Você já se perguntou quanto tempo uma pessoa com infecção assintomática pelo SARS-CoV-2 pode carrear o vírus?

Antes de mais nada, precisamos ter em mente que estamos aprendendo diariamente sobre esse vírus e a COVID-19. Estão começando a aparecer artigos na literatura científica, a maioria deles sobre casos chineses. Apesar da infecção em outros países poder ter características diferentes, a experiência chinesa é interessante para todos.

Sabe-se que há um grande número de carreadores assintomáticos (pessoas que têm o vírus, mas não apresentam sintomas) e pessoas com sintomas leves, que podem continuar em suas atividades normais por não saberem que estão infectadas. Segundo pesquisadores chineses, é importante identificar e isolar essas pessoas para conter a disseminação do vírus.

Os autores analisaram 24 pessoas com infecções assintomáticas na China, selecionadas entre contatos de pessoas diagnosticadas com COVID-19. As idades variaram entre cinco e 95 anos. Todos foram admitidos a um hospital chinês para avaliação. Das 24 pessoas, apenas cinco desenvolveram sintomas leves da COVID-19 durante o estudo. Terapia antiviral foi administrada para 21 das 24 pessoas. Nenhuma desenvolveu quadro severo da doença.

O tempo entre o primeiro teste molecular positivo para o vírus e o primeiro teste com resultado negativo, significando que a pessoa potencialmente não tinha mais a infecção, foi de um a 21 dias após o início da avaliação no hospital. Em sete dessas pessoas, o teste molecular para detecção do coronavírus voltou a ficar positivo após ter dado resultado negativo. As pessoas só tiveram alta do hospital após dois testes negativos consecutivos.

Em um dos casos, os pesquisadores relataram evidência de transmissão do vírus entre o paciente assintomático e sua família.

Apesar de algumas limitações desse estudo (número baixo de pacientes assintomáticos testados, entre outras), os autores chamam a atenção para o longo tempo encontrado em alguns pacientes para a obtenção de resultados negativos para o vírus.

PREOCUPANTE, NÃO É?

FONTE: Hu, Z., Song, C., Xu, C., Jin, G., Chen, Y., Xu, X., Ma, H., Chen, W., Lin, Y., Zheng, Y., et al. (2020). Clinical characteristics of 24 asymptomatic infections with COVID-19 screened among close contacts in Nanjing, China. Sci China Life Sci 63, https://doi.org/10.1007/s11427-020-1661-4.

Muito se tem falado sobre a transmissão do coronavírus de uma pessoa assintomática para seus familiares e contatos. Mas, afinal, isso já foi comprovado?

Começam a ser publicados estudos de casos chineses relatando a transmissão do vírus a partir de pessoas assintomáticas (sem sintomas) ou pré-sintomáticas (desenvolveram sintomas posteriormente).

Em um desses estudos, foi analisada a transmissão em uma família de nove membros. Em 19 de janeiro de 2020, um casal (uma mulher de 58 anos e um homem de 60 anos) participou de um festival chinês. A mulher apresentou febre, fadiga e dor de cabeça em 24 de janeiro. No período entre o festival e o início dos sintomas, a filha do casal e sua família (marido e duas filhas) permaneceram com eles alguns dias. A mulher de 58 anos foi hospitalizada dia 26 e diagnosticada com COVID-19. Todos os parentes que tiveram contato com ela foram investigados. A filha do casal apresentou febre e tosse no dia 27 de janeiro e foi diagnosticada com COVID-19. Em 01 de fevereiro, o homem de 60 anos do casal inicial testou positivo para o coronavirus, mas permaneceu assintomático. O marido da filha começou com febre e foi diagnosticado com COVID-19. A filha de três anos de idade não teve sintomas e testou negativo por três vezes. Ela foi o único membro da família que não foi infectado pelo SARS-CoV-2. A filha de treze meses de idade permaneceu assintomática, mas foi confirmada como portadora do vírus em 05 de fevereiro.

Em 23 de janeiro, antes da mulher de 58 anos ter sintomas, a filha do casal e sua família (marido e duas filhas) jantaram com os pais e a avó do marido. Eles também foram investigados e confirmados como tendo contraído a COVID-19. O pai do marido teve sintomas severos e teve que ser transferido para uma UTI.

Os autores chamam a atenção para o seguinte: 1) os sintomas variam de pessoa para pessoa; 2) COVID-19 pode ser transmitida durante o período de incubação; 3) alguns pacientes podem permanecer assintomáticos, apesar de estarem infectados e poderem transmitir o vírus.

MORAL DA HISTÓRIA: A COVID-19 NÃO ESCOLHE FAIXA ETÁRIA NEM SEXO. TODOS PODEMOS SER INFECTADOS. VAMOS NOS PROTEGER E PROTEGER A QUEM NÓS AMAMOS.

FONTE: A COVID-19 Transmission within a family cluster by presymptomatic infectors in China. Qian G, Yang N, Ma AHY, Wang L, Li G, Chen X, Chen X. Clin Infect Dis. 2020 Mar 23. pii: ciaa316. doi: 10.1093/cid/ciaa316.

Já sabemos que devemos lavar as mãos frequentemente com água e sabão ou usar álcool-gel, mas será que podemos fazer mais alguma coisa para nos proteger da COVID-19?

Autores chineses chamam a atenção para possíveis novas formas de contaminação.

A transmissão da COVID-19 ocorre de pessoa para pessoa por vários meios, como inalação de gotículas respiratórias produzidas por alguém infectado e toque em superfícies infectadas (pele, objetos inanimados, etc), com posterior transferência do vírus para a boca, nariz ou olhos.

A transmissão fecal-oral também deve ser considerada, já que o SARS-CoV-2 (vírus que causa a COVID-19) já foi detectado em amostras de fezes de pacientes infectados. Portanto, existe a possibilidade de transmissão por aerossóis (partículas virais em suspensão no ar) gerados durante o acionamento das descargas de vasos sanitários.

VAMOS TOMAR CUIDADOS EXTRA COM NOSSA HIGIENE: SÓ ACIONE A DESCARGA DO VASO SANITÁRIO COM A TAMPÁ ABAIXADA. ISSO IMPEDE A DISSEMINAÇÃO DE VÁRIOS MICRORGANISMOS, INCLUINDO O CORONAVIRUS.

Os autores apontam que a sobrevivência do vírus da COVID-19 no meio ambiente (água, poeira, esgoto, etc) deveria ser investigada e que a contribuição dos cientistas ambientais é importantíssima para o conhecimento desse novo coronavírus.

FONTE: An Imperative Need for Research on the Role of Environmental Factors in Transmission of Novel Coronavirus (COVID-19). Guangbo Qu, Xiangdong Li, Ligang Hu, and Guibin Jiang.  Environ. Sci. Technol, 2020. https://dx.doi.org/10.1021/acs.est.0c01102.

COVID-19 É TRANSMISSÍVEL ATRAVÉS DE FEZES CONTAMINADAS?

Cientistas mostraram que o vírus SARS-CoV-2 pode ser detectado em amostras de fezes mesmo depois de os pacientes não apresentarem mais sintomas e, em alguns casos, até cinco semanas após os testes de amostras respiratórias darem resultado negativo. Também há relatos de casos de pacientes com sintomas em que apenas o teste fecal acusou a presença do vírus.

Visto que o vírus da COVID-19 pode permanecer viável no ambiente, seria possível se infectar através do contato com fezes contaminadas?

Saiba mais clicando AQUI.

Querendo saber mais sobre coronavírus? Ouça essa entrevista que o Dr. Paulo Roehe, virologista e professor titular do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFRGS, fez para a Rafaela Pedroso, do Canal Cachorro Latindo.

Você sabia que existem outros coronavírus? Sabia que eles evoluem, como todos os seres vivos, e podem se adaptar a novos hospedeiros? Foi isso o que aconteceu com o SARS-CoV-2, que está causando a pandemia da COVID-19.

A entrevista foi ao ar em 29 de janeiro de 2020, quando o vírus ainda não havia chegado ao Brasil, mas o seu conteúdo é bem atual. Não deixem de assistir ao vídeo.

Entrevista do Dr. Paulo Roehe – clique aqui

Será que devemos nos preocupar com a possibilidade de transmissão do novo coronavírus a partir de embalagens contaminadas?

Pesquisadores americanos publicaram recentemente uma Carta ao Editor da revista “The New England Journal of Medicine” avaliando a estabilidade do SARS-CoV-2 (nome do vírus que está causando a COVID-19) em diferentes tipos de superfície: plástico, aço inoxidável, cobre e papelão.

Após contaminar as superfícies com uma carga viral (quantidade de vírus) similar à obtida do trato respiratório humano, os cientistas avaliaram a estabilidade do vírus durante três dias, que foi o tempo de duração dos experimentos realizados.

O SARS-CoV-2 foi mais estável no plástico e no aço inoxidável, tendo algumas partículas virais viáveis após os três dias do experimento. No cobre, não havia mais partícula viral viável após quatro horas de experimento, enquanto no papelão foram necessárias 24 horas para que não houvesse mais a detecção de partículas virais viáveis.

Os pesquisadores concluíram que a transmissão do novo coronavírus a partir de superfícies é possível, já que o vírus permanece viável e infeccioso por horas e até mesmo dias, dependendo do tipo de material da superfície contaminada.

VAMOS LAVAR AS MÃOS E HIGIENIZAR AS EMBALAGENS DE PRODUTOS APÓS A IDA AO SUPERMERCADO!!!!

FONTE: Aerosol and Surface Stability of SARS-CoV-2 as Compared with SARS-CoV-1. Van Doremalen et al.. Carta ao Editor publicada online na The New England Journal of Medicine em 17 de março de 2020. DOI: 10.1056/NEJMc2004973.

Preocupado em como se proteger do novo coronavírus?

Os cientistas também estão. Quanto tempo será que os coronavírus conseguem permanecer viáveis nas superfícies? O que podemos usar para inativá-los? Preste atenção nesse artigo publicado por pesquisadores alemães:

Vários produtos são utilizados no mundo inteiro como agentes biocidas (capazes de matar microrganismos). Os pesquisadores alemães reuniram informações sobre a eficiência desses agentes contra os coronavírus.

Para começar, é importante que a gente saiba que existem vários coronavírus e que o atual SARS-CoV-2 (esse é o nome dele) é o terceiro coronavírus altamente patogênico para o homem a surgir nos últimos 20 anos. Portanto, existe muita informação na literatura científica sobre a viabilidade de coronavírus e métodos para sua inativação nas superfícies, embora os trabalhos não tenham sido realizados com o atual SARS-CoV-2.

Os coronavírus humanos podem permanecer infecciosos em superfícies por até nove dias, já os coronavírus veterinários podem persistir até 28 dias. Isso reforça a preocupação com métodos capazes de inativar esses vírus nas superfícies.

Embora os autores não tenham encontrado dados sobre a transmissão dos coronavírus de superfícies para as mãos, já foi descrito para o vírus da Influenza A que um contato de cinco segundos pode transferir mais do que 30% da carga viral (quantidade de partículas virais) para as mãos. Também já foi descrito que pessoas tocam o rosto com suas próprias mãos em média 23 vezes por hora.

VAMOS TOMAR CUIDADO COM A LIMPEZA DAS MÃOS!!!

Vários agentes biocidas são eficazes contra os coronavírus para desinfecção de superfícies, mas os pesquisadores alemães concluem recomendando o uso de água sanitária em uma diluição de 1:50 (uma parte de água sanitária diluída em 50 partes de água) ou etanol 70% (pode ser álcool 70% líquido ou na forma de álcool-gel). De qualquer forma, a medida que mais parece estar associada à prevenção de doenças causadas por coronavírus é a limpeza das mãos com água e sabão ou com álcool-gel.

VAMOS NOS PREVENIR!!!

FONTE: Persistence of coronaviruses on inanimate surfaces and their inactivation with biocidal agents. G.Kampf, D.Todt, S.Pfaender e E.Steinmann. Journal of Hospital Infection 104: 246-251, 2020.

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