Pandemia viral e mais parasitos

Por Carlos Eugênio Silva – Professor do ICBS-UFRGS

É inegável o impacto sanitario e as diferentes repercusões que a pandemia viral de SARS Cov 2 tem provocado. Também é notória a importância do que a vacinação pode fazer para controlar as piores manifestações da COVID 19, mesmo considerando a utilização de imunizantes menos eficazes.
Infelizmente, este problema mundial não é mitigado de modo uniforme, o que favorece o aparecimento de cepas novas. Esse contraste pode ser observado em situações diametralmente opostas. Considerando países em desenvolvimento, o Brazil, mesmo com mais de meio milhão de vítimas, já vacinou mais de 60% dos 210 milhões de habitantes, pelo menos com a primeira dose. Entratanto, em toda Africa, somente pouco mais de 7% da população recebeu a primeira dose.
Se isso não bastasse, tanto lá, quanto cá, temos um contingente significativo de pessoas expostas a Doenças Negligenciadas (NTD), que representam aquelas doenças que acometem populações com baixa renda e baixa instrução e que contribuem para a manutenção das desigualdades sociais; dentre essas donças, destacam-se as parasitoses.
Em artigo recente na Trends in Parasitology, pesquisadores da Unicamp, avaliram os impactos direto das parasitoses na Pandemia de Covid 19 e alertaram para o cuidado mútuo que deve ser mantido para evitar que populações fragilizadas não sejam um fator que possa prolongar a infecção pelo Sars Cov 2.
Fatores comportamentais relacionados ao controle da pandemia colaboram tanto para a redução como para o aumento de parasitoses, como aconteceu com a escabiose, que aumentou na Turquia com o lock down e não não pode ser controlada com os antisépticos em uso.
Outra questão está relacionada com a relação parasito-hospedeiro. O vírus é um parasito intracelular obrigatório e que é desfavorecida nos grupos etários sem comorbidades específicas. Entretanto, o manejo tradicional das formas respiratórias em indivíduos sem comorbidades importantes, mas que estejam acometidos por Strongyloides stercoralis, pode ter um desfecho bastante grave. O uso terapeutico de corticosteróides para controlar a inflamação pode ser fatal, pois mesmo auxiliando na melhora das manifestações da Covid 19, favorece a a auto-infecção interna e hiperinfecção pelo verme.
Entre outros aspectos, protozooses como a Leishmaniose Visceral e a Doença de Chagas, que provocam, consecutivamente, cardiomiopatia e imunossupressão, criam condições que favorecem muito o estabelecimento da infecção viral.
A epidemia de COVID 19 tem levado governos de países em desenvolvimento a realizar duras escolhas. As terapias em massa para controle de parasitos envolvem utilização de medicações cuja falta de conhecimento técnico leva a interpretações equivocadas, como o caso da Ivermectina e dos Benzimidazóis. Estas medicações são amplamente utilizadas em campanhas de erradicação parasitária na África Sub-Saariana e no Sudeste Asiático e que deixaram de ser prorizadas pela vacinação, que ainda assim não está sendo eficiente (pouco mais de 7% em toda África).
Seria importante que não dessemos chance ao azar. Devemos diagnosticar e tratar concomitantemente as NTD, pois nossas alianças sociais são ainda mais frágeis que as alianças seletivas naturais.

Danilo C Miguel, Mariana B C Brioschi, Leticia B Rosa, Karen Minori, Nathalia Grazzia. 2021. The impact of COVID-19 on neglected parasitic diseases: what to expect?
Trends Parasitology. 37(8):694-697.
DOI: 10.1016/j.pt.2021.05.003

Pesquisadores ingleses acompanharam semanalmente trabalhadores de um hospital em Londres e avaliaram a resposta imune à COVID-19.

Bruno Lopes Breda

Professor Carlos Eugênio Silva

Sabemos que a imunidade contra doenças infecciosas acontece por diversas vias: os anticorpos, que ganharam especial destaque na mídia desde o início da pandemia, a imunidade celular, que acontece pelas células que atuam como “vigilantes” no sangue, e, também, por citocinas, que auxiliam na comunicação entre as células do nosso corpo. A fim de saber um pouco mais sobre a correlação entre imunidade celular e anticorpos na COVID-19, um grupo de pesquisadores desenvolveu um estudo muito interessante em um hospital situado em Londres.

Iniciado em março de 2020, no início do lockdown que foi instaurado no Reino Unido, o estudo acompanhou um grupo de 731 trabalhadores da saúde de um hospital em Londres, os quais realizavam, semanalmente, testes de swab nasofaríngeo, PCR e coleta de sangue para análise sorológica. À medida em que o tempo foi passando, 21,5% desses trabalhadores teve diagnóstico confirmado de COVID-19, sendo todos os casos considerados leves ou assintomáticos. Para analisar as respostas celulares e de anticorpos nesse grupo, os pesquisadores selecionaram 76 integrantes que tiveram o diagnóstico laboratorial de infecção por SARS-CoV-2 e os compararam com outros 60 integrantes do grupo que, ao longo do estudo, não se infectaram com a doença, todos pareados adequadamente por sexo, idade e etnia, a fim de comparar como estava a resposta de células T – responsáveis pela imunidade celular – e a produção de anticorpos nos dois grupos após 16 – 18 semanas do início do lockdown inglês.

Análise da Resposta de Células T

Para avaliar a resposta das células T ao vírus, foram realizados testes laboratoriais de IFNgama-ELISpot de 3 formas complementares: proteína inteira, epítopo de peptídeo mapeado e pool de peptídeos sobrepostos. Dessa maneira, os pesquisadores conseguiram avaliar adequadamente se houve resposta de células T CD4 e T CD8 contra proteínas do vírus que desempenham papel importante na infecção às nossas células.

Na análise cumulativa da resposta de células T, viu-se que 89% dos pacientes que foram infectados com o vírus apresentam resposta detectável. A análise isolada de cada uma das regiões das proteínas apresenta uma frequência relativamente baixa, entretanto as frequências acumuladas são semelhantes a resposta de células T contra Influenza, Epstein-Barr e Citomegalovirus. Além disso, os pesquisadores perceberam que a resposta às proteínas spike e nucleocapsídeo – duas proteínas muito estudadas no vírus da COVID-19 – foi significativamente mais frequente em pacientes que tiveram infecção confirmada por laboratório.

Dos pacientes infectados com o vírus, 85% apresentaram resposta à proteína do nucleocapsídeo, enquanto apenas 29% dos pacientes não infectados demonstraram essa resposta. Já na análise da resposta à proteína spike, 49% dos infectados responderam, enquanto apenas 22% dos não infectados respondeu.

Anticorpos Neutralizantes

Entre pacientes que tiveram infecção confirmada pelo vírus da COVID 19, 97% apresentava anticorpos IgG contra a proteína spike ou IgM/IgG contra a proteína do nucleocapsídeo. A observação dos anticorpos reconheceu que 89% dos infectados apresentavam anticorpos neutralizantes – ou seja, que conseguem impedir a funcionalidade do vírus dentro do nosso corpo – contra o pseudovírus da COVID-19. O título desses anticorpos, ou seja, a “concentração” em que eles estavam presentes no plasma variou bastante, mas 66% das amostras de sangue dos pacientes tinham um IC50 (a quantidade mínima de anticorpos que neutraliza 50% das partículas virais com que entra em contato) com título superior a 200.

Quando comparadas as infecções com a clínica dos pacientes, ou seja, como foram os sintomas que eles tiveram, os pesquisadores perceberam que pacientes que eram assintomáticos ou que não tinham os sintomas clássicos da COVID-19 apresentaram níveis mais baixos de anticorpos IgG (figura 2E) contra a proteína S do vírus, embora os níveis de anticorpos neutralizantes entre os grupos tenham apresentado similaridade ao longo do período estudado (figura 2F).

Conclusões

No estudo analisado, podemos perceber que o grupo de pacientes infectados com o vírus apresentou níveis variados de resposta celular às proteínas do vírus da COVID-19, entretanto, apenas duas amostras não apresentaram resposta alguma ao vírus. No que concerne aos anticorpos, 89% dos pacientes infectados apresentavam anticorpos neutralizantes contra a COVID-19 16-18 semanas após serem infectados (uma surpresa para nós, uma vez que uma hipótese muito discutida no meio científico é a de que os anticorpos caem rapidamente após a infecção). Outra surpresa é que os níveis desses anticorpos neutralizantes foram relativamente altos entre as amostras analisadas. Isso abre espaço para, por exemplo, investigar o real potencial de reinfecção do novo coronavírus na espécie humana ou a forma como o vírus pode evadir da resposta imune induzida pelas vacinas aplicadas atualmente.

Com relação ao risco de agravamento da doença e das formas graves, sabemos hoje que a idade e as comorbidades são fatores de risco importantes para que a doença seja mais severa e precise de internação hospitalar. Apesar de nenhum membro do grupo estudado ter necessitado de internação quando foi infectado com a doença, percebeu-se que, nas mulheres avaliadas, quanto mais idoso o indivíduo estudado, maiores eram os níveis de anticorpos no sangue. Já para as células T, foi observado que a resposta celular aumenta com nos homens junto com a idade.

Trabalhos com células T indicam que mesmo pessoas assintomáticas e contatos domiciliares desenvolvem respostas de células T de baixa frequência. Estes achados se relacionam com os resultados encontrados nos profissionais da saúde amostrados sem infecção confirmada laboratorialmente. O trabalho demonstrou que os indivíduos infectados podem apresentar uma resposta T altamente heterogênea no reconhecimento de epítopos de ´diferentes proteínas estruturais e não estruturais de SARS-CoV-2.

Esse estudo serve como um bom ponto de partida para análises mais aprofundadas sobre a resposta imune ao vírus da COVID-19, e fala a favor da ideia de que a resposta à infecção pela COVID-19 não é mediada apenas por anticorpos ou células de defesa, mas sim uma trama complexa em que todos os fatores do sistema imunológico atuam de forma conjunta. O estudo mostra como devemos realizar mais estudos longitudinais para entender a resposta contra o SARs COV 2 e se sua disseminação e futura endemicidade pode gerar comportamento semelhante àqueles encontrados para outros Coronavírus sazonais do homem. Apesar de tudo o estudo foi medido em profissionais da saúde, o que nos coloca novamente na posição de considerarmos o quanto o uso de máscaras, higiene e a prática do distanciamento social também pode ter contribuído com a própria resposta imune para o não aparecimento de casos graves.

O verme dos ovos de ouro

Dr. Carlos Eugênio Silva – DEMIP – UFRGS

As infecções virais causaram mais de 3 milhões de mortes em todo o mundo em 2017, e, provavelmente, aumentarão em mais de 1 milhão a mortalidade geral em 2020, devido à pandemia COVID-19. Surtos virais globais, incluindo COVID-19, HIV e Influenza ilustram a necessidade crítica de entender como e por que um mesmo vírus pode causar doença leve em alguns hospedeiros, mas desencadear doenças graves e morte em outros.
As infecções por helmintos (vermes) afetam mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo e infectam desproporcionalmente as populações pobres do mundo, matando anualmente mais de 1 milhão de pessoas. Evidências científicas crescentes sugerem que as infecções por vermes, particularmente os esquistossomos, afetam a suscetibilidade do hospedeiro a diferentes vírus e aumentam a gravidade das doenças virais devido ao impacto que causam no sistema imunológico do hospedeiro.
Especificamente no caso da esquistossomose o homem desenvolve uma resposta imune dinâmica à infecção por este verme. A resposta que predomina no início da infecção apresenta um forte componente celular (Th1) e algum componente envolvendo a produção de anticorpos (Th2), atuando na destruição do parasito no fígado e mucosa intestinal. Em seguida, a resposta Th2 passa a ser mais relevante. Finalmente, na doença crônica, ocorre a dominância de um componente regulatório da resta imune (T reg), com alguma contribuição Th2. A diminuição concomitante de citocinas Th1 durante esta fase crônica fundamenta a hipótese de que o hospedeiro infectado com esquistossomo pode apresentar a resposta antiviral comprometida pela redução da atividade citotóxica e imunidade Th1.
Bullington e colaboradores recentemente (2021) examinaram esses argumentos, através de uma revisão sistemática da literatura a respeito dos efeitos da infecção por esquistossomos concomitante com infecções virais em relação a: resposta antiviral do hospedeiro, prevalência e incidência da infecção viral, virulência e na vacinação antiviral. O trabalho envolveu a revisão de 4.731 títulos relacionados, dos quais 103 estudos preencheram completamente os critérios a serem analisados.
A revisão apresentada demonstrou consistentemente que a infecção pelo esquistossomo prejudica resposta imune do hospedeiro a algumas vacinas antivirais, distorce a imunidade antiviral e impacta, possivelmente tanto positiva quanto negativamente na virulência das infecções virais dependendo do vírus e o local da patologia.
Assim, a mudança do perfil da atividade imune durante a fase crônica da doença, com o aumento do controle da resposta inflamatória e celular (T reg) parece favorecer a susceptibilidade ao Herpesvírus do Sarcoma de Kaposi e do HIV, favorecer a virulência dos vírus das Hepatites B e C e favorecer a infecção feminina ao HIV. Entretanto, quando os estudos envolveram a tratamento dos indivíduos estudos com Praziquantel, principal medicação utilizada no tratamento da esquistossomose, a atividade antiviral aumentou significativamente.
É interessante notar que o padrão de imunidade induzido na coinfecção pelo esquistossoma reduz a inflamação pulmonar na infecção pelo vírus da Influenza, a inflamação associada com a paralisia na infecção com HTLV-1 e a redução da carga viral na infecção crônica pelo HIV. Como era esperado, nos estudos comparativos com infecções virais simples a resposta predominante era a Th1.
Entre os impactos sanitários mais importantes reforçados pela revisão é o comprometimento da resposta vacinal contra os vírus da Hepatite B e do sarampo, devido a forte regulação as respostas imunes celular e humoral.
Este padrão de atividade de defesa verificado nesta coinfecção e comum na esquistossomose é em grande parte decorrente da presença passiva e errática de ovos do verme que são retidos nos tecidos provocando forte resposta Th1. Uma resposta tão intensa poderia matar o hospedeiro, forçando o esquistossoma a criar um arsenal especial de moléculas que possam regular fortemente a atividade inflamatória.
Muito embora essas evidências pudessem tornar o Schistosoma o “verme dos ovos de ouro”, estamos muito longe de entender as relações evolutivas as quais o homem ou seus parasitos compartilham benefícios que possam incluir outros parceiros, como bactérias e os próprios vírus. É importante salientar que mitigar as situações de risco de infecção envolvem um custo-benefício muito maior, mas o trabalho abre muitas perspectivas desde estudos em nível molecular e na saúde única.

Referência: Bullington BW, Klemperer K, Mages K, Chalem A, Mazigo HD, Changalucha J, et al. (2021). Effects of schistosomes on host anti-viral immune response and the acquisition, virulence, and prevention of viral infections: A systematic review.
PLoS Pathog 17(5): e1009555. https://doi.org/10.1371/journal.ppat.1009555

“Porque eu estou escrevendo essa postagem?” Déficits cognitivos na pandemia

À medida que a pandemia de Covid-19 avança, as suspeitas de efeitos a longo prazo da infecção são relatadas. A também denominada COVID “persistente” (“Long Covid”, tradução livre) envolve manifestações mais brandas e persistentes de manifestações das fases iniciais (subaguda e crônica precoce). Também há relatos informais de confusão mental, fraqueza geral, um amplo espectro de manifestações psicológicas, como falta de concentração, desorientação e dificuldade de encontrar as palavras certas. A literatura tem demonstrado complicações neurológicas para diferentes condições patológicas decorrentes da COVID-19, uma vez que essas manifestações podem ser sequelas que envolvam a sepse, hipoxia e hiper estimulação imune.
Preocupados com estas sequelas, Hampshire e colaboradores (2021) desenvolveram um estudo consistente em que mais de 81 mil indivíduos foram submetidos a um questionário para testar a hipótese de que a recuperação da COVID-19 está associada com manifestações objetivas de déficit cognitivo.
Para tanto, a coleta de dados envolveu o público em geral, predominantemente do Reino Unido, que respondeu a um questionário e uma série de avaliações cognitivas incluídas no chamado ‘Teste Intelectual da Gram Bretanha”, amplamente divulgados pelos meios de comunicação. Esta avaliação foi sensível a variáveis de interesse como idade, sexo, grau de instrução, passível de ser ajustado para pacientes idosos e pacientes com deficiências motoras e cognitivas leves.
Os resultados confirmaram a hipótese principal de que aqueles que se recuperaram da COVID-19 (com confirmação laboratorial) em casos com internação hospitalar apresentaram pior desempenho do que o esperado nos testes cognitivos, independente de sua idade ou perfil demográfico.
O estudo em questão não considerou aspectos clínicos individuais, mas representou uma tentativa extensa de avaliar aptidões intelectuais em respondentes com ou sem histórico de COVID-19. Os resultados encontrados sugerem que estudos longitudinais envolvendo análises de imagem e biológicas devem ser realizados para fundamentar os achados de deficiências cognitivas em indivíduos que se recuperam de manifestações da COVID-19.

Referência:
Hampshire, A; et alli. 2021. Cognitive deficits in people who have recovered from COVID-19. The Lancet: EClinicalMedicine.
https://www.thelancet.com/journals/eclinm/article/PIIS2589-5370(21)00324-2/fulltext?s=08#seccesectitle0013
DOI: https://doi.org/10.1016/j.eclinm.2021.101044

Por que governos de vários países têm tanto medo da variante Delta?

A temida variante Delta do SARS-CoV-2 está se espalhando com uma velocidade impressionante. Publicamos recentemente um post relatando a predominância dessa variante no Reino Unido, mas atualmente ela já foi isolada em quase todo o mundo. Apesar disso, os artigos científicos relativos à biologia dessa variante ainda são poucos, mas essenciais para entendermos como ela (e outras variantes) irá nos afetar.

Deixando questões ideológicas de lado, o primeiro alerta mundial sobre a COVID-19 surgiu na China no final de 2019 e, de lá para cá, os chineses têm contribuído imensamente para o conhecimento dessa doença. Pesquisadores chineses acabaram de publicar um preprint (artigo ainda não avaliado pelos pares para publicação em uma revista científica) no qual reportam a primeira transmissão local da variante Delta na China, conseguindo rastrear as infecções até o caso índice (primeiro caso).

No artigo, os pesquisadores chamam a atenção para o fato de que a carga viral (quantidade de partículas virais carreadas por uma pessoa) da variante Delta é cerca de mil vezes maior do que a da cepa do SARS-CoV-2 que circulou na China durante a primeira onda da pandemia (início de 2020). Isso pode significar que a variante Delta tem uma taxa de replicação maior e pode ser mais infecciosa durante as fases iniciais da infecção.

Os pesquisadores chineses conseguiram acompanhar casos de infecção pela variante Delta, traçando os contatos dos infectados e realizando o teste de RT-PCR, padrão para a detecção do vírus. Com isso, foram capazes de verificar que o tempo entre a exposição ao vírus e a obtenção de teste RT-PCR positivo diminuiu para quatro dias em média, em comparação com os seis dias de intervalo nos testes realizados em 2020.  

O artigo conclui que a frequência da testagem populacional deve ser otimizada, já que a transmissão da variante Delta é mais rápida. Se essa variante for realmente mais infecciosa durante a fase pré-sintomática (antes dos sintomas aparecerem), a quarentena precoce de casos suspeitos e seus contatos se torna ainda mais importante.

VAMOS FAZER A NOSSA PARTE: USEM MÁSCARAS, PRATIQUEM O DISTANCIAMENTO SOCIAL E NÃO PERCAM A OPORTUNIDADE DE SE VACINAR. VAMOS VENCER ESSE VÍRUS!

FONTE: Viral infection and transmission in a large, well-traced outbreak caused by the SARS-CoV-2 Delta variant. Baisheng Li et al. medRxiv preprint doi: https://doi.org/10.1101/2021.07.07.21260122. July 23, 2021.

Qual a real ameaça das mutações do SARS-CoV-2?

Dra. Patricia Valente – DEMIP/UFRGS

Acaba de ser publicada uma reportagem na Science News chamando a atenção para um artigo, publicado na conceituada revista Cell, que mostra que uma única mudança em uma proteína viral importante pode ter ajudado o coronavírus por trás do COVID-19 a passar dos animais para as pessoas, fazendo com que o vírus se tornasse o flagelo que é hoje. Essa mutação parece ajudar a proteína spike do vírus a se agarrar fortemente à versão humana de uma proteína hospedeira chamada ACE2, que o vírus usa para entrar e infectar células.

A reportagem apresenta opiniões de alguns pesquisadores sobre esse achado. Enquanto alguns acreditam que sem essa mutação a pandemia não teria acontecido como aconteceu e a propagação global do coronavírus teria sido menos provável, outros ponderam que, apesar das novas descobertas sugerirem que a mutação é importante, ela é potencialmente uma entre várias mudanças que tornaram possível o salto dos animais para as pessoas, não sendo, necessariamente, a única que possibilitou esse salto.

Independentemente da controvérsia, o fato é que mutações são eventos que ocorrem naturalmente e possuem efeitos imprevisíveis. A grande maioria não causa alterações perceptíveis no organismo que as sofreu (no SARS-CoV-2, por exemplo). Porém, elas podem ocorrer em locais do genoma que são importantes para alguma característica morfológica ou fisiológica. Se essa característica estiver correlacionada a alguma função importante para o organismo, como, no caso do SARS-CoV-2, a invasão de uma célula hospedeira, aumento de virulência ou fuga do sistema imunológico, ela passa a conferir uma vantagem adaptativa para o vírus.

A humanidade está atravessando um período, como tantos outros que já atravessamos no passado, em que travamos uma batalha pela nossa sobrevivência enquanto espécie. A diferença é que, dessa vez, temos mais conhecimento científico e maior capacidade de mobilização de pessoas do que nas vezes anteriores. A grande pergunta, então, é: Por que não estamos conseguindo usar esse conhecimento e essa capacidade de mobilização em nosso favor? Por que o vírus está ganhando da gente?

Nós somos seres inteligentes, sabemos o que temos que fazer para vencer essa batalha. Recentemente, publicamos um post sobre a nossa responsabilidade no aparecimento das variantes do SARS-CoV-2. Mutações são naturais, mas insistirmos em comportamentos que dão chance ao vírus de se multiplicar e acumular mutações, possibilitando o surgimento de variantes preocupantes, que podem ser mais virulentas ou fugir da cobertura das vacinas que temos atualmente ao nosso dispor, é burrice.

Vamos nos unir contra o vírus. É essencial o uso de máscaras, manutenção do distanciamento social e vacinação. Unidos nós somos mais fortes!

#unidoscontraovírus

FONTES: One mutation may have set the coronavirus up to become a global menace. Erin Garcia de Jésus. Science News 12/07/2021.

Kang et al. A selective sweep in the spike gene has driven SARS-CoV-2 human adaptation. Cell. Published online July 6, 2021. doi: 10.1016/j.cell.2021.07.007.

Qual a nossa responsabilidade no surgimento de novas variantes do SARS-CoV-2?

Dra. Patricia Valente – DEMIP/UFRGS

O mundo está estarrecido com o aparecimento de uma variante do SARS-CoV-2 após a outra. A preocupação mais recente é a variante Delta, que já foi encontrada em pelo menos 98 países ) e tem uma capacidade de disseminação maior do que as demais variantes (veja nosso post sobre esse assunto). A origem do vírus inicial passou a ter uma importância cada vez menor e ficamos nos perguntando quando esse vírus irá parar de sofrer mutações.

Cada vez que uma nova variante aparece, entramos em pânico porque ela pode causar sintomas mais graves, se espalhar mais facilmente, fugir do nosso sistema imunológico com mais eficácia e, até mesmo, escapar da cobertura das vacinas que temos ao nosso dispor no momento.

Mas, afinal, como surgem essas variantes?

Para responder essa pergunta, primeiro é preciso entendermos como os vírus se multiplicam. Para que a multiplicação das partículas virais ocorra, é necessário que elas infectem uma célula viva. Os vírus dependem da célula hospedeira (célula infectada) para se replicar, sendo incapazes de se multiplicar fora dessa célula e essa é a chave para entendermos o nosso papel no surgimento das variantes.

Durante o processo de replicação (multiplicação), várias cópias do genoma (material genético) viral são produzidas dentro da célula infectada. Nesse processo podem ocorrer alguns erros (as famosas mutações), que são incorporados no genoma viral. Quando há acúmulo de mutações, temos o aparecimento das variantes e o que é conhecido por evolução do vírus.

O processo de replicação do SARS-CoV-2 é bastante complexo e ele, diferentemente de vários outros vírus, como o HIV (causador da AIDS), por exemplo, tem capacidade de corrigir os tais pequenos erros que ocorrem durante a replicação do genoma (mecanismo conhecido pelo termo em inglês proofreading). Portanto, o SARS-CoV-2 é um vírus que evolui lentamente em comparação com os que não possuem o proofreading, por mais inacreditável que isso possa parecer.

Então, se ele evolui lentamente, como é que aparecem tantas variantes em tão pouco tempo?

A resposta direta é que isso é nossa responsabilidade. Quem possibilita o surgimento de tantas variantes somos nós mesmos, na medida em que não adotamos as práticas recomendadas de distanciamento social e uso de máscaras, principalmente. Somos nós que permitimos que o vírus permaneça em circulação e infecte novas células hospedeiras a fim de replicar as partículas virais. Quanto mais nós deixamos que ele se replique, mais mutações irão escapar do sistema de proofreading e, portanto, mais variantes irão surgir.

Aí vocês podem perguntar: mas as vacinas não estão aí para parar o vírus?

As vacinas foram desenvolvidas com o objetivo primário de reduzir a gravidade da doença. A diminuição dos sintomas tem como efeito colateral diminuir a possibilidade de disseminação do vírus entre as pessoas, já que pessoas sintomáticas transmitem maior quantidade de partículas virais do que as assintomáticas. As vacinas não são garantias de que você não irá se infectar, por isso é tão importante manter o distanciamento social e uso de máscaras, mesmo já estando vacinado. Essas medidas não farmacológicas só podem ser suspensas quando a circulação do vírus na população estiver sob controle, o que não é o caso atual do Brasil e de muitos outros países.

Moral da história: Como o SARS-CoV-2 é eficiente em seu processo de multiplicação e corrige a maioria dos erros que ocorrem durante a replicação do seu genoma, a única explicação para o aparecimento sistemático de variantes cada vez mais preocupantes é que não estamos fazendo a nossa parte, isto é, impedindo a multiplicação viral. A diversidade de variantes que estamos vendo só é possível porque estamos deixando o vírus se manter entre nós. Como ele se dissemina rápido e consegue infectar vários hospedeiros de faixas etárias e condições sociais diferentes (só para ficar em dois parâmetros), a quantidade de partículas virais em circulação é tão gigantesca que é possível o aparecimento das variantes. Só vamos conseguir conter essa pandemia quando aprendermos a trabalhar juntos contra o vírus, contendo a sua disseminação.

FONTE: Coronavirus disease (COVID-19): Virus Evolution. Q & A Section. World Health Organization.30 December 2020. https://www.who.int/news-room/q-a-detail/sars-cov-2-evolution

Estudo indica que festas de aniversário são eventos potencialmente importantes no espalhamento das infecções por COVID-19

Natália Morél Cerva – Acadêmica de Enfermagem – UFRGS 

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS  

Como já exaustivamente debatido neste blog, o isolamento social é uma forma importante de impedir a disseminação da COVID-19 e, em contrapartida, os encontros sociais informais são um modo potencialmente importante de transmissão do SARS-CoV-2. Entretanto, os estudos sobre o papel desses encontros na transmissão do vírus geralmente se defrontam com limitações metodológicas. Pesquisadores americanos resolveram explorar um tipo muito específico desses eventos informais – os aniversários – como uma forma indireta de tentar quantificar empiricamente o papel potencial de pequenos encontros sociais na disseminação da COVID-19. Os pesquisadores partiram da hipótese de que domicílios com um ou mais aniversariantes poderiam estar associados a uma maior ocorrência de casos de COVID em relação a domicílios sem aniversariantes, e que isso estaria associado às reuniões que ocorrem por ocasião desses eventos. Para obter os resultados do estudo, os pesquisadores analisaram os dados de 2,9 milhões de domicílios nos EUA.  O período analisado foi entre 1 de janeiro e 8 de novembro de 2020, e os dados foram coletados com uma empresa de seguros de saúde americana. As seguintes informações foram levadas em consideração para realizar o estudo: o tipo de aniversário (por exemplo, aniversário de criança, de adulto ou de alguma data especial, como aniversário de 50 anos), a taxa de transmissão em nível dos condados (condado é um pequeno território dentro de um estado americano) no sábado de cada semana, questões políticas no condado e políticas estaduais de isolamento no local. 

Utilizando os dados da seguradora, com informações sobre aniversários e diagnósticos de COVID-19, os autores identificaram que a ocorrência de um aniversário em um domicílio estava associada a taxas de diagnóstico de COVID-19 significativamente maiores nesses mesmos domicílios nas 2 semanas seguintes aos aniversários, sugerindo que ocorreram encontros sociais para comemorar o aniversário e que esses encontros promovem sim o espalhamento da COVID-19. Entre os domicílios analisados nos condados com a maior prevalência de COVID, aqueles com aniversário tiveram um aumento de 8,6 diagnósticos a cada 10.000 indivíduos nas duas semanas seguintes ao aniversário em comparação com domicílios sem aniversário. Essa diferença entre domicílios com e sem aniversário era tanto maior quanto maior a prevalência de COVID nos condados. Outro dado importante observado foi que o aumento no número de casos após aniversário era maior após o aniversário de uma criança, do que após o aniversário de um adulto, o que pode sugerir uma maior probabilidade da ocorrência encontros informais por ocasião de aniversários das crianças e/ou um maior número de participantes, um relaxamento no comportamento de distanciamento e uso de mascaras ou uma combinação desses fatores. É importante ressaltar que não se entrou dentro de nenhuma residência neste estudo, apenas observou-se uma relação de causa e efeito entre essa data comemorativa e a ocorrência de casos nas semanas que se seguiam ao aniversário, portanto o que se vê é uma evidência indireta de que aniversários promovem condições para a transmissão do vírus e que mais de um fator pode estar envolvido, mas todos os fatores estão potencialmente relacionados à aglomeração social por ocasião destas datas. 

A taxa de infecção de COVID-19 em famílias com aniversários em condados que estavam sob a normativa de isolamento social ativo (lockdown, restrições de circulação, etc.) não foi menor do que em condados sem essas normativas, sugerindo que a adesão a essas políticas para esses eventos específicos pode ser baixa. Também é possível que os pedidos de isolamento social tenham se concentrado em locais formais de reunião, como restaurantes, lojas, academias e outros locais. No entanto, é importante enfatizar que os resultados desse estudo sugerem que as intervenções políticas destinadas a limitar a transmissão de doenças também devem focalizar nas reuniões informais, como as comemorações de aniversário.  

Sabemos que as festas de aniversário são culturalmente e emocionalmente importantes, tanto nos EUA quanto aqui no Brasil, mas todos os dados expostos por esse estudo indicam que elas ainda devem ser evitadas, a fim de conter a disseminação e o alto número de vítimas da COVID-19. Ressaltamos também que as novas variantes em circulação, como a variante Delta, que assunto da postagem anterior do blog (veja aqui), são ainda mais danosas e altamente transmissíveis do que as que estavam em circulação quando esse estudo foi realizado, o que reforça o nosso apelo pelo adiamento destas comemorações até que nos encontremos em uma situação epidemiológica mais segura. 

A variante delta é potencialmente a maior ameaça relacionada à COVID19 até o momento, afirma epidemiologista americano

Bruno Lopes Breda – Acadêmico de Medicina – UFRGS

Tiago Degani Veit – Professor do ICBS – UFRGS

               Com o desenvolvimento da pandemia, é de se esperar que surjam novas variantes da COVID-19, uma vez que o vírus está constantemente somando mutações, as quais trazem preocupação. No dia 24 de junho, o epidemiologista Eric Feigl-Ding, o qual tem sido uma das referências no combate à COVID-19 nos Estados Unidos, compilou em seu twitter uma série de acontecimentos, especialmente na Austrália, que levam os pesquisadores a crer que a variante delta se dissemina com uma velocidade assustadora. Traduzimos, a seguir, os tuítes que falam sobre o assunto. Todos podem ser acessados na íntegra em https://twitter.com/DrEricDing/status/1408078811644768258?s=1005 .

1 – “5-10 segundos” é o tempo necessário para transmitir a variante delta, alerta um agente de saúde de Queensland – AUS. Não é mais preciso 15 minutos para transmitir a COVID-19. Pode ocorrer em um momento fugaz, de segundos. Aconteceu, inclusive, três vezes em um shopping center. https://t.co/M63Nk8b956?amp=1

2 – Especialistas dizem que a variante delta aparenta ser mais transmissível em todas as faixas etárias, incluindo crianças. Ela é transmitida tão facilmente que uma pessoa em Sidney infectou um estranho simplesmente passando por ele na rua.

https://www.abc.net.au/news/2021-06-23/delta-covid-variant-effect-on-children-kids/100234076

3 – O chefe de saúde de New South Whales descreveu o incidente de Bondi Junction como um encontro “assustadoramente fugaz”.

“Eles estão claramente de frente um para o outro, mas é literalmente alguém se movendo um em frente ao outro por um momento, perto, mas momentaneamente”, disse o Dr. Chant.

4 – O Dr. Chant suspeita que duas outras pessoas tenham sido infectadas da mesma maneira.

“Não fomos capazes de olhar exatamente para o mesmo ponto de cruzamento, mas sabemos que eles estavam a 20 metros [um do outro], registrando-se em locais diferentes ao mesmo tempo ou naquela área, então suspeitamos que eles se cruzaram”

5 – “A velocidade e facilidade com que a variante Delta se espalha levou os estados e territórios a agir rapidamente para isolar os viajantes das áreas afetadas. A diretora de saúde de Queensland, Jeannette Young, alertou que estamos vendo “contato muito fugaz” em alguns casos.

6 – “Se você se lembra, no início desta pandemia, falei que cerca de 15 minutos de contato próximo era uma preocupação”, disse ela.

“Agora, parece que são cinco a 10 segundos.

Isso é uma preocupação.

O risco é muito maior agora do que há apenas um ano.”

7 – Esta infecção de exposição “fugaz” foi amplamente discutida na Austrália recentemente. E estudada em detalhes. Há tanto imagens de câmeras de segurança quanto testes genômicos para combinar a variante com precisão para determinar uma combinação entre as duas pessoas.

8 – E sim, houve várias pessoas infectadas como esta exposição passageira em Sydney.

9 – “Eles acabaram de se cruzar na loja de departamentos”… “nenhum contato”, de acordo com as imagens de segurança do CCTV.

10 – Agora estou confiante o suficiente para dizer que a variante delta é agora a maior ameaça de COVID19 até hoje em 2021 (grifo dos tradutores). É de longe a variante mais rápida conhecida até agora. Os dados compilados de 64 países pela OMS não mentem. A variante B16172 é um perigo claro e presente para o mundo. Ajamos rápido.

11 – As pessoas precisam perceber o quão transportado pelo ar esse coronavírus é. Está literalmente no ar que você respira.

https://www.theguardian.com/australia-news/2021/jun/24/its-in-the-air-you-breathe-what-you-need-to-know-about-sydneys-delta-covid-variant

12 – A OMS declarou a variante Delta uma “variante preocupante” de alto risco em maio. Mesmo assim, o CDC não agiu para declarar a Delta um VOC (variant of concern = variante preocupante) mais de um mês depois, em 15 de junho! Sabíamos que era perigoso, mas perdemos muitas oportunidades de agir rápido.

13 – A variante delta é uma ameaça tripla por ser mais transmissível, mais grave e com menor proteção por meio de vacinas, especialmente as de 1 dose. Veja a thread. Assista aos vídeos … 3 partes:

14 – A variante delta está absolutamente disparando em países do mundo todo. Mas mesmo em países altamente vacinados como Estados Unidos, Reino Unido e Israel. Nos EUA, aumentou para 20-30% de todos os casos em apenas uma semana. Está varrendo o mundo – qualquer pessoa que não tenha vacinado duas vezes é extremamente vulnerável.

15 – A variante delta está se espalhando pelo mundo. A vacinação é a chave – mas apenas com  2 doses completas.

Temos uma janela de exatamente 1 mês para a maioria dos países responder rapidamente e vacinar 2x antes que seja tarde demais.

Com duas mortes já confirmadas no Brasil, a variante Delta está entre nós. Trate-a com o respeito que ela merece: evite aglomerações, use máscara, evite ambientes fechados. Vacinado(a) ou não.

É possível que a infecção por parasitos seja protetora para a severidade da COVID-19?

Bruno Lopes Breda – Acadêmico de Medicina – UFRGS

Revisão: Carlos Eugênio Silva (Professor do ICBS – UFRGS

O estudo a ser abordado é um preprint e pode ser acessado na íntegra em https://www.medrxiv.org/content/10.1101/2021.02.02.21250995v1

Sim, a afirmação do título pode soar estranha, mas não foi um erro de digitação. Pesquisadores da Etiópia e da Holanda, em um estudo conjunto, decidiram avaliar se existe correlação entre parasitoses comuns e a severidade da COVID-19. É importante que ressaltemos: embora nos pareça algo incomum, estima-se que 2 bilhões de pessoas do mundo estejam, nesse momento, portando algum parasito. Especialmente em países de menor nível socioeconômico, como os países africanos e, sim, o nosso Brasil, onde as dificuldades de obter saneamento básico para a população criam um ambiente propício para a disseminação desses organismos. Para o leitor que não sabe o que são parasitos, vou exemplificar alguns: a tão conhecida “lombriga”, a teníase (solitária), o “amarelão”, as amebas e a toxoplasmose são todos membros desse grupo denominado “parasitos”, e é eles que iremos avaliar.

Os pesquisadores utilizaram um banco de dados (do estudo Profile-CoV) para selecionar participantes que tivessem passado por uma triagem em busca de infecções com parasitos.  Para entrar no estudo, os pacientes precisavam ter sido infectados com a COVID-19, com confirmação por RT-PCR e, na admissão do hospital, terem passado por uma triagem para parasitoses, com análise de amostras de fezes em busca de ovos e parasitos.

  O desfecho principal do estudo foi obter uma comparação entre a proporção de pacientes que desenvolveram COVID-19 grave nos pacientes que tinham parasitose confirmada e nos pacientes que não tinham parasitose. Por meio de modelos matemáticos, os pesquisadores compararam os grupos em busca desses dados, e os resultados foram, no mínimo interessantes. Dos 515 pacientes selecionados para o estudo, 267 (ou 51,8%) tinham co-infecção com um ou mais parasitos. Os parasitos mais comuns entre o grupo co-infectado foram protozoários, como giárdia e entameba, e helmintos, como a tênia anã, o esquistossomo e áscaris (“lombriga”). Quando comparados os grupos, os pacientes que não tinham infecção por parasitos apresentaram mais febre, dores de cabeça, falta de ar e sangue no escarro. Além disso, percebeu-se que pacientes com COVID-19 mais grave tinham menos co-infecção, e os desfechos entre pacientes sem co-infecção tendiam a ser piores que os do grupo co-infectado.

Como conclusão, o estudo postula que , no grupo estudado, a co-infecção com parasitos (helmintos e protozoários) foi associada com menor probabilidade de desenvolver COVID-19 grave. Isso pode parecer estranho, mas já existem estudos em diversas áreas que, cada vez mais, parecem mostrar que a infecção por parasitos diminui as chances de desenvolvermos outras doenças, como por exemplo diabetes, algumas doenças auto-imunes e doenças metabólicas. Os pesquisadores, inclusive, destacam no estudo que a proporção de pacientes com comorbidades no grupo que estava co-infectado era significativamente menor do que no grupo sem co-infecção.

Mas como uma verminose, como a causada pela lombriga, preveniria o desenvolvimento da COVID-19 para formas mais graves? Bem, sabemos hoje que a progressão da COVID para formas de maior gravidade está associada com uma hiperativação do sistema imune. Em outras palavras, nossas células de defesa não conseguem medir adequadamente a força com que combatem a doença, e acabam por gerar danos ao nosso próprio corpo nesse processo. Alguns parasitos, por outro lado, provocam infecções que têm como característica justamente a modulação da resposta imune. Faz sentido, não? Afinal, como um verme conseguiria sobreviver dentro do nosso intestino se não tivesse boas formas de escapar das nossas células de defesa? Infecções por parasitos tendem a estimular a formação das nossas células Treg, que são, em uma analogia, aquelas que controlam a hiperatividade das outras subpopulações de linfócitos T, associados aos danos que descrevemos acima.

Claro, é importante que reconheçamos algumas limitações desse estudo, que impedem que afirmemos categoricamente que, sim, a infecção com parasitos impede com certeza a evolução da COVID-19 para formas mais graves. Primeiro, e mais importante, ele é um estudo com uma população reduzida, de pouco mais de 500 pacientes. Além disso, ele é um estudo retrospectivo, ou seja, os pesquisadores apenas obtiveram dois recortes dos pacientes: o estado deles quando chegaram ao hospital e o estado deles quando saíram do hospital. Embora tenham-se tomado diversas medidas metodológicas para diminuir ao máximo as chances de erro, é sempre mais confiável que tiremos as informações de estudos prospectivos, em que os pesquisadores acompanham os pacientes ao longo do tempo.

Esse estudo nos fornece algumas informações interessantes sobre o potencial papel das infecções mistas, como a dos parasitos, na evolução da COVID-19. Também sugere outros atratores importantes como a própria microbiota intestinal, uma vez que o estudo considera um estado imunoregulatório complexo que antecede a infecção pelo Sars Cov-2 e nos remete  ao seu potencial co-evolutivo sobre o homem num contexto de saúde única. Em se tratando de COVID-19, todo conhecimento é bem-vindo. Entretanto, não entendamos isso como um convite para sairmos nos infectando com lombrigas, tênias e afins, por favor!