos largos para mais um pico…). O último pico na África do Sul teve a predominância da variante Delta (nossa conhecida predominante no último pico brasileiro). A infecção na África do Sul voltou a crescer vertiginosamente, coincidindo com o aparecimento da variante B.1.1.529, em substituição à variante Delta. Resta saber se iremos continuar a ver o futuro do Brasil ocorrendo em outros países sem fazermos nada a respeito para evitar mais uma catástrofe…

A própria OMS sugere ações que deveriam ser tomadas pelos países, voltadas aos esforços para compreensão da nova variante (aumento das testagens, sequenciamento dos vírus circulantes, etc), e ações que nós, indivíduos, podemos e devemos fazer:

ADOTAR MEDIDAS PARA REDUZIR O RISCO DA COVID-19:

  • Uso de máscaras adequadas e que se ajustem ao rosto;
  • Distanciamento social;
  • Higiene das mãos;
  • Melhorar as condições de ventilação de espaços fechados;
  • Evitar aglomerações;
  • Vacinação.

Todos nós já sabemos sobre essas recomendações. Por que não conseguimos fazer o que é recomendado para conter o vírus? Nenhuma dessas recomendações é algo difícil de ser feito.

VAMOS PARAR DE COLOCAR A RESPONSABILIDADE PELA NOSSA SEGURANÇA E SAÚDE APENAS NO GOVERNO!

VAMOS COMPARTILHAR A RESPONSABILIDADE E FAZER A NOSSA PARTE. SÓ ASSIM CONSEGUIREMOS VENCER ESSE VÍRUS.

FONTE: Classification of Omicron (B.1.1.529): SARS-CoV-2 Variant of Concern. World Health Organization. 26 Novembro 2021. https://www.who.int/news/item/26-11-2021-classification-of-omicron-(b.1.1.529)-sars-cov-2-variant-of-concern

Dinamarca suspende todas as restrições remanescentes ao coronavírus e cientistas especulam sobre a as próximas fases da COVID-19.

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem/UFRGS  

Prof. Tiago Degani Veit – Professor DEMIP/UFRGS 

Muito nos perguntamos quando o Brasil irá abandonar as restrições contra o COVID-19. Todos estamos ansiosos para que isso aconteça, e a notícia boa é que a “volta da vida normal” já é realidade em alguns países. O jornal da revista Science publicou uma reportagem sobre a fase de transição em que a pandemia se encontra na Dinamarca, um país que não vivencia mais de 10 mortes por dia desde fevereiro deste ano, e onde todas as restrições remanescentes ao coronavírus foram suspensas no início de setembro (veja o artigo na íntegra aqui). O país europeu vacinou totalmente mais de 88% das pessoas com mais de 18 anos (no Brasil, esse número está pouco acima dos 60%) e 97% dos maiores de 60 anos de idade, e encontra-se na transição de pandemia para endemia, que é quando o vírus ainda está presente, mas agora enfrenta uma população que é praticamente imune a ele. No entanto, o país não está completamente fora de perigo, já que ainda há crianças e adolescentes que não foram vacinados, além das pessoas que não tiveram uma produção total de imunidade induzida pela vacina.  

A comunidade científica está acompanhando de perto a situação na Dinamarca. Quatro projeções já foram publicadas pela Statens Serum Institute (SSI), agência governamental de saúde pública e pesquisa, as quais dão uma ideia do que pode acontecer a partir de agora no país. O melhor cenário presume que o país alcançará 90% de cobertura vacinal nas pessoas maiores de 12 anos e as atividades sociais, que ainda estão abaixo do que eram antes da pandemia, não aumentarão muito. Nesse caso, não é esperado aumento de casos e hospitalizações. No pior cenário, a adesão a vacina não aumentaria e haveria um aumento de 10% nas atividades sociais, podendo ter como consequência uma onda de casos e hospitalizações tão graves quanto as que ocorreram em dezembro de 2020. A se confirmar esse segundo cenário, o governo dinamarquês provavelmente voltaria com algumas restrições. Digno de nota, nenhuma das projeções considerou a diminuição da imunidade na população e nem o surgimento de novas variantes de SARS-Cov-2.  

Embora outros países estejam ensaiando essa reabertura, a realidade é que poucos países estão com cobertura vacinal suficiente para tentar essa transição, especialmente entre a população idosa. Israel, apesar de ter uma cobertura vacinal um pouco menor da sua população idosa (90%) e que reabriu tudo em junho, está atualmente lutando contra uma nova onda de casos. O caso da Inglaterra, que reabriu totalmente em 19 de julho, com apenas metade da população vacinada, viu o número de casos disparar em agosto e agora conta com mais de 100 mortes diárias (o  Brasil, com suas mais de 300 mortes diárias, está muito longe de poder cogitar tal passo).  

Enquanto isso, cientistas estão tentando descobrir como se desenrolará a fase endêmica da COVID-19. David Fisman, epidemiologista da Universidade de Toronto, diz: “Eu conheço muitas pessoas inteligentes que estão projetando coisas muito diferentes”. Provavelmente o estágio endêmico não será como a endemia de sarampo que, apesar de ser altamente infeccioso, deixa as pessoas imunes à infecção pelo resto da vida, resultando em uma doença com uma onda de infecção a cada poucos anos. Uma perspectiva possível é a de que o SARS-CoV-2 siga a trajetória dos outros quatro coronavírus endêmicos, em que a proteção contra infecções leves se desgasta com o tempo, mas a proteção contra doença grave, não. Nesse sentido, é esperado que ocorra uma primeira infecção na infância, seguida por infecções leves recorrentes mais tarde na vida. A perspectiva é diferente se a imunidade contra COVID-19 grave também diminuir. Se esse for o caso, paradoxalmente, seria melhor que o vírus continuasse infectando as pessoas com frequência, reforçando a sua imunidade. e não seriamos vulneráveis ao vírus novamente. Esse argumento foi defendido por Antia e Elizabeth Halloran, da Universidade de Washington, em um artigo recente na Immunity. Cabe ressaltar que tal argumento é defensável em um contexto de endemia, em que a maioria da população está imunizada contra o agente patogênico, e nunca no contexto de uma pandemia, em que a maioria das pessoas teve que desenvolver sua imunidade praticamente do zero, com quase 5 milhões de mortos até o momento. 

Enfim, há apenas especulações sobre como será o mundo com COVID-19 endêmico. Os cientistas levam em consideração a endemia de outros vírus para fazer essas previsões, como por exemplo o vírus da gripe. A certeza, por hora, é a de que ao menos no caso do Brasil ainda estamos no estágio de pandemia, com centenas de mortes por dia, e de que as medidas até agora adotadas, como melhor ventilação de ambientes, adesão à vacinação além de testar, rastrear e isolar pessoas infectadas, continuam na ordem do dia (ou, ao menos, deveriam estar). Tentar apressar o processo de reabertura, com lotação total de espaços públicos e abolição das máscaras invariavelmente nos levarão a novos picos de casos e mortes. O que já não está bom (ao que parece, já não nos causa espanto 300 mortes por dia) pode voltar a ficar muito pior. 

Referência: Kupferschmidt, Kai. “Pandemic enters transition phase-but to what?.” Science (New York, N.Y.) vol. 374,6564 (2021): 135-136. doi:10.1126/science.acx9290 

Transposons podem ressuscitar Lamarck

Jean-Baptiste Lamarck tem grande importância para a biologia por ter sido um dos primeiros a propor uma teoria estruturada sobre a diversidade dos seres vivos. Suas ideias envolveram a transmissão de informações através das gerações por meios não genéticos, ou herança epigenética transgeracional (TEI), posteriormente chamada de Lamarckismo. Entretanto, esta condição evolutiva foi considerada impossível por August Weismann (1892), que, através de experimentos, provou que somente as células germinativas eram capazes de transmitir os caracteres de aptidão do indivíduo para as próximas gerações, legando a sobrevivência de uma espécie ou sua modificação. Com o tempo, foram surgindo evidências observacionais e científicas que as mudanças em uma espécie pudessem ser transmitidas não somente por células germinativas. Um exemplo é a herança das respostas ao estresse, que ajuda os animais a sobreviverem em ambientes hostis.

Trabalhos recentes sugerem que o RNA do sistema nervoso central de moluscos marinhos do gênero Aplysia treinados, pode induzir uma forma de memória de longo prazo não associativa e transmissível de modo horizontal para indivíduos não treinados. Contudo, até o momento, ainda não havia sido provado que estas memórias pudessem ser transmitidas entre gerações (verticalmente), quebrando assim a “barreira” proposta por Weismann.

Em um experimento recente, elegantemente elaborado, Moore e colaboradores (2021) mostraram que pode ocorrer transmissão de caracteres adquiridos em Caenorhabditis elegans, um verme muito pequeno da família Rhabditidae. Para tanto um grupo de vermes foi treinado a evitar linhagens patogênicas da bactéria Pseudomonas aeruginosa (PA14). Esse tipo de “comportamento de resistência” parecia estar relacionado com pequenos segmentos de RNA bacteriano que, de alguma forma, alteravam as funções neurais de C. elegans e induziam ao comportamento de rejeição das bactérias. Este comportamento pode ser transferido horizontalmente para vermes não treinados a partir da mistura, em cultivo, de extratos de vermes treinados, ou do próprio meio onde estes vermes foram criados. Esse “comportamento de resistência” era específico e não foi verificado quando C. elegans foi cultivado frente as bactérias entomopatogênicas Pseudomonas fluorescens e Serratia marcecens.

Em seguida foi possível provar que o “comportamento de resistência” dos vermes treinados poderia ser transmitido horizontal ou verticalmente para outras quatro gerações de animais não treinados através de partículas semelhantes a vírus (VLPs) codificados por Cer1, um retrotransposon.

Além do seu papel na transferência de memória horizontal, Cer1 foi necessário para a transferência de herança epigenética transgeracional do “comportamento de resistência” através de pequenos segmentos de RNA, devido a comprovação experimental da capacidade desse retrotransposon de transmitir informações para os neurônios do verme.

A expressão de Cer1 em linhagens selvagens de C. elegans está correlacionada com sua capacidade de realizar esses comportamentos de defesa, um papel benéfico para Cer1, que contrasta com seus efeitos deletérios (Dennis et al., 2012). Assim, a função Cer1 pode fornecer para C. elegans proteção de longa duração contra patógenos no ambiente natural do verme.

Estes resultados sugerem que o Cer1 realiza a sinalização dinâmica da linhagem germinativa para a somática (neurônio), representando a cooptação da função retrotransposon para melhorar a sobrevivência C. elegans e de sua progênie em ambientes patogênicos, o que sugere fortemente a existência de TEI e a possível quebra da “barreia de Weismann”. Cer1 parece não só fornecer proteção imediata de C. elegans contra diversas espécies patogênicas de Pseudomonas em seu ambiente, mas também confere benefícios duradouros para outras gerações, ao comunicar um sinal de resistência adaptativo de rejeição que foi aprendido, para seus descendentes (transmissão vertical). Além disso, a capacidade de fornecer memórias de rejeição contra patógenos se estende para indivíduos da mesma espécie cultivados conjuntamente (transmissão  horizontal), permitindo maior sobrevivência para seus parentes.

Moore et alli. 2021, The role of the Cer1 transposon in horizontal transfer of transgenerational memory. Cell 184, 4697–4712.
https://doi.org/10.1016/j.cell.2021.07.022

OMS aprova primeira vacina para malária

Bruno Lopes Breda – Estudante de Medicina, UFRGS.

                Boas notícias não param de surgir, e não apenas com relação à pandemia de COVID-19! No dia 6 de outubro, a Organização Mundial da Saúde decidiu aprovar para uso a primeira vacina para malária do mundo. A doença, causada pelo protozoário Plasmodium falciparum, é uma das mais antigas que se tem conhecimento, e atinge principalmente as populações residentes em países da África.

                São dois marcos a serem comemorados: o primeiro, biológico; o segundo, social. O marco biológico reside no fato de que essa é a primeira vacina feita para uma doença causada por um parasito. Até o último dia 6, não existia nenhuma vacina aprovada no mundo que fosse direcionada a uma doença causada por agentes que não sejam vírus, como é o caso da COVID, ou bactérias, como o exemplo da tuberculose. Já o marco social está no fato de a malária ser uma doença que atinge principalmente países em desenvolvimento, os quais costumam sofrer muito mais com doenças infecciosas. Essa vacina salvará milhões de vidas, e a grande maioria dessas vidas não se encontra nos países de maior poder econômico!

                Para os mais afeiçoados a números, vamos falar um pouco sobre a eficácia da vacina, tema tão abordado no último ano e meio devido à empreitada mundial que tivemos para o desenvolvimento de vacinas para a COVID-19. A vacina para malária obteve nos testes clínicos uma eficácia de 50% contra o desenvolvimento da malária severa no primeiro ano após a aplicação, o que significa que, caso um indivíduo vacinado entre em contato com o agente da doença, ele reduz pela metade a chance de contrair malária. Ilustrando a discussão com um tema mais conhecido para o leitor, essa vacina tem eficácia similar à CoronaVac, produzida no Brasil pelo Butantan, e todos podemos ver quantas vidas uma eficácia de 50% salva com o passar do tempo.

                Após tanto tempo em meio à penumbra da incerteza de uma pandemia, começamos a ver não apenas uma, mas diversas “luzes no fim do túnel”, tanto para a COVID-19 quanto para outras doenças que assolam a humanidade. Graças à ciência, caminhamos cada vez mais para o desenvolvimento de imunizantes que sejam eficazes nas mais diversas doenças. Que possamos, cada vez mais, comemorar!

Será que as vacinas contra a COVID-19 ajudam no caso de pessoas que já tiveram a doença?

Leiam o extrato da reportagem da Science News que preparamos para vocês. A reportagem original pode ser lida aqui.

Algumas pessoas que foram infectadas com o coronavírus questionaram se realmente precisam de vacinas.  Ainda não está claro quanto tempo dura a imunidade após uma infecção. Estudos mostraram que os anticorpos permanecem no sangue por, pelo menos, oito meses após ficarem doentes, mas alguns pacientes recuperados foram reinfectados.

Uma dose de vacina pode ser suficiente para proteger as pessoas que já tiveram COVID-19, sugerem estudos baseados em laboratório. Uma dose para aqueles que se recuperaram de uma infecção anterior aumenta os anticorpos de ataque do vírus a níveis semelhantes aos de pessoas vacinadas que receberam duas doses de uma vacina de mRNA.

Os anticorpos não são a única parte da resposta imune que se beneficia da vacina, embora as proteínas imunes sejam cruciais para prevenir a infecção. Uma única dose foi suficiente para os pacientes recuperados atingirem altos níveis de um subconjunto de células imunológicas chamadas células T. As células T ajudam a coordenar e aumentar a resposta imunológica quando uma pessoa é exposta ao vírus novamente.

Isso sugere que as pessoas que tiveram COVID-19 e foram vacinadas com uma única dose poderiam estar tão protegidas quanto as pessoas totalmente vacinadas que nunca ficaram doentes. Mas se isso acontece no mundo real, fora do laboratório, não está claro.

FONTE: How coronavirus vaccines still help people who already had COVID-19. Erin Garcia de Jesús. Science News 19 de agosto de 2021. https://www.sciencenews.org/article/coronavirus-vaccines-help-covid-infected-already-pandemic

Estudo explica como a imunidade induzida pelas vacinas contra COVID-19 pode ajudar a reduzir a transmissão do SARS-CoV-2

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem/UFRGS 

Prof. Tiago Degani Veit – Professor DEMIP/UFRGS

Diversas pesquisas baseadas em ensaios clínicos randomizados já mostraram a capacidade que as vacinas contra COVID-19 possuem em reduzir drasticamente a doença sintomática. Em contrapartida, dados a respeito dos efeitos que essas vacinas possuem em limitar a transmissão de SARS-CoV-2 entre indivíduos ainda são escassos. Há alguns dias atrás, foi publicado no periódico The Lancet um estudo que discute os dados disponíveis a respeito da capacidade dos imunizantes contra COVID-19 em reduzir a transmissibilidade do coronavírus. O estudo sugere que há quatro estágios relevantes pelas quais a imunidade induzida pela vacina pode reduzir a transmissão: 1) infecção, 2) replicação viral, 3) limite para disseminação de hospedeiro para hospedeiro, e 4) grau de sintomatologia. Nesse post, vamos mostrar algumas das evidências disponíveis sobre a interferência das vacinas contra a COVID-19 na transmissão do vírus segundo os estudos populacionais que foram publicados após a introdução dessas vacinas na população em geral. 

1) Quanto ao efeito da vacinação contra SARS-CoV-2 na prevenção da infecção pelo SARS-Cov-2, o principal fator a ser considerado é a capacidade dos imunizantes de promover a presença de anticorpos neutralizantes na mucosa respiratória, a principal porta de entrada do vírus (anticorpos neutralizantes são os anticorpos que impedem a ligação do vírus com o receptor de entrada celular). Estudos realizados com grupos de pacientes imunizados com as vacinas da Pfizer e da Moderna indicaram a presença de anticorpos neutralizantes contra SARS-CoV-2 na saliva desses indivíduos, indicando esse indício de imunidade já nas mucosas. Já no caso de indivíduos imunizados com a vacina de Oxford/AstraZeneca, a quantidade de anticorpos neutralizantes encontrados na mucosa foi menor. 

2) Em relação a replicação viral em indivíduos infectados, a literatura recente confirma que a imunidade induzida pelas vacinas aplicadas anteriormente à infecção limita a replicação do SARS-CoV-2. Isso ocorre devido a capacidade dos imunizantes em reduzir a carga viral de SARS-CoV-2 na região orofaríngea e nasofaríngea dos indivíduos infectados, limitando a replicação viral na mucosa. A vacina da Pfizer possui a capacidade de reduzir a carga viral em indivíduos infectados pelo menos 12 dias após receber a primeira dose da vacina. A vacina de Oxford/AstraZeneca também se mostrou eficiente em reduzir a carga viral orofaríngea e nasofaríngea em pacientes infectados com SARS-CoV-2, a qual é menor quando em comparação com os indivíduos não vacinados. 

3) A disseminação viral de hospedeiro para hospedeiro está relacionada diretamente a carga viral do indivíduo infectado. Existem amplas evidências na literatura a partir de estudos com primatas não humanos de que as vacinas contra COVID-19 reduzem a carga viral nas vias respiratórias superiores e inferiores. Além disso, um estudo recente observou que os indivíduos vacinados que apresentam uma infecção pós-vacinal são menos infecciosos do que os indivíduos não vacinados. Além de apresentarem uma carga viral mais baixa, as partículas emitidas por esses indivíduos podem inclusive ser menos infecciosas pelo fato de as partículas virais estarem revestidas de anticorpos. O que dificultaria a sua entrada nas células. 

4) Quanto ao grau de sintomatologia de pacientes previamente vacinados contra a COVID-19, é bem documentado que todas as vacinas contra COVID-19 possuem alta capacidade em prevenir a infecção sintomática. A diminuição de sintomas como tosse e espirro são essenciais para limitar a transmissão viral, já que as partículas virais infecciosas são propagadas, principalmente, dessa forma. 

Em resumo, as vacinas contra SARS-CoV-2 disponíveis atualmente, apesar de terem sido produzidas em tempo recorde, são capazes de interferir de forma positiva tanto na possibilidade de infecção quanto na replicação viral e na carga viral transmitida de pessoa para pessoa. Os imunizantes que atualmente estão sendo utilizados não foram otimizados para gerar imunidade de mucosa, mas ainda assim alguns deles são capazes de gerar essa imunidade local tão importante no início do processo infeccioso. Já vislumbrando um futuro próximo, as vacinas contra SARS-CoV-2 da próxima geração prometem ser ainda mais eficientes, já que estão sendo projetadas para serem administradas na cavidade nasal e/ou oral, ou seja, na mesma via de entrada do vírus.  

Apesar de os imunizantes estarem sendo cada vez mais aperfeiçoados contra a COVID-19, é importante salientar que a adesão às campanhas de vacinação é apenas um dos passos importantes para garantir uma proteção completa contra a doença. Ainda é necessário manter o distanciamento social, utilizar máscara e seguir com a higiene constante das mãos, a fim de reduzir o risco da infecção. Portanto, confiemos nas vacinas e sigamos nos cuidando. 

FONTE: MOSTAGHIMI, Darius et al. Prevention of host-to-host transmission by SARS-CoV-2 vaccines. The Lancet Infectious Diseases, 2021. doi: https://doi.org/10.1016/S1473-3099(21)00472-2 

Vacina é uma coisa e vacinar é outra

Prof. Carlos E. Silva – DEMIP/UFRGS

As vacinas só desempenham o papel de imunizantes efetivos e seguros, quando a vacinação é realizada de forma adequada.
As vacinas utilizadas até agora são aplicadas pela via intramuscular. Esta vacinação envolve um procedimento simples, com muitas referências mostrando o modo adequado de aplicar medicamentos e vacinas no músculo (https://pebmed.com.br/tecnica-de-aplicacao-da-vacina-contra-covid-19/).
Por outro lado, a aplicação da vacina de modo desinteressado pode ter consequências ruins. Existem muitos vídeos que circulam abertamente mostrando a vacinação intramuscular no braço (músculo deltoide), onde a penetração da agulha é seguida da imediata inoculação do conteúdo da seringa, sem a verificação se a ponta da agulha está em um vaso sanguíneo (procedimento de puxar o êmbolo da seringa). Um trabalho experimental recente tenta mostrar (em análise por pares) que a aplicação intravenosa de vacina contra COVID 19 a base de ácido ribonucleico mensageiro (mRNA da Pfizer BioNTech) desencadeia inflamação no coração (miocardite) de camundongos (Li et al., 2021). Neste estudo os pesquisadores tentaram mostrar se havia alguma alteração no uso de vacina endovenosa (EV) e intramuscular (IM) em comparação com animais respectivamente inoculados com solução salina de cloreto de sódio, como controle.
O trabalho foi desenvolvido em camundongos e procurou comparar qual o efeito da administração da vacina mRNA administrada na veia ou no músculo em duas ocasiões. Foram realizadas com coletas em diferentes dias após as aplicações e avaliada a existência de possíveis diferenças entre sexo,  alterações  patológicas macro e microscópicas, níveis de citocinas e quimiocinas da inflamação, entre outras análises.
Os resultados mostraram, sem sombra de dúvidas, que a inflamação do coração  e seu envoltório (miopericardite) esteve presente de 24 a 48 horas após os desafios em todos os animais que receberam a vacina de mRNA EV, confirmado por lesões macroscópicas e histológicas, incluindo a confirmação imunocitoquímica e níveis teciduais significativamente elevados de citocinas e quimiocinas inflamatórias. Entre outros órgãos analisados o fígado também apresentou degeneração de células hepáticas e necrose. Os camundongos inoculados por via IM, não apresentaram lesões significativas na primeira inoculação. Entretanto, alguma inflamação no miocárdio pode ser verificada na segunda inoculação. Os grupos controles EV e IM, não apresentaram nenhum tipo de lesão ou alteração microscópica tecidual e nem de marcadores ou sinalizadores de inflamação. A presença ou ausência de lesões não apresentou diferenças entre o sexo dos animais.
Com o papel de simularem as infecções, para proporcionar o desenvolvimento de proteção, as vacinas também podem gerar inconvenientes. Entretanto, o trabalho mostra claramente que alguns efeitos colaterais da vacinação poderiam ser facilmente evitados com procedimentos simples como a conduta de puxar o êmbolo da seringa para verificar se a ponta da agulha não está em um vaso sanguíneo. Isso garantiria que a vacina intramuscular está realmente no músculo. Observemos que não estamos criticando a qualidade de uma vacina, mas os problemas potenciais da sua má utilização. Será que parte dos 40 casos por milhão de miocardites em vacinados, nos Estados Unidos da América, não poderiam estar relacionados a vacinações mal administradas? O trabalho indica que a negligência em um procedimento simples, contudo fundamental, como vacinar corretamente, pode acabar trazendo consequências muito desagradáveis à população e comprometer a credibilidade de produtos criteriosamente avaliados.

Can Li, et al., 2021. Intravenous injection of COVID-19 mRNA vaccine can induce acute myopericarditis in mouse model. Clin Infect Dis.Aug 18. Online ahead of print.
https://doi.org/10.1093/cid/ciab707

Imunidade natural e vacinal na COVID 19: a dura corrida da “Rainha Vermelha”

Por Carlos Eugênio Silva – Professor do ICBS-UFRGS

Em biologia, a interação entre duas espécies gera um conjunto de adaptações que são dinâmicas e envolvem aquilo que chamamos de “corrida evolutiva”. Por exemplo, se um hospediro desenvolve um tipo de defesa novo, é muito vantajoso ao parasito desenvolver algum tipo de contra-ataque e vice-versa, caso contrário,  haverá uma vantagem crescente de um sobre, uma vez que linhagens mais bem-sucedidas simplesmente persistem, enquanto as outras vão desaparecendo. Esse tipo competição entre os elementos biológicos foi  chamado pelo biólogo norte-americano Leigh Van Valen (1973) de “Hipótese da Rainha Vermelha. O pesquisador faz referência ao personagem homônimo do livro Alice através do espelho, de Lewis Carroll (1832-1898). Numa passagem do livro, Alice, já cansada de correr e espantada por todas as outras coisas parecerem ter permanecido imóveis, recebe a explicação da Rainha Vermelha: “Alice, aqui, como você vê, precisamos estar sempre correndo para ficar no mesmo lugar”.

A situação de pandemia que vivemos pode ser um bom exemplo disso, com o homem tentando utilizar a inteligência na produção de vacinas em resposta a facilidade infectiva de um tipo de Coronavirus. Pois um estudo que ainda está sob revisão comparou a imunidade vacinal promovida pela vacina Pfizer-BioNTech e a imunidade natural contra a infecção pela variante Delta em Israel, o que nos mostra em que pé estamos nessa “corrida”.

Nesse estudo a imunidade natural revelou ser 13 vezes mais potente que a vacina em questão, o principal imunizante utilizado em Israel. Foi demonstrado que a imunidade natural foi mais efetiva em prevenir a hospitalização e as manifestações da Covid-19, ou mesmo a infecção pela variante Delta do Sars Cov-2.

O estudo avaliou indivíduos do Maccabi Healthcare Services, serviço de saúde estatal de Israel com 2,5 milhões de atendidos. Gazit e colaboradores (2021) estudaram 3 grupos que chamaremos aqui de:  grupo de somente vacinados ou VA, composto por 673.676 indivíduos, sem a exposição prévia a SARS-CoV-2 e que recebeu a imunização recomendada, com duas doses da vacina;  grupo de infectados e vacinados ou IV, com 42.099 indivíduos, que apresentou infecção prévia por SARS-CoV-2 e recebeu apenas uma dose da vacina; e o grupo de somente infectados ou IN, 62.883 indivíduos não vacinados e previamente infectados pelo SARS-CoV-2. Sendo assim, o artigo é o maior maior estudo observacional em grade escala comparando imunidade natural e vacinação realizado até agora.

Este estudo foi realizado de 1 de junho a 14 de agosto de 2021, quando a variante Delta era comum em Israel e comparou a taxa da infecção por SARS-CoV-2, a severidade da COVID 19, a hospitalização e a mortalidade. O grupo VA apresentou um risco 13,06 vezes maior (IC de 95%, 8,08 a 21,11) de apresentar infecção pela variante Delta em comparação em comparação com os grupos IV e IN, infectados naturalmente 5 a 6 meses antes do estudo. O risco de desenvolver manifestações de Covid-19 pela variante Delta também foi maior para o grupo VA (P <0,001). O grupo de VA também foi mais vulnerável à hospitalização. Quando a infecção ocorreu em qualquer momento antes da vacinação (março de 2020 a fevereiro de 2021, grupo IV), foi demonstrada uma chance  5,96 vezes menor de  diminuição da imunidade natural (IC de 95%, 4,85 a 7,33) e uma chance 7,13 vezes menor de manifestações graves (IC 95%, 5,51 a 9,21) que no grupo VA.  Os indivíduos exclusivamente vacinados (VA) contra a SARS-CoV-2 também correram um risco maior de hospitalizações pela variante Delta em comparação com aqueles que foram previamente infectados. Não houve mortes em nenhum grupo durante o estudo.

Embora mais trabalhos sejam necessários, os pesquisadores acreditam que os resultados do trabalho podem indicar que outros antígenos devam estar contribuir para incrementar a proteção, além da proteína Spike (tipo de proteína de superfície viral ou peplômero). O trabalho é interessante pela proposta e pelo número de participantes envolvidos, o que só seria possível em um país com grande mobilização para vacinação. Entretanto, os autores levantam elementos importantes que não puderam ser controlados neste estudo, como a ausência de testagem em indivíduos assintomáticos, uma vez a busca não foi compulsória, mas espontânea, e o comportamento natural dos indivíduos que não conseguem prever erros no autocuidado (máscara, distanciamento social e higiene das mãos e mucosas). É importante observar que as vacinas podem adicionar um impulso extra à proteção de comunidades que se recuperaram da COVID-19. Os resultados mostraram que a imunidade natural seguida de uma única dose vacinal (IV) promoveu maior proteção contra o reinfecção do que na imunidade natural sozinha (IN) e ainda não existem estudos a respeito do efeito da terceira dose (segundo reforço). 

Mas cuidado! Insistir na vacinação é dar um tiro no pé. É procurar entender como insraelenses que sobreviveram a infecção, podem ter uma resposta 13 vezes melhor que seus compatriotas que receberam a vacina Pfizer-BioNTech.  A imunidade natural nos dá grandes oportunidades para esclarecer os mecanismos de reconhecimento e neutralização viral, de maneira que isso aprimore a vacinação.  Nossa vantagem evolutiva não está relacionada apenas à nossa capacidade genética de resistir à infecção, mas também a nossa capacidade intelectual de tentar impedir qualquer morte; é ter consciência de não correr o risco de estar entre os 2% que morrem pela infecção natural, caso não tenham nenhum tipo de proteção prévia!!! Esta é a nossa “corrida da Rainha Vermelha”, onde fugimos do bandido sem utilizarmos somente as “pernas”, pois tentamos salvar até os que não têm fôlego.

Hipotese da Rainha Vermelha. Sugestão de leitura: https://cienciahoje.org.br/artigo/a-rainha-vermelha-e-o-bobo-da-corte/

Gazit S, et al. Comparing SARS-CoV-2 natural immunity to vaccine-induced immunity: reinfections versus breakthrough infections. medRxiv, 2021. https://doi.org/10.1101/2021.08.24.21262415

Pandemia viral e mais parasitos

Por Carlos Eugênio Silva – Professor do ICBS-UFRGS

É inegável o impacto sanitario e as diferentes repercusões que a pandemia viral de SARS Cov 2 tem provocado. Também é notória a importância do que a vacinação pode fazer para controlar as piores manifestações da COVID 19, mesmo considerando a utilização de imunizantes menos eficazes.
Infelizmente, este problema mundial não é mitigado de modo uniforme, o que favorece o aparecimento de cepas novas. Esse contraste pode ser observado em situações diametralmente opostas. Considerando países em desenvolvimento, o Brazil, mesmo com mais de meio milhão de vítimas, já vacinou mais de 60% dos 210 milhões de habitantes, pelo menos com a primeira dose. Entratanto, em toda Africa, somente pouco mais de 7% da população recebeu a primeira dose.
Se isso não bastasse, tanto lá, quanto cá, temos um contingente significativo de pessoas expostas a Doenças Negligenciadas (NTD), que representam aquelas doenças que acometem populações com baixa renda e baixa instrução e que contribuem para a manutenção das desigualdades sociais; dentre essas donças, destacam-se as parasitoses.
Em artigo recente na Trends in Parasitology, pesquisadores da Unicamp, avaliram os impactos direto das parasitoses na Pandemia de Covid 19 e alertaram para o cuidado mútuo que deve ser mantido para evitar que populações fragilizadas não sejam um fator que possa prolongar a infecção pelo Sars Cov 2.
Fatores comportamentais relacionados ao controle da pandemia colaboram tanto para a redução como para o aumento de parasitoses, como aconteceu com a escabiose, que aumentou na Turquia com o lock down e não não pode ser controlada com os antisépticos em uso.
Outra questão está relacionada com a relação parasito-hospedeiro. O vírus é um parasito intracelular obrigatório e que é desfavorecida nos grupos etários sem comorbidades específicas. Entretanto, o manejo tradicional das formas respiratórias em indivíduos sem comorbidades importantes, mas que estejam acometidos por Strongyloides stercoralis, pode ter um desfecho bastante grave. O uso terapeutico de corticosteróides para controlar a inflamação pode ser fatal, pois mesmo auxiliando na melhora das manifestações da Covid 19, favorece a a auto-infecção interna e hiperinfecção pelo verme.
Entre outros aspectos, protozooses como a Leishmaniose Visceral e a Doença de Chagas, que provocam, consecutivamente, cardiomiopatia e imunossupressão, criam condições que favorecem muito o estabelecimento da infecção viral.
A epidemia de COVID 19 tem levado governos de países em desenvolvimento a realizar duras escolhas. As terapias em massa para controle de parasitos envolvem utilização de medicações cuja falta de conhecimento técnico leva a interpretações equivocadas, como o caso da Ivermectina e dos Benzimidazóis. Estas medicações são amplamente utilizadas em campanhas de erradicação parasitária na África Sub-Saariana e no Sudeste Asiático e que deixaram de ser prorizadas pela vacinação, que ainda assim não está sendo eficiente (pouco mais de 7% em toda África).
Seria importante que não dessemos chance ao azar. Devemos diagnosticar e tratar concomitantemente as NTD, pois nossas alianças sociais são ainda mais frágeis que as alianças seletivas naturais.

Danilo C Miguel, Mariana B C Brioschi, Leticia B Rosa, Karen Minori, Nathalia Grazzia. 2021. The impact of COVID-19 on neglected parasitic diseases: what to expect?
Trends Parasitology. 37(8):694-697.
DOI: 10.1016/j.pt.2021.05.003