Na pandemia de COVID-19 no Brasil, vidas negras importam?

Pesquisadores da USP publicaram um comentário na revista The Lancet Global Health sobre um estudo pioneiro publicado na mesma revista no início de julho. Achados encontrados em outros países duramente atingidos pela COVID-19 têm sido confirmados no Brasil: as taxas de mortalidade da pandemia diferem por região geográfica e etnia, com impacto desproporcional para as populações negras e outras minorias étnicas.

Com base nos dados de mortalidade por COVID-19 em hospitais do SIVEP-Gripe (Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe), o estudo publicado em julho comparou a população de brasileiros brancos, pardos e negros hospitalizados e encontrou maior risco de mortalidade para os pardos e negros.  A etnia parda foi o segundo mais importante fator de risco para óbito após a idade.  

Na região norte, pacientes hospitalizados tiveram maior risco de morte por COVID-19 do que pacientes no centro-sul do Brasil. Rio de Janeiro foi um ponto fora da curva, com taxas de mortalidade similares às dos estados do norte. As taxas de incidência também foram maiores no norte do país. Essas regiões enfrentam vários desafios que afetam diretamente sua capacidade de responder à pandemia de COVID-19: escassez de médicos e intensivistas, vigilância epidemiológica frágil, rede de serviços de saúde mais pobre, menos médicos de família, leitos hospitalares e unidades de terapia intensiva por habitante.  

O percentual de famílias de baixa renda vivendo em habitações com grande número de indivíduos é maior nas áreas do norte do país do que no centro-sul, além de ser maior entre famílias pardas e negras do que entre famílias brancas. Essas condições favorecem a circulação intensa de patógenos. Vizinhanças de baixa renda também têm maior densidade populacional e baixa adesão às medidas de distanciamento social. Adicionalmente, a baixa escolaridade no norte do país e entre populações pardas e negras atrapalha a compreensão sobre os riscos e as medidas propostas pelas autoridades sanitárias, assim como o julgamento do tempo correto para procurar ajuda médica.

Além disso, na região norte, uma menor porcentagem da população urbana é servida por água encanada em comparação com outras regiões. Essa situação significa que uma proporção substancial da população urbana dessa área do país tem dificuldade em aderir à mais simples recomendação de prevenção higiênica: lavar as mãos.

A prevalência de comorbidades entre pardos e negros no Brasil é maior do que em outras etnias, incluindo o sobrepeso e a obesidade, fatores de risco para a COVID-19 severa. Nesse contexto, existem pessoas e lugares mais vulneráveis, cuja suscetibilidade aumenta os riscos da COVID-19.

FONTE: In the COVID-19 pandemic in Brazil, do brown lives matter? Helena Ribeiro, Viviana Mendes Lima, Eliseu Alves Waldman. Lancet Glob Health. 2020 Jul 2 doi: 10.1016/S2214-109X(20)30314-4

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